Além do Olhar

7 A Raiz do Sangue




​O motor do carro de aplicativo silenciou diante do portão de ferro forjado da casa da Vovó Adelaide. Diferente da mansão moderna e fria dos pais de Kyara, aquela casa exalava cheiro de jasmim e história. Adelaide, a mãe de Arthur pai, era a única que ainda impunha respeito apenas com o olhar.

​Kyara desceu do carro com a mochila nos ombros e os olhos inchados. Quando a governanta abriu a porta, ela correu para os braços da avó, que a esperava na biblioteca.

​— O que houve, minha pequena? — Adelaide perguntou, acariciando os cabelos loiros da neta enquanto ela soluçava toda a história.

​Kyara contou tudo: a desistência da medicina, a paixão pela educação física, a amizade com David, a cena ridícula no cinema e a humilhação racista que sua família despejou sobre ele no jantar e na sala.

​Adelaide ouviu tudo em silêncio, sua expressão tornando-se cada vez mais rígida. Quando Kyara terminou, a senhora se levantou com uma agilidade que desafiava seus setenta e cinco anos.

​— Eu criei um médico, mas parece que esqueci de criar um homem com caráter — disse Adelaide, a voz firme como aço. — O preconceito é a doença dos ignorantes que se acham superiores. Seu pai e seu irmão estão cegos pela própria vaidade.

​Ela caminhou até uma pequena escrivaninha de jacarandá, pegou um molho de chaves e entregou nas mãos de Kyara.

​— Estas são as chaves do meu carro reserva. Aquele SUV que eu quase não uso. É seu. Não quero neta minha andando de aplicativo porque o pai resolveu brincar de tirano.

​— Vovó, eu não posso aceitar...

​— Pode e vai. E tem mais — Adelaide interrompeu, peguntando um talão de cheques. — De hoje em diante, a sua faculdade de Educação Física está paga por mim. Até o último centavo. Você vai se formar no que ama e vai ser a melhor professora que esta cidade já viu.

​Kyara abraçou a avó com tanta força que ambas riram. Pela primeira vez em dias, ela sentiu que podia respirar.

​— Mas tem uma condição — Adelaide disse, afastando-se um pouco com um sorriso perspicaz nos olhos.

​— Qual? — Kyara perguntou, receosa.

​— Eu quero conhecer esse David Sinclair. Se ele teve a coragem de enfrentar o meu filho e o meu neto para defender a própria dignidade, ele é um homem que eu quero apertar a mão. E se ele faz os seus olhos brilharem desse jeito... eu quero ver quem é o dono desse brilho.

​Kyara sorriu, sentindo as bochechas esquentarem.

— Ele é incrível, vó. Mas ele é... ele é muito reservado depois de tudo o que passou.

​— Traga-o para um chá amanhã à tarde. Vamos ver se ele é páreo para uma velha teimosa como eu — Adelaide piscou, voltando a se sentar.

​Kyara pegou o celular imediatamente. A tensão de ser uma "Stanford" estava sendo substituída pela liberdade de ser apenas Kyara, a neta de Adelaide. Ela enviou uma mensagem para David: "A cavalaria chegou. Minha avó quer te conhecer amanhã para o chá. Aceita o desafio?"

​A resposta veio segundos depois: "Se ela for metade da mulher que você está se tornando, vai ser uma honra. Estarei lá."