Além do Fraternal

3 Quando o passado baté à porta


O despertador parecia estar gritando dentro do sonho de Violetta. Um sonho bem estranho por sinal: ela estava em um enterro e ao seu lado sua mãe chorava muito, dizendo que sempre amaria a pessoa que estava sendo enterrada. De repente um som alto chamou a atenção de todos, um bip prolongado, seguido de batidas distantes e, do nada, sua mãe começou a lhe dar fortes cutucadas na costela.


_Que isso mãe?


_ACORDA VIOLETTA!


Violetta levantou-se assustada e só então percebeu que estava sonhando. Leon agora gargalhava ajoelhado ao lado cama, enquanto a irmã procurava algo bem pesado para jogar na cabeça dele.


_Você tinha que ver! _ ele disse, limpando as lágrimas que escorriam._ Você murmurando: “Para mãe! Ta me machucando”!


Violetta cruzou os braços e ficou observando aquela cena patética: um rapaz de 17 anos quase rolando no chão, rindo de uma besteira.


_Já acabou?_ ela perguntou depois de um tempo.


Leon se pôs de pé e encarou a irmã, tentava segurar o riso.


_Sim... Então... Mamãe pediu para eu vir te acordar.


_Ok. Já acordei. Saia.


Leon caminhou em direção a porta e fez menção de sair, até fechou a mesma. Porém, abriu novamente e gritou: “Ta me machucando!”. Violetta não pensou duas vezes e jogou um bibelô que estava ao lado da sua cama na direção dele, que foi mais rápido e fechou a porta. Ao longe, ela ainda o ouvia rindo e imitando a voz dela e não pôde segurar o sorriso que brotou em seus lábios. Amava aquele idiota, fazer o que?


Minutos depois, ela já estava na cozinha.


_Bom dia! _ deu um beijinho na mãe, que preparava o desjejum com o carinho de sempre.


_Bom dia minha querida, que confusão foi aquela lá em cima?


_Ah, o idiota do seu filho, como sempre. Sabe mãe, às vezes acho que ele foi trocado na maternidade ou algo parecido.


Angie odiava quando um dos dois dizia que não eram irmãos, mas contornava bem e sorria docemente e sempre dizia a mesma coisa:


_Nunca mais repita isso!


_Repetir o que?


German tinha acabado de entrar na cozinha e deu um beijinho em cada uma.


_Nada meu bem. Está indo para o trabalho?_ Angie mudou o assunto.


_Sim, você quer carona?


_Claro!


Leon juntou-se aos outros e sentou-se ao lado da irmã, que lhe lançou um olhar de repulsa. German e Angie perceberam o clima, mas decidiram não se meter, os dois já eram bem grandinhos para resolverem seus problemas sozinhos.


_Então, como pretendem aproveitar as férias?_ Angie tentou amenizar a situação.


_Bom, eu ainda não sei. Mas tenho certeza que assim que a senhora voltar do serviço terá uma lista das minhas tarefas._ disse Leon.


_E você querida?_ German dirigiu-se à filha.


_Estudando não é pai? Ao contrário de uns eu me preocupo com meu futuro e Oxford me espera!


_Essa é minha garota!


O assunto do café da manhã não teve muitas novidades e pontualmente, como todos os dias, German e Angie se despediram dos filhos e foram para seus respectivos empregos.


Um silêncio perturbador caiu na cozinha, sendo quebrado às vezes por mordidas nas torradas ou goles de suco.


_Vai ficar com raiva de mim o dia todo?_ Leon quebrou o silêncio.


_Por que se importa?


_Por nada, é só para saber mesmo.


Violetta o observou e disse:


_Então? Vai ou não vai à casa da Ludmila hoje?


_Como sabe disso?


Violetta riu e levantou-se, retirando as louças sujas da mesa.


_Responde! Como sabe disso?


Ela não respondeu de imediato. Antes, colocou as louças sujas na pia, guardou a cafeteira, colocou a torradeira no lugar e, por fim, disse:


_Da próxima vez que resolver conversar ao telefone às 2h da madrugada, certifique-se de que todos estejam dormindo e, principalmente, de falar mais baixo. Mas me diga, o que vai ter lá?


_Nada, só uma festinha, nada de importante. Talvez se você não fosse tão “bicho do mato” te convidariam também.


_Como se eu estivesse louca de vontade de ir! Acredite, o nível de QI dos seus amigos é inferior ao de uma lesma.


Ela terminou de lavar os pratos, enxugou as mãos e continuou:


_Mamãe e papai sabem dessa festinha?


_Eu ia contar assim que chegassem, mas pelo visto...


_Pelo visto o que? _ ela o encarou raivosa._ Acha que vou perder meu tempo te dedurando? Sinto te decepcionar, mas minha vida não gira em torno de você e das coisas que você faz, por tanto fique tranqüilo, da minha boca não vai sair nada. Só fique ciente de uma coisa: mamãe não gosta da Ludmila Ferro e você sabe muito bem disso.


Leon ia revidar quando viu que o carteiro tinha acabado de deixar as correspondências. Decidiu não esticar aquele assunto e foi até lá receber as correspondências. Enquanto isso o telefone tocou e Violetta atendeu. Do outro lado a voz irritante de Ludmila Ferro soou:


_Olá Violetta, o Leon está?


Violetta ia responder que sim, mas se surpreendeu quando o som que saiu dos seus lábios foi um firme: “Não.”


_Ah... Você sabe a que horas ele volta? É um assunto importante que eu...


_Se quiser liga mais tarde, no momento ele não está. Até logo!


E desligou o telefone. Sua respiração estava acelerada, não era acostumada a mentir! Além disso, um sentimento de raiva daquela garota brotou em seu peito. Esse sentimento já tinha sido semeado no dia em que ela pegou os dois aos beijos no quarto dele. Naquele dia, Ludmila tinha ido até a casa de Violetta com a desculpa de estudar com sua, até então, amiga. Porém, quando Violetta foi buscar alguns petiscos, a outra foi até o quarto de Leon dizendo que tinha errado o caminho para o banheiro. Leon, que há algum tempo já estava a fim da moça, não pensou duas vezes e a beijou. Violetta, que seguia em direção ao seu quarto, flagra os dois no maior amasso e chama sua mãe. Daquele dia em diante, Leon e Ludmila mantêm um relacionamento estranho, nada muito esclarecido. E, claro, a amizade entre as duas, se é que algum dia houve alguma, terminou.


_Quem era?_ Leon tinha acabado de entrar na cozinha com as cartas nas mãos.


_Ninguém, engano. Tem alguma carta para mim.


Ela fez menção de pegar as cartas, mas Leon ergue os braços. Ele era mais alto que ela, era humilhante! Violetta dava pequenos saltos tentando alcançar as mãos dele, mas era irrelevante. Então, ela o atacou em seu ponto fraco: cócegas.


O rapaz tenta se controlar, mas quando percebe já está correndo pela sala, com a irmã em seu encalço insistindo nas cócegas. Até que ele tropeça no tapete e cai no sofá, levando a irmã junto. Violetta cai no peito dele e os dois soltam gargalhadas. Enfim, ela tinha pegado as cartas e se aconchegou no peito dele. Começou a olhar uma por uma.


_Conta, conta, conta, propaganda... Olha só, carta para a mamãe.


_Quem enviou? _ ele pega a carta e lê o nome do remetente._ Maria Castilho.


Violetta se senta no sofá e o irmão faz o mesmo.


_Tem o mesmo sobrenome da mamãe._ ela diz, lendo os dados do remetente junto com ele._ Olha, vem do Canadá!


_Droga! Fiquei curioso._ ele disse, erguendo a carta, tentando, em vão, ler algo.


_Bom, vamos esperar ela chegar não é?


Ele coloca a carta junto com as outras na mesinha de centro da sala.


_Então... Me atacando com cócegas agora? É assim?_ ele diz, lançando um olhar suspeito para Violetta, que começa a rir.


_Não! Mas é seu ponto fraco, fazer o que?


_Você me paga tah?_ ele responde sorrindo.


O resto do dia foi tranqüilo. Cada um cuidou dos seus afazeres e Violetta adiantava o jantar quando seus pais chegaram. De imediato ela deu a notícia da carta que tinha chegado àquela tarde. Angie e German trocam olhares apreensivos.


_Eu... Vou ler... Violetta meu amor, você se importa de continuar o jantar, é rápido...?


_Tudo bem.


Os dois pegam a carta e correm para o quarto. German tranca a porta e se senta na cama, enquanto Angie anda de um lado para o outro, lendo a tal carta.


_O que diz?_ ele pergunta após alguns minutos.


Angie se senta ao lado dele e responde com lágrimas nos olhos:


_Nos descobriram! Nos descobriram German, querem vir aqui nos visitar! Meu Deus!


German pega a carta e lê:


“Querida irmã,


Que saudades! Minha nossa, mas que dificuldade em encontrar você hein? Como que você se casa, muda para a Europa e não me manda nem uma carta para avisar? Ficamos preocupados, Carlos e eu. Espero que não ache ruim, mas tivemos que contratar um detetive particular para encontrar vocês! E esse German? É bonito? E a Violetta, como está? Deve estar moça, sem dúvida, assim como o meu Duduquinho! Enfim, estamos entrando de férias semana que vem e gostaríamos de ir te visitar! Não aceito desculpas, não precisa fazer cerimônia! Semana que vêm estaremos aí, talvez no sábado. Não precisa ir nos buscar no aeroporto, já sabemos o endereço e pegamos um táxi lá mesmo.


Saudades!


Maria.”


German deixa a carta cair no chão e passa as mãos no cabelo, um sinal de puro nervosismo.


_O que faremos German?_ Angie insiste.


_Não sei... Ligue para o Ramalho.


Angie corre para o telefone e liga para o amigo dos dois, Ramalho. Desde que chegaram à Europa, Ramalho foi como um irmão para eles. Era colega de trabalho do German e vivia indo à casa dos dois para visitar seus “sobrinhos”. Era o único que sabia da verdade.


_Ele disse que vem o mais rápido que puder._ Angie se senta ao lado do marido novamente.


_MÃE! PAI! O JANTAR ESTÁ NA MESA!_chama Violetta do andar de baixo.


_É VENENO!_ Leon provoca, fazendo German e Angie rirem por um breve momento.


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Notas finais
Até o próximo!!