Além de mim

3 Na ponta dos pés


Notas iniciais
Decidi escrever capítulos um pouco maiores! Espero que gostem!

“E então quando estamos quase vendo, nos apoiamos na ponta dos pés, pois até o gesto mais simples pode ser um dos mais significativos. ”

O dia amanheceu, acordei animada para ir ao bosque, fiz uma mini cesta de piquenique, agora só faltava chamar meus pais.

— Paai, mãee! Vamos ao bosque! – Gritei enquanto descia as escadas correndo. Eu sempre ficava animada para ir ao bosque, era como o meu lugar secreto, quando eu estava lá o mundo não podia me importunar.

— Querida eu adoraria ir – Disse minha mãe com um semblante triste, mas eu e seu pai já combinamos com a Kate e o David que faríamos uma programação de casal hoje. Vamos ter passeio de cavalo e passar a noite na pousada do tio David. Quando ele soube que estávamos aqui nos ligou imediatamente, ele estava tão animado, estamos indo nos encontrar com ele nesse daqui a meia hora. – Minha mãe realmente se sentiu mal por não poder me acompanhar sempre íamos juntos ao bosque fazer piquenique, mas eu estava feliz por eles se divertirem e eu sempre ia ao bosque, nunca tiver problemas em ficar só.

— Está tudo bem! Nós podemos ir outro dia não se preocupem, aproveitem o dia de vocês! – Disse sorrindo, eu realmente estava feliz por eles, fazia um tempo que não saiam juntos. – Diz para o tio David que eu estou com saudade e que só perdoarei ele por roubar vocês se ele vier me ver. – Disse brincalhona, tio David era o irmão da minha mãe, ele sempre me fazia rir.

— Tudo bem, eu passo o recado! Disse minha mãe rindo.

Meu pai sorriu e me chamou para sentar perto dele na mesa.

— Eu tenho muito orgulho de você filha, nunca se importou em abrir mão de algo desde pequena, mesmo eu te incomode você nunca diz nada. – Ele acariciou minha cabeça, colocando um pouco da minha franja atrás da minha orelha.

Eu sorri.

— Colocou todo o lanche que preparei? – Disse minha vó.

— Sim senhora! Agora se me dão licença.

— Minha neta é muito culta. – Meu avô brincou

— Puxei ao senhor vovô! Sorri saindo – Bosque ai vou eu!

Fui em direção ao bosque à passos largos, estava ansiosa para chegar, estava tão feliz eu mal pude me conter, estava levando tudo que precisava, comida, fone, caderno e alguns livros. Conforme ia adentrando o bosque um sentimento de gratidão percorria o meu corpo por ter a sorte de ter um lugar daqueles para ir. Conforme chegava mais perto meu coração palpitava, de repente pensei no momento que tivesse que voltar para casa, balancei a cabeça na esperança de levar aquele pensamento para longe e então me concentrei em apenas chegar ao meu “esconderijo”, quando enfim cheguei fiquei parada por dois minutos só olhando em volta. Era como um mini jardim com flores espalhadas desordenadamente, tinha uma grande árvore que se destacava das outras, eu sempre me apoiava nela para ler e escrever e muitos dos meus melhores poemas escrevi apoiada nela, era um espaço arredondado cercado por outras árvores menores, a árvore maior produzia uma sombra que deixava o lugar perfeitamente fresco. Forrei a toalha xadrez e me deitei apoiada a árvore, coloquei as coisas ao meu lado e comecei a escrever e depois de um tempo coloquei meus fones e me perdi em meio as músicas, me deitei e olhei pra cima, embora a árvore fosse grande ainda podia se ver bem o céu, eu olhava e sentia uma calma, toda ansiedade da minha lá fora por um instante eu podia esquecer, embora minha mãe desfrute de uma paz eu nunca vi igual segundo ela pelo relacionamento dela com Deus, eu não tive a mesma sorte, sempre fui cercada por medo e inseguranças, eu tenho uma família incrível e pais eu me apoiam e suportam, mas ao mesmo tempo me sinto pressionada por eles parecerem tão bem sucedidos na vida e eles sempre falam tanto dos meus talentos e sensibilidade para música e arte, mas embora eles digam isso não consigo me ver tão bem sucedida nisso, para mim mais parecia um hobbie, uma válvula de escape para não ter que pensar naquilo que preciso alcançar, é minha forma de me expressar, embora eu procure sempre sorrir por dentro tenho muito medo de ser um fracasso.

— Se Deus realmente fez todas essas coisas, tenho que admitir que Ele é alguém muito bem-sucedido, como o Senhor faz isso? – Me senti estranha, porque eu estava falando ao vento, mesmo que Deus ouça o que dizemos, não acho que o que eu tenha a dizer seja algo que alguém ocupado como Deus possa levar em consideração. – Me desculpe, quer dizer, o Senhor deve ser alguém com muitos compromissos e também de qualquer jeito não acho que o Senhor possa entender esse meu fracasso como ser humano. – Eu sempre pensava ao olhar para minha mãe tão plena, segura de si e feliz em toda e qualquer situação que ela devia ser uma daquelas obras-primas de Deus, já eu era apenas uma das coisas que não deram certo, então porque Deus se importaria de me responder? – Desculpe tomar seu tempo. – Eu sempre achava eu Deus estava quase constantemente irritado comigo por eu ter tantos erros. Eu não sei porque eu disse aquelas palavras naquele momento, a única coisa que eu sei é que de alguma maneira elas mudaram completamente tudo que aconteceria na minha vida. – Mas enfim, esse é meu lugar secreto, embora eu não ache que para o Senhor seja, meus pais não puderam vir hoje então, se quiser passar o tempo comigo, eu não tenho intimidade com o Senhor como os meus pais têm e eu me sinto mal porque sei que eles esperam isso de mim, mas eu realmente não me sinto próxima do Senhor e nesse exato momento é muito estranho estar aqui falando com o vento, obrigado por fazer a minha mãe feliz e ensinar ela a pintar, ela gosta muito disso, acho que eles se sentiram mal por não terem vindo comigo então se puder ficar aqui comigo no lugar deles acho que faria eles felizes.

— A senhora está falando sozinha? – Ouvi uma voz vindo de trás de uma das árvores mas não vi ninguém. Fiquei na ponta dos pés para ver se conseguia ver acima das pequenas árvores mas ainda assim não vi ninguém. Parecia uma voz de criança mas como ninguém apareceu comecei a ficar assustada e fui pegar minhas coisas, aquela propriedade era do meu avô, não fazia sentido ter alguém por ali, venho todos os anos para o bosque e nunca me deparei com ninguém.

— Desculpe se te assustei.

Dei um pulo e quando olhei estava um menino de pé atrás de mim, ele tinha cabelos castanho escuro e olhos inocentes.

— Que susto você me deu! – Falei com a mão no coração.

— A senhora também me assustou falando sozinha ai.

— Bem... eu estava conversando – Disse com vergonha

— Com quem? – Ele disse com um olhar confuso

— Bem... Ah mas pensando bem o que importa no momento é como você entrou aqui? – Disse me lembrando.

— Meu pai tem terras por aqui mas gosto de vir nesse bosque. – Ele disse despreocupado

— Entendi, eu nunca te vi por aqui.

— Sério? Eu estou por aqui o tempo todo. Te vejo sempre.

— Que? – Disse surpresa – Se me viu porque nunca me chamou? E porque eu nunca te vi?

— Você está sempre tão concentrada sempre que te vejo aqui. Então eu apenas observo.

Achei aquilo muito estranho, como nunca o vi?

— Entendi. – Olhei para ele ainda achando estranho, mas não conseguia resistir a pureza que havia naqueles olhos, por algum motivo eu tinha plena certeza de que podia confiar nele, mesmo sendo um completo estranho para mim eu sentia como se o conhecesse. – Bem... quer sentar comigo.

— Sim! – Ele disse animado com um sorriso no rosto.

— Minha avó preparou umas coisas para mim comer, pode pegar se quiser.

— Muito obrigado!

Quando fui pegar meu pedaço do bolo ele fechou os olhos e me deu a mão, surpresa soltei o bolo que já ia levar a boca, ele deu graças com um sorriso no rosto e depois devorou o bolo. A maneira como ele fez isso não pareceu um hábito ou simples religião, ele estava verdadeiramente grato. Quando percebi estava começando a entardecer e arrumei as coisas para ir embora.

— Gostei de passar o dia com você hoje! Espero poder te encontrar aqui denovo! Pode ser nosso lugar secreto. – Ele disse com um sorriso sereno

— Okay, acho que a essa altura já virou o seu lugar secreto também, podemos compartilhar mas não saia tanto, seus pais podem ficar preocupados.

— A respeito disso não precisa se preocupar, ele está sempre- — Ele disse indo embora e não pude ouvir o que ele disse por último.

Quando cheguei em casa, fui falar com minha avó e agradecer pela ótima comida, contei sobre o novo “amigo” que tinha feito e ela ficou feliz.

Quando fui para meu quarto tentei pensar no que ele havia dito por último mas cai no sono, afinal, eu pensei: “Vamos nos ver denovo não é mesmo? Então posso perguntar”.