Além das estrelas
1 Nosso infinito
Notas iniciais
Estava sentado olhando as estrelas do observatório, lembro que Ochaco uma vez me disse que amava observá-las à noite… Eu e Uraraka, havíamos começado a namorar ano passado logo no começo de janeiro. Passamos por vários momentos incríveis lado a lado, quando fomos ao cinema ver um filme de romance para achar uma desculpa onde ficamos abraçados no fundo da sala, enquanto eu distribuía beijos nela e Ochaco retribuía, ou quando fomos na inauguração de um aquário na cidade, lá havia uma área para lanches e bebidas e pedimos um milkshake grande para dividirmos. Aquele dia eu não havia notado que, ao tomar um gole da bebida, tinha ficado um pouco de espuma no rosto e ela começou a rir, mesmo eu não entendendo nada. Então, Ochaco tirou uma foto minha e me chamou de Senhor Bigodudo ao mostrar a foto para mim, cujo também caí na risada depois… e pensar que hoje faz um ano desde aquele acidente.
Durante uma missão no último dia de agosto, em que a agência dela e a minha se encontraram, um vilão atingiu um prédio com várias pessoas dentro e o vilão estava voando sob o último andar. Tentamos evacuar o máximo de gente, e quando achamos que tínhamos resgatado todos, com o prédio prestes a cair, Ochaco ouviu o grito de uma criança vindo de um dos andares. Ela me olhou determinada e disse:
— Izuku, vou resgatá-la, leve os outros civis para a zona de segurança.
— M-Mas… Ochaco… Não vai dar tempo! O prédio vai desabar a qualquer segundo!!
— Não podemos desistir dela! Você desistiu da Eri quando Overhaul quis usá-la como experimento? Não! — Ela se aproximou de mim colocando suas duas mãos em meu rosto e encostou as nossas testas. — Se… caso eu não voltar… Promete que não vai desistir dos seus sonhos? Que vai continuar, por mim? Eu estarei lá em cima nas estrelas cuidando de você e de todos.
Suspiro e digo:
— Ochaco, por que está falando isso? Você vai voltar, como em todos os outros resgates…
— Eu sei que vou, só… me promete, igual às outras vezes.
— Eu… Eu prometo.
Ochaco sorri e aproxima seu rosto do meu, logo sinto os seus lábios tocarem os meus com doçura e urgência, como se o destino estivesse prestes a mudar a qualquer instante. Aprofundo o beijo memorizando cada detalhe, cada sensação dela, seu perfume doce de morango invade meu espaço e logo sinto ela se afastar e dar uma última olhada em mim antes de virar-se e correr até o prédio, logo entrando no local. Partes do prédio começaram a desabar e fico em alerta, preocupado com ela e com a criança que estava lá. Os minutos que se passaram pareciam uma eternidade, foi então que ao longe vejo outros heróis tentando impedir aquele vilão, mas ele havia acionado um botão de um apetrecho e o que se seguiu foi uma grande explosão do edifício.
Era como se o tempo tivesse desacelerado naquele instante, então, antes do prédio cair ao todo, vejo a criança flutuando para fora em segurança e sendo pega no ar por outro herói. Suspirei em alívio, mas volto a me preocupar a cada segundo, ela estava demorando muito para voltar, os destroços caiam para todos os lados, então sigo correndo até o prédio e uso o poder da armadura que All Might havia me dado para afastar os concretos das pessoas que se encontravam próximas do local e entro no que restou do prédio.
— OCHACO!! — gritei, a voz saindo rasgada, em desespero, como se minha garganta também estivesse desmoronando junto ao prédio.
Esse não pode ser o fim, ela ainda deve estar em alguma parte do prédio, ainda deve estar viva… me agarro a essa esperança como a um fio tênue enquanto seguia pelos corredores destruídos, tropeçando em alguns destroços e fazendo com que a poeira se elevasse até minhas narinas.
Chegando no quarto andar, procuro em todos os cantos, em cada sombra, até ver uma parte da estrutura do teto que havia caído com suas vigas de metal presas ao chão. Arregalo os olhos e caio de joelhos, Ochaco estava lá, sua mão pendendo para fora do concreto enquanto seu corpo permanecia inerte abaixo dos blocos e uma parte do sangue se espalhava no chão.
— Não…
Minha respiração começou a ficar pesada e trêmula, as lágrimas vieram como uma tempestade repentina e violenta e uma enorme dor se apossou dentro de mim.
— Ochaco… — Me arrasto até ela desesperado, me recusando a aceitar esse fim, tiro os destroços de cima dela e quando enfim a vejo, seu rosto manchado em carmesim, as lágrimas se intensificam e grito. — OCHACO!! — Me lanço sobre ela e a abraço com força, sentindo seu corpo ficando mais frio a cada segundo. Afundo meu rosto em seu pescoço tentando suportar esse golpe do destino, mas era cruel demais…
— Por favor, fale comigo… — digo entre lágrimas. — Fale qualquer coisa… Por favor…
Logo ouço o som de passos se aproximando, mas não me virei para ver quem era, só senti um toque em meu ombro e escutei a voz de lida.
— Sinto muito, Midoriya…
A equipe médica de resgate se aproximou de mim e pediram para vê-la, mas não queria largá-la, a dor e o choque não me permitiram pensar com clareza e quando tentaram tirá-la de mim gritei, segurando-a mais forte.
— Não! Ochaco… você disse que ia voltar! Não disse que era como os outros resgates? Por favor, volta… volta para mim…
— Midoriya, ela… ela não sobreviveu. Deixe os médicos fazerem seu trabalho — lida fala com dor na voz.
— Não! Ninguém vai tirar ela de mim! Nin… — Sinto uma picada em meu pescoço e minha visão começa a falhar enquanto sentia meu corpo dormente, antes de apagar, vejo um dos médicos segurando uma seringa e me olhando com pena.
Os dias se passaram, e eu não consegui ir em seu velório, não conseguia ver ela no estado em que me encontrava e nesse período acabei me isolando de todos, dos amigos e até da família. Minha mãe tentava me animar, me fazer sair do quarto e até trazia comida, mas eu rejeitava. Como poderia pensar em comer se ao fazer isso lembrava dos nossos passeios, da sua risada, dos momentos… e ao divagar me lembrava daquele resgate? Sem a Ochaco aqui era como se tivessem arrancado meu pulmão, doía demais.
Conforme as semanas foram passando, meus amigos vieram me ver, e até All Might apareceu preocupado. Dias depois tentei voltar a ação, mas parecia que eu mais atrapalhava do que conseguia fazer algo, tanto que acabei deixando alguns vilões escaparem por descuido e numa das lutas quase fui atingido, pouco a pouco estava afundando e isso se provou conforme caia no ranking, mas tentei não desistir, afinal havia prometido a ela. Então, minha mãe veio me aconselhar um dia, para eu ir a um psicólogo, pois isso me ajudaria com o luto. Passei por várias sessões e com o tempo fui melhorando e superando algumas coisas. Logo, voltei a atuar como herói e meu desempenho voltou a aumentar.
Certa vez, Ochaco me disse amar observar as estrelas, então quando notei, passei a visitar com frequência o observatório nos meus dias livres. Lá era o único lugar onde o mundo parecia desacelerar. Ali, no silêncio entre as constelações, eu conseguia respirar. Sozinho, sentava em um dos bancos disponíveis perto da grande luneta central, com o olhar perdido no céu. Às vezes, ficava horas ali, apenas ouvindo o som do meu próprio coração — ainda machucado, mas pulsando firme.
Ainda me recordo da primeira vez que vi seus olhos se iluminarem ao olhar para as estrelas no observatório. Foi em um de nossos encontros, sua alegria era tamanha que me aqueceu por dentro, chegamos até encontrar duas estrelas mais afastadas das outras constelações pelo telescópio e decidimos nomeá-las apenas para nós dois, como forma de homenagear nosso amor e carinho que sentíamos um pelo outro. Agora, era como se eu procurasse as nossas estrelas todas as noites, esperando que ela me desse um sinal.
Foi em uma dessas noites, enquanto olhava o céu noturno em silêncio, que ouvi passos suaves se aproximando. Olhei de relance e vi uma criança parada perto da entrada do observatório ao lado de sua mãe. Ela estava fascinada ao olhar para o céu estrelado, então, sua mãe me viu e disse para me cumprimentar, a criança ficou radiante ao me reconhecer e seguiu até mim com passos apressados.
— Ei, Você é o Deku, né? — ela perguntou curiosa.
Assenti, surpreso com sua chegada. Aquela voz... aquele rosto. Demorei um tempo para assimilar, então me lembrei. Era a garotinha que Ochaco havia salvado no resgate.
— Eu lembro de você, estava lá quando a Uravity me salvou do prédio caindo, a mamãe me disse que você era muito importante para ela.
As palavras dela acenderam uma faísca das lembranças daquele dia. Por um instante, não consegui responder. Apenas assenti de novo, tentando me manter forte, embora por dentro me encontrava emocionado.
— Eu estava com muito medo aquele dia, não encontrava minha mãe, então a Uravity apareceu e me contou uma história enquanto procurava uma saída — a garota continuou. — Ela falou sobre estrelas, e disse que algumas pessoas especiais viravam estrelinhas num reino mágico lá em cima quando estavam felizes. — A garota apontou o dedo para o céu. — E que essas estrelinhas se tornavam guardiãs das crianças, onde elas realizavam seus desejos.
A garota se sentou ao meu lado e ficamos olhando juntos para o céu, enquanto o silêncio preenchia os espaços onde antes só havia dor.
Após uns minutos, ela sorriu e perguntou:
— Você acha que ela virou uma estrelinha e está olhando por nós?
Sua pergunta me pegou desprevenido, suspirei e a respondi:
— Acho que sim. Tenho certeza que ela virou uma estrela. — Sorri para a garotinha.
Foi então que vimos uma estrela-cadente voando sob o céu, a menina se empolgou e disse:
— Olha, uma estrela-cadente! Tenho certeza que é ela ali, tão brilhante… — Ela se virou para mim e falou. — Faz um pedido, tenho certeza que a Uravity vai te ouvir.
Sorri para ela e fiz como a menina, fechei os meus olhos enquanto pensava.
“Ochaco, obrigado por me dar um sinal, você faz muita falta, sabe? Mas consegui seguir em frente, não foi fácil, mas consegui. E seja onde estiver, meu desejo é que um dia nos encontremos de novo.”
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