Além das Quadras

31 Arco III – 31. Tão... Fofo.


Notas iniciais
Olá amores e amoras! Quanto tempo hein? Espero que estejam todos bem e em casa ♥ Não irei me alongar aqui, mas espero que gostem do capítulo tanto quanto eu gostei de escrevê-lo. Definitivamente é um dos meus capítulos favoritos e um dos mais fofos ♥ Ghost Kisses ~Marceline

Capítulo 31: Tão… Fofo.

Eles estavam pingando de suor quando chegaram em casa.

– Eu preciso de um banho urgentemente – comentou Henry, já indo em direção ao banheiro.

— Tudo bem, eu vou fazer a janta enquanto isso – ele ouviu Erick dizer.

Henry não respondeu, só queria seu banho.

Entrou no chuveiro rapidamente, ligando-o na temperatura mais quente possível. Deixou a água cair pelo seu corpo, relaxando seus músculos um pouco. Ele soltou um suspiro de alívio.

Os treinos exigiam deles ao extremo. Passavam pelo menos 3 horas treinando, esse tempo aumentava para 4 ou 5 horas perto dos dias de competição. E, agora, eles estavam no meio de uma.

Como era uma competição estadual, os jogos aconteciam em São Paulo e, quando precisavam viajar para uma cidade do interior, não demoravam muito para voltar; só por isso não ficavam preocupados em deixar Pudim e Cheshire sozinhos. Henry não podia deixar de ser perguntar o que fariam quando tivessem que passar mais tempo fora, pois, até então, não conheciam ninguém que pudesse cuidar dos animais.

Tentando não se preocupar tanto com isso, ele finalizou o banho, saindo do chuveiro e se enxugando rapidamente com a toalha. Só aí percebeu que não tinha levado roupas para o banheiro.

Imaginando que Erick estivesse na cozinha, saiu do banheiro correndo, mas escorregou no chão no caminho, caindo de costas na madeira e fazendo um barulhão. Por pouco sua cabeça não bateu no piso, mas a dor tomou sua bunda e suas costas. Em menos de um segundo, estava sendo lambido no rosto por Pudim.

— Tá tudo bem? – Erick perguntou da cozinha.

Henry tentou responder, mas a dor era tanta que sua voz falhou.

— Henry? – a voz soou um pouco mais perto.

Ele não queria que o outro o visse naquela situação, principalmente por estar apenas com uma toalha em volta da cintura.

— Meu Deus, Henry! Tá tudo bem? – o rosto preocupado de Erick apareceu em sua visão.

Henry gemeu em resposta. Estava dolorido e cansado, então poderia ficar ali pro resto da vida.

— Vamos, levanta – Erick se aproximou, pegou o braço de Henry e puxou pra cima.

Um pouco desajeitado, ele conseguiu se levantar, soltando o ar dos pulmões que parecia preso até o momento.

— Ah… Henry… – Erick disse meio sem graça, desviando o olhar para o teto – Você tá pelado…

— Socorro… – Henry resmungou.

Estava tão concentrado na dor que não tinha percebido a ausência da toalha. Suas bochechas ficaram vermelhas, assim como as de Erick. Ele rapidamente buscou o pano caído no chão e cobriu seu corpo, os músculos bastante tensos por conta da vergonha e da queda.

Henry levantou os olhos, percebendo que Erick ainda o encarava com certa vergonha, mas não tirava os olhos de seu rosto.

— Eu… ahn… – começou Erick, mas Henry apenas saiu correndo para o quarto, batendo a porta atrás de si.

Ele soltou um suspiro com as costas na madeira, tentando controlar a respiração. Se fosse alguns anos atrás, Henry não ligaria para a situação, até porque já tomaram banhos juntos quando eram pequenos. Mas obviamente as coisas eram diferentes e era claro que o universo iria conspirar para a vergonha alheia de Henry.

Colocou a roupa e ficou mexendo no celular. Sua barriga roncou e ele a repreendeu mentalmente. Estava mesmo morto de fome, mas com vergonha demais para encarar Erick naquele momento. Respirou fundo quando sua barriga reclamou de fome mais uma vez. Ele precisava de verdade comer.

Juntando as forças que tinha, abriu a porta do quarto. Assim que percebeu a porta do banheiro fechada e o chuveiro ligado, sentiu que essa era a sua deixa para correr até a cozinha. Assim que chegou lá, sentiu seu nariz ser invadido por um cheiro gostoso de frango.

Abriu a frigideira e lá havia alguns pedaços de peito de frango bem fritos e bem temperados, do jeito que Henry gostava. Ele suspirou de prazer com o cheiro e ficou tentado a pegar um prato e se servir ali mesmo.

Mas uma parte da sua consciência lhe impediu. Erick sempre o esperava para todas as refeições. Mesmo que Henry demorasse vidas para aparecer para comer, ele esperava mesmo sem Henry pedir que o fizesse. Se reparasse bem, fazer as refeições do dia juntos era uma rotina, quase um ritual sagrado. Era uma das coisas fofas que Erick fazia inconscientemente. Então, mesmo com fome, Henry apenas sentou-se à mesa e ficou mexendo no celular, esperando que Erick terminasse seu banho.

— Você poderia ter comido – a voz de Erick quebrou o silêncio, aparecendo no cômodo.

Henry levantou o olhar para o amigo, vendo-o enxugar o cabelo cacheado de forma fofa e sexy, coisa que só Erick conseguia fazer. Ele estava vestido, para o bem da sanidade de Henry, mas para a tristeza de seu capetinha interior que queria ver o amigo sem roupas.

— Você sempre me espera – Henry deu de ombros desviando o olhar – Me acostumei a comer junto com você.

— Obrigado – Erick agradeceu, o que fez Henry olhá-lo novamente e perceber que ele estava sorrindo. – Significa muito pra mim.

Henry achou aquilo extremamente fofo. O modo como Erick agia para tudo era fofo.

Com o outro na cozinha, Henry levantou-se para pegar um prato, quase sendo atropelado por uma coisinha gorducha que vinha correndo na direção de Erick quando este o chamou.

— Cadê meu amigão? – ele disse com a voz fina, como todo mundo faz quando fala com bichinhos ou bebês – Você tá com fome, meu bebê? Você quer comida, meu anjo?

O pug estava alucinado, abanando o rabinho enrolado e pulando nas pernas de Erick a cada frase que ele dizia. Henry ficou observando aquela cena com um sorriso inconsciente.

— Você é a coisa mais fofa do mundo! – ele exclamou pegando o pug no colo e lhe dando beijinhos, sendo retribuído por lambidas na bochecha.

— Não, você é a coisa mais fofa do mundo… – Henry sem querer verbalizou os seus pensamentos.

— O que? – Erick perguntou franzindo o cenho.

Foi então que Henry voltou a ter um pouco de sanidade.

— O Cheshire – ele disse rapidamente. – Ele é a coisa mais fofa do mundo, isso que eu disse.

— Não, tenho certeza que…

— Ora, vamos comer? Você não tá com fome? E tem que alimentar o Pudim, certo? – Henry disse com rapidez antes que Erick pudesse falar mais alguma coisa.

O outro deu de ombros, colocando o cachorro no chão e ração em seu potinho logo em seguida. Depois pegou um prato, se serviu, esquentou o arroz e o feijão no microondas e sentou a frente de Henry na mesa, que já tinha se servido. Então começaram a comer com apenas o som de Pudim devorando sua ração.

— Por que significa tanto para você? – perguntou Henry de repente, curioso. Erick havia levantado seus olhos para ele, com uma expressão questionadora. – Quero dizer, comer com alguém.

Erick o olhou com um semblante inexpressivo, logo em seguida voltando os olhos para o prato, como se não quisesse encará-lo.

— Eu passei muito tempo sozinho – começou, revirando a comida com o garfo – Só tinha momentos assim quando passava um tempo com minha melhor amiga. E eu amava… A família dela é bem unida e eu me sentia bem quando estava com eles… Então prefiro ter companhia.

O coração de Henry amoleceu com as palavras. A cada segundo, Erick conseguia se mostrar cada vez mais fofo. Completamente diferente daquela pessoa que ele encontrara no Jogos da Amizade anos atrás.

— Isso é bem fofo – comentou – Nunca parei pra pensar, mas vejo agora que sempre tive companhia pra comer também… Quero dizer, dificilmente fico sozinho.

— Você tem sorte – sorriu triste – Por muito tempo ou eu estava sozinho ou apanhando.

Henry engoliu o pedaço de frango a seco. Dava para ver que era difícil para ele falar sobre aquilo, mas mesmo assim tentava.

— Eu sinto muito por isso…

Erick deu de ombros, mas dava para perceber o quanto aquele assunto mexia com ele.

— Um dia talvez eu esqueça

Henry apenas assentiu com a cabeça. Esperava mesmo que o amigo superasse aquele trauma todo. Depois daquela noite em que ele tivera um pesadelo com relação ao pai, Henry percebeu que Erick deveria ter passado pelo inferno.

Terminaram a refeição em silêncio. Colocaram a louça na pia e Henry ficou na cozinha para lavar. Erick, por sua vez, guardou a comida e ficou escorado no batente da porta, vendo o amigo lavar a louça. Henry já não se incomodava com a presença de Erick. Na verdade, ele a achava bem agradável e gostava quando ele estava presente, mesmo sem falar nada.

— Você nunca quis aprender a cozinhar? – ele quebrou o silêncio depois de um tempo.

— Eu nunca gostei tanto assim – Henry respondeu dando de ombros enquanto enxaguava um prato – Minha avó já tentou, mas eu fui um péssimo discípulo.

— Se sua avó ainda continua a mesma, ela não é muito conhecida por ser paciente – Erick riu, lembrando das vezes que a avó de Henry os visitava.

— Depois que eu queimei o arroz pela quinta vez, ela desistiu – riu Henry – Ela foi bem persistente comigo.

— Olha, eu consegui ensinar um amigo meu a cozinhar – ele disse, orgulhoso – Ele não sabia fritar um ovo.

— Pelo menos ele não queimou um miojo – disse Henry e Erick riu.

— Você conseguiu chegar no auge – enxugando uma lágrima dos olhos, ele olhou para Henry com um sorrisinho que ele conhecia bem: o de quem está tramando alguma coisa. – Eu vou te ensinar a cozinhar.

— Não, não – negou com a cabeça – Vamos evitar colocar fogo na cozinha, ela é nova poxa.

— Nem vem – Erick cutucou a bochecha de Henry – Vai ser bom pra ti e também, eu gosto de ensinar.

— Por que eu sei que, se eu disser que é melhor não, você vai insistir até eu ceder? – ele suspirou, mas tinha um leve sorriso nos lábios

— Porque você sabe que eu sou teimoso – Erick abriu um sorriso.

Henry revirou os olhos e encarou Erick.

— Por favor? – pediu juntando as mãos e fazendo uma carinha fofa.

Depois de uns segundos olhando para aquela carinha, Henry suspirou.

— Tá bom – cedeu – Mas, se eu colocar fogo na casa, a culpa é sua.

— Eu assumo a responsa – Erick falou animado – Vamos começar com algo fácil. Amanhã faremos macarrão.

— Mas amanhã? Já? – perguntou incrédulo – Eu não to preparado psicologicamente pra fazer isso amanhã.

— Tá sim, eu confio em você.

[...]

Não precisou de muito para que Henry ficasse ansioso para cozinhar com Erick.

A sua sorte era que estava exausto dos treinos e tinha tomado remédio para dormir. Senão, teria certeza de que passaria a noite em claro por causa da ansiedade. Afinal, ficaria horas com Erick na cozinha, fazendo algo que ele não estava acostumado.

Tinham acordado cedo, tomado café da manhã e partiram para a primeira parte do treino. Henry não teve sorte ao implorar pros pais para deixar o carro consigo, então eles tinham que sair mais cedo para pegar o ônibus e ir para o clube. No final das contas não era um sacrifício, pois passavam a maior parte do tempo conversando, então a viagem passava rápido.

O treino logo acabou e em pouco tempo eles estavam de volta ao apartamento. Tomaram banho e se prepararam para as aulas de culinária.

Erick não podia estar mais fofo com um avental de panda.

— Posso ter um avental fofo desses? – perguntou Henry sorrindo de canto.

— Não zombe do meu panda cozinheiro – Erick fez careta para Henry, que riu – Foi um presente e eu amo meu avental. Não divido.

— Ah nem, assim não tem graça – brincou.

— Quando você virar um mestre cuca eu te dou um avental.

Henry revirou os olhos, sorrindo. Era impressionante como as coisas entre eles estavam leves e divertidas. Nem parecia que tiveram problemas no passado.

— Bom, a primeira coisa pra fazer macarrão é deixar a água ferver.

Enquanto falava, ele enchia uma panela média com água da torneira.

— Depois é só colocar o macarrão, um pouco de sal e um fio de óleo – continuou instruindo – A parte mais complicada é fazer o molho, mas você consegue.

Henry assentiu com a cabeça. Então Erick foi dando as instruções e ele foi seguindo. A pior parte era picar cebola, em poucos segundos ambos estavam chorosos e com os olhos ardendo.

— Eu queria poder nunca cortar cebola na vida, mas infelizmente dá gosto na comida – comentou Erick esfregando os olhos.

Henry apenas concordou com a cabeça, pois estava concentrado demais em não perder um dedo enquanto cortava a bendita. Ele foi fazendo os processos que Erick falava, deixando a cebola e o alho dourarem um pouco na panela antes de colocar a carne moída crua. Depois de cortar mais algumas coisas e jogar na panela, Henry colocou o macarrão na água para cozinhar.

Estava dando tudo certo, para a felicidade de Henry. Erick era bem paciente e conseguia explicar tudo com clareza, ao passo que sua avó acabava perdendo o controle e gritando com ele para “pegar o trem que estava do lado do negócio que ficava dentro daquele treco”.

Com a carne moída cozida, Henry jogou o molho de tomate e um pouco de ketchup na panela para mexer.

— Você tem que mexer mais – disse Erick pegando na mão de Henry, que segurava a colher, e começou a mexer mais rápido.

O corpo de Henry respondeu à proximidade com um arrepio. Ele sentiu um calor subindo pelas suas bochechas, assim como sentia o calor da mão de Erick na sua. Ele estava muito próximo. Próximo a ponto de Henry sentir sua respiração batendo em seus cabelos.

— Não pode parar pra não queimar – Erick chegou mais perto, o que foi o limite para Henry.

Por puro impulso, Henry levantou a mão com a colher, fazendo com que molho voasse por toda a cozinha, principalmente na cara de Erick. O garoto se afastou rápido, tentando limpar o molho quente que havia caído em seu rosto.

— Meu Deus! Desculpa! Eu não fiz por querer – Henry disse com pressa, tentando se aproximar, mas Erick o impediu.

— Tá tudo bem, só olha o molho – ele disse e foi logo para a pia lavar o rosto.

Sem saber muito bem o que fazer, Henry continuou mexendo o molho, mas seus olhos estavam concentrados em Erick ao seu lado na pia.

— Atingiu seu olho? Tá doendo muito? Podemos ir pra um hospital.

— Ei, tá tudo bem – Erick deu um sorrisinho – Foi só um acidente. Não caiu no meu olho não.

Aquilo não tranquilizava Henry.

— Deixa eu ver. – pediu.

Erick levantou o rosto lavado e tirou a mão de cima, revelando uma vermelhidão intensa em sua bochecha e na lateral do nariz.

— Desculpa mesmo, Erick – Henry disse triste – Lava com bastante água fria.

— Não tava quente suficiente para queimar, pode ficar tranquilo – ele sorriu mais uma vez – Eu vou sobreviver.

Henry assentiu com a cabeça, mas ainda sim estava triste pelo ocorrido. Tecnicamente era culpa de Erick por chegar tão perto assim. Ele não estava preparado para uma aproximação como aquela, ainda mais tão mais íntima do que a intimidade que eles tinham. Sem contar que Henry namorava.

— Está pronto, podemos comer já – avisou Erick apagando o fogão.

Ele instruiu Henry nos últimos passos e então se serviram. Sentaram-se à mesa, Henry um tanto ansioso para saber o que Erick tinha achado.

— Agora é sua vez de ficar me olhando provar sua comida? – brincou ele, enrolando o macarrão no garfo.

— Sim, quero ver sua reação também.

Com um sorrisinho, Erick colocou o garfo na boca e Henry esperou que ele fosse cuspir tudo e falar que estava uma merda. Já estava preparado para aquilo.

— Você deixou o molho queimar um tiquinho – comentou após mastigar a comida – Mas tá muito bom pra primeira vez.

— Sério? – perguntou Henry com os olhos brilhando.

— Sim – confirmou – Mas macarrão é fácil, depois vamos aumentar o nível.

— Sim, mestre – brincou Henry e pôs-se a comer também.

Não era o melhor macarrão que havia comido na vida, mas também não era o pior. Se Erick não tivesse interferido uma vez ou outra, talvez não ficasse tão bom assim. Talvez cozinhar não fosse tão difícil assim.

— Você vai dominar a arte da culinária, pequeno padawan.

— Achei que estava treinando para cozinhar e não pra ser um Jedi.

— Um Master Chef Jedi! – exclamou Erick animado, esticando a mão para cima com o garfo.

Henry riu da palhaçada. Mesmo que não fosse fã de Star Wars, sabia que o amigo gostava e entendia o básico para terem aquele tipo de conversa com referências. Sem contar que, na infância, fora obrigado por Erick a fazer maratona de Star Wars.

Ficaram comendo e conversando sobre os novos filmes da franquia. Mesmo que Henry não tivesse visto, adorava de ver Erick empolgado com algo que gostava.

Apesar do acidente, foi uma experiência divertida e de que ele havia gostado.

E mal podia esperar para as próximas aulas de culinária com Erick.

[...]

Os dias estavam passando em uma velocidade incrível.

Em pouco tempo já era abril, mês em que Erick completava 19 anos.

Para ele, era um pouco estranho pensar que conseguira chegar tão longe em tão pouco tempo. Ele era o mais novo do time inteiro e, mesmo estando na reserva, era respeitado pelos jogadores mais velhos. Amanda dizia que ele poderia ser uma boa influência pra quem queria seguir o mesmo sonho que ele. Erick ficou feliz em ouvir isso.

Acreditava bastante em suas habilidades e sabia que conseguiria avançar mais, porém, estava extremamente feliz com o que já tinha conquistado. Gostava de acreditar que, apesar de tudo o que passou com seu pai, ele tinha superado e seguido em frente, sem permitir que seu sonho morresse junto com suas esperanças de ter uma família feliz.

Estava um pouco triste por não estar com sua mãe, Nathy ou seus amigos para comemorar aquele dia, mas também não fazia muita questão de ser algo comemorado. Até porque pegara um leve ranço de seu aniversário depois de ganhar uma surra de seu pai de presente.

Preferia que as coisas passassem em branco, mas ainda sim gostaria de estar na presença de outras pessoas que amava.

Foi assim que percebeu que iria passar seu primeiro aniversário com Henry depois de tanto tempo. Ele definitivamente não sabia o que esperar, já que, no passado, eles tinham um combinado de passarem sempre juntos. Resolveu deixar aquilo de lado, até porque ainda faltavam muitos dias e era provável que Henry nem se lembrasse.

As semanas foram se passando e ele teve a maravilhosa sorte de seu aniversário ter caído em um dia de folga dos treinos, então Erick queria aproveitar ao máximo aquele dia.

Tinha chamado Henry para ir à praia, mas ele estava reclamando que a casa estava suja então decidiu aproveitar a folga para arrumá-la. Erick havia se oferecido para ajudá-lo, mas o outro basicamente o expulsou para fora de casa junto com Pudim. Alegou que era coisa de virginiano e que não queria ser atrapalhado em sua limpeza.

Respeitando a estranha reação, Erick pegou suas coisas de praia e saiu com Pudim, que estava todo feliz de ir passear. Por conta dos treinos e do cansaço, ele raramente passeava com o cachorro e sabia que o animalzinho sentia tanta falta quanto ele próprio.

A praia mais próxima de onde moravam ficava a mais ou menos uma hora dali, então teria que pegar um ônibus. Para a sua sorte, havia sido aprovada uma lei que permitia animais de estimação em transporte público em horários calmos, exatamente o caso daquele dia.

Aproveitaram bastante a praia quando chegaram, depois de uma longa viagem dentro do ônibus. Eles brincaram, caminharam e ficaram sentados na areia, Erick tomando um picolé de chocolate e segurando um de manga que havia feito especialmente para Pudim.

Era a primeira vez que ia para a praia depois de tanto tempo. Aprendera a gostar do mar, da areia e do vento batendo em seu cabelo no Rio de Janeiro, quando precisava espairecer e até fugir um pouco de seu pai. As praias viraram o local publico favorito de Erick e nada podia tirar aquilo dele.

As lembranças boas do Rio vieram em sua mente. Ele e Amanda tomando sol na praia e depois indo para uma Starbucks tomar café. A competição de hipismo de Danilo no Colégio Militar. As vezes que jogara vôlei fora do colégio, mesmo que um encontro não tivesse sido tão bom assim. Apesar de tudo, tinha feito dois amigos incríveis e sentia muita falta deles.

Como se o mundo tivesse ouvido seus pensamentos, seu celular tocou para uma videochamada com Amanda. Quando aceitou a chamada, viu o rosto de Danilo e da melhor amiga, sorrindo, gritando e desejando feliz aniversário.

— Feliz Aniversário, meu bebê! – disse Amanda, o cabelo cacheado balançando enquanto ela pulava. – Eu to morrendo de saudades, meu Deus! Eu queria tanto que você tivesse aqui…

Erick sabia muito bem do desejo da melhor amiga. Ela vivia falando que queria muito que ele voltasse. Mas ela sabia tudo o que tinha acontecido e também sabia que não tinha nem 0,0000001% de chance de Erick voltar a morar no Rio.

Mesmo assim ele abriu um sorriso sincero para ela.

— Parabéns, cara! Espero que tudo esteja bem… Você faz falta aqui.

— Eu também to morrendo de saudades de vocês – ele disse – Queria poder levar vocês pra onde eu for.

Pelo semblante de Amanda, ele soube que ela também queria levá-lo consigo para onde fosse. Mais de uma vez, ela havia dito que desejava tirar todos os males que acontecera na vida dele. Sua amiga era mesmo maravilhosa, mas infelizmente não podia fazer milagres.

Falaram mais um pouco, colocando a conversa em dia. Desde que os dois foram aprovados para a UERJ, tinham tornado-se mais próximos, ainda mais por estudarem no mesmo andar. Ele sentiu uma pontada de inveja e de tristeza por não estar perto dos dois.

Eles se despediram, com muitas felicitações de aniversário, e um vazio tomou conta do peito de Erick assim que a tela do celular se apagou. Ele enxugou algumas lágrimas que escorreram, impedindo-se de chorar mais. Saudades era uma companheira antiga e ele tinha que admitir que a odiava com todas as forças.

Quando deu o horário do almoço, ele juntou suas coisas e caminhou até o ponto de ônibus. Prometeu a si mesmo que voltaria lá mais vezes.

Eram quase 14 horas quando chegou ao prédio em que morava. Já carregava Pudim no colo, pois o pobrezinho não aguentava mais andar. Erick estava distraído, fazendo tudo no automático, então, quando abriu a porta, ficou surpreso com a cena.

Henry estava com o headphone com orelhas de gatinho sobre a cabeça, tampando suas orelhas. Ele segurava uma vassoura, que provavelmente era para ser usada de outra forma, não como um microfone — mas era exatamente o que ela era agora. Ele dançava animado e cantava alto a música que Erick bem conhecia e que também adorava.

This could be the start of something new, it feels so right to be here with… – Henry virou-se dançando na direção de Erick e parou imediatamente assim que o viu – You.

– Você é um péssimo cantor – comentou Erick com um sorriso nos lábios. Ver aquela cena tinha alegrado seu dia. Henry ficou emburrado.

– Pelo menos eu danço bem – ele deu língua e fez careta para Erick, mas estava com as bochechas vermelhas de vergonha.

– Não vou mentir – riu Erick, então ficou sério – Você ainda gosta de High School Musical.

Não foi uma pergunta.

– Impossível não amar mesmo depois de velho – ele tinha tirado o headphone, deixando-o no pescoço.

– Ainda lembro de quando vimos o primeiro filme – comentou Erick. Henry o encarou por alguns segundos – Tem uma música do três que eu amo.

Sem falar mais nada, ele procurou rapidamente no seu celular a música, colocando-a para tocar no autofalante. A melodia de Can I Have This Dance começou. Ele se aproximou de Henry, tirando a vassoura de sua mão e oferecendo a sua quando Gabriella cantou “take my hand”. Erick não soube se Henry reagiu por impulso ou se queria realmente dar a mão a ele.

Take a beath, pull me close, and take one step – Erick cantou baixinho, fazendo o que a música dizia.

Henry parecia hipnotizado quando suspirou e chegaram próximos.

Keep your eyes locked on mine – Henry cantou, para a surpresa de Erick. – And let the music be your guide.

Quando Erick deu o primeiro passo para trás para iniciar a dança, Henry correspondeu de imediato. Seus olhos não conseguiam ver mais nada além de Henry a sua frente. Então ao som daquela música que tanto amava, eles começaram a dançar pela sala, ora ou outra Henry tomava o controle e conduzia, o que não tinha nenhum problema para Erick.

Ele girou Henry no final da música, aproximando seu corpo logo em seguida. Eles estavam com os olhares fixos um no outro. A química, o clima… Tudo era a favor deles dois, apenas dos dois. Era palpável todo o desejo e vontade que os rondava.

Com aqueles lindos olhos fixos nos seus, Erick não pensou duas vezes antes de se aproximar na intenção de beijá-lo. Precisava sentir os lábios dele de novo. O gosto. A textura. Tudo. Ele precisava sentir Henry de novo.

Porém, como se algo tivesse lhe dado um choque, o outro desviou o rosto, mas continuou nos braços de Erick, fazendo com que ele desse um beijo em sua cabeça ao invés de onde queria. Henry abraçou Erick, afundando o rosto em seu peito.

– Desculpa – ele sussurrou. – Eu não posso.

Erick engoliu a seco. Com certeza ele sentia o seu coração batendo rápido contra o peito.

– Não pode ou não quer? – perguntou, com um gosto amargo na boca.

– Não posso… – repetiu, com pesar. – E odeio admitir que quero.

Aquilo surpreendeu Erick. E como era um exímio trouxa, se agarrou aquilo como se fosse sua última esperança.

– É por causa dele?

– Estamos namorando – respondeu ele, apesar de não parecer tão firme quanto antes – Não vou traí-lo, não importa o que eu sinta.

Erick não soube se Henry estava apenas brincando com ele, mas, mais uma vez, se agarrou a esperança de que um dia ficaria com ele.

– Por que insiste em ficar com ele? – perguntou amargo.

Henry abriu a boca para responder, mas logo fez uma careta e cheirou o ar. Foi assim que Erick percebeu que a casa tava cheirando a queimado e uma fumaça preta saia da cozinha.

– O bolo! – Henry gritou, se afastando de Erick rapidamente e correu para a cozinha.

Erick não perdeu tempo em correr atrás dele e, em meio a uma confusão de fumaça, tosse e gritos para o forno ser desligado, ele conseguiu tirar uma forma de bolo de dentro do eletrodoméstico.

– Ah não – Henry pareceu bem triste. – Por que tinha que acontecer logo hoje?

Percebendo que o amigo não estava mesmo bem com a situação, Erick logo se aproximou, encarando-o nos olhos.

— Tá tudo bem – ele disse e sorriu – Podemos fazer outro.

— Mas eu queria que fosse especial...– Henry choramingou – Desculpa, eu sou um desastre mesmo.

— Não, meu amor – quando percebeu o que disse, já era tarde demais. Respirou fundo, como se nada tivesse acontecido – Você não é um desastre. Tá tudo bem errar. Eu também queimei meu primeiro bolo.

— Mas era uma surpresa pra você – argumentou Henry – Queria fazer algo pro seu aniversário… Era seu presente...

Aquilo tocou o coração de Erick de imediato. Ele tinha achado que Henry havia esquecido de seu aniversário. Já estava se preparando para se lamentar durante a noite. Mas ali estava, o garoto que amava (e que acabara de chamar de “amor”) querendo fazer algo por ele. Erick não perdeu tempo em tomá-lo nos braços em um abraço apertado.

— Obrigado – ele sussurrou.

— O bolo tá todo queimado…

— Mas a intenção também conta – se apressou em dizer – É especial de qualquer forma.

— Tem certeza? – ele se afastou, olhando para Erick com os olhos lacrimejando.

Henry tinha a habilidade de parecer uma criança fofa quando queria. E Erick tinha que admitir que amava aquilo.

—Lógico que sim! – respondeu com um sorriso – Cara, você tá aprendendo a cozinhar e quis fazer um bolo pra mim! É mais do que especial.

Henry pareceu mais calmo com as falas de Erick.

— Vamos – ele chamou – Vamos fazer um novo bolo.

Ele assentiu com a cabeça, com um semblante melhor. Erick sorriu e deixou que Henry usasse seu avental de panda.

— Não imaginei que teria essa honra – brincou.

— Você merece.

Henry sorriu e Erick soube que aquele era um dos melhores aniversários que ele já teve.

[...]

Henry percebeu o estado agitado de Erick naquela semana de julho.

Tudo bem, ele já era animado por natureza, mas algo estava além do que Henry estava acostumado.

Em um dia qualquer das férias deles do meio do ano, Erick praticamente chutou a porta de seu quarto com um sorriso no rosto.

— Henry, preciso te avisar uma coisa – a animação era palpável. – O Danilo vem aqui me visitar e ele vai ficar aqui com a gente.

Antes mesmo que pudesse formar algum pensamento lógico em sua cabeça, ele respondeu:

— De jeito nenhum!

O sorriso de Erick desapareceu em questão de segundos.

— O quê? Por que? – sua expressão era de incredulidade. Não era pra menos.

— Ele não gosta de mim e eu não vou muito com a cara dele.

Henry lembrava-se perfeitamente de quando ele e Danilo se encontraram pela primeira vez e aquele garoto alto com um olhar intimidador o feriu com palavras de forma certeira. Henry sabia que ele estava tentando proteger Erick, mas também não sabia da sua versão da história, apenas da do amigo.

E aquilo não foi uma boa primeira impressão para Henry.

— Isso não faz nem sentido! – exclamou Erick – O Dan é um bebê pra se guardar num potinho!

As palavras entraram pelo ouvido de Henry como um enxame de abelhas enlouquecidas. Seu coração foi apertado por uma mão invisível e era como se alguma coisa absurda de quente estivesse queimando em seu estômago e pronta para subir até sua cabeça.

Henry conhecia bem aquela sensação. Já havia sentido-a anos atrás e provavelmente sempre sentiria quando se tratava de Erick. O famoso e odioso ciúmes.

“Eu que sou um bebê que merece ser guardado num potinho!” exclamou em pensamento.

Por mais que quisesse verbalizar seu pensamento, Henry apenas encarou Erick com uma expressão séria.

— Não vai ser uma boa ideia ele ficar na nossa casa.

“Nossa casa”

E pensar que ele tinha desistido da ideia de que um dia pudesse morar no mesmo teto que Erick.

— Mas ele não tem pra onde ir sem gastar horrores com hotel – argumentou Erick. – Qual é, Henry! Por favor, a casa também é minha. E eu acho que vocês podem se tornar amigos.

Ele suspirou. Sabia que a teimosia de Erick não deixaria que ele recebesse um não como resposta. Ainda mais vindo dele, que sempre cedia.

Henry olhou sério para Erick, que estava fazendo um biquinho fofo e arregalando os olhos como um cachorro suplicando por comida. Ele quis socar aquela cara fofa.

— Só não garanto que eu vá ser um bom anfitrião.

Aquilo foi o suficiente pro sorriso voltar ao rosto de Erick.

— Você é o melhor!

Com um beijo na bochecha, o qual Henry definitivamente não estava esperando, Erick saiu de seu quarto animado outra vez.

Ficou alguns segundos tentando processar aquele gesto. Já se martirizava o suficiente por às vezes beijá-lo na bochecha de forma impulsiva, agora ele estava retribuindo os beijos. Henry com certeza infartaria em algum momento dividindo espaço com aquele ser.

[...]

Não demorou muito para o garoto loiro de olhos claros estar na sua porta e ser recebido por um abraço mega apertado e afetuoso de Erick. Não precisou nem um segundo para Henry sentir aquela sensação de ciúmes de novo.

Ver Erick sorrindo e olhando para Danilo de forma tão… Intensa? Afetuosa? Ele não conseguia distinguir, mas com certeza era algo que deixava Henry com os nervos à flor da pele. O pior de tudo era que Danilo parecia extremamente feliz, animado e com saudades tanto quanto Erick.

Eles ficaram um tempão abraçados, falando coisas que Henry conseguia apenas ouvir os murmúrios, sem captar qualquer palavra. Aquela cena estava lhe dando tanta raiva e ciúmes que ele simplesmente caminhou pesado até seu quarto, fechando a porta com força desnecessária.

Sabia que não deveria ter aceitado hospedar aquele cara.

Talvez aquilo tenha sido o suficiente para Erick perceber que estava no mundo da lua, pois rapidamente a porta foi aberta e sua cabeça apareceu pra dentro do quarto.

— O que aconteceu? Você nunca bateu a porta.

A resposta foi extremamente impulsiva.

— Sai daqui! Volta pro seu mundinho com seu amiguinho – Henry bufou.

— Você está com ciúmes? – um sorriso presunçoso apareceu nos lábios de Erick, irritando Henry ainda mais.

— Eu disse pra vazar! – ele jogou um travesseiro na direção da porta, com a qual Erick se defendeu.

— Você está com ciúmes! – exclamou Erick feliz da vida.

Como ele era irritante!

— Como você é irritante! – ele verbalizou seus pensamentos.

— O irritante de quem você sente ciúmes – Erick soltou uma gargalhada e entrou no quarto, indo até Henry. – Agora você sabe como eu me sinto.

Então Henry foi pego desprevenido, sendo jogado na cama com o peso de Erick sob seu corpo e seu olhar penetrante com um sorrisinho malicioso voltados para Henry. Suas mãos estavam presas pelas de Erick, perto de sua cabeça, fazendo seu coração martelar seu peito por conta da sensação de aprisionamento.

— Eu odeio você! Me solta – Henry disse alto e se debateu um pouco, tentando se soltar, mas apenas recebeu uma risada de volta.

— E eu te amo – disse Erick em meio a risada.

Mas aquilo foi suficiente para Henry parar de se debater e olhar incrédulo para Erick, que agora tinha uma expressão de arrependimento no rosto. Não demorou muito para ele soltar Henry e se levantar da cama, se afastando o máximo possível, coçando a nuca.

— Eu… – as palavras pareciam ter entalado em sua garganta. – Me desculpa… Eu… Quero dizer… Qual foi a pergunta?

Ver Erick completamente embaraçado e desajeitado era um prato cheio para a insanidade de Henry. Ele definitivamente ficava lindo e fofo de qualquer jeito.

— Eu não perguntei nada – respondeu Henry, ainda um pouco abalado pelo o que Erick disse. – Mas você disse… Bem… Umas três palavras que tem bastante significado…

— Ah – ele riu nervoso – É? Quero dizer… É claro! Como amigo… Eu quis dizer como amigo.

Por mais que uma parte de Henry sentia que ele estava mentindo, outra parte dizia que era a mais pura verdade. Que não tinha como Erick ter sentimentos além dos fraternais por ele. Até porque, ele tinha um homem lindo que parecia estar tão na dele quanto Chris estava na de Henry. Essa sua parte mais racional insistia em relembrar tudo o que Erick havia feito, reforçando que aqueles sentimentos, que sua parte emocional achava serem reais , não passava de um equívoco e uma ilusão.

E como sempre, Henry deixava essa parte racional lhe dominar.

— Claro – ele disse, mas não sem antes soltar uma risada de nervoso – Faz sentido… Porque somos basicamente irmãos né?

O olhar de Erick era indecifrável.

— Isso… Irmãos – respondeu Erick.

— Então aquele clima que eu senti quando dançamos juntos nunca existiu – sussurrou Henry, mas infelizmente foi alto o bastante para Erick ouvir.

— Que clima? – perguntou, com um ar aparentemente confuso.

— Nada não – respondeu Henry e se levantou, indo até Erick para expulsá-lo de seu quarto – Vai receber sua visita.

Erick apenas assentiu, virando-se e saindo pela porta.

Henry a fechou logo em seguida, apoiando as costas dela e soltando um suspiro alto.

Deixou seu corpo deslizar pela superfície de madeira… E as lágrimas deslizarem pelo seu rosto.

Mais uma vez, bom demais para ser verdade.

Notas finais
Então? O que acharam? Me mandem um feedback nos comentários, por favor! Eu sei que sou uma péssima autora que não responde vocês, mas estou determinada a mudar isso, sério! Enfim! Nos vemos no próximo capítulo! Ghost Kisses ~Marceline