Além das Quadras

30 Arco III – 30. Eu entendo


Notas iniciais
Atrasada, porém presente Espero que gostem do capítulo! Boa leitura u.u Ghost Kisses ~Marceline

Capítulo 30: Eu entendo

Henry se impressionou com o quanto ele e Erick passaram a se dar bem depois daquelas semanas conturbadas.

A convivência tornou-se mais leve e consequentemente eles ficaram mais próximos, principalmente depois que começaram a jogar juntos. Já tiveram a experiência no passado, mas as circunstâncias eram completamente diferentes. Tudo isso fortaleceu o relacionamento deles.

Henry não esperava algo assim, então ficou bastante surpreso quando percebeu o quanto se davam bem, isso o deixou bastante feliz. Por mais que estivesse evitando Erick nos primeiros dias por conta da autopreservação, ele ficou feliz quando transpassou essa barreira que o impedia de se aproximar.

Sem contar que as coisas ficaram ainda melhores quando ambos começaram a fazer terapia. Henry precisava de acompanhamento, então não deixou de procurar um profissional bom para continuar com seu tratamento.

No dia que chegou no consultório da psicóloga Vanessa, ele se espantou ao ver Erick saindo da sala da profissional. Eles não tiveram muito tempo imediato para conversar sobre aquilo, mas assim que chegou em casa, ele tentou introduzir o assunto o mais tranquilo possível.

— Então, não sabia que estava fazendo terapia também – Erick estava na sala quando Henry chegou. Ele o olhou, parecendo um pouco envergonhado com o assunto.

— Ah, é – disse meio sem jeito – Eu tinha começado a fazer em BH... E minha psicóloga recomendou que eu não parasse, então fui atrás.

Henry tinha se sentado ao lado dele, olhando-o com atenção.

— Fez bem – falou Henry sorrindo levemente – A minha recomendou o mesmo.

— Pois é – Erick deu de ombros – No início eu fiquei meio relutante, mas acabou que me ajudou muito. Agradeço a Nathy por ter praticamente me arrastado para a terapia.

— Eu entendo muito bem. Quando as crises de ansiedade pioraram, eu acabei cedendo – disse Henry – Então cá estou eu, tomando ansiolítico e remédios para dormir.

— Suas crises nunca foram amenas – relembrou Erick, meio distante – Mas não sabia que estava tomando remédios.

Henry simplesmente deu de ombros.

— Me ajuda bastante, assim como a terapia, mas tem vezes que nem o remédio dá conta.

— Eu imagino – o silêncio tomou conta por alguns segundos antes de Erick recomeçar – Sei que as coisas entre a gente estão se encaminhando ainda, mas quero que saiba que pode contar comigo para o que precisar. Eu sempre te ajudei no passado e quero poder te ajudar agora e no futuro também.

Aquilo deixou o coração de Henry quente e mole. Lembrava-se claramente de todas as vezes que o amigo foi seu maior porto seguro, que foi a pessoa que mais lhe ajudou e que sabia como lhe acalmar em sua crise. A sensação de saber que poderia ter esse porto seguro de novo era curiosa, pois, ao mesmo tempo que se sentia feliz, sentia-se receoso.

Nunca gostou de depender dos outros para lhe tranquilizar em suas crises, mas acabava sendo inevitável. Ele era extremamente agradecido por todos que o ajudaram, porém, mesmo com a psicóloga falando que não havia problema nenhum ser ajudado, Henry sentia que precisava passar por aquilo sozinho e não queria colocar esse peso nas costas dos outros. Chris e Marge eram os que mais carregavam esse fardo e ele não queria que Erick entrasse na lista, mesmo que já houvesse feito parte dela no passado.

— Eu não quero te incomodar com isso – disse cautelosamente – Não precisa se preocupar comigo.

— Mas eu me preocupo! – exclamou Erick, pegando nas mãos de Henry e apertando-as entre as suas – Você não me incomoda de forma alguma e eu quero ser útil pra você novamente.

Aquelas palavras deixaram Henry um tanto aflito, ainda mais que ele ficou surpreso quando suas mãos foram pegas de forma tão impulsiva e natural, como se Erick fizesse aquilo sempre.

Suas mãos eram quentes e úmidas, algumas partes calejadas por conta do trabalho na academia, mas outras partes eram bem macias. Henry sentia que podia ficar de mãos dadas com Erick pra sempre. Sentir aquela sensação calorosa e reconfortante que ele transmitia apenas com um segurar de mãos era indescritível.

— Eu... Eu não sei...

— Me deixa cuidar de você quando precisar, por favor – Erick o encarava com aqueles olhos castanhos intensos, o que fez o coração de Henry acelerar. – Por favor...

Era impossível dizer um “não” para Erick quando ele o encarava daquela forma. Na verdade, era bem difícil pra Henry dizer um “não” pra ele em muitas situações.

— Tudo bem... – cedeu – Mas quero que saiba que a recíproca é verdadeira, então me deixe te ajudar também, se você precisar.

Erick abriu um sorriso de tirar o fôlego, acelerando ainda mais o coração fraco de Henry.

— Trato feito.

[...]

A felicidade de Erick simplesmente não cabia em seu peito.

Tudo estava indo até melhor do que ele esperava. Queria conquistar novamente a confiança e amizade de Henry havia um tempão e a oportunidade perfeita caiu em suas mãos quando eles tiveram que morar juntos.

Havia se passado um pouco mais de um mês desde a mudança e cada vez mais ele sentia que estava conseguindo a afeição do outro. Por mais que não tivessem conversas tão pessoais assim, as que tinham já era suficiente para Erick, ainda mais que podia conhecer um pouco melhor o amigo.

Percebeu que algumas coisas em Henry não tinham mudado, como seu vício em vídeo games ou então por Alice no País das Maravilhas, mas havia aspectos em que, para Erick, o outro era um completo desconhecido. Porém, ele estava animado para conhecer essa parte de Henry que ele ainda não conhecia.

A conversa que tiveram no dia em que acidentalmente se encontraram na terapia tinha deixado Erick animado também. Ele achava mesmo que teria de insistir mais um pouco, mas para sua surpresa, Henry cedeu bem rápido.

E para mostrar que era mesmo verdade o que tinha dito, ele invadiu o quarto de Henry numa tarde, com um pedaço de bolo de cenoura na mão. O amigo estava deitado na cama, as lágrimas correndo pelos cantos dos olhos.

Erick já tinha notado o quão pra baixo Henry estava nos últimos dias e, conversando com ele, soube que sentia muita falta da família. Sentia falta dos gêmeos enchendo o saco dele, das piadas ruins de seu pai, do carinho de sua mãe e da presença de Cheshire. Houve uma noite que Henry disse que iria desistir de tudo e voltaria para BH. Obviamente Erick não deixou, conversou com ele e conseguiu acalmá-lo.

Henry levantou-se enxugando as lágrimas um pouco rápido. Mesmo com o avanço entre eles, Erick percebia que, para o amigo, chorar na frente dele era difícil demais ainda.

— Eu fiz o bolo que você gosta – ele sentou-se na cama ao lado de Henry, entregando o prato.

— Obrigado – respondeu triste.

Erick odiava vê-lo daquela forma. Queria fazer qualquer coisa para tirar a dor e a saudades de Henry, mas sabia que não tinha muita coisa que pudesse fazer a não ser tentar animá-lo.

— Eu tava pensando – falou cautelosamente enquanto assistia Henry comer – Podemos fazer um passeio pela cidade. Não conhecemos muito aqui.

— Ah – soltou tristonho – Eu não to muito animado pra isso hoje, Erick.

— Mas isso pode te fazer se sentir melhor! – exclamou Erick – Vamos, Henry! Por favor, por favor, por favor, por favor.

Erick sabia que estava agindo como uma criança, mas queria muito que Henry aceitasse seu convite. Lembrava que, na infância deles, sempre insistia até Henry ceder. Ser teimoso e insistente talvez fossem seus piores defeitos, mas pelo menos conseguia o que queria na maioria das vezes.

Após insistir mais um pouco, fazendo biquinho e carinha de cachorro que caiu da mudança, Henry finalmente revirou os olhos e disse:

— Você vai parar de me encher o saco se eu for?

— Sim – ele disse sorrindo, não se ofendendo com o modo que Henry falou.

Soltando um suspiro, ele levantou-se da cama e encarou Erick.

— Tudo bem... Mas não garanto que eu vá ser uma boa companhia.

— Você sempre é uma boa companhia, Henry.

Alguns segundos de silêncio caíram sobre eles, a tensão no ar era palpável. Erick já estava levemente agoniado, então resolveu dizer que faria alguma coisa para eles levarem e fazer um piquenique no Parque Ibirapuera.

Saindo do quarto de Henry, Erick foi logo para a cozinha preparar algumas coisas.

Não demorou muito para estarem prontos, com mochilas cheias de comida e uma bola de vôlei, e saírem do prédio para desbravar a grandiosa cidade de São Paulo.

Após darem uma olhada no celular, viram que o parque era a poucos minutos de caminhada de onde moravam, então deixaram o carro na garagem e partiram caminhando no clima ameno que fazia naquela tarde.

Erick manteve o monólogo durante todo o percurso. Mesmo que Henry tivesse pra baixo, sabia que se ficasse calado, seria pior. Então, mesmo que o outro não o respondesse, ele continuava falando e do assunto que ele sabia de melhor: vôlei.

Estava animado com os treinos do time em que estavam. Os seus colegas de equipe eram legais, apesar do levantador titular ser extremamente arrogante e desnecessário. Erick se viu um pouco naquele garoto, no início, quando estava no colégio. Parecia que tinha sido a tanto tempo que Erick já nem reconhecia mais aquela pessoa que ele era apenas alguns anos antes.

Chegaram ao parque rapidamente. Era bem grande e o verde intenso da grama e das árvores deixava um ar de conforto no local. Eles caminharam, parando em um gramado amplo perto de um lago. Acharam um lugar com a sombra de uma árvore e colocaram um lençol velho no chão para se sentarem.

— Vamos jogar? – perguntou Erick animado tirando a bola de vôlei da mochila.

Henry o encarou com uma cara não muito animada, mas suspirou e concordou com a cabeça.

Eles ficaram rebatendo a bola um para o outro por um tempo, mas Henry estava tão desatento que deixava várias vezes a bola cair ou passar por ele. Então Erick notou que não adiantaria forçá-lo a fazer algo que ele não queria. Já tinha arrastado o amigo pra lá na esperança de ele se animar, mas não queria forçar ainda mais a barra.

— Hm... Você quer comer? Eu preparei algumas coisinhas – perguntou Erick pegando a bola das mãos de Henry e indo se sentar no lençol.

Henry deitou-se ao seu lado e fechou os olhos, colocando o braço em cima deles por causa da claridade. Erick ficou observando o outro e não demorou muito para que ele reparasse em algumas lágrimas escorrendo pela lateral de seu rosto.

Doía muito ver o garoto pelo qual era apaixonado daquela forma. Gostaria de ter o poder de teletransportar sua família para lá, só para ver novamente o sorriso de Henry.

Vendo que não podia fazer muito, Erick ficou em silêncio e levou a mão até os cabelos castanhos escuros do outro, que não reagiu ao toque. Então, interpretando a falta de reação como algo não incômodo, ele se aproximou de Henry, colocando sua cabeça em seu colo e prosseguindo com o carinho nos cabelos alheios.

Henry pareceu apenas aceitar a situação.

— Vai ficar tudo bem – sussurrou Erick depois de um tempo calados.

Ele sentiu Henry concordar com a cabeça minimamente, mas prosseguiu sem falar nada. O silêncio caiu sobre eles, mas não de uma maneira desconfortável apesar de Erick se sentir incomodado por não poder ajudar mais.

E não demorou muito para ele sentir a cabeça de Henry pesar e sua respiração ficar constante. Ele tinha dormido e um sorrisinho brotou nos lábios de Erick inconscientemente. Havia tantas coisas boas que aquilo significava, mesmo sendo algo tão normal e que pra muitos fosse até corriqueiro. Mas Erick sabia que aquilo significava um avanço enorme na relação deles e ele sentia-se feliz ao perceber que, por mais que fosse um tanto teimoso e irritante, Henry confiava nele de certa forma e ficava confortável na sua presença.

[...]

Já estava escurecendo quando Henry abriu os olhos, ainda sonolento. Ele levantou-se com um bocejo e se espreguiçou, olhando para Erick enquanto coçava os olhos. Ele estava lendo no seu celular enquanto servia de travesseiro.

— O que aconteceu? – ele perguntou.

— Você cochilou por duas horas – respondeu – Talvez o carinho que eu fiz tenha te deixado sonolento. Desculpa, por isso.

Erick percebeu o tom das bochechas de Henry ficarem levemente avermelhadas, mas resolveu não comentar nada do tipo.

— Eu que peço desculpas por ter dormido – ele disse, claramente desconfortável – Não foi legal da minha parte, mas é que eu não dormi muito bem de noite...

— Fica tranquilo – Erick lançou um sorriso para Henry – Eu entendo e não me importo.

— Tem certeza?

— Sim! – ele deu de ombros – Até porque você fica fofo dormindo.

A vermelhidão das bochechas de Henry aumentou e ele se levantou rapidamente e virou o rosto, como se tivesse escondendo sua vergonha. Erick não queria causar aquela reação nele, mas estava sendo sincero e também ele ficava fofo daquele jeito.

— Bem, você não comeu – Erick quebrou o breve silêncio que tinha se instalado – Coma um pouco, ai podemos ir embora. Você se sente melhor?

Henry apenas balançou a cabeça, sem olhar para Erick. Ele sentou-se novamente, dessa vez bem mais tenso, e pegou um sanduíche que Erick havia feito. Para acompanhar o amigo, ele pegou um pedaço de bolo pequeno e colocou suco em um copo.

Eles comeram em silêncio, Erick sentindo a clara tensão que estava no ar, o que o deixou ligeiramente incomodado. Não entendia muito bem o motivo daquelas reações de Henry, mas tudo que falara até o momento parecia que havia afetado o outro. Certas coisas, Erick simplesmente falava, mesmo sem pensar nas consequências que aquilo poderia trazer.

Quando terminaram de comer, juntaram as coisas e guardaram, seguindo o caminho de casa, dessa vez em silêncio. Porém, naquela vez, a falta de conversa estava incomodando Erick.

Mesmo que não tivesse feito muito, Henry parecia melhor. Ainda meio abatido, mas com o semblante mais envergonhado do que triste. Erick decidiu que a saída deles havia valido a pena no final das contas.

Depois de 20 minutos caminhando, eles chegaram ao apartamento e subiram pelo elevador. Henry abriu a porta e foi rapidamente esmagado por um abraço coletivo, enquanto Erick era recebido por latidos e um Pug marrom pulando em suas pernas.

— Meu Deus! – a felicidade de Henry era palpável ao retribuir o abraço. – Vocês não avisaram que viriam!

— Quisemos fazer surpresa – respondeu Fábio, pai de Henry. – E trouxemos algumas coisinhas pra vocês.

Erick estava extremamente feliz por Pudim estar ali com ele. Sentia muita falta do cachorro e não tinha notado o quanto ele era especial até aquele momento.

— Erick, meu querido! – tia Cassie o abraçou – Sua mãe disse que o Pudim estava muito abatido desde que você foi se mudou. Então sugeri que trouxéssemos ele junto com Cheshire. Espero que eles se deem bem.

Ele não deixou de sorrir com aquilo. Por mais que tivessem ficado muito tempo separados, Cassandra ainda era como uma segunda mãe pra ele.

— Muito obrigado, tia Cassie – ele agradeceu retribuindo o abraço e dando um beijo estalado na bochecha da mulher. – Como está minha mãe? E Nathália?

Então eles começaram a conversar enquanto Henry estava feliz da vida brincando com os gêmeos, Cheshire e seu pai. Era fofo demais vê-lo tão feliz em reencontrar sua família e sentiu um pouco de inveja por não ter uma família dessas. Sua mãe era maravilhosa, assim como Nathália, mas ele gostaria que seu pai fosse uma pessoa decente e amorosa como Fábio era.

Enquanto conversava com Cassandra, acariciando Pudim em seu colo, ele desviava ocasionalmente o olhar para ver Henry. Ele estava tão feliz, que deixava Erick feliz e com o coração aquecido.

No final de tudo, seu amigo estava bem e era só o que importava.

[...]

Henry simplesmente não podia acreditar na surpresa que seus pais haviam feito.

Sempre fora muito apegado aos pais e, quando os gêmeos nasceram, ficara apegado a eles também. Então ficar mais de um mês sem tê-los por perto era muito estranho e começou a deixá-lo desolado. Ele tinha mesmo cogitado a ideia de desistir de jogar e voltar pra casa, mas tinha que dar graças a Deus que Erick estava ao seu lado para fazê-lo mudar de ideia.

Ele ficara desnorteado com o que aconteceu no parque. Sendo algo banal, para Henry tinha um significado bem além disso. Erick e ele estavam passando a barreira do apenas conversar para algo mais físico. Tinha ficado realmente desesperado no dia que dormiram juntos, mas, por incrível que pareça, o fato de ter dormido no colo do outro com este fazendo carinho em seu cabelo o deixava apenas envergonhado.

E talvez querendo mais daquele contato, que tinha que admitir que era muito bom.

Henry percebeu o quanto ficou relaxado quando estava deitado ao lado de Erick, tanto no dia que passaram a noite na sala quanto naquele dia no parque. Era diferente o modo como parecia respirar com mais alívio quando estava perto do amigo.

Mas, a presença de Erick não tinha sido suficiente para aliviar toda a saudade e tristeza que sentia por conta da distância dos pais. Então ficou extremamente feliz quando foi abraçado e também quando viu Cheshire. O gato peludo praticamente pulou em seu colo e começou a se esfregar em seu rosto, como se lhe desse um abraço e lhe cumprimentasse.

A outra surpresa que tinham trago era seu violino. Henry não tocava fazia meses, nem sabia se ainda tinha habilidade suficiente para isso, mas, assim que encostou no instrumento, ele sentiu falta e lembrou-se do quanto aquilo lhe acalmava.

— Henry, toca pra gente! – exclamou Jules, que estava muito feliz em ver o irmão.

— Ah, Jules – ele disse sem graça – Eu to meio enferrujado.

— Você nunca ta enferrujado! – o garotinho rebateu.

— Toca, Henry – disse Rach de seu jeitinho mais contido.

Henry cedeu pelo pedido da irmã, já que era raro ela pedir as coisas para ele. Então tirou o instrumento da capa, colocou-o no ombro e tocou as primeiras notas. O violino estava desafinado por conta da falta de uso, mas dava pra tirar uma música dali que não ficasse tão ruim.

Ele começou a tanger o instrumento, prestando atenção nas cordas e no movimento dos seus dedos encostando o objeto. A sala ficou em silêncio, vez ou outra ele olhava para sua plateia e vendo o quanto Rach e Jules pareciam encantados com a música.

Por puro instinto, ele levantou os olhos para Erick, vendo o quão surpreso e fascinado ele parecia. Aquilo o desconcentrou, fazendo com que errasse uma nota. Rapidamente tirou o instrumento do ombro e sorriu sem graça.

— Viu? Preciso voltar a praticar.

— Você é maravilhoso, meu filho – Cassandra disse sorrindo

— Sim! – exclamou Jules pulando no colo de Henry quando ele guardou o violino. – Você faz uma música pra mim? Tem que cantar também.

— Eu não canto, seu pestinha – Henry revirou os olhos com um sorriso nos lábios. Sentia mesmo falta disso.

— Aprende ué.

Todos riram, exceto Jules, que ficou com uma carinha emburrada.

Não demorou muito para que Henry tivesse que se despedir de sua família, já que eles ficariam num hotel ali perto por conta da falta de espaço do apartamento. Sua mãe disse que ficariam por uns cinco dias e que iriam aproveitar bem a visita.

Fábio deu um abraço apertado em Henry e bagunçou os cabelos de Erick quando saiu. Cassandra abraçou e beijou demoradamente a bochecha do filho, repetindo o afeto com Erick. Jules pulou no colo de Henry e encheu-o de beijos, ficou meio tímido quando foi se despedir de Erick, mas acabou lhe dando um abraço rápido. Rach deu um abraço rápido no irmão mais velho e acenou para Erick, se juntando a Jules rapidamente.

— Nos vemos amanhã, meninos! Boa noite – disse Cassandra com um sorriso antes de sumir pela porta do elevador.

Henry fechou a porta com o coração acelerado e quente pelo afeto que havia acabado de receber. Estava bastante feliz e sentia que nada podia estragar aqueles cinco dias que viriam a seguir.

Ele demorou um pouco para perceber que Erick o encarava com um sorrisinho fofo nos lábios.

— O que foi? – Henry franziu o cenho e se encaminhou em direção ao seu quarto.

— Nada – Erick deu de ombros com o cachorrinho no colo – Você e sua família... É tudo muito incrível.

Henry sentiu um pouco de dor nas palavras proferidas.

— Ah... – disse sem jeito – Eles são incríveis mesmo.

— E você ainda toca! – Erick exclamou mais animado – Eu até tinha esquecido desse detalhe. Lembro direitinho das vezes que você tocou pra mim... Depois de muita insistência, é claro.

Ao invés de ficar envergonhado, Henry riu. Ele também se lembrava dessas vezes, quando ainda estava aprendendo e Erick cismava que queria ouvi-lo tocar. Mesmo que no inicio ele fosse um desastre, Erick sempre estava lá elogiando-o e incentivando-o a continuar. Tocar violino virou uma terapia para ele e tocar para o outro sempre era reconfortante.

— Sua teimosia não mudou em nada – riu Henry sentindo Cheshire se esfregar em suas pernas. – Não sabia que tinha um cachorrinho.

O garoto olhou para o pug com um olhar extremamente doce. Quando eram mais novos, aquele olhar era bastante voltado para Henry. Ele conseguia sentir o carinho e amor que o outro sentia só reparando em seu olhar. Como era de praxe, o pensamento fez o coração de Henry se aquecer.

— Acho que vocês se conheceram num dia que te encontrei na cafeteria com seu amigo – Erick lembrou-se, mas Henry não lembrava muito bem daquele acontecimento – De qualquer forma, esse é o Pudim – disse Erick sorrindo – Nathy me deu de aniversário ano passado. Ele é um ótimo companheiro, mas vive comendo e dormindo.

— Então ele pode dar a mão para Cheshire – observou Henry pegando o felino no colo.

— A pata – corrigiu Erick, arrancando uma risadinha de Henry.

— O bobo dentro de você também não mudou em nada.

Erick deu língua para Henry e ele imaginou outros usos impróprios para ela.

Teve que contar os pensamentos impuros.

— Bom, eu to bem cansado, então vou me arrumar pra dormir – disse Henry e então sorriu para Erick – Muito obrigado pelo passeio, parece que não ajudou, mas ajudou muito.

Erick parecia um pouco em transe, olhando para Henry com intensidade. Aquilo o deixou levemente desconfortável, mas teve o impulso de ficar na ponta dos pés e dar um beijo na bochecha de Erick.

— Boa noite, Erick.

Seu coração tinha criado vida e com certeza sairia pela boca se deixasse. Praticamente correu para o quarto, fechando a porta e se perguntando porque caralhos tinha feito aquilo.

— Meu Deus, pareço um adolescente de 13 anos – resmungou.

Deixou seu corpo desabar na cama, Cheshire logo se aninhando em seu peito e recebendo carinho do dono.

— Por que eu sou tão idiota? – perguntou Henry, recebendo uma resposta miada do gato – Eu não acredito que beijei ele!

— Miaau

— A culpa é dele! Ele que mexe comigo dessa forma! – tinha um sentimento revoltado em seu peito. Por que as coisas tinham que ser assim? – Eu deveria me afastar dele?

— Miau

— Moramos no mesmo teto, isso é meio que impossível – revirando os olhos, pegou um travesseiro e soltou um grito de revolta.

Cheshire chiou com a ação do dono e saiu de cima, mas logo se aninhou novamente perto de Henry.

— Vou dormir que ganho mais...

Ele se arrumou, deu graças a Deus que Erick não estava por perto quando foi escovar os dentes e quando finalmente deitou, a cena de tudo o que tinha acontecido entre eles veio em sua cabeça.

— Ah não...

Tentou dormir, de verdade. Mas sempre que estava prestes a cair no sono, sua mente fazia questão de relembrar o ato impulsivo que havia feito há pouco tempo. Ele xingou, se remexeu na cama até perceber que não tinha jeito.

Eram 2 horas da manhã quando desistiu de tentar dormir e foi jogar. Ligou o notebook e quando foi procurar seus fones de ouvido, ouviu um grito vindo do quarto do lado.

Ele não pensou duas vezes antes de sair correndo e abrir a porta do quarto de Erick, vendo-o se debatendo desesperadamente na cama.

— Não, por favor – ele gritava como se alguém tivesse ameaçando-o – Eu não quero, por favor! Não faça isso! Pare!

A agonia que sua voz soava perfurou o coração de Henry de um jeito implacável. Ele sentiu medo pelo amigo. Ao chegar perto, ele percebeu que o outro estava suando e ofegando muito.

— Erick – ele tentou acordá-lo sem tocá-lo. – Erick!

— Não, deixa ela em paz! – ele gritou

Então Henry entendeu. Não sabia exatamente como era o sonho, mas tinha certeza que tinha alguma relação com seu pai.

Ele se aproximou, tentando não ser atingido pelos membros descontrolados de Erick e tocou seu ombro com cautela.

— Erick, acorda, por favor – ele disse alto, mas com calma – Sou eu, Henry. Eu to aqui.

Henry sacudiu um pouco o seu corpo e Erick levantou de supetão. Henry deu sorte por ser mais baixo, pois com certeza levaria uma cabeçada.

Os olhos de Erick estavam molhados e vermelhos, sua pupila estava dilatada pelo medo. Suor escorria pelo seu rosto, molhando a camisa azul escura. O cabelo loiro estava grudado em sua testa, deformando os cachos.

— Henry... – ele sussurrou e agarrou o outro num abraço com tanta força que Henry pensou que fosse desmaiar.

Então Erick começou a chorar. Um choro desesperado, agonizante e angustiado. Um choro que transmitia todo medo, raiva e desesperança. Henry tentou manter-se forte, retribuindo o abraço dele e acariciando suas costas. Nunca tinha pensado que pudesse ver Erick naquela situação.

— Ta tudo bem – ele tentou acalmá-lo – Eu to aqui, viu? Não tem mais ninguém. Você tá seguro agora. Não vou deixar ninguém te machucar, viu?

Apesar da falta de resposta, Henry sabia que Erick estava ouvindo e absorvendo suas palavras, pois foi ficando mais calmo com o passar do tempo. Quando as lágrimas do outro já não eram tão intensas, Henry saiu do quarto, dizendo que pegaria uma água com açúcar pra ele se acalmar.

Erick bebeu todo o conteúdo quando Henry estendeu o copo de vidro pra ele. Sua respiração ainda estava ofegante, mas as lágrimas haviam parado, escorrendo algumas vez ou outra.

— Toma um banho – recomendou Henry com calma – Ajuda bastante.

Erick apenas assentiu e se dirigiu para o banheiro. Henry ficou no quarto, pois queria ter certeza que o outro estava bem. Não demorou muito para ele voltar, com uma toalha enrolada na cintura e outra em seus ombros. Ele foi para o armário, vestiu-se rapidamente e sentou ao lado de Henry na cama, tudo com o olhar para baixo.

— Desculpa se eu te acordei – murmurou Erick e fungou o nariz.

— Eu não estava conseguindo dormir – confessou Henry e soltou um suspiro.

Silêncio.

— Você tá melhor? – perguntou depois de um tempo.

— Vou ficar – Erick deu de ombros – Sempre fico.

— Não é a primeira vez?

Erick apenas balançou a cabeça em negativa.

— A psicóloga diz que eu tenho estresse pós-traumático – contou – E isso gerou um quadro de ansiedade e depressão... Não é tão profunda, mas é suficiente pra eu ter esses episódios de ataque de pânico... Desculpa por isso.

— Não precisa se desculpar – ele disse com pressa – Eu... Eu entendo perfeitamente essa situação...

— É bem diferente do que você tem – Erick finalmente olhou para Henry – Mas você é a pessoa que mais me entende com relação a isso.

Henry apenas assentiu, com o coração pesado.

— Eu sei que é inapropriado, mas você pode dormir comigo? – pediu em um sussurro – Eu não consigo dormir sozinho depois de um ataque...

Aquilo pegou Henry desprevenido, mas ele se viu cedendo. Erick fizera tanto por ele na infância... Talvez agora fosse seu momento de retribuir.

— Obrigado, Henry – ele deu um sorriso triste e deitou-se no canto da cama, encostando na parede.

Henry se acomodou na beirada. A cama era pequena, mas cabia os dois perfeitamente. Estavam próximos, mas não se encostavam. Erick estava de lado, virado para Henry, que deitava de barriga pra cima com o corpo um pouco tenso.

— Se você não quiser ficar, não precisa – comentou Erick, percebendo o desconforto de Henry.

— Não, ta tudo bem.

Não demorou muito para Henry se virar e deitar de lado ficando de frente para o outro. Seus olhos castanhos estavam cabisbaixos, mas não fechados. Ele se cobria com o lençol fino até a boca, como se aquilo fosse protegê-lo.

Num momento de impulso, Henry levantou a mão, tirando o lençol da mão de Erick e segurando-a com a sua. O toque fez Erick relaxar imediatamente. Henry sabia que as vezes um gesto de afeto era bom para acalmar.

— Obrigado mesmo – sussurrou Erick e fechou os olhos.

Henry ficou observando o garoto. Sua expressão ainda era de tristeza, mas havia certa paz também. Ainda dava pra ver alguns rastros das lágrimas em seu rosto, assim como a boca seca. Seu coração lhe traiu falhando uma batida. Erick era lindo de todas as formas.

Com um suspiro, Henry também fechou os olhos e caiu num sono profundo.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Mandem comentários com o feedback de vocês, pois é muito importante pra mim e para a história! Nos vemos no próximo capítulo! Ghost Kisses ~Marceline