Além das Quadras

20 Arco II – 20. Não sou nem obrigado


Notas iniciais
Olaar amores e amoras! Aqui está mais um capítulo para vocês! Queria agradecer imensamente pelos 203 acompanhamentos em AdQ! Isso é muito surreal para mim e eu não esperava que tivesse um retorno tão maravilhoso assim ♥ Agradeço muito a todos vocês que me acompanham e que estão me apoiando! Amo demais cada um de vcs ♥ Esse capítulo é um pouquinho parada, mas é necessário pra construção dessas lindezas ♥ Espero que gostem! Ghost Kisses ~Marceline


Henry não conseguia parar de pensar naquele treino que havia acontecido quando voltou de Belo Horizonte.

Aquele treino e os demais que se passaram, nos quais ele e Erick trocavam olhares cúmplices dentro de quadra. Sentia novamente a ligação que tinha com o antigo melhor amigo. E sentir aquilo de novo era tão estranhamente bom que o assustava.

Mas ainda tinha o fato de Erick não querer resolver o que quer que tivesse entre eles. Aquilo tinha doído demais, Henry não podia negar, mas também foi maravilhosa a forma como estavam jogando e se entendendo apenas com olhares.

E, obviamente, Henry queria conversar sobre aquilo. Queria saber o que estava passando na cabeça de Erick. Ele não o estava tratando de maneira babaca como nos Jogos, mas também não tinham uma relação que Henry desejava. Fora de quadra, Henry e Erick pareciam apenas colegas de equipe. Como se não tivessem um passado inteiro juntos.

Mas também, nas semanas que se seguiram, parecia impossível ter algum tipo de contato com Erick sem que fosse dentro de quadra. Chris estava levando muito a sério o fato de afastar o levantador de Henry. O central o seguia praticamente em qualquer lugar que Henry fosse e aquilo estava começando a sufocá-lo. Não gostava daquela atitude de Chris, mas não importava o que Henry dizia, ele não parava. Teve até uns dias que eles ficaram brigados e mesmo assim Chris estava sempre lá.

Às vezes, Henry achava que Chris se achava um repelente de pessoas. Talvez ele não estivesse muito errado. Sempre que passavam por Erick, Chris lançava um olhar ameaçador para ele, que virava o rosto para o outro lado, como se quisesse se aproximar, mas não o fazia por causa do armário atrás de Henry.

Agradecia muito por Chris estar perto de vez em quando, pois Henry tivera algumas crises durante a estadia em Saquarema. Mas mesmo assim, tinha vezes que Henry preferia ter uma crise sozinho a ter Chris do seu lado 25 horas por dia.

Porém, depois de uns dias, aquilo perdeu a importância, pois os treinos começaram a ficar mais frequentes e pesados. E os dias passaram tão rápido que, num piscar de olhos, já estavam entrando no avião para ir aos Estados Unidos.

Henry estava verdadeiramente impressionado com a beleza do local. Os prédios altos e chiques, as árvores espalhadas... Tudo era tão diferente do Brasil que pareciam ter ido para outro planeta. Uma das coisas que mais lhe chamou a atenção ao sobrevoar o local foram as belíssimas praias, com a água tão azul e límpida que até ele que não curtia muito teve vontade de entrar.

Saíram do aeroporto e foram direto para um hotel que ficava bem perto de uma das praias de Miami. O clima estava até agradável, levando em conta que era inverno nos Estados Unidos.

Os quartos do hotel eram bem espaçosos, contendo quatro camas, TV, frigobar, banheiro e o de Henry tinha uma janela que dava pra ver a praia. Como os quartos davam para quatro pessoas, resolveram manter os mesmo quartetos que em Saquarema.

O que destruiu todas as esperanças de dividir o quarto com Erick.

— Meu Deus, que delícia – murmurou Henry quando se jogou na cama macia do quarto.

— Não se acomode muito, temos treino em duas horas. – disse Gabriel ajeitando sua mala em um canto do quarto.

— Duas horas é muito tempo, temos que descansar um pouco – disse Chris, sentando-se na sua cama, testando sua maciez.

— Mas o local não é tão perto assim. Então estejam preparados – respondeu Gabriel no seu tom autoritário.

Depois disso, ficaram em silêncio. Danilo estava deitado em sua cama também, mexendo em seu celular com tanta concentração que nem estava prestando atenção nas outras pessoas ali presentes. Gabriel sentou-se na sua, pegando também o aparelho celular e começando a mexer nele.

Como já tinha avisado para a família que tinha chegado bem, Henry virou-se para a cama ao lado, onde Chris estava sentado, tirando seus tênis e meias. Ficou observando o outro enquanto ele pegava seu celular e mexia no aparelho também.

Ele usava a camisa azul de manga da seleção, que ficava levemente justa em seu corpo, dando pra ver os músculos fortes do braço. As pernas estavam cobertas por uns shorts, mas nem por isso deixava de mostrar as coxas definidas do garoto. Henry observou cada detalhe de Chris e subitamente teve uma vontade enorme de dar pro outro.

Queria puxar Chris para fora do quarto e sei lá, transar no elevador? Henry sempre teve esse fetiche idiota de transar em locais públicos e era muito mais interessante quando podiam ser pegos. Nunca foram, Chris sempre se certificava que não seriam. E aquela cautela toda dele deixava Henry um pouquinho irritado.

Decidiu por ficar na sua. Não fazia nem 24 horas que tinham transado pela última vez (algumas horas antes da viagem, tinham transado na praia de novo) então preferiu dar um descanso para Chris. Virou-se de costas para ele, vendo Danilo e Gabriel concentrados em seus celulares.

“Daria para esses dois também”, pensou. “Meu Deus, alguém me segura”.

Então fechou os olhos, tentando reprimir sua imensa vontade de pelo menos dar uns pegas em alguém. Porém, não demorou muito para começar a pensar como seria transar com Erick, nem que fosse no quarto, bonitinhos e comportadinhos.

Imaginou as mãos de Erick percorrendo seu corpo enquanto ele o beijava. Imaginou os corpos colados e suados, pensando como seria encostar na pele de Erick daquela forma. Imaginou o outro entrando e saindo de dentro de si, tão rápido, tão forte...

Henry levantou-se rapidamente, correndo para o banheiro logo em seguida.

Tinha ficado completamente duro ao pensar aquilo tudo.

“Puta. Que. Pariu”, pensou fechando os olhos, começando a se martirizar por aquilo.

Henry não ficava excitado com facilidade. Precisava de um pouco de tempo até que isso acontecesse de fato. Nunca tinha ficado excitado apenas imaginando coisas. Com sonhos era diferente e meio inevitável. Mas Henry estava plenamente acordado, ciente de tudo o que passava em sua mente.

Nem imaginando coisas com Chris ele tinha conseguido ficar excitado tão rápido.

— Henry? Tá tudo bem? – a voz de Chris soou alta do outro lado da porta.

— Tá sim, só não to me sentindo muito bem – mentiu.

— Quer algum remédio? Água? – ofereceu, a voz completamente preocupada. – Deixa eu entrar, vou cuidar de você.

Chris tentou forçar a porta, mas Henry a tinha trancado assim que entrara.

— Não se preocupe, eu vou melhorar.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Chris falou mais algumas coisas antes de se afastar da porta, coisas que Henry não se importou em prestar atenção.

Tinha que dar um jeito naquilo antes de voltar para o quarto.

[…]

Erick estava simplesmente encantado por estar naquele lugar.

Miami era simplesmente linda e o fato de seu quarto ficar de cara pra praia era a melhor parte. Queria se jogar nas águas azuis e nunca mais sair de lá. Infelizmente, não ficariam muito tempo naquele local. A competição duraria apenas quatro dias.

E as coisas pareciam correr bem rápido, pois não demorou muito para irem até o local em que seria a competição para poderem treinar. E num piscar de olhos, estavam no vestiário, prontos para o primeiro jogo da equipe.

Depois que chegara a Saquarema, as coisas realmente voaram. Os treinos eram intensos e Erick ficava tão cansado que não tinha vontade de fazer mais nada além de se jogar na cama e dormir até o próximo treino.

Ele deu graças a Deus por isso, pois assim podia evitar conversar com Henry. Seu plano de mantê-lo afastado estava dando bastante certo, até porque Christian não saia de perto do garoto. Obviamente Erick não iria arrumar treta com o central, mas dava pra perceber os olhares ameaçadores que ele lançava quando Erick olhava rapidamente para Henry.

Era inevitável ficar apreciando Henry. Podia querer afastá-lo, mas também podia observá-lo de longe. Estudá-lo de longe. Erick gostava de observar as pessoas e fazer isso com Henry virou seu hobby preferido.

Percebera como algumas coisas continuavam as mesmas, como o fato de ele não gostar de ser tocado por desconhecidos ou pessoas com as quais ele não tinha um certo vínculo. Como seus olhos ficavam tristes quando errava alguma bola ou como sorria lindamente quando conseguia fazer algo certo. Percebera também seus novos hábitos, como escutar música antes dos treinos, montar e desmontar um cubo mágico e ficar girando uma parte solta que envolvia seu anel.

Erick observava e com isso reparou que Henry ainda usava aquela pulseira. Aquela maldita pulseira que tinha tanto significado. A mesma que ele tacou no rosto do outro, dizendo palavras horríveis. No dia que reparou isso, Erick sentiu-se tão mal que ficou um tempão chorando silenciosamente na praia, de noite, quando ninguém podia ver.

Ele percebeu claramente que Henry não tinha desistido de tentar resolver a situação entre eles. Mas também era claro que Christian impedia o outro de tomar uma iniciativa. Pela primeira vez na vida, Erick agradeceu o central por tal coisa.

E aquilo tudo estava machucando-o de uma forma horrível. Queria resolver, mas não podia. Queria tomar uma iniciativa, mas não podia. Ele estava preferindo sofrer longe de Henry, afinal, já sofrera coisas piores.

— O técnico quer falar com a gente antes do jogo começar, vamos? – perguntou Fillip, tirando Erick de seus devaneios sobre Henry.

— Vamos – ele respondeu levantando-se do banco e caminhando com Fillip e Felipe até o local da reunião.

Ficaram ali no vestiário mesmo, Sérgio falando sobre as estratégias que usariam, para que ficassem calmos e essas coisas. Coisas que Erick estava cansado de ouvir antes de entrar em quadra.

— Bom, vamos aos titulares desse primeiro jogo. – ele disse, indo finalmente para a parte que interessava. – Levantador, André.

Erick sentiu uma decepção enorme correr pelo seu corpo. Admitia que André era um excelente levantador, mas estava com esperanças de ele ser convocado para ser titular. Respirou fundo, tentando controlar sua frustração.

Sérgio foi dizendo os nomes. Gabriel, obviamente, seria o oposto. Fillip e Felipe iriam ser os ponteiros, o que também não era de se surpreender. Quando ouviu que Christian não iria ser um dos centrais da vez, Erick teve que conter seu lado babaca, mas não conseguiu muito. Deu um sorrisinho sarcástico na direção do outro.

Christian percebeu e lançou um olhar ameaçador para Erick, mas aquela tensão entre eles logo passou quando o último integrante foi anunciado.

— Líbero, Henrique.

Erick olhou imediatamente para o outro, que tinha uma expressão completamente incrédula. Aquilo também não surpreendeu Erick de maneira alguma. Sabia perfeitamente que Henry tinha essa tendência de achar que não era bom e que não conseguiria nada na vida. Culpava a ansiedade do garoto. Às vezes, Erick queria muito achar uma espécie de cura, só para não ver Henry sofrendo com aquilo.

Não deixou de sorrir por causa disso. Henry ainda se mantinha incrédulo, perguntando ao técnico se ele estava certo sobre isso. Erick tentou ignorar Christian grudado a Henry, sorrindo tanto que ele sentiu nojo. De qualquer forma, estava feliz pelo outro.

— Sinto muito por não ter sido titular – Danilo comentou, aparecendo ao seu lado quando estavam caminhando para fora do ginásio.

Erick deu de ombros.

— Parabéns por ter conseguido. – ele disse sinceramente – É delicioso ver que você roubou a vaga daquele cara irritante.

— Tá falando do Chris?

Erick fez uma cara indignada, voltando seu olhar para Danilo.

— Que história é essa de “Chris”? – Erick perguntou fazendo aspas com a mão, o tom totalmente incrédulo – Tá de intimidade com ele é? Isso que eu chamo de dormindo com o inimigo!

— Meu Deus, Erick – Danilo riu.

Erick claramente estava brincando. Pelo menos estava tentando parecer que era brincadeira, pois não tinha gostado muito de Danilo chamando aquele garoto dos infernos pelo apelido. Erick sempre foi muito ciumento com seus amigos e qualquer coisinha era motivo para ter raiva. Ele tentava controlar isso, Amanda disse uma vez que não era muito saudável agir assim, mas era um pouco difícil não o fazer.

Ele então mudou de assunto, para não ficar muito na cara que não tinha gostado mesmo do que tinha acabado de ouvir. Não precisou de muitas palavras, pois logo estavam no ginásio amplo e arejado, com algumas pessoas ocupando as arquibancadas. Como o jogo era contra os Estados Unidos, era possível que aquele lugar ficasse um tanto cheio.

Não demorou muito para começarem a fazer alongamentos e as séries de aquecimento. Nesse momento, conseguiu observar Henry. Ele ainda tinha uma expressão incrédula no rosto e parecia bastante nervoso com o que acabara de escutar.

Toda aquela euforia que Erick estava sentido foi aumentada quando começaram o aquecimento com bolas. Já que não iria jogar como titular, ele ficou feliz por pelo menos poder fazer alguns levantamentos antes de ficar com a bunda sentada no banco.

Ficou animado e feliz em poder fazer alguns levantamentos e teve que rir internamente quando percebeu que Christian evitava entrar para a fila de jogadores para os quais Erick estava levantando. Nem se importava, por ele, Christian não receberia nem meio levantamento.

Porém, tinha um ser em especial de que Erick foi gostando ao longo dos treinos. Por mais que não fosse com a cara do garoto de imediato, Gabriel se provou um dos opostos com os quais Erick mais gostou de jogar. Gabriel era o tipo de jogador que se adaptava a qualquer bola levantada, com grandes chances de marcar ponto. Não era à toa que era a bola de segurança da equipe.

Durante esse tempo de aquecimento de rede, Erick pode observar Henry, que ainda parecia bastante apreensivo. Ele notou que algumas bolas Henry não conseguia pegar, mesmo que não estivessem numa trajetória tão complicada. Erick sabia que o outro estava sentindo o peso de ser titular da equipe e aquilo o estava atrapalhando.

Erick só desejava que ele tivesse algo para se acalmar.

A animação era tanta que em poucos minutos estavam cantando o hino nacional, cumprimentando os outros jogadores e se preparando para começarem o jogo. A apresentação dos titulares foi feita e Erick sentou-se no banco, concentrado no jogo que iria se desenrolar a sua frente. Ele estava aflito e empolgado ao mesmo tempo. Precisavam ganhar.

O time deles tinha ganhado a posse de bola, André se colocando na posição de saque. O juiz apitou, dando início à partida que estavam esperando. A bola foi com força para o outro lado da quadra. O time dos EUA recepcionou o saque muito bem, fazendo os três toque rapidamente. Fillip conseguiu salvar a bola, passando-a para André, que levantou para Danilo, marcando o primeiro ponto do jogo.

— Isso! – Erick comemorou baixinho.

Viu o time se aproximando para um abraço e depois tomando suas posições novamente. Erick se atreveu a olhar para Henry. Percebeu claramente que o outro não estava muito bem. Estava bastante pálido. Suas mãos suavam bastante, pois toda hora ele tinha que limpá-las nos shorts. Erick começou a ficar apreensivo por ele. E preocupado também.

André sacou novamente, conseguindo causar uma confusão na defesa do outro time, marcando mais um ponto. Erick comemorou internamente, focando seus olhos no jogo logo em seguida. O levantador repetiu o saque, mas dessa vez, o time adversário conseguiu recepcionar a bola, trabalhando-a com os três toques, o levantador mandando para o oposto, que marcou o primeiro ponto da equipe norte-americana.

— Tsc – Erick estalou a língua no céu da boca com impaciência. Precisava admitir que não tinha como pegar uma bola daquelas.

Foi a vez de o outro time sacar, Erick agarrando o banco em que estava sentado com muita força. Estava nervoso e não tinham nem se passado 10 minutos de jogo. O outro time sacou, Henry conseguiu fazer a recepção, mas ela não saiu tão boa assim, fazendo com que André tivesse que se deslocar um pouco para alcançá-la. Sem muita opção, ele levantou para Fillip, que infelizmente não conseguiu marcar o ponto. O outro time fez o contra ataque, mandando uma bola de meio que Henry não conseguiu pegar.

— Me desculpa! – ele disse alarmado e bastante nervoso.

— Se concentra, caralho – brigou Gabriel.

Erick viu Henry engolindo em seco e depois seguindo para sua posição. O outro time sacou de forma que André teve que pegar a bola, então Henry teria a responsabilidade de levantar a bola. Erick lembrava-se que o outro, antigamente, era péssimo em levantamento. Mas, durante os treinos, viu que isso tinha mudado. Talvez, se não fosse tão baixinho, ele poderia ser um dos levantadores da equipe.

Porém, sua habilidade de levantar o deixou na mão naquele momento. Erick não entendeu muito bem o que houve, só conseguiu ver a bola passando pelos dedos de Henry, quase caindo na sua cara por ele estar embaixo dela. A bola caiu no chão, marcando ponto para o time adversário.

Se fosse qualquer outra pessoa, Erick sentiria raiva e irritação. Mas tudo o que podia sentir naquele momento era medo e preocupação.

Com essa falha, Sérgio pediu tempo. Reuniu todos os jogadores.

— O que diabos está acontecendo, Henrique? – ele gritou, já que começou a tocar uma música no ginásio. –Você não comete esse tipo de falha!

Henry estava claramente nervoso.

— Desculpa, eu... – tentou arrumar mais algumas palavras, mas aparentemente não vinha nenhuma – Não vai acontecer de novo, desculpa.

— Eu espero mesmo! – exclamou Sérgio ríspido.

Erick não gostou nem um pouco do modo com o técnico falou com Henry, mas estava em uma posição que não podia fazer nada. Ele liberou os meninos de volta pra quadra e, nesse momento, Henry virou-se para dar uma olhada em Erick, que apenas formou com os lábios um “você consegue” e sorriu para o outro, tentando passar o máximo de confiança que podia.

Henry assentiu com a cabeça, respirando fundo e voltando para a quadra. O juiz apitou, dando início novamente a partida, com a posse de saque do time dos Estados Unidos. Erick voltou sua concentração para o jogo, mas não demorou muito pra ser rudemente interrompido.

— Mas que merda tu tá pensando que tá fazendo? – a voz de Christian soou baixa, mas o tom de irritação e raiva era grande. Aquele sotaque gaúcho lhe irritava profundamente. – Eu mandei você ficar longe dele.

Erick nem se deu o trabalho de virar para o outro.

— Não sou nem obrigado – respondeu simplesmente.

— Olha pra mim quando eu falo com você! – ele se irritou, pegando no braço de Erick, que se desvencilhou rapidamente.

— Não. Toca. Em. Mim – disse pausadamente, deixando a raiva sair. – Tu não paga minhas contas, não te devo nada. Agora vai caçar rumo.

— Eu não vou deixar que tu estrague a vida dele.

Erick voltou seu olhar para Christian.

— Parece que tu que tá estragando a vida dele – Erick disse com deboche. – Alguém que fica fugindo de outra pessoa é porque não quer ela, não é mesmo?

— Ele não tá fugindo de mim! – Chris gritou. Erick definitivamente amava provocar aquele idiota.

— Tadinho, é iludido – Erick fez um biquinho de escárnio e sorriu em deboche. – Você não é nada pra ele, não adianta negar.

— Ele é meu namorado e se você chegar perto dele mais uma vez...

Christian foi interrompido pelo apito alto do juiz e por um grito estrangulado. Os olhos de Erick viraram-se imediatamente para a quadra, vendo Henry jogado no chão, todo encolhido com as mãos nas orelhas.

Ele não pensou duas vezes antes de sair correndo para o meio da quadra, gritando para todo mundo sair de perto. Se ajoelhou ao lado de Henry, vendo que o garoto estava chorando, com os olhos extremamente apertados. Ele murmurava coisas desconexas e de vez em quando dava umas risadas sofridas.

Erick, por mais que seu coração estivesse martelando em seus ouvidos, não perdeu tempo em pegar as mãos de Henry com delicadeza, tentando tirá-las das orelhas do outro.

— Henry, olha pra mim – ele disse.

Fazia tanto tempo que isso não acontecia, pelo menos que Erick presenciara e tentara ajudar. Mas, mesmo depois de tanto tempo, ele sabia perfeitamente o que tinha que fazer. Aquilo não mudaria nunca.

— Hey, sou eu, cara! – ele disse suavemente. Henry virou-se os olhos vermelhos pra Erick, que sentiu uma pontada no coração ao ver o outro naquele estado. – Vamos lá, qual a capital da Rússia?

— Moscou – respondeu fraco.

— Qual é a fórmula de Bhaskara?

— X igual a menos b mais ou menos raiz de b ao quadrado menos 4 vezes ac dividido por 2 a – ele respondeu automaticamente, um pouco mais alto.

— Quantas ligações o carbono pode fazer?

— No máximo quatro.

Erick continuou com mais algumas perguntas bobas sobre matérias escolares. Por um segundo teve vontade de perguntar “numa escala de 0 a 10, quanto ódio você tem de mim?”, mas não falou nada sobre aquilo, obviamente. Não queria deixar o outro pior do que ele estava.

Não demorou muito para Henry melhorar, respirando com mais calma. Erick limpou as lágrimas de seu rosto e ajudou-o a levantar. Todos estavam a volta dos dois, observando o desenrolar da cena sem fazer nada depois do grito que Erick deu para todos se afastarem. E ele sentia um olhar em especial, queimando sua nuca como nunca. Mas claramente não estava se importando com aquilo.

Christian podia ajudar Henry quando Erick não podia fazer, mas agora não ia perder tempo pensando no que o idiota pensava. Iria ajudar Henry bem na fuça de Christian porque sim.

Quando estavam em pé, todo mundo começou a perguntar se ele estava bem e o que tinha acontecido. Antes que Henry pudesse responder, Erick o pegou pelo pulso, puxando-o para sentar no banco e lhe dando uma garrafinha de água. Henry bebeu o conteúdo rapidamente, olhando para Erick logo em seguida.

Nada precisava ser dito. Aquela cena tinha se repetido tantas vezes na vida dos dois que Erick não precisava de um agradecimento verbal para saber que o outro sentia gratidão. Ele apenas assentiu e tentou esboçar um sorriso, mas, antes que pudesse fazer isso, foi praticamente jogado para o lado, Christian tomando seu lugar, completamente preocupado.

— Eu to bem, Chris – disse Henry com firmeza. – Parece que os calmantes não adiantaram muito.

Porém, Chris também foi interrompido por Sérgio, que abriu caminho até ali, completamente alarmado. Ele primeiro perguntou se Henry tava bem, certificando-se que não tinha acontecido nada além daquilo que presenciaram.

— O que aconteceu? – perguntou depois, franzindo o cenho de leve.

Erick viu Henry um pouco sem graça.

— Eu sofro de ansiedade... Algumas vezes tenho crises como essa e crises de pânico. Eu...

— Ele toma calmantes antes dos jogos – continuou Christian. – Eu já falei mil vezes que ele precisa procurar um psiquiatra pra tomar um remédio que faça efeito, mas ele nunca me escuta.

— Eu não preciso disso! – exclamou Henry, um tanto irritado. Aparentemente já tiveram aquela conversa mais de uma vez. – Mas ele tá certo. Eu não tomo medicamentos e não frequento terapia como deveria.

— Não vamos discutir isso agora – disse Sérgio – Você fica no banco. Andrade, pra quadra.

— O que? Não! Eu posso jogar. Eu estou bem, juro! – exclamou Henry, levantando-se.

— Me desculpe, Henrique, mas não quero arriscar.

Então ele mandou todos para quadra e, quando Andrade passou por Henry, lançou um olhar e um sorriso de escárnio. Erick teve vontade de bater naquele indivíduo abusado, mas obviamente não fez nada.

Quando se virou para sentar no banco ao lado de Henry para ter certeza que estava tudo bem, ele deparou-se com Christian colado ao outro, fazendo pergunta atrás de pergunta. Erick conteve o ciúme que tomou conta de si, sentando-se o mais longe possível daqueles dois.

Tentou concentrar-se no jogo, mas era um pouco difícil quando Henry e Christian estavam ali de mimimi tão perto dele. Sentia vontade de arrancar Henry de perto daquele idiota, mas não ia fazer aquilo, obviamente.

O jogo prosseguiu e, depois de um tempo, Erick foi tirado de seus devaneios quando Danilo, que estava indo para a zona de defesa e tinha que deixar Andrade tomar seu lugar naquela área, sentou-se ao seu lado no banco*. Tinham poucos minutos para conversar, uma vez que depois de alguns rodízios, ele entraria de novo.

— Confesso que fiquei preocupado com Henry – comentou Danilo, bebendo um pouco de água. – Foi muito tenso.

— Sim, sempre foi... – disse Erick, voltando seus olhos para Henry, que ainda se mantinha ao lado de Christian com uma cara abatida.

— Foi muito legal da sua parte ajudar – continuou Dan – E fiquei impressionado com sua calma.

Erick deu de ombros.

— Eu perdi as contas de quantas vezes já tive que ajudar ele nessas situações... Meio que já to acostumado.

Ficaram em silêncio por alguns segundos, vendo o andamento do jogo.

— E seu plano de se afastar?

Erick piscou os olhos, olhando para Danilo.

— Não esqueci... – ele disse baixinho – Mas não podia deixar ele sofrendo.

Era a mais pura verdade. Ele nunca iria pensar duas vezes antes de ajudar Henry. Já se arrependera o suficiente de ter desencadeado algumas crises e não ter feito nada.

Danilo assentiu, sorrindo um pouco de lado para Erick. Ele não entendeu muito aquele sorriso, mas não importava de fato. Voltou sua atenção para o jogo, percebendo que já era a hora de Danilo entrar em quadra novamente. O central levantou-se, passando a mão nos cachos de Erick e indo para quadra.

Erick soltou um suspiro e olhou de esguelha para o lado, onde pegou Henry o encarando enquanto Christian conversava com outro reserva. Não conseguia decifrar a expressão no rosto de Henry, mas conseguiu entender perfeitamente o que seus lábios gesticularam alguns segundos depois.

Obrigado.

[…]

Henry não estava acreditando que tivera uma crise de ansiedade justo durante a merda do jogo. Mesmo que aquilo já tivesse passado, que tivessem ganhado o jogo e o campeonato, ele ainda se martirizava por aquilo. Ainda mais que o técnico o tinha vetado de jogar.

Eles conversaram depois de terem ganhado. Sérgio dissera que confiava demais no potencial e nas habilidades de Henry, mas se ele quisesse mesmo jogar profissionalmente, ele deveria fazer terapia. E aquilo foi reforçado pela psicóloga da equipe.

— Porque você não fazia terapia? Mesmo sabendo que tinha esse problema? – ela perguntara.

— Nunca me dei bem com esse lance de me abrir – ele dissera, mesmo a contra gosto. Tinha que parar com aquela bobeira. – Prefiro resolver isso sozinho.

— Isso é sério, Henrique. – ela dissera, séria. – Seu quadro de ansiedade é bem perigoso. Como não sou psiquiatra, vou te encaminhar para uma. Acredito que você precisará tomar remédio para controlar essa ansiedade. Mas não se preocupe, ela é uma excelente profissional e vai te ajudar bastante.

Henry soltou um suspiro. Tudo que menos queria era começar a tomar remédio por causa daquela merda de ansiedade. O problema era que ele sabia que, se não começasse a tomar, o que acontecera em Miami iria se repetir. Não apenas uma, mas várias e várias vezes. E ninguém iria querer um jogador tendo crises de ansiedade no meio dos jogos.

— Tudo bem... – ele aceitara, mesmo que não quisesse.

— Muito bem! – ela parecia um pouco animada. – Seria interessante você continuar com um acompanhamento com uma psicóloga. Eu adoraria te atender, mas minha agenda anda bem lotada ultimamente. Vou te dar o contato de uma amiga de confiança. Ela também vai te ajudar muito a passar por isso.

Henry assentiu, querendo morrer.

Quanto aos acontecimentos seguintes de sua crise, Henry não sabia muito bem o que pensar. Erick o havia ajudado. Mesmo depois de ter dito que não podiam ser amigos. Ele realmente não entendia o outro. Não como antes. Aquilo era péssimo e, toda vez que ele se pegava pensando a respeito, tinha vontade de chorar. Às vezes, ele não conseguia parar de pensar que precisava do outro. Não queria depender de Erick de novo, mas aquelas situações com Erick eram tão mais... Emocionais... Era simplesmente diferente de qualquer outra coisa.

Porém, ele estava aliviado por voltar para o Brasil e finalmente se separar de Erick. Ele iria para Belo Horizonte e o outro para o Rio de Janeiro. Não se veriam nem tão cedo novamente e aquilo era um incentivo para Henry seguir em frente, mesmo que não quisesse que fosse daquela maneira. Ele estava cansado de correr atrás, mas, toda vez que alguma interação acontecia entre eles, Henry ficava esperançoso, nem que fosse um pouco.

Ele precisava tirar aquilo tudo da cabeça. Precisava tirar Erick da cabeça.

Eles não se falaram muito depois do agradecimento silencioso que Henry tinha feito. Obviamente, Chris não deixava, mas Henry também não estava disposto para tal coisa. Queria, muito, de verdade, mas a carga emocional que aquilo iria lhe trazer seria péssima e ele não precisava de mais drama na sua vida naquele momento.

Deixou esses fatos em off quando conversou com sua mãe.

Seus pais e irmãos tinham ficado felizes com sua volta, mas era claro que Cassandra iria brigar com ele por causa da crise.

— Quantas vezes eu já não disse que você tem que frequentar uma psicóloga? – ela disse séria. – Eu sou uma péssima mãe, deveria ter forçado você a ir.

— Sua louca! Você não é uma péssima mãe... Eu só achei que não era necessário.

— Desde que você foi diagnosticado com isso, eu tento fazer as coisas certas, mas você nunca cooperava.

— Eu sei. – respondeu Henry, suspirando – Agora eu sei que isso tudo é uma merda e que eu vou ter que fazer terapia.

— Acho bom mesmo. Não quero meu bebezinho sofrendo assim durante os jogos – ela falou com a voz mais amena e abraçando Henry fortemente. – Eu fico preocupada com você, anjo.

— Eu sei, mãe... Desculpa por não te escutar – ele disse, acariciando as costas da mulher.

Ela não disse nada a respeito, apenas acariciou o cabelo de Henry.

— Vou providenciar a psiquiatra e a psicóloga – ela disse se afastando, pois Henry já havia lhe dado os cartões.

Ele estava torcendo, e muito, para que aquilo ajudasse. Sua vida estava mesmo virada de cabeça pra baixo. Ele precisava colocar os pensamentos em ordem. Desabafava com Marge, o que era sempre bom, mas com certeza não era a mesma coisa que ajuda profissional.

Colocou na cabeça que se esforçaria pra falar. Se esforçaria para fazer as coisas darem certo. Ele precisava mudar. Precisava parar de deixar a ansiedade lhe dominar, como havia dominado durante toda sua vida.

Henry estava pronto e não iria desistir de tentar ficar bem.

Mesmo que as coisas tivessem que piorar muito antes.

Salvar

Notas finais
* Essa parte pode ter ficado um pouco confusa para quem não conhece o rodízio do vôlei. Pois bem. Os centrais só podem ficar na zona de ataque, então, toda vez que, no rodízio, um deles está prestes a entrar na zona de defesa, ele é substituído pelo líbero, que só pode ficar na zona de defesa. Essas duas posições se completam muito, pq quando uma sai a outra entra. Como o Danilo é um dos centrais e o Andrade é o líbero, nessa cena o Andrade entrou no lugar do Danilo para jogar na defesa ♥ Espero que tenham entendido e que tenham gostado do capítulo! Não deixem de comentar! Eu posso não responder com rapidez, mas sempre respondo e amo ver o que vocẽs estão achando a história! ADQ TEM UM GRUPO NO WHATSAPP! SE TIVER INTERESSADO EM ENTRAR, ME PASSE SEU NÚMERO COM O DDD POR MP Como no capítulo anterior, não terá previsão por motivos de: atolada na faculdade e na vida. Bom Nos vemos nos comentários ♥ Ghost Kisses ~Marceline