Além das Cinzas

1 Além das Cinzas


O cheiro a fumo enchia o ar. Corpos jaziam no chão, a terra tingida de vermelho. O soldado caiu de joelhos, exausto, a rifle pesada nas mãos trémulas. A batalha estava perdida. Olhou à sua volta, procurando rostos conhecidos, mas apenas encontrou silêncio.

As lágrimas queimavam-lhe os olhos, mas não chorou. Não havia tempo para luto na guerra. Respirou fundo. Levantou-se. Enquanto estivesse vivo, a luta continuava. A guerra ainda não tinha terminado, e ele também não. Entre cinzas e dor, a única opção era continuar.

Porque desistir significava esquecer aqueles que tombaram. E isso, nunca faria.

Lembrou-se dos dias antes da guerra. O treino duro, os risos partilhados, as promessas feitas sob o céu estrelado. Sonhavam com vitórias, com voltar para casa como heróis. Mas a guerra não era feita apenas de glória. Era medo, fome, frio. Era perder amigos antes de poder dizer adeus.

Ainda assim, aqueles momentos de esperança existiram. Fechou os olhos por um instante, agarrando-se a essas memórias. O inimigo podia tirar-lhes tudo, mas nunca o passado. Enquanto recordasse os que lutaram ao seu lado, eles nunca estariam realmente mortos. E por eles, ergueu-se mais uma vez.

O corpo do companheiro jazia imóvel a poucos metros. O soldado avançou, ignorando o perigo.

A guerra não dava tempo para despedidas, mas ele não podia simplesmente seguir em frente. Agachou-se e fechou os olhos do amigo caído. “Prometemos voltar juntos.” A voz saiu trémula, mas firme.

Os tiros ao longe lembravam-lhe que devia continuar. A guerra não esperava pelo luto. Respirou fundo e levantou-se, deixando a promessa inacabada para trás. Mas dentro de si, sabia: nunca se esqueceria. Enquanto tivesse forças, carregaria aquela memória. Porque morrer em batalha não era o fim. O esquecimento, esse sim, era.

A noite era fria, e a munição escasseava. O soldado e os poucos sobreviventes preparavam-se para o último confronto. Não sabiam se veriam outro amanhecer, mas ninguém recuou. Lutar era tudo o que restava.

O primeiro disparo rasgou o silêncio, seguido de gritos. O caos instalou-se. Ele avançou, cada bala disparada um tributo aos que caíram. O medo estava lá, mas a esperança também. Se vencessem, poderiam reconstruir. Se perdessem, ao menos teriam lutado até ao fim.

Quando o primeiro raio de sol surgiu no horizonte, ainda estava de pé. Exausto, ferido, mas vivo. E isso bastava.

O sol nasceu, tingindo o céu de laranja e dourado. A guerra terminara. O campo de batalha estava coberto de destroços, mas o silêncio já não era de morte era de renascimento. O soldado caiu de joelhos, não em derrota, mas em alívio. Sobreviveu.

Por todos os que se foram, por todos os que nunca desistiram, ele respirava. Ergueu-se, encarando o futuro. A guerra levou-lhe muito, mas não a esperança. Enquanto o sol continuasse a nascer, haveria sempre uma nova batalha para vencer. E, acima de tudo, haveria sempre uma razão para seguir em frente.

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