Além da vida

17 Jacob- Fantasmas


O sonho parecia tão real que ainda podia sentir o cheiro de madeira velha do quarto onde tudo aconteceu. Vinte e três anos atrás, mas aquela noite nunca me deixou.

Eu estava no meio da sala, encarando Eva como se ela fosse uma estranha.

— Você está me dizendo que... — as palavras quase engasgavam na minha garganta. — Que esteve com Seth?

Eva baixou o olhar, o rosto encharcado de lágrimas.

— Não é como você está pensando, Jacob — ela disse, a voz trêmula. — Eu... eu errei, mas foi só uma vez.

— Só uma vez? — gritei, sentindo a raiva tomar conta. — E acha que isso muda alguma coisa?

Ela deu um passo na minha direção, as mãos levantadas, como se tentasse me acalmar.

— Eu não sei o que aconteceu, Jake. Foi no começo, antes de termos algo sério...

— Antes de termos algo sério? — interrompi, rindo sem humor. — Então você decidiu não me contar por quê? Estava esperando o momento certo ou simplesmente achou que eu era idiota demais para descobrir?

Ela respirou fundo, os olhos implorando por compreensão.

— Eu não queria te perder. Eu te amo, Jacob. Foi um erro, e Seth tem usado isso contra mim desde então.

Meu sangue ferveu.

— Ele está te chantageando? — perguntei, minha voz um tom mais baixo, mas ainda carregada de fúria.

Eva assentiu, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Ele disse que contaria tudo e destruiria nossa vida.

Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. A raiva cresceu até que não consegui mais segurá-la. Minhas mãos encontraram a primeira coisa ao alcance — um abajur — e o joguei contra a parede. O som de vidro quebrando ecoou pelo quarto.

— Você destruiu nossa vida, Eva! — gritei, passando as mãos pelo cabelo, frustrado. — Não Seth, você!

Ela recuou, assustada com minha explosão.

— Jacob, por favor...

— Não quero ouvir mais nada — rosnei. — Saia daqui, Eva. Eu não consigo nem olhar para você agora.

Ela hesitou, mas finalmente virou as costas e saiu pela porta, me deixando sozinho com os destroços, tanto do quarto quanto do que tínhamos construído juntos.

—--

Acordei ofegante, com o peito pesado e a sensação de vazio ainda pairando sobre mim. Passei as mãos pelo rosto, tentando afastar o pesadelo. Não era só um sonho; era uma lembrança.

— Jake? — Isabelle murmurou, sua voz sonolenta.

— Está tudo bem — respondi, tentando soar mais calmo do que me sentia. — Volte a dormir.

Ela hesitou, mas acabou se ajeitando novamente na cama.

Levantei, sentindo que precisava de ar, algo para aliviar a tensão que o sonho tinha deixado. Caminhei até a varanda do quarto e encarei a escuridão lá fora, os campos iluminados apenas pela lua.

— Foi minha culpa — murmurei para mim mesmo, o peso das palavras se assentando em meus ombros.

Porque, no fundo, eu sabia que era verdade. Se tivesse percebido antes, se tivesse lutado mais, talvez as coisas tivessem sido diferentes. Talvez Eva ainda estivesse aqui.

Na manhã seguinte, sentei-me à mesa para o café em família. O cheiro de pão fresco e café enchia a cozinha, mas a tensão no ar era palpável. Isabelle já estava sentada, com a expressão de quem guardava um sermão para qualquer oportunidade. Jeremy mexia no celular distraído, e Claire, como sempre, era a primeira a quebrar o silêncio.

— Pai, a Renesmee vai chegar às nove. Quero que ela conheça o estábulo principal antes de qualquer coisa.

Antes que eu pudesse responder, Isabelle soltou um suspiro alto, acompanhando-o com um revirar de olhos teatral.

— Isso de novo? — ela disse, cruzando os braços. — Desde ontem vocês não param de falar dessa Cullen.

Claire revirou os olhos de volta, mas manteve a calma.

— É porque ela vai ser nossa veterinária, Isa. É normal falarmos sobre ela.

— Veterinária ou não, ela parece mais um problema do que uma solução — Isabelle retrucou, o tom carregado de ressentimento. — Admito, ela é ótima no currículo, mas todo mundo sabe que você só quer ela aqui porque parece com...

— Chega, Isa — interrompi, sem erguer os olhos do prato.

Ela abriu a boca para retrucar, mas eu a ignorei, voltando-me para Jeremy.

— Quero que você resolva isso. Receba a Renesmee, apresente as instalações, o básico. Eu preciso supervisionar a chegada dos novos cavalos.

Jeremy assentiu sem entusiasmo, ainda concentrado no celular.

— Tá bom, pai.

Levantei-me da cadeira, ignorando o olhar irritado de Isabelle. Passei por Claire, inclinando-me para beijar seus cabelos.

— Obrigado por organizar tudo, minha paz.

Ela sorriu, satisfeita, enquanto Isabelle bufava.

Sem dizer mais nada, saí em silêncio, deixando-os lidar com as farpas e tensões. O trabalho me esperava, e essa casa precisava de mais ação e menos discussões.

...

Caminhei pelo haras ao lado de Collin e Brad, sentindo a brisa fresca da manhã enquanto observávamos os estábulos. Meu olhar passou de relance pelo cercado onde Tornado estava, calmo e imponente como sempre. Ele era mais que um cavalo para mim; era um símbolo de algo que não podia ser tocado, algo sagrado. Não o montava desde que Eva se fora, e não seria hoje que quebraria essa regra.

Eu estava montado em Estrela Negra, uma égua Friesian de pelagem brilhante e porte imponente. Era uma montaria confiável e ágil, perfeita para o trabalho que tínhamos pela frente.

— Então, Collin, qual sua aposta entre os novos? — perguntei, acariciando o pescoço de Estrela Negra enquanto caminhávamos em direção à estrada de terra.

— Olha, chefe, estou ansioso pelo Hanoveriano — Collin respondeu, com um brilho nos olhos. — Versátil, bonito, e com pedigree de sobra.

Brad soltou uma risada curta, ajeitando o chapéu.

— Hanoverianos são ótimos, mas vou ficar com o Lusitano. É força e elegância em um único cavalo.

Sorri de canto, apreciando o entusiasmo dos dois.

— Vocês esquecem do Puro Sangue Inglês. Velocidade e potência. Isso é o que vai reforçar nosso plantel.

Cruzamos o campo até a estrada de terra, onde o caminhão já estava estacionado. Alguns dos peões guiavam os cavalos cuidadosamente para fora. Parei ao lado de Collin e Brad, observando enquanto um Hanoveriano de pelagem castanha brilhante era conduzido.

Desmontei de Estrela Negra e caminhei em direção ao entregador, um homem baixo, de cabelos grisalhos e semblante tranquilo.

— Jacob Black? — ele perguntou, estendendo a mão.

— Sou eu. — Apertei sua mão firmemente. — Os cavalos chegaram bem?

— Sim, senhor. Fizemos paradas regulares, água fresca, tudo conforme o combinado. São animais valiosos demais para correr qualquer risco.

— É o que espero. — Meu olhar seguiu para o Hanoveriano, que era avaliado por um dos peões. — Esse é o Hanoveriano?

— Ele mesmo — respondeu o entregador. — Forte, bem treinado, e com linhagem comprovada.

Brad se aproximou, analisando o cavalo com atenção.

— Impressionante. Dá para ver que veio de um criador de alto nível.

— Temos orgulho disso, senhor. Além dele, trouxemos o Lusitano e dois Puro Sangue Inglês.

— E a saúde? — perguntei, cruzando os braços.

— Verificada antes da viagem. Toda documentação está em ordem, e os animais estão em perfeitas condições.

Assenti, satisfeito.

— Bom trabalho. Brad, Collin, levem os cavalos para o estábulo principal para avaliação antes de liberarmos para os pastos.

— Pode deixar, chefe — Collin respondeu, indo ajudar com o descarregamento.

— Certo. — Olhei para o entregador. — Vamos acertar os papéis no escritório, e você estará liberado.

Ele assentiu, e enquanto voltávamos para o haras, meu olhar encontrou novamente Tornado no cercado. Ele parecia me observar, como se soubesse de tudo. Respirei fundo, afastando os pensamentos. Havia trabalho a fazer, e agora não era hora de lidar com fantasmas do passado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.