Além da psicologia
16 Uma conversa séria
Notas iniciais
Ás vezes eu pensava que não poderia surpreender mais ninguém. E, como sempre, eu errei.
– Sobre quem seria? — perguntou Liliane, curiosa.
– Meu namorado — respondi. Era estranho chamar Filipe de namorado para os outros.
– O Filipe?
– Não, Jonh Green.
Liliane arregalou os olhos. Sério, essa foi uma das respostas mais impulsivas que já dei na vida. Geralmente conseguia controlar certos comentários desnecessários, mas nesse dia eu estava impossível! Meus pés batiam irrefreavelmente no chão. Levei a mão inúmeras vezes ao cabelo. Desamarrotei a camisa — que por acaso nem estava amarrotada. Meu tique de piscar o tempo todo estava a mil.
– Pare, Karine! — Liliane se levantou e veio até mim. — Acho que já está na hora de ir a um psiquiatra.
Quando ouvi a palavra psiquiatra, estremeci. Desde quando descobri meus transtornos fiz de tudo para não precisar de um psiquiatra ou de remédios, mas Liliane estava prestes a estragar tudo!
E eu a odiei por isso! Odiei!
– Argh! Eu te odeio! — gritei.
– Karine, você não é mais criança! Tem que aprender a se controlar.
Apertei o braço da cadeira. Minha cabeça estava doendo demais. Não parava de piscar.
– Karine — Liliane voltou a ficar calma. — Nós duas sabemos que seu défcit de atenção está atacado hoje por causa do incidente de ontem.
– Eu não chamaria aquilo de incidente.
Liliane me abraçou. Ela sempre soube que eu era propença a abraços.
– Por favor — ela implorou. — Visite o psiquiatra.
Aquiesci. É claro que eu não a odiava.
– Bem — ela retomou. -, por que você quer conversar sobre seu namorado?
Liliane voltou para sua cadeira e eu me pus a falar:
– Percebi uma coisa nele. Aliás, duas.
– o quê?
– Tive uma crise de ansiedade ontem. Ele estava comigo antes e eu o pedi para ficar sozinha.
– E ele não quis?
– Muito pelo contrário, se foi no meu primeiro pedido.
Liliane juntou as mãos, pensativa.
– Vai ver ele já saiba que oferecer resistência só piora as coisas — concluiu.
– Já cogitei essa ideia — falei. — Mas o Filipe sempre pareceu tão preocupado...
– Compreendo. Por que você não conversa com ele.
Fiz silêncio. Como tocaria nesse assunto com Filipe? Mas tudo bem.
– Pode ser.
– E qual a Segunda coisa que você percebeu no Filipe?
Ferrou. Agora teria que falar que Filipe não tinha muito controle quando se tratava de sexo.
– Bem, não comente sobre isso com a minha mãe.
– Nossa, você falando assim jã posso até imaginar do que se trata.
– Digamos que... Quando nos beijamos... Filipe perde o controle.
Liliane perdeu a cor do rosto.
– K-karine! Vocês...
– Não! Eu não prossegui.
– Acho que agora entendi por que você vei falar comigo sobre isso.
– Por quê? Nem eu sei ao certo.
– Você teme se entregar a ele. — Sim, de fato! — Quer que eu lhe aconselhe?
– Na verdade eu queria que você me explicasse por que ele age assim.
Liliane riu.
– Sou psicóloga, não pajé. Não sei de tudo, Karine. Tente conversar com ele.
Será que toda a conclusão obtida vai ser conversar? Sendo assim, resolvi ir embora.
+++
– Anotei tudo que foi dado na escola — disse Filipe quando abri a porta para ele.
Não estava mais de uniforme então concluí que ele havia ido para sua casa antes de vir até mim.
– Obrigada, Filipe — agradeci.
– O que você fez hoje?
– Nada demais. Visitei minha psicóloga apenas.
– Você está bem?
– Liliane vai me encamhinhar para um psiquiatra.
Filipe pareceu ficar confuso.
– Psiquiatra?
– Eu ainda não estou louca, se é isso que você está pensando. Mas vou precisar tomar remédios.
Filipe suspirou e me abraçou.
– Vamos almoçar — chamei.
Como não estava a fim de cozinhar, requentei o almoço do dia anterior e nbos servi.
Quando terminamos de comer, Filipe foi para a sala assistir televisão. Fui para o meu quarto pensar um pouco.
Teria mesmo que conversar com Filipe como Liliane falou? E se ele se sentisse incomodado? Mas se eu não perguntasse, não teria respostas.
Aproveitei que estava em um dia de impulsividade total e fui falar com Filipe.
– Podemos conversar? — perguntei sentando ao seu lado.
– Claro. — Filipe desligou. A televisão. — Sobre o quê?
– Sobre... Você.
– Eu? Fiz alguma coisa que você não gostou?
– Não exatamente.
Filipe franziu as sobrancelhar.
– Não estou te entendendo, Karine.
Respirei fundo. Como tocaria nesse assunto? Talvez se eu mostrasse pra ele o que ele faz quando... Isso! Estava na hora de transformar a conversa em prática.
– Filipe, saia daqui — falei para testá-lo.
No mesmo instante Filipe me olhou nos olhos e assentiu. Se levantou para ir embora, mas eu o segurei. Ele estava fazendo de novo!
– Escuta, Filipe! — falei mais alto. — Por que você vai embora logo quando peço para você sair?
Filipe piscou e pareceu voltar a si.
– Hã... Você pediu para eu sair.
Me levantei e segurei suas mãos.
– Mas não significa que necessariamente você precise sair.
Filipe ficou mais confuso ainda. Ele parecia um pouco diferente.
– Filipe — continuei. — Você não quer me contar nada?
Filipe ficou vermelho.
– O que eu teria para lhe contar? — ele respondeu na defensiva.
– Percebi que você se afasta imediatamente quando peço.
Filipe pressionou as têmporas com os dedos.
– Karine... Eu faço isso mesmo?
– Sim, Filipe. E...
Me interrompi. Como falaria para ele o segundo assunto? Não poderia simplesmente dizer que ele tinha um certo desejo incontrolável por sexo.
– E...?
– Você apressa muito as coisas — soltei.
Filipe, que já estava confuso, balançou a cabeça mais confuso ainda.
Teria que usar da prática novamente. E eu aqui pensando que os TDAHs que tinham pensamento lento...
Eu o beijei. Mas minha preocupação dobrou. Poderia ser ele a se descontrolar, ou eu me deixar perder o controle com ele. Não seria muito difícil as duas coisas acontecerem ao mesmo tempo.
O sinal de que deveriamos parar se deu quando Filipe tentou levantar minha camisa. Me afastei na hora.
– Você não percebe?! — acusei.
– Não estou entendendo você, Karine!
Minha dor de cabeça aumentou. Éramos dois desiquilibrados na sala. Aonde iríamos chegar?
– Filipe, você não tem muito controle — esclareci.
Filipe parou de respirar. Seus olhos ficaram muito vermelhos e percebi que havia tocado em uma ferida sua.
– Você tem algo a me contar — incitei. — Não tem?
Abracei seu pescoço. Ele parecia tão desolado...
– Karine, você já tem problemas demais para me ouvir — Filipe lamentou.
– Não diga isso! O que são meus problemas pertos dos seus? Eu também me preocupo com você. Não existe só você nessa relação! Eu também te amo!
Só me dei conta das palavras depois de as ter tido. Filipe suspirou e voltou a se sentar.
– Você disse que me ama — ele falou.
– Se eu posso vencer minhas limitações, você também pode.
E, pela primeira vez, vi Filipe chorar.
– Karine, isso me pertuba dia e noite — declarou Filipe entre um soluço e outro.
– Eu entendo tudo sobre perturbações. Conte-me.
– Você vai me odiar!
– Filipe, me diga o que tanto o pertuba. O que traumatizou você.
Filipe estremeceu e, por fim, falou o que me deixou no chão:
– Transei com minha mãe.
Fale com o autor