Além da psicologia
6 Primeira semana, arranjo briga, conheço um nerd e começo um caminho pesaroso
Notas iniciais
Acordei e vi o sol já alto. Era sete e meia. Sete e meia? Já deveria estar na escola há quinze minutos!
– Ah, você acordou. — Minha mãe apareceu sorrindo na porta do meu quarto.
– Por que você não me acordou antes?
–Liguei para sua psicóloga ontem. Você teria uma consulta hoje pela manhã, mas ela acabou de me ligar para cancelar. Arrume-se para ir a escola.
A voz de minha mãe parecia calma demais. Havia algo errado.
– Vou chegar atrasada!
– Eu sei.
Ela se retirou. Tomeu meu banho e me arrumei. Parecia que eu ainda estava dormindo, que ainda iria acordar seis horas e tudo estaria normal.
Um ônibus acabou de passar. Que droga! Chegarei mais atasada ainda! Despedi-me de minha mãe e fui esperar o próximo ônibus. Fiquei dois minutos na rua e lembrei que tinha de pegar um livro. Entrei, mas percebi vozes no quarto da minha mãe. Ela estava falando com alguém no telefone. Mas com quem?
– ... não tem mais problema... Sim, sim, a atrasei por tempo suficiente; ainda nem pegou o ônibus... Obrigada, pode deixar.
Voltei correndo para rua antes da minha mãe me ver. Por que minha mãe queria que eu chegasse atrasada na escola? Isso descobrirei quando chegar lá.
Entrei na escola e peguei uma autorização para entrar no segundo horário. Quando o monitor não estava olhando, subi as escadas rapidamente. Fui até minha sala e vi pela janela que a coordenadora estava lá. O que a coordenadora faria na minha sala no segundo dia de aula? Encostei a orelha na porta e ouvi vozes abafadas.
– ... então, peço que sejamos compreensíveis com ela — ela pedia. Compreensíveis com quem?
– Compreensíveis? Ela me acertou uma bolada na cara.
– Você provocou a coitadinha! Ela é uma garota problemática.
– É — uma voz de garoto falou. — Se mexer com ela, ela terá um ataque e pulará em cima de você. Ela é esquisofrênica?
– Não, não. A mãe dela disse que...
Tirei o ouvido da porta. A minha mãe disse? Então foi isso! Traição materna! Minha mãe falou pra coordenadora dos meus transtornos e não queria que eu chegasse cedo pra não ouvir a minha própria ridicularização. Agora a turma toda, senão o colégio, sabia que eu sou uma transtornada. Corri até o banheiro e me tranquei lá. Não queria sair tão cedo.
Ouvi o sino tocar três vezes. Agora era o quarto horário. Filosofia. Eu amo filosofia. Sai do banheiro e entrei na sala durante a troca de professores. Todos me encararam. Aguns com piedade, outros com malícia e a maioria ria.
Sentei na minha cadeira e o professor entrou. Em poucos minutos de aula, jogaram-me um bilhete. Sabia que dali não sairia nada de bom.
"Vai querer arrumar encrenca, Garota Problemática?"
Não sabia se ficava com raiva ou triste. Com certeza isso foi obra do pessoal do fundão.
– Algum problema? — perguntou-me o professor ao ver meus olhos marejados.
– Não senhor — menti.
Quando eu pensei que poderia terminar o dia sem mais nenhum problema, um garoto com cara de retardado colocou um celular em minha visão.
– Olha isso — ele apresentou a mim um vídeo.
De início não entendi o porquê dele está me mostrando o vídeo, mas logo percebi que era eu no vídeo. De camisola e chorando, me cortando, gritando, meu pai sendo ridículo; logo percebi que quase toda a sala estava me rodeando vendo o vídeo.
– Olha só, a Garota Problemática! — debochou uma das garotas metidas.
Estava pensando em responder quando um moleque idiota me deu um tapa na cabeça.
– Não mexe com ela, Talis — pediu um. — Ela pode ter uma crise de ansiedade.
Em poucos segundos eu era a piada da sala. Com exceção das nerds e o garoto de óculos grossos, o resto da turma estava zombando de mim. O professor de filosofia parecia nem perceber.
E foi ai que tive outra confusão mental. Vozes ecoando, um frio percorrendo meu corpo. Vista escurecida... "Garota Problemática", "idiota", "Garota cheia de crises"... Tudo ecoava em minha mente.
Tenho que me controlar, pensava. Aqui não, aqui não.
Mas eu não tenho auto controle.
Virei-me rapidamente com um lápis na mão. Enfiei-o no ombro do garoto que segurava o celular que ele acabou deixando cair. Quando me dei conta, tinha sangue nas mãos. O garoto apresentava um olhar assustado. Todos na sala cessaram o riso. O garoto de óculos grossos fechou o livro que lia e ficou boquiaberto. Alguém tentou me agarrar por trás, mas eu estava dispersa demais. Dei um soco em quem tinha me tocado. Depois percebi que era meu professor.
– Sua desgraçada! — berrou a loira metida, a mesma que acertei a bolada.
– Calada, filha da puta! — Só me dei conta das palavras quando já tinham saído. Nunca fui de xingar as pessoas principalmente com palavrões.
Vi quando ela abriu o estojo e tirou um estileite. Oh, oh; a coisa ia ficar mais feia.
– Nem pense, Tamires — pediu um garoto.
– Essa fodida tá pedindo pra morrer desde ontem.
Achei minha tesoura na mochila e me armei. Alguns alunos tentaram nos segurar, mas logo recuaram assustados. O professor saiu correndo.
– Acha que eu tenho medo de você sua loira falsa? — provoquei.
Ela avançou com o estileite apontado para minha barriga. Desviei facilmente e a puxei pelo cabelo por trás e a vi cair no chão e chutei o objeto cortante pra longe.
– Merda! — ela xingou.
– Posso até ser uma garota problemática, mas você é uma puta vadia!
Ela se levantou bruscamente e me agarrou.
– Repete a porra que você disse!
– E se eu não quiser?
– Sua merda, idiota, retardada!!! Pode me xingar, mas pelo menos meu pai não é um psicopata na prisão e eu não ando por ai de camisola me cortando.
De novo fui ferida onde mais me dói. Soltei-me e sai correndo até a praça de alimetação. Chorei... Chorei... Chorei... Tudo o que podia fazer era chorar.
Naquele mesmo dia ligaram para minha mãe de novo, mas a conversa não demorou 15 minutos, mas quase uma hora. Minha cabeça dava voltas e estava com um enjoo terrível. Nem percebi quem estava ao meu lado.
– Oi — cumprimentou o nerd leitor de Harry Potter.
– O que é? — respondi grosseiramente ainda atordoada. — Por que só você tá aqui embaixo? Cadê o resto.
– É a primeira vez na minha vida que mato aula. Não aguentei a tensão na sala. Chamaram também os pais de outros alunos. — Ele me observou. — Você tá legal?- Lhe encarei. — Claro que não.
– A culpa não é sua. Só não estou bem.
Ficamos alguns minutos em silêncio, mas ele voltou a falar:
– Você gosta de ler?
– Não — menti. Eu amava ler.
– Eu gosto. Você deveria tentar.
– Não quero.
– Gosto de Harry Potter.
– Sério? — perguntei olhando para o livro em suas mãos. — Nem percebi.
Ele abriu a mochila e retirou outro livro de Harry Potter.
– Você quer ler?
– Você coleciona isso?
– Estou lendo A ordem da fênix. Pode ler o primeiro, A pedra filosofal.
Peguei o livro de suas mãos com a certeza de que nunca leria.
Vi minha mãe descendo. Seu olhar preocupado e triste. Eu era a pior filha do mundo. Comecei a chorar com esse pensamento.
– Karine... — ela começou dizendo.
– Eu sei — disse entre um soluço e outro. — Sou uma péssima filha. A pior de todas! Você me odeia!
– Não. Mas teremos uma conversa super séria, vamos.
O nerd me lançou um olhar piedoso que eu ignorei.
Deixe eu lhe dizer o que aconteceu mais tarde: eu não fui expulsa da escola, mas suspensa por uma semana. A loira foi expulsa, e o garoto do vídeo também foi suspenso. Minha mãe, minha psicóloga e eu tivemos uma reunião em casa. Chorei muito, desabafei muito e também fui compreendida. Minha psicóloga disse que seria melhor eu participar dos Clubes. Vou lhe explicar o que são os Clubes: você é encaixado no clube de acordo com seu transtorno. Tem o Clube do Síndrome do pânico, Transtorno de ansiedade, Fobia social, TDAH, Dixlexia... O ruim era que eu não podia frequentar um específico. Eu me incluia em quase todos! Mas para minha sorte (ou azar), tinha um Clube que encaixava todos os outros. Eu entrei nesse. Era legal participar. Eu contava a eles coisas que vivi e eles também compatilhavam suas experiências. Eu não me sentia mais como a única, mas ainda existia um vazio em mim. Com minha mãe no trabalho, tinha que voltar pra casa sozinha. Mas eu não queria voltar. Eu estava me sentindo mal. Vazia, uma sensação ruim. Vaguei até o por do sol por aí, até que encontrei o trio de drogados da sala.
Eles não..., pensei.
– E aí, Ka! — cumprimentou a garota com um cigarro. Deve estar super drogada pra falar comigo.
– Conheço você?
– Sentimos muito pelo o que aconteceu na sala — disse um garoto de olheiras profundas e cabelo desangonçado preto.
– Eu vou ficar bem.
– Quer sair com a gente? — perguntou o outro garoto que tinha a mesma aparência.
– Sim — repondi do nada. O que deu em mim?
– Eu sou Victor — disse o primeiro garoto. — Esse é o Lucas e ela é a Laura. -Não se preocupa não, vai ficar tudo tranquilo.
Ele deu uma tragada no cigarro e eu fiquei zonza.
– Vamos pra onde?
– Curtir, ora.
Então fomos, pra uma balada de adolescentes drogados e bêbados. Senti-me deslocada.
– Ai, gata, vamos mexer o corpo — chegou dizendo um garoto que não conhecia.
– Aí, Ka! Pega! — veio toda animada a Laura me entregando uma pílula.
– O que é isso?
– Êxtase — ela sussurrou no meu ouvido e caiu na gargalhada. — Tome e você ficará mais leve.
– Isso é droga!
– E daí?
– E daí? Acha que vou ficar me drogando?
– Fique com ela, se quiser, use.
– Ela saiu. Vi toda a movimentação. Música agitada, garotas dançando quase nuas e os caras que as observavam.
Como um impulso, engoli a pílula. Arrependi-me logo depois do feito, mas foi um efeito instantâneo. Minha cabeça estava girando, mas eu gostava disso. Meu corpo parecia voar. Comecei a ri e esqueci dos meus problemas, Quem era Loira Metida?
– Aí, Ka. — Chegou Laura novamente. — Engoliu?
Assenti.
– Uhhuuuu — ela gritava e eu também .
Victor me ofereceu um cigarro e me ensinou a usá-lo. Não me lembro quantos cigaros fumei ou quantas cervejas bebi. Muimo menos quantos garotos beijei na mesma noite. Posso dizer que estava doidona. Não me lembrei de mais nada. Acordei em um canto na rua perto do lixo. Eu fedia e estava me sentindo horrível. minha mãe deve estar feito uma louca atrás de mim. Meu celular tocou, era ela.
– Alô, filha. Dormiu bem?
– O quê?
– Ah, acordei você, deculpa.
– Hã?
– Tentei te ligar ontem, mas sai logo depois do almoço. Tive que sair de viajem às duas da tarde. Você ficou bem sem mim?
Logo entendi. Minha mãe não percebeu minha falta! Ela não estava em casa.
– Estou bem, mãe. Quando você volta?
– Só semana que vem... Já estou com saudades. Mas você sabe se cuidar. Qualquer coisa ligue para Liliane.
– Sim.
– Tenho que desligar logo. Te amo.
– Eu também.
Desliguei o celular. Voltei logo para casa e tomei um banho. Dormi até anoitecer, não comi nem bebi nada. Queria sumir.
Estava sozinha, sem ninguém pra conversar... Senti o vazio de novo, mas não tinha as drogas para me tirar da realidade. Fui até a cozinha e tirei uma faca da gaveta. Fiquei imaginando como seria a dor de morrer de verdade. Olhei para o pulso onde tinha me cortado antes e vi a marca. Coloquei a faca por cima da cicatriz, no meu antebraço e fiz um corte superficial. Doeu muito, mas a dor fez minha mente relaxar. Vasculhei minha mochila e encontrei um estileite. Um pouco mais acima do antebraço, escrevi me cortando com o estileite: "Garota Problemática"; chorei ao ver o sangue escorrendo. Cortei minha perna e até minha bochecha. Meu corpo parecia uma veia estourada. Andei por toda a casa e a sujei de sangue pelas paredes. Escrevi com sangue na parede do meu quarto: "Garota Problemática".
Vozes voltaram a ecoar:
"Garota Problemática"
"Garota Problemática"
"Garota Problemática"
...
Eu era uma garota problemática. Todos sabiam disso. Joguei-me na minha cama e os lençóis ficaram vermelhos. Comecei a gritar e dormi ao som dos meus próprios gritos.
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