Além da psicologia
19 Eu? Escritora?
Notas iniciais
Matemática.
Minha primeira aula era matemática. E eu amava matemática. Era a única matéria que eu me dedicava estudando.
Estava resolvendo um exercício quando Filipe me passou um bilhete:
"O que você vai fazer hoje?"
Então eu respondi:
" Sim, quero sair com você."
Me virei para entregar a Filipe. Ele leu e franziu a testa.
— Como sabia que eu ia te convidar pra sair? — perguntou.
— Estava na cara — respondi sozinho.
Meu segundo dia de aula chegou ao fim e Gabriel nem sequer ousou me olhar. E isso era ótimo.
Fui com Filipe para uma livraria logo quando saímos da escola. Eu adorava ficar perto dos livros.
— Compro um pra você — Prometeu Filipe me abraçando por trás quando peguei um livro.
— Meu aniversário é apenas daqui a duas semanas — falei.
— Mas isso não me impede de lher dar um presente hoje e outro no dia do seu aniversário.
Eu ri.
— Você é extremamente fofo.
— Isso é ruim?
Balancei a cabeça e dei um selinho em Filipe.
Acabamos comprando um livro cada, mas Filipe fez questão de pagar e, quando alguém quer comprar um livro pra você, não rejeite. Havia escolido O duque e eu, o primeiro livro de uma coleção chamada Os Bridgertons e Filipe escolheu As crianças trocadas, primeiro livro da série A guerra dos fae. Combinamos que trocaríamos de livro quando ambos tivéssemos terminado de ler.
— Sabe, karine, acho que você deveria escrever um livro. — Filipe entou ao meu lado no ônibus quase vazio.
— Eu? Escrever um livro? — Balancei a cabeça. — Sobre o quê? Transtornos?
Ri da piada sobre meus próprios problemas, mas Filipe não achou graça.
— É sério — ele insistiu. — Você gosta muito de ler e andei lendo que TDAHs têm muita criatividade.
— Você anda lendo sobre deficit de atenção? — perguntei erguendo uma sobrancelha.
— Bem, só um pouquinho.
Abri um sorriso.
— Mesmo assim, não sei se conseguiria escrever um livro. Já que você andou lendo sobre TDAH, deve saber que é muito difícil para nós terminar qualquer projeto começado.
— Ah, mas eu te incentivaria, Karine.
Neguei com a cabeça novamente.
Quando cheguei em casa minha mãe estava me esperando na porta. Finalmente tinha voltado de viajem.
— Minha filha, que saudade de você.- Minha mãe me abraçou apertado.
— Filipe, obrigada por cuidar da Karine! — Minha mãe também abraçou Filipe.
Sério, é claro que o Filipe cuidava de mim e me protegia, mas o jeito que a minha mãe falava parecia que ele era meu enfermeiro por vinte e quatro horas!
Agora que minha mãe estava de volta, Filipe voltou para casa. Tomei um banho enquanto minha mãe preparava algo para jantarmos.
Depois que saí do banheiro, liguei meu notebook e criei um novo documento. Será que Filipe tinha razão e eu deveria mesmo escrever um livro? Deixando a dúvida de lado, consegui escrever uma frase. Duas. Três. Quatro. Um parágrafo!
Logo o reli e milhões de ideias começaram a turbilhar meu cérebro. Meu corpo inteiro esquentou e perdi até a fome. Recusei a janta e me pûs a escrever tudo que tinha na cabeça.
Por volta da meia noite, salvei o documento e suspendi o computador. Fui para a cozinha comer uma fruta e recuperar as energias.
Se você nunca ficou inpirado pra escrever e passou horas digitando, nunca saberá como estava me sentindo naquele momento. Parecia que tinha acabado de tomar um banho quente com sabonete de gelo. Não me sentei para comer, andei pela casa toda pensando nas próximas falas, próximas cenas...
Por fim voltei para meu quarto e voltei a escrever. Parei somente depois das duas da manhã, sem a mínima vontade de dormir.
***
– Por que você está elétrica desde cedo? — perguntou Filipe na hora do intervalo.
Percebi que tamborilava os dedos na mesa e balançava as pernas sem cessar. O que eu mais queria era voltar para casa, abrir meu notebook e voltar a escrever.
— Vá na minha casa hoje — pedi. — Quero te mostrar uma coisa.
— Sua mãe viajou? — ele perguntou sorrindo diferente.
— Não, por qu... — me interrompi quando notei suas segundas intenções. — Não se trata disso, Filipe! — gritei ficando vermelha, para diversão de Filipe.
Filipe soltou uma gargalhada.
— Tudo bem — ele respondeu se inclinando e me beijando.
— Filipe! — o repreendi. — Ainda estamos na escola.
— Eu sei!
Ele riu.
No fim das aulas Filipe se apressou em ir embora comigo. Pensei se ele realmente ficaria feliz em saber que havia começado a escrever um livro.
Quando chegamos em casa, nos dirigimos imediatamente para meu quarto. Filipe sentou na minha cama e esperou eu dizer alguma coisa.
Em silêncio, liguei meu notebook e abri o word. Virei a tela para Filipe e ele fez uma expressão de desentendimento.
— Leia — pedi.
Filipe leu. Ficou imediatamente pálido.
— K-karine! — ele exclamou. — Foi você que escreveu isso?
Aquiesci sorridente.
— O que você acha? — perguntei.
— Maravilhoso, Ka! Meu amor, isso é incrível! Sempre soube que você tinha talento pra isso!
Filipe me envolveu em um abraço, o que me fez derreter internamente.
— Obrigada por ter despertado esse meu lado criativo — agradeci.
Filipe passou a tarde em casa me assistindo martelar nervosamente as teclas do notebook.
No dia seguinte voltei a escrever e já estava no capítulo cinco! Meu livro se chamaria "O jogo". Seria um romance romântico e de suspense.
Passei a semana inteira dedicada a esse novo projeto. Até que — sabia que cedo ou tarde isso me acometeria — fui atingida pelo desânimo.
Já deveria saber. Minha empolgação com O jogo estava se esvaindo e então senti que havia adquirido a doença dos escritores: bloqueio criativo
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