Além da psicologia
25 A briga do ano
Notas iniciais
A imagem da escola parecia ser igual todos os dias, mas, no fundo, eu sentia ser diferente. Em uma instituição de mais de mil alunos, eu me sentia apenas uma. Só mais uma. Sentada no mesmo lugar de sempre, notada pelas mesmas pessoas de sempre e, o pior, pelo mesmo motivo de sempre.
A única pessoa que parecia me olhar de maneira diferente, de um modo bom, era o Filipe. Ah, Filipe... Quem o vê apenas de longe enxerga apenas o garoto mais inteligente da sala e defensor dos oprimidos. Mas, nesse tempo todo que estamos juntos, eu passei a enxergá-lo com outros olhos.
Ele se parecia muito comigo. E, se tem uma coisa que eu aprendi na vida, é que, quando temos muitos problemas, acabamos nos tornando egoístas, vendo apenas nossas tristezas e fragilidades.
— Momento reflitão, né, karine? — Ah, e tinha o Roberto também. Ele era o tipo de pessoa que eu não conseguia deginir se era boa ou má. Às vezes parecia ser uma caixinha de surpresas.
— Só um pouco — respondi. — Tive um sonho bem diferente nessa noite que me fez pensar um pouco.
— Sonhou comigo?
— Foi só um sonho, não um pesadelo.
Roberto riu. Não sei por que, mas às vezes ele parecia ser um garoto que ninguém conseguia tirar do sério. Nem mesmo eu.
— E o que você sonhou? — ele perguntou.
— Não estou a fim de contar.
— Ok. Mas eu sei que você vai me dizer o que achou do que te mandei pelo e-mail.
Ah, é mesmo! Eu devia falar sobre o que ele me escreveu!
— Você é muito sensível — murmurei.
— Oi?
— Eu disse que você é muito sensível.
— Isso é uma espécie de elogio?
— Pra mim, sim.
Roberto pareceu um pouco decepcionado.
— Então é só isso? — ele insistiu.
Suspirei, é claro que ele estava esperando que eu falasse mais.
— Você escreve bem, melhor que eu. Satisfeito? Você conseguiu captar todo o sentimento e a essência do TDAH mesmo sem ter a doença.
— É, talvez. — Roberto sorriu.
Dei a conversa por encerrado e observei que Filipe havia faltado. Acho que era a primeira vez, desde quando o conheci, que o vi faltar. Ou talvez ele já tivesse faltado antes e eu não me lembrava.
No segundo horário, a porta da sala se abriu para quem chegou atrasado. Como sempre gabriel era desses. Dessa vez ele parou e olhou para a sala inteira, e depois para mim. E sorriu malicioso.
— Parece que seu defensor não veio hoje. Tadinha... Vai estar vulnerável — Gabriel falou ameaçadoramente quando passou perto de mim.
— Só tenta — Roberto sussurrou entre os dentes fazendo a cara mais ameaçadora possível. Por um instante Gabriel ficou temeroso, mas logo percebeu que era apenas Roberto atrás de mim.
— Fica na sua, esquisito. Não quero ter que bater em crianças.
— Sou faixa preta em jiu-jitsu e karatê. E não vou ter pena de você se precisar sair da minha zona de conforto.
— Tá pra nascer o dia que você vai me intimidar.
— Acho que esse dia nasceu hoje.
Gabriel ficou vermelho de raiva.
— Hoje, no fim da aula, atrás da escola, vamos ver se você é mesmo homem.
Depois disso, Gabriel se sentou no lugar de sempre.
— Ficou maluco?! — Me virei para Roberto, ainda de boca aberta.
— Esse cara não pode simplesmente se achar mais forte e superior a todo mundo! Ele te ameaçou!
— Eu sei me defender! — rebati.
— Ah, claro. Será que você não percebe que sem o Filipe você não ganha respeito de ninguém nessa escola?
Uau, aquilo foi extremamente ofensivo pra mim. Principalmente porque, no fundo, eu sabia que era verdade. Eu não sabia me defender, vivia escondida nas asas do Filipe e, agora, até Roberto queria me proteger como se eu fosse uma criancinha.
— Gabriel não vai ter pena de você — desconversei.
— E quem disse que eu vou ter dele?
Uni as sobrancelhas. Ele estava falando sério quando disse que sabia lutar? Não tive tempo de perguntar porque o professor já estava me olhando feio demais por estar conversando na aula.
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— E não é que o ruivo teve mesmo coragem de me encarar? — Gabriel disse se aproximando de Roberto. Já era quase duas da tarde e estávamos atrás da escola.
Roberto não queria que eu o acompanhasse, mas eu insisti, não podia deixá-lo sozinho depois de me defender do Gabriel.
Eu já consiverava as chances do Roberto sair ileso baixíssimas, e aí mais três garotos apareceram atrás do Gabriel para deixar a luta injusta. Eu não podia deixar isso continuar.
— Vocês estão em número desigual! — briguei.
— Calada aí, problemática! — um dos amigos de Gabriel falou. Resolvi numerá-los com Um, Dois e Três, já que não sabia seus nomes.
— Deixa, Karine, podem vir mais cinco deles e quem sabe teremos uma luta justa.
Pareceu que Gabriel e seus seguidores ficaram um poucos receosos. Mas não recuaram.
— Acho que vocês não vão precisar sujar as mãos com esse fracote — Gabriel disse para Um, Dois e Três. — Vai ser mais fácil do que qualquer um de nós imagina.
— Vamos parar com essa conversa, me mostre tudo o que sabe fazer. -
Roberto parecia mesmo determinado e isso me deixou muito confuso. Ele era pequeno e magricelo demais para enfrentá-los.
Eu jamais me perdoaria se alguma coisa de ruim acontecesse com o Roberto. Mas foi aí que o garoto me surpreendeu. Gabriel avançou, mas Roberto o interrompeu com um soco de esquerda no estômago. Gabriel se curvou para frente notavelmente sentindo dor e caiu de joelho.
Automaticamente Um, Dois e Três correram para bater em Roberto. Mas nenhum deles conseguiu encosta nele. Ele estava tão tranquilo que chegava a assustar. Deu um chute bem dado no órgão reprodutor do Três e outro na cara do Dois. Ambos caíram se retorcendo de dor.
— Ah, mas isso não vai ficar assim! — Gabriel rosnou se levantando. Inutilmente socou o ar ao tentar acertar Roberto que foi bem mais rápido e deu uma cotovelada na costela de Gabriel, mas, antes que ele caísse, Roberto o puxou pelo braço esquerdo e o girou lhe deixando em uma posição bem desconfortável.
E foi nesse momento que as coisas ficaram bem mais feias.
Na mesma posição que estava, Roberto chutou com bastante força a costa de Gabriel. Não se contentando com isso, sentou sobre ele e distribuiu três socos seguidos no rosto. E eu gritei, fiquei assustada demais. Ele não parecia o Roberto de antes. Até a sua expressão estava mudada, meio... Demoníaca?
Um, Dois e Três pareceram ficar tão assustados quanto eu e correram para longe de Roberto e Gabriel.
— Roberto, para! Vai matar o garoto! — gritei depois de Roberto chutar mais uma vez a cabeça de gabriel.
— Tudo bem — Roberto respondeu ofegante. — Mas ele teve o que mereceu.
Saímos de trás da escola deixando Gabriel desacordado. Nunca pensei que algum dia teria pena desse garoto... E Roberto saiu da briga apenas com as juntas das mãos vermelhas de tanto bater.
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