Além da compreensão
3 Capítulo III - Fatiador de almas
Notas iniciais
Dean Winchester abriu os olhos. Sempre era a mesma coisa. O gosto do sangue em sua boca. O cheiro de carne podre e queimada. Os olhos enevoados pela dor, pela angústia que percorria o ambiente e apenas amontoados de corpos um sobre os outros montavam o cenário, dia após dia. Mortos vivos. Almas corrompidas. Gritos e visões aterradoras, ficariam cravadas em sua alma para sempre.
O loiro sentiu os grossos ganchos sustentar seu corpo enquanto o sangue quase negro corria pelo seu corpo esfarrapado. Já tinha experimentado isso quando seu pai John Winchester acabou pisando na bola e o colocando o filho direto nas garras dos demônios no inferno.
Dean ainda se admirava de ter alguma consciência apesar de tudo que já lhe acontecera naquele lugar. Sofreu inúmeras e incontáveis torturas. Viu seu corpo sendo partido ao meio e na manhã seguinte, lá estava ele, inteiro novamente para sofrer novas experiências horripilantes.
O tempo ele aprendera da pior forma possível que era diferente ali embaixo. Segundos eram horas. Minutos eram dias. Horas era uma eternidade infindável de caos e sofrimento sem fim.
O caçador ergueu lentamente os olhos. Seu carrasco estava chegando. Conhecia o som estridente daquela espécie de ferramenta de tortura. Seu rosto empapado de sangue e fuligem dificultava a visão e a respiração. Era apenas uma alma, um espírito. Como poderia sentir tudo como se tivesse um corpo humano? Como poderia ter lembranças da outra vida quando estava vivo?
—Sammy...
Um sussurro, uma palavra. Mas era essa palavra que lhe dava forças para continuar a negar a oferta que lhe faziam no final de cada tortura. De cada corte que seu corpo recebia. Qual seria o motivo de tanto sofrimento? Porque Deus permitira que isso acontecesse dessa forma? Porque tinha que continuar lembrando-se de quando era vivo? Sentiu-se cansado. Perdera as contas de quanto tempo estava ali.
Chegara a pensar que em uma rebelião que houvera no inferno, que Castiel, o anjo que já lhe salvara uma vez, tivesse voltado para resgatá-lo e livrar sua alma, deixando-a descansar em paz. Mas nada acontecera. Ainda continuava ali. Dia após dia.
A voz do carrasco a sua frente lhe trouxe a triste realidade a qual se encontrava.
— Então caçador. Que ferramenta eu irei usar hoje? Ouvi dizer que arame farpado de encontro à carne traz uma sensação angustiante de muita dor.
— Vá se ferrar! — Dean dissera cuspindo sangue no rosto do demônio que continuava sorrindo. Passou o dedo pelo sangue do caçador e levando-o a língua.
— Humm... gosto de desespero. É o melhor sabia? Não acha que está muito refrescante por aqui?
O homem caminhou até um braseiro que estava em uma espécie de caldeira retorcida. Pegou-a com as mãos em cada haste abrasiva e sem importar-se com a queimação de suas próprias mãos colocou-as embaixo dos pés desnudos do Winchester.
Dean segurou a dor. Mas o fogo parecia acender-se com a dor e seus gritos ecoaram pelo inferno. Por muitas horas.
—Seu amaldiçoado. Um dia pagarás por isso. Tenho certeza disso! Um dia Alasteir não conseguirá voltar e finalmente encontrará o seu tormento — entre o cheiro da própria carne queimando e a dor excruciante, Dean Winchester tinha no peito essa sensação. Um dia viria Alasteir cair.
—Por muito pouco isso não aconteceu. Quando aquele seu amigo petulante de asas me incinerou. Mas a verdadeira maldade é a única que pode me destruir. Mas me alegro por ter experimentado aquela dor. Agora tenho mais criatividade em meus joguinhos de tortura. Um dia terei o prazer de tirar pena por pena das asas daquele anjo. Pode contar com isso.
Alasteir satisfazia-se em proporcionar as mais variadas sensações de dor e agonia. Dean agora urrava de ódio, o arame farpado amarrado firmemente em suas pernas corria sozinho pressionando e rasgando sua pele. Entre a falta de ar e a sensação de desmaio o loiro olhou para baixo de sua cintura. Os arames continuavam torcendo-se até os ossos romperem-se e ficarem pendurados por pele e tendões.
O caçador deixava as lágrimas e o sangue se misturarem em sua face. De sua boca nenhum som legível fora ouvido, apenas havia sangue por todos os lados. Até não sobrar mais nada e esperar o dia seguinte para outras sensações ainda piores que essas. Mas antes de encontrar a tão esperada escuridão, Alasteir lhe fazia a proposta.
— Dean. Te livro desse sofrimento. Apenas aceite minha proposta. Será meu pupilo. Aprenderá a arte do demônio da tortura. Quarenta anos já não foram o suficiente? Torture outras almas e livre-se de ser torturado. Seja o torturador! Ninguém mais lembra de você. Está abandonado para sempre aqui, comigo! — o demônio falava com a língua pesada e arrastada.
Dean olhou mais uma vez para suas pernas penduradas, seus braços tendo o mesmo destino. A dor ainda o cegando. O arame invadindo sua cabeça, sentindo-o passar a camada fina de pele e encontrando seu crânio. Quarenta anos, era muito tempo de sofrimento, era muito tempo de esquecimento, de espera por um milagre que não vinha. Sabia que teria esse fim, estava satisfeito por não ser seu irmãozinho ali. Agora era hora de pensar em si mesmo. Era chegada a hora de ser o que lutou ferozmente por não ser, um fatiador de almas.
—Eu aceito... — as palavras saíram em sussurros. Mas o suficiente para que Alasteir sorrisse satisfeito. Finalmente havia corrompido a alma de um guerreiro.
Dean perdera a consciência. Ou melhor não sentiu dor. Não sentia alguma coisa dentro de si. Não sabia o que era. Mas após todos esses anos, ali. Esse era um dos seus melhores momentos. Sem dor. Sem lembranças. Sem sentimentos. E quando finalmente abrirá os olhos, estava com um facão revestido de cacos de vidros torturando um homem. Sua raiva, seu sofrimento e dor deram-lhe forças e em questão de poucos segundos não havia nada que lembrasse o homem preso aos ferrolhos. Apenas sangue e pedaços de membros para todos os lados. Dean Winchester era o novo torturador do inferno. E dias assim se seguiram, perdera a quantidade de almas que fatiava sem piedade. Nunca eram as mesmas. Aprendera com Alasteir as piores maneiras de torturar uma alma. O mundo esquecera dele. E ele esquecera do mundo.
Nunca mais ousara pronunciar o nome do irmão. Não era mais digno de dizê-lo. Agora era um demônio. Aquilo por que tanto tempo combatera. Fora vencido. Dean Winchester apenas parou com a retaliação quando viu o rosto da jovem no chão. Uma garota de no máximo dezoito anos chorava copiosamente pedindo clemência. Pedindo que ele desse um fim naquele sofrimento. Dean olhou-a e num gesto rápido golpeou com o facão o pescoço da jovem separando-o corpo da cabeça.
— Não existe fim para o sofrimento — disse o loiro sentindo no peito velhas sensações antes esquecidas. E saiu para a próxima alma a ser torturada, desmembrada.
Alasteir mostrava o quanto estava satisfeito com o que conseguira. Teve momentos que ele achou que o Winchester não cederia. Mas as torturas no corpo, na alma, no pensamento foram demais para o humano. E sem saber do que isso desencadearia o Winchester aceitou a proposta.
Lilith de longe assistiu aos massacres que aquele humano era capaz de fazer. Um estranho medo percorreu sua espinha. Mas sabia que tudo se encaminhava para o que a muito tempo planejou. Agora era hora de saber se Ruby estava se saindo bem. Em breve Lúcifer voltaria para a terra e traria o tão sonhado apocalipse.
Mas os demônios não esperavam com o que acontecera dias depois, bem debaixo de seus narizes. Dean Winchester havia desaparecido como por encanto.
Fale com o autor