Além da Coragem - Livro 3
41 Capítulo 41
Notas iniciais
De volta ao mundo dos homens:
Os olhos custam a abrir, o peso do corpo parece dobrado. Não havia ninguém à minha volta. Será que voltáramos do Submundo? Será que estavam todos bem? Onde estava Hyoga? No pescoço, ainda adormecido pelo gelo que fora ali depositado, o sangue coagulara e não mais fluía, mas a fraqueza daquele e de outros inúmeros ferimentos mostrava ainda suas conseqüências. Minha vista estava embaçada e muito ao longe conseguia ouvir uma voz, que soou como uma força a mais dentro de mim, me chamando: \"Nala!\"
Com força, apoiei as mãos ao chão, erguendo-me e permanecendo ainda de joelhos. O vi se aproximar, numa imagem turva, e ajoelhar-se diante de mim. A visão voltava ao normal, e pude perceber seus olhos cheios d\'água. Hyoga me abraçou fortemente, falando entre lágrimas, com voz aliviada:
- Graças a Deus, Nala! Tive tanto medo que algo de ruim acontecesse com você...
Ainda com uma das mãos apoiada ao chão, permaneci por alguns segundos confusa, mas também feliz em seu abraço, que logo retribuí.
- Hyoga... Por que se preocupa tanto comigo?
- Porque...
Afastou-se um pouco, apenas o suficiente para que pudesse ver seus olhos, profundos e nobres como os vi da primeira vez, brilhando mais que as estrelas. As faces coradas, uma das mãos apoiando minha cabeça, com os dedos entre meus cabelos, mantinha a curta distância de alguns centímetros. Um aconchegante calor fluía dentro de mim, mas minhas mãos tremiam, o rosto queimava e o estômago gelava. Podia sentir sua respiração próxima ao meu rosto. Não tinha forças, não queria tê-las, e meu corpo inconscientemente se entregou ao que parecia inevitável.
\"Ariná agora é Nala...\" – A frase que ouvira há muito tempo ecoou em sua mente, perfeitamente reproduzida na voz de quem a proferira, fazendo-o afastar-se imediatamente, com a cabeça baixa.
- Desculpe...
- ... – não entendia o que queria dizer, e o fitava como quem procura explicação, mas ele não retribuía meu olhar.
- E... Eu não devia... Me desculpe, Nala.
Estava ainda mais confusa, sem saber o que dizer ou fazer. Mas Shun e Shiryu chegaram, desfazendo parte do estranho clima que ficara no ar.
- Nala, Hyoga, até que enfim achamos vocês! – disse Shun preocupado.
- Precisamos encontrar Saori e Seiya. – afirma Shiryu.
- Bom... – rebate Hyoga, ainda perturbado – Vamos, então.
Shun faz sinal para que Shiryu siga com ele, enquanto ainda fica para trás, ao meu lado.
- Nala, você está bem?
- ... Hã... O que?
- Perguntei se está bem. Que aconteceu?
- Eu... Não sei direito.
- Ele te disse alguma coisa?
- Não exatamente...
Olhava para mim com ar interrogativo, mas eu logo resolvi afastar os pensamentos e procurar pelos dois que ainda faltavam.
- E o Ikki? – perguntei.
- Ah... Você conhece o meu irmão... Ele deve estar bem, mas não acredito que vamos encontrá-lo.
Irmão... Aquela palavra gelou mais uma vez meu coração, e uma lágrima escapou de meus olhos. \"Milo...\". Olhei para o céu, podia ver Escorpião brilhando intensamente, mais do que de costume, como se transmitisse certa felicidade. Abaixei a cabeça, e meus pensamentos saíram em voz alta.
- Por que...? Por que brilha tanto, se seu Cavaleiro morreu?
- Talvez porque sua irmã está viva... – pronunciou o jovem que me acompanhava – E porque ele está feliz com sua incrível atuação em combate...
Um leve sorriso brotou de meus lábios.
- Se eu puder ser motivo de orgulho para meu irmão e mestre, então estarei feliz...
Prosseguimos nosso caminho, ainda tínhamos que lidar com mais uma grande força que feriria nossos corações. Alguns minutos correram antes de a encontrarmos, sentada sobre a grama, com o guerreiro em seus braços e o rosto banhado de lágrimas, que escorriam e pingavam nas faces de Seiya, inerte. Sua Kamei trazia a marca do golpe que o feriu fatalmente, a fenda deixada pela espada de Hades, e o bravo Cavaleiro que protegera Saori com sua própria vida viajava agora para o mundo dos mortos. Não este de Hades, mas para o lugar para onde as almas realmente deveriam ir após deixarem seus corpos, um lugar sem punições, mas onde poderiam estar em paz.
A chegada ao Santuário foi o mais difícil, podia sentir a dor daquela menina que tanto esperara por seu irmão, que tanto tivera esperanças, e que agora o via sem vida, nos braços do Dragão. Atena jamais mostrara-se tão triste diante de todo o Santuário, e a menina não conseguia soltar-se do corpo do rapaz, gritando seu nome, implorando para que voltasse, e aquilo me lembrava meu irmão, Milo, que também deixara este mundo nesta batalha.
O que eu podia fazer, além de apoiar seu ombro e pedir para se acalmar? \"Seiya vai ficar triste se te ver desse jeito... Ele estará sempre com você.\" Não sabia se aquelas palavras eram mais para ela ou para mim, mas a menina repentinamente me abraçou, como quem procura conforto, como quem percebe no espírito de outra pessoa uma dor parecida com a sua. Eu a abracei forte, deixando-a soluçar e derramar todas as lágrimas que tinha, enquanto perguntava incessantemente: \"Por que...?\" E meus olhos também derramavam lágrimas silenciosas e cheias de dor.
Kiki chega perto de Shiryu, quase desabando em lágrimas.
- Os Cavaleiros de ouro...?
Shiryu responde apenas com um aceno negativo, cheio de pesar, seu mestre também estava lá... O menino cerra os dentes com força \"Mestre Mu...\" Vira as costas e corre, para o mais longe possível, deixando as lágrimas escorrerem livremente.
Marin vira a cena, por detrás da máscara segura suas lágrimas, a tristeza para ela era dupla, seu discípulo e o Cavaleiro que sempre a apoiara em encorajara desde que viera para o Santuário, ambos, Seiya e Aiolia estavam agora longe demais dela. Sai silenciosamente de perto de todos, enquanto eu a sigo com o olhar pesaroso e marejado – \"Pelo menos para mim restou alguém\" – pensei. Shina a seguiu, seu rosto descoberto mostrava claramente que tentava orgulhosamente esconder as lágrimas após olhar para o corpo inerte de Seiya, após ter certeza de que os Cavaleiros de ouro jamais voltariam. A única que poderia apoiar Marin nessa hora era Shina, e a única que poderia apoiar Shina era Marin.
O funeral do Santuário é cheio de honras, louros, flores e pó de ouro. Mas para os Cavaleiros dourados houve apenas a simbologia. Com sua infinita valentia e teimosia, Seiya traspassara até mesmo o cosmo de Atena, indo contra sua vontade, sacrificando-se por ela. Com sua infinita honra, coragem e fidelidade, os Cavaleiros de ouro ultrapassaram os limites do imaginável entre humanos, e defenderam a justiça e a paz da humanidade até depois de mortos.
Foram dias de tristeza os que se passaram, por nosso amigo, pelos grandiosos Cavaleiros de ouro, capazes de abrir mão de tudo o que lhes fosse mais valioso pela justiça e pela Terra. Seriam sempre lembrados com orgulho como os mais valentes e poderosos guerreiros do Santuário: \"Shion, Mu, Aldebaran, Saga, Kanon, Máscara da Morte, Aiolia, Shaka, Dohko, Milo, Aiolos, Shura, Camus, Afrodite.\" Aqueles que lutaram até o fim, sem temer o destino ou as conseqüências. Aqueles que jamais sairiam de nossas memórias, e sempre seriam nossos exemplos de como um verdadeiro Cavaleiro tem que ser.
Notas finais
Próxima fic - Prólogo do Céu - Overture
Ah, sim... Tem uma oneshot bem pequena dedicada a Nala e Hyoga q se passa antes do Prólogo, então ñ deixem de ler! ATé a próxima, pessoal, e comentem, onegai!!! v
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