Além da Coragem - Livro 3
11 Capítulo 11
Notas iniciais
O Golpe Proibido:
Estava morto, Shaka ergue mais uma vez a voz, mandando que os outros três esperassem. Agora que não havia mais espectros em seu encalço, pensou que poderia ouvir o que realmente queriam ali seus antigos aliados.
- Se quer mesmo que eu diga, então ouça bem, Shaka. Nós queremos arrancar a cabeça de Atena!
Nem mesmo Shaka consegue conter tremor que passa por si. Não podia imaginar que antigos Cavaleiros de ouro realmente fossem servir a Hades. Mas agora que tinha a afirmação final, só lhe restava uma alternativa.
- Vou combater os três... Até a morte!
Os olhos azuis e cheios de brilho finalmente se abrem, exteriorizando um imenso cosmo. Mas não lutaria ali, ele os guia para a lateral da casa. Do outro lado do portal, ricamente trabalhado com uma flor de lótus ao centro, está um grande e maravilhoso jardim. No centro, sobre a colina, duas árvores idênticas, lado a lado, verdejantes, deixavam voar ao vento pétalas de suas flores.
- Então... este é o jardim das Árvores Gêmeas. – diz Saga.
- Jardim das Árvores Gêmeas? – pergunta desentendido Camus.
- Dizem que Shaka é a reencarnação de Buda. Existem duas árvores gêmeas onde ele foi enterrado e, por isso, acredita-se que Shaka só morreria sob essas duas árvores. De qualquer forma, se ele nos trouxe a este lugar, isso quer dizer que Shaka está querendo sua própria morte.
Shura avança, impiedosamente, com sua \"Excalibur\", obrigando Shaka a se esquivar rapidamente, num salto acrobático para o alto. Ele retorna para o contra-ataque, mas seu chute é parado pela perna de Camus, que congela por alguns segundos seu joelho. Saga se aproveita, mandando-o para a \"Outra Dimensão\", mas o Cavaleiro facilmente retorna a este mundo. Sentia na pele a dificuldade de enfrentar três guerreiros tão poderosos ao mesmo tempo, podia ser derrotado a qualquer momento, por mais que seus movimentos fossem ágeis e habilidosos. Mas ele não podia morrer ainda, tinha que levar aquela situação ao extremo. Ele ergue seu rosário, liberando o mais poderoso cosmo já sentido, ataque e defesa numa só técnica, sem deixar saída a nenhum dos oponentes senão a derrota. O \"Tesouro do Céu\" era decisivo.
- Agora os três não têm chance de vencer. Só há uma saída para vocês...
- O que?
- Só... uma possibilidade?
- Não...!
- Isso mesmo... A técnica proibida por Atena desde a era mitológica por seu poder destrutivo. Aquela que une o poder de três Cavaleiros dourados como um só, equivalendo a um pequeno Big Bang, que deu origem ao Universo. É também conhecida como o ataque das sombras: a \"Exclamação de Atena\"!
- Não pode ser...
- Os Cavaleiros que utilizaram essa técnica foram banidos por Atena!
- Não... Isso não!
- Por que hesitam se vocês já traíram Atena e se uniram a Hades?
Um a um, Shaka começa a retirar os sentidos de seus adversários. Saga é o primeiro a se resolver em utilizar a técnica, mas Shura e Camus ainda estão relutantes. \"Se fizermos isso, seremos marcados para sempre com a desonra, seremos covardes, conhecidos como guerreiros da pior espécie!\"
- Vocês já se esqueceram de porque viemos para cá? Não temos muito tempo... Temos que chegar até Atena. A honra de Cavaleiros não é nada perto da alegria que teremos!
Choravam dolorosamente, enquanto fitavam o rosto, também banhado em lágrimas, de Saga, disposto a perder tudo pelo que havia de ser feito.
- É mesmo, não podemos perder agora... – concorda Camus.
- Nós já morremos... Já perdemos tudo. Podem nos banir se quiserem.
- Sim. – completa Saga, de cabeça erguida – Por Atena! Pelo amor e justiça na Terra!
Mas Shaka já lhes privava do quarto sentido. Todos sentiam as mudanças de cosmos na sexta casa. Saori, apreensiva em seus aposentos, já pressentia o que Shaka pretendia fazer. Kanon, no salão do Grande Mestre, e Milo, quase perdendo a cabeça da entrada de sua casa. Aiolia e nós, Cavaleiros de bronze, entramos correndo no templo de Virgem, encontrando a porta para o Jardim das Árvores Gêmeas fechada. Sentia meu coração apertar.
- Aiolia... O que ta acontecendo? Nunca senti um cosmo tão poderoso...
- Para trás, vocês, vou pulverizar essa porta!
- Espere, Aiolia. – diz Mu se aproximando – Não podemos interferir.
- O que? Será que não percebe? Desse jeito, o Shaka vai morrer!
- Você ainda não entendeu? É isso o que ele quer.
Mu tinha lágrimas nos olhos. Por que ele desejaria a própria morte? Nem Áries sabia responder. E nós estávamos lá, imóveis, com um calafrio terrível que previa acontecimentos que não podíamos mudar, por mais que quiséssemos.
Um garotinho se senta diante da estátua de Buda. As franjas loiras quase tampavam os olhos fechados daquele rostinho cabisbaixo. Uma voz lhe fala, seria Buda, ou Deus falando com este?
- Shaka... Shaka... Por que está assim? Você tem apenas sete anos, e passa todos os dias numa tristeza profunda.
- Eu vejo os peregrinos que vêm todos os dias, de toda a Índia, se banhar no Ganges, onde também vejo inúmeros corpos de pessoas mortas. É como se, assim, elas mostrassem querer mais a morte que a vida. Por que este país em que nasci é tão pobre? Parece que as pessoas vêm à Terra só para sofrer, né? É normal levar uma vida só de sofrimento?
- Shaka, não existem vidas só de sofrimento. Se há agonia, também haverá felicidade. Também há o oposto. Lindas flores brotam, mas um dia também irão murchar e morrer. As coisas vivas neste mundo não param mesmo por um instante. Elas continuamente se movem e mudam. Isso é chamado de ciclo. A vida de um humano também é assim.
- Mas se o que os aguarda sempre no final é a morte, então não é a tristeza que prevalece. Por mais que busquemos o amor e a alegria, a morte sempre virá no final. Então por que as pessoas nascem? De que adianta se ninguém escapa de algo tão certo e perfeito como a morte?
- Shaka... Você está se esquecendo de uma coisa!
- Esquecendo?
Jardim das Árvores Gêmeas:
- Shaka, já que é o que quer, nos te daremos a \"Exclamação de Atena\"!
- Vocês finalmente entenderam... Mas é um pouco tarde, se não me atingirem antes com seu golpe, vocês é que morrerão.
Mais uma vez seus olhos brilham, ele está prestes a retirar o último sentido que lhes resta. Os três unem seus cosmos, harmoniosa e poderosamente num só, e clamam em uníssono:
- \"EXCLAMAÇÃO DE ATENA!\"
As contas do terço, antes elevadas ao ar pelo cosmo de seu portador, agora caem com a gravidade, sendo apenas seguradas pela mão de Shaka, e um sorriso brota em seus lábios.
- As flores das Árvores Gêmeas... Caíram...
Sua técnica é destruída, e uma onda explosiva se espalha de forma aterradora. O tremor pode ser sentido de todas as doze casas e do templo de Atena, e a forte luz dourada que sobe aos céus pode ser vista de todo o Santuário. Minhas pernas desaparecem, e logo sinto o impacto dos joelhos contra o chão. Ao meu lado, procuro pelas mãos de Hyoga, na tentativa de achar algo que me mostre ainda estar neste mundo. Ele segura minha mão na sua, estava tão fria como meu estômago.
Ninguém podia acreditar que aqueles três, mesmo que aliados a Hades, pudessem chegar ao absurdo de usarem tal técnica. O punho de Aiolia quase atravessa a parede do templo, enquanto Milo, de dentes cerrados, desce correndo as escadas querendo apenas vingar o companheiro.
No templo budista, próximo ao Ganges, o pequeno garoto desmaia diante da estátua, com as faces úmidas pelas lágrimas.
- Nunca se esqueça, Shaka... A morte não é o fim de tudo. Ela é apenas uma transição. As pessoas nascidas neste mundo que vieram a ser chamadas de santas, todas elas venceram a morte. Shaka, se sua meditação o fizer capaz de vencer a morte, mesmo sendo um homem, estará próximo de Deus.
A \"Exclamação de Atena\" foi liberada. No Jardim das Árvores Gêmeas, nada restou... O campo desapareceu, as flores se desintegraram. Não há mais nada além de um deserto abandonado. Restaram apenas as Árvores Gêmeas.
Os três sobreviventes tinham, agora, apenas um de seus sentidos. Saga mantinha a visão, Shura podia falar e Camus conseguia ouvir, juntos poderiam ajudar um ao outro, para assim chegar a Atena. Mas o que Saga pode ver, os outros podem sentir por seus cosmos... À sua frente, sentado na costumeira posição de lótus, está Shaka, intacto como se nada o tivesse atingido. Saga impede que os outros façam qualquer coisa. Seus olhos se abrem, ele se levanta e, dando as costas aos três, anda até próximo às árvores. Seus olhos se erguem aos céus, e novamente ele sorri, mas nada fala, apenas pensa.
\"As flores brotam... e depois murcham. As estrelas brilham... e um dia desaparecem. Esta Terra, o Sol... mesmo esta galáxia e o Universo inteiro um dia irão se findar... A morte virá algum dia. A vida de um humano comparada a tais coisas é apenas um mero piscar de olhos... Neste curto espaço de tempo, um humano chora, luta, é ferido, se regozija. Se entristece, odeia alguém, ama alguém... Tudo neste curto espaço de tempo. E no final, todos abraçam o eterno sono da morte.\"
Sentado novamente, agora sob as Árvores Gêmeas, toma em suas mãos algumas pétalas das árvores na qual, com seu próprio sangue, escreve algo. A tudo Saga e seus companheiros assistiam, e aquelas deveriam ser suas últimas palavras. Ele lança as pétalas ao alto. \"Vento, leve isto, para junto de Atena.\" Shura se aproxima, erguendo o braço acima do pescoço de Shaka, como uma espada,mas não chega a dar o último golpe, sua mão treme, e ele se põe a chorar. Já não havia mais nada a ser feito. \"Perdão, Shaka...\" pede o Cavaleiro. Seu corpo já havia desaparecido com a \"Exclamação de Atena\", e ele guiara até ali sua alma, para escrever nas pétalas suas últimas palavras. Diante de Shura e dos outros dois, a imagem se desintegra. Deixando apenas o rosário.
- Shaka... Perdão... – pede Shura.
- Vamos revelar a verdade para você. – diz Camus.
- Nós juramos pela sua alma que...
Mas um outro cosmo pode ser sentido. Uma borboleta paira sobre eles.
- Uma fada da morte. – afirma o Capricórnio.
- Quer dizer que ainda estamos sendo vigiados?
Saga não tem mais palavras, sente-se engasgado, e limita-se a um soco contra o chão, numa tentativa inútil de se ver livre daquelas correntes.
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