Além De Uma Simples Lenda
1 Capitulo I - Rowland, 15 anos depois
Rowland, uma cidade isolada das grandes metrópoles. Suas estradas são medonhas, apesar de serem retas e sem muitas construções em suas extremidades, são cercadas por campos e árvores. Fato que causa terror nos moradores de Rowland. Os moradores são humildes, e por este fato, eles se mudaram para esta cidade sinistra. As casas são baratas, algumas mais caras, porém todas são acessíveis para uma família pobre.
As casas seguem um padrão comum das cidades norte-americanas: feitas de madeira, com sua grande maioria consumida pelos cupins; rodeada por um gramado deprimente e mal cuidado; sem garagem, com o costume de estacionar no gramado da frente;
Atualmente Rowland voltou ao seu fundamento normal, apesar dos problemas do passado, tudo foi esquecido. Pelo menos, até hoje.
Era um dia chuvoso e frio. Acredito que é o dia mais gelado do ano, apesar de não estarmos no inverno. A ventania era intensa, tipo os ventos que comprimem os ossos. Minha avó estava deitada em sua cama, com cinco cobertores, como sempre. Todas as manhãs lia um livro para ela. Parecia gostar de minha leitura, até hoje nunca soube se realmente gostava de minha voz ou dos livros. Ou fingia gostar.
Minha avó era muito misteriosa, cheia de segredos nunca revelados. Atualmente vive no temor da velhice em sua casa de madeira, pequena suficientemente para ser um cômodo só. Sempre lhe perguntava sobre seu passado, sua juventude. Apenas ouvia histórias de seu romance com o meu avô, que não era lá pra lá muito interessantes.
–”Sua mão estremecia ao ver a noite surgir. Estava pálido. Mergulhou na mata, fugindo da civilização e de sua amada esposa. Correu o mais rápido possível até tropeçar em um riacho. E foi lá, que ele começou a ter aquela forma horripilante, peluda e musculosa novamente e...” – lia, até ser interrompida.
–Eu que deveria escolher os livros – interrompeu minha avó, com sua voz rouca da gripe que a dominava. – Não gosto desses tipos de livros.
–Foi o único que consegui alugar na biblioteca. O resto está empoeirado ou muito caro – respondi, fechando o livro e o jogando ao longe.
–Talvez se eu tivesse algum livro menos empoeirado, você leria, não é? – logo, começou a dar sua série de tossidos sofridos, como sempre. Por mais demorada que essas sessões poderiam ser, sempre a esperava terminar – Parece que gosta de ler.
–Sim, vovó, eu leria – Menti, não suporto poeira. Apesar de detestar ler, acredito as essas leituras com minha avó seja mais um passatempo. Ela parecia gostar de ler, não é pouca sua coleção de livros. Além do mais, há uma grande diferença entre ler e ouvir.
Minha avó ficara um tempo em silêncio, observando os arredores, estava procurando algo. Eu observava seus movimentos e olhares. Até que finalmente parou, olhando para um ponto fixo.
–Lucy, querida, pegue aquele livro para sua avó – disse olhado fixamente para a estante onde ficam seus livros. Obedeci. Levantei-me e segui em direção onde seu dedo apontava. A primeira vista vi um livro de capa preta. Peguei-o e antes que pudesse perguntar, ela mesma responde.
–Esse mesmo. Traga aqui. – Estendeu seu braço com a mão aberta. Notei sua ansiedade. O livro possuía páginas poeiradas, duvidei esse aspecto de minha avó. Era muito duvidoso, sempre evitava contato com qualquer tipo de poeira, parecia ter certo pavor disso.
Coloquei em suas mãos. Seu olhar fixo no meu pedia distancia, deveria ser algo pessoal dela, minha avó tinha um caráter privado, qualquer coisa ou troço dela, apenas ela deveria ter conhecimento. Dei alguns passos a trás e sentei na cadeira. Antes de abrir o livro, deu um grande suspiro. Foi folheando, cuidadosamente para não estragar as folhas secas e amarelas, até que parou em uma página. Seus olhos iam de um lado para o outro, lia rapidamente, parecia ter certa habilidade. Fechou o livro, guardou-o debaixo de seu travesseiro e começou a dar seus tossidos.
Minha confusão foi logo percebida por ela. Não consegui ver um motivo claro para ela coloca-lo atrás de seu travesseiro. Guardar algo lá era como guardar em um cofre, minha avó sempre foi muito atenta a tudo que ocorria ao seu arredor. Saia daquela cama apenas para fazer suas necessidades básicas, como tomar banho, que eram tarefas que eu precisava confeccionar. Não recebia visitas, a não ser eu, que sempre a visito desde os meus dez anos.
Era uma idosa muito esperta. Talvez seus anos de vida tenha lhe trazido certa experiência. Apenas pelo olhar, conseguia testemunhar pensamentos, não sabia como fazia isso ou era apenas eu que conseguia compreender. O pior disso, é que ela também desvendava os nossos.
–Sabe, Lucy, algumas coisas no mundo não devem ser ditas a ninguém. – respondeu, virando seu olhar para baixo, olhando suas mãos, tentando parar o assunto. Logo percebeu que foi lacônica demais e voltou a falar – Algumas coisas são difíceis e incompreensíveis de entender. O mundo, ás vezes, resolve fugir dos problemas. Poucos levantam a cabeça e resolvem-no.
–Como assim? O que tem de tão secreto nesse livro de capa nada criativa? – resmunguei espontaneamente. Não via motivo para ela, uma pessoa tão intima minha, esconder algo de mim. – Não sei por que quer esconder algo de mim, a única pessoa que te visita.
Minha avó deu uma bufada, algo que nunca a vi fazer. Cruzei os braços e andei pelo cômodo, olhando os móveis, meus sapatos encardidos... Procurando amenizar a situação.
–Lucy, eu sei o quanto está curiosa para saber isso. Mas sabe quando temos um segredo? Não podemos falar a não ser que seja realmente necessário. – Ela voltou a ter sua crise de tosses e com alguns segundos retornou a falar, percebi ser esforço, sua pele começava a esbranquiçar, deveria ser mais um de seus problemas – Você promete que apenas vai ler esse livro quando for altamente necessário? — voltou a tossir.
Virei-me imediatamente para retrucar, não aceitava esse fato. Quando minha avó tinha suas crises de tosse, esperava acabar para falar. Mas dessa vez, os tossidos tonaram mais intensos e altos. Seu rosto começou a embranquecer mais ainda, piorando a cada segundo.
–Vovó? – gritava repetidamente, correndo em sua direção e a segurando. Até que finalmente os tossidos pararam, assim como seu coração.
Chequei seu pulso. Sem resposta. Não podia acreditar naquilo, poderia ser apenas um sonho, um pesadelo. Remexia seu corpo várias vezes a procura de resposta. Nada.
Meus olhos encheram-se de lágrimas, evitei chorar. Sai correndo pelos fundos a procura de minha mãe, que nessas horas, deveria estar voltando do trabalho. A chuva não era problema, os raios até me assustavam, mas já estou acostumada com isso.
Escorreguei várias vezes. O caminho da casa da minha avó ate a minha era medonha. Por mais que seja dia, o caminho fica no abrigo da sombra de casas, principalmente de árvores. Pulando cercas, passando por jardins, esse era o caminho mais acessível e rápido. Andar pelas ruas de Rowland não era algo muito conveniente, é comum ver bêbados na direção.
Ao chegar a minha casa, ao mesmo tempo em que me apoie na maçaneta, eu a abri, fazendo com que todo peso de meu corpo ficasse apenas apoiado na mão que segurava a maçaneta. Fato que levou a minha queda ao chegar. Meu padrasto assistia à televisão e logo que entrei sobressaltou. Parecia ter ficado nervoso com a minha chegada.
–O que você esta fazendo?! — perguntou, em um tom rude e severo. — Não poderia deixar sua avó sozinha nesta hora. E melhor voltar agora! — gritou e aponto para o lado de fora da casa.
–Você não entende, preciso falar com a minha mãe — respondi friamente e séria, fazendo esforço para encara-lo.
–Então é melhor você procura-la em outro lugar. Suas mentiras não me enganam. — disse agarrando meu capuz e arrastando-me para fora. Rebatia-me tentando me livrar — Deixe de ser vagabunda e cuide de sua avó! — e me jogou para fora de casa com toda sua força.
Não imaginara onde minha mãe estará. Nesse horário deveria estar em casa. Talvez devesse esperar. Provavelmente ela estaria buscando Erick, meu irmão, filho do meu padrasto. Eu o detestava, não apenas pelo simples fato de ser filho de meu padrasto, mas sim por ser uma peste, que adora me atormentar e é simplesmente idiota, como qualquer criança mimada.
Resolvi andar um pouco, qualquer lugar era melhor do que aquele inferno que eu chamo de casa. Fui andando pelo caminho de terra, conhecida como o povo daqui de calçada. Não conseguia parar de pensar em minha avó, a chuva naquela hora não era minha maior preocupação. Minha avó... Sempre misteriosa e esperta. Difícil era saber seu passado, mas tudo o que me resta saber é o presente. Ela ficará no passado, não tinha mais o que saber dela.
Aquele dia cinza, chuvoso e frio lembrava-me coisas ruins. Deveria pensar em outra coisa ou enlouqueceria de novo. Sentei na sarjeta, procurando um lugar seco debaixo da árvore. Barulhos me chamavam a atenção atrás daquelas latas de lixos, era perturbante. Logo, um gato preto e branco e magricelo sai do meio das latas, mastigando algo e olhando aos arredores. Olhou em minha direção, um pouco desconfiado. Levantei-me, atravessando a rua lentamente, estendendo minha mão, procurando acariciá-lo.
Um carro, cujo vinha rapidamente virando esquina abaixo, acelerou em minha direção. Fechei os olhos. O barulho do breque enferrujado foi como uma facada nos meus ouvidos. Logo, a buzina toma conta da rua inteira. Abri os olhos, olhei atentamente. Era minha mãe. Como sempre, com seus olhos tremendos e arregalados. Abriu furiosamente a porta do carro, com seu guarda-chuva.
–O que você está fazendo aqui?! – resmungou, agarrando meu casaco e me jogando para dentro do carro.
Permaneci em silencio, os gritos azucrinantes de minha mãe me faziam emudecer cada vez mais. Erick ria de mim, disfarçando. Ela estava nervosa, passava em buracos sem preocupação, fazendo o carro velho saltar. Fez uma manobra perigosa, passando por cima da grama, estacionando-o no gramado da frente.
Viver na periferia era algo para as famílias mais pobres. O silencio daquela rua é perturbante. No momento que passa o trem, carregando cargas, domina a cidade, especialmente pelas trilhas enferrujadas, que faziam o barulho se tornar mais intenso. Porém, dificilmente passava por Rowland, só quando realmente fosse a ultima opção. Havia muitos boatos de ladrões que saqueavam as mercadorias do trem, logo na saída de Rowland. O barulho do trem fazia a minha casa estremecer, pois esta se localiza ao lado das trilhas, fato que é muito inconveniente. Apesar disso, nos fundos da casa há um matagal pavoroso. O pior é que a janela do meu quarto dava para este matagal.
Sai do carro mantendo serenidade, sem olhar para trás segui para a janela do meu quarto e entrei. Era o meio mais claro para entrar na minha casa quando quisesse evitar infortúnio. Adormeci logo em seguida, esquecendo o mundo, os problemas.
Aquele gato preto e branco, do qual bagunçava aquelas latas de lixo, surgiu na janela. Ele miava desesperadamente, até que algo preto, rodeada pela escuridão surge atrás daquele gato, quebrando a minha janela. Vinha em minha direção rapidamente, tornando-se cada vez mais escuro aos meus olhos.
Despertei. Estava suando frio, meus olhos arregalados e minhas olheiras representavam que eu não havia dormido muito, apesar disto ainda era noite e o barulho da televisão era predominante no meu quarto.
Levantei-me de imediato e segui para o banheiro. Lavei o rosto. Estava suando frio, e apenas o fato de não ter avisado minha mãe sobre o falecimento de minha avó me deixava mais angustiada.
Olhei com atenção ao espelho. Meu olhar era terrífico, sentia algo diferente dentro de mim, apesar da fome, algo me dominava por dentro. Sentia-me horrível. A porta abre rapidamente e logo surge minha mãe, vindo em minha direção. Notei certa ameaça.
–Porque você não me disse que a minha mãe morreu?! – gritou e deu um empurrãozinho no meu ombro esquerdo, como forma de intimidação.
–Eu ia dizer, mas todos estavam nervosos e quis evitar mais conflitos – tentei me desculpar, sabia que qualquer coisa que falasse não iria adiantar nada.
Ela levantou sua mão, lentamente. Testemunhei seus olhos cheios de lagrimas e ao mesmo tempo tão espantosos. Constatei que sua mão vinha em minha direção. Fechei os olhos. Tudo ficou escuro. Escuro até demais.
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