Além Das Lembranças
1 Como tudo aconteceu
Fechei a velha porta cor-de-café devagar, sem fazer barulho. Os ruídos estúpidos daquele horário me frustravam, então eu procurava evitá-los minunciosamente. Porém, o relaxante barulho das gotas do céu me causavam o "efeito bipolar": enquanto o estalo da chuva e o cheiro dos canteiros molhados deixavam-me com um suave sorriso, o cinza das nuvens escondido pelos guardas-chuvas fazia com que meu humor regular da matina piorasse. Tudo isso ao mesmo tempo, no fracasso de mim, que aguardava apenas a tediosa mesmice diária. Mas eu não podia prever o futuro, muito menos o que ocorreria dois segundos após eu apertar o botão do elevador.
Uma perfeita mistura da simplicidade com a sofisticação. Com os cabelos desgrenhados e presos sem carinho por mãos apressadas, a moça de olhos grandes e belos — da mesma cor que a singela e antiga porta do meu apartamento — viajava em seus pensamentos. Entrei no elevador, sem interrompê-los. O perfume de essência floral era encantador, assim como ela. Pensei em perguntar sobre o lugar onde a colônia fora comprada, mas meus planos deram adeus com a saída dela. E, de repente, uma sensação tão desconhecida quanto a moça invadiu minha mente, que clamava por descobrir tudo sobre ela. O nome, a idade, de onde vem, para onde vai.
Saí segundos depois, quase correndo. Tinha a esperança que, por ventura, trocássemos palavras mínimas. A chance surgiu ali, quando a pasta preta de plástico dela caiu, e espalhou os papéis que desciam lentamente com o vento gelado, como o balançar da rede no verão. Eu os catei, aflito, sem motivo.
— Aqui — entreguei as folhas um pouco amassadas, trêmulo — Sou Leonardo.Ela deu um sorriso apertado, e as pegou, ainda sentada no chão, guardando tudo.
— Obrigada. Meu nome é Anna — notei que a moça era discreta e seca. Levantou e foi embora, sem ao menos se despedir. Talvez fosse difícil conviver com alguém assim. Ou não; aquilo podia apenas ser um "mecanismo de defesa". De qualquer forma, era Anna. Bela e calma, como o nascer-do-Sol. Ela foi caminhando com passos ligeiros, mas carregava consigo uma doçura jamais vista. Anna andava como uma princesa — e ela era uma. Mas pertencia a uma realeza rica apenas de sentimentos. Era ela; a alteza plebeia que sabia tão pouco, mas que conhecia muito.
— Estranha ela, não é? — comentou o porteiro inconveniente. Respondi com um sorriso forçado, o mesmo que fazera quando mamãe perguntara a mim pelo sabor do almoço dela. Mas eu tinha concordar, Anna era estranha. Talvez esse não fosse o adjetivo certo. A moça era diferente, somente isso. Ela não era como as outras; não falava, não se vestia, não andava nem agia como as diversas mulheres por aí. Por mais que seu pequeno e simples nome fosse comum, ele refletia muito indiretamente tudo que Anna era: suave, sutil e encantadora. Ela não necessitava de maquiagem ou roupas curtas; ela apenas precisava ser ela, com sua jaqueta de couro e seu olhar de mato avoado — Seu Leonardo? O senhor vai... — e meus pensamentos e lembranças do que acontecera há minutos atrás foram bruscamente interrompidos pelo porteiro.
— Sair. Irei sair. Bom dia, até mais — rudemente, respondi. Eu não queria sair. Apenas queria ficar ali, esperando Anna voltar. Pouco importava-me a reunião do trabalho, ou a faculdade, nem Lizandra. Parece que, em menos de um dia, minha vida passou a resumir-se nela, a mulher do elevador.
**
Cheguei sem mente ao escritório. Os pensamentos voavam como libélulas em torno de Anna. Parecia que a realidade havia virado um mero fruto fantástico das últimas recordações vividas por mim, no meu prédio. A cada passo que dava no chão bege-escuro do escritório, sentia-me pisando em uma grama macia. As secretárias e advogados ao redor não estavam ali; e mesmo que os seus "bom dia" fossem ouvidos por mim, eles chegavam lentamente, de um modo surreal. Eu caminhava sobre um pequeno paraíso particular, mais precisamente — e mais clichê — nas nuvens. Porém, eu despenquei dela. Caí da altura mais alta, e levei o tombo mais feio.
— Léo, que bom que você chegou! — meu chefe gritava, e fazia a sala inteira nos encarar assustados — Tenho umas coisinhas para você... seu dia será um pouquinho cheio — a mania irritante de Moreira de falar palavras no diminutivo só para disfarçar a suas reais intensidades realmente irritava.
— É... — fui interrompido. Acho que as pessoas gostavam de fazer isso.— Tem uns bilhetes no seu pedaço que falam para quem você deve ligar — Moreira foi me levando até a minha saleta (carinhosamente chamada de "pedaço"), empurrando-me com as mãos até ela.
— Deus do céu! Senhor, é tudo isso? — estava diante a três paredes de plásticos cobertas por papéis pequenos e coloridos cheios de letras e números. No mínimo, assustei-me.
— Sim, e até hoje, por favor — Moreira saiu, friamente, após dar dois tapas no meu ombro. Ele, longe das bebidas, era assim: frio. E eu entendia o porquê. Ou, pelo menos, achava que entendia. Todos, inclusive sua secretária mais próxima, sempre diziam que ele era um homem sozinho. Seu casamento estava podre, e enquanto uma filha havera morrido tragicamente, a outra morava na Alemanha, e nunca falava com ele. Eu tinha pena dele. Pena e raiva, por ele parecer culpar-nos pelo fracasso vital dele.
Respirei fundo e recolhi todos os bilhetinhos. Formou-se uma pilha de cores chocantes ao lado do telefone. Percebi que a noite seria longa, e que provavelmente eu não encontraria Anna na volta para casa.
**
Estava praticamente acabado. A expressão de cansaço e sono dominou por completo meu rosto, que estava um pouco invisível por culpa da franja suada e bagunçada. Eu caminhava como se estivesse me arrastando. A bolsa de colo pesada fazia com que meus ombros caíssem e minhas costas se curvassem. Uma verdadeira vergonha ao fim de um dia profissional. Tudo, para mim, havia terminado. Eu apenas planejava chegar em casa, largar a bolsa no sofá e dormir. Dormir. Para sempre até, talvez. Porém, novamente, meus planos foram podados por uma tesoura extremamente afiada. Anna. Sobre a bela luz da Lua tardia e o céu azul-marinho, coberto de estrelinhas brilhantes. Com o cabelo castanho ondulado solto, a jaqueta sobre o antebraço, e os óculos presos no decote da blusa formal branca. A moça também tinha uma aparência adormecida, mas isso não tirava seu encanto. Ela andava delicadamente, de um modo complicado de se detalhar. Seu olhar permanecia avoado, como a primeira vez que a vi. Eu tinha consciência que ela não falaria comigo; Anna parecia estar ocupada demais em sua mente. Talvez eu devesse tomar a iniciativa — ou talvez não. Mas eu sabia que deveria fazer o que eu queria. E era, sem dúvidas, aquilo que eu queria.
Chamei o elevador, fingindo que não tinha visto a moça. Ao ouvir o barulho das portas velhas de aço se abrirem diante a mim, ela se apressou. O engraçado estalo do scarpin dela me avisavam o quão próxima Anna estava, e o receio de se comportar como um verdadeiro idiota era grande. Então, rapidamente, peguei o mp3 do bolso e coloquei os fones no ouvido. E no momento que selecionei a música, ela entrou. Seu rosto estava um pouco brilhante, talvez pelo suor. Respirei fundo, calmamente, para evitar qualquer sinal de desespero. Eu já era um imbecil desastrado nato; não seria nem um pouco difícil ter uma atitude embaraçosa na frente da moça.
Ao meu lado, percebi com o canto dos olhos que ela estava cabisbaixa, sorrindo de lado. Não consegui segurar; encarei seu rosto de boneca e sorri também. Há tempos que eu não sentia uma sensação tão alegre como aquela. Uma felicidade tão desconhecida, disfarçada de um nervosismo clichê. Minhas pernas estavam bambas, e meu coração palpitava descontroladamente. Eu não sabia o que aquilo era, mas tinha certeza que era algo jamais sentido por mim antes. A mente não sabia explicar o que estava ocorrendo com ela para o coração, e vice-versa. Porém, ambos, naquele momento, não faziam questão de uma explicação.
Virei-me em direção a Anna. Finalmente, ela olhou em direção aos meus olhos puxados. O sorriso da moça era encantador. Lábios finos e dentes pequenos, como uma criança. E, de repente, o que pareceu impossível aconteceu: fiquei ainda mais nervoso. As batidas do meu coração ficaram mais fortes, e eu comecei a tremer. Mas, mesmo assim, nada disso evitou o desenvolver das coisas. As mãos pequenas e macias de Anna envolveram lentamente o meu pescoço, que arrepiou-se com o toque. Meus braços foram parar em seu quadril, que era puxado como um íma para mim.
Tudo acontecia tão devagar, como se estivesse no slowmotion. O beijo era doce, e fazia eu me sentir voando. Anna e eu nos encaixávamos perfeitamente bem, feito duas peças de quebra-cabeça. Aquele momento, curto e inesperado, foi preenchido por coisas que eu mais adorava na vida; caixas de presentes, carros antigos e superheróis. Tudo isso aparentava estar ali, no elevador, comigo e Anna. Conseguia até ouvir fogos de artifício queimando no céu, porém, todo o sonho — que ocorria dentro e fora de mim — foi interrompido pela chegada do andar dela.
— Eu tenho que ir — ela dizia, com os lábios quase colados aos meus. Anna abriu os olhos, e me presenteou novamente com um beijo breve.
— Anna, eu... — o nervosismo ainda presente somado a tudo me deixou ofegante, sem conseguir falar.
— Não, Leonardo, é melhor a gente conversar amanhã. Realmente, eu preciso ir — ela saiu, sem dizer mais nada.
— Espera! — gritei e segurei as portas — E qual é seu apartamento?Anna virou, jogando o cabelo e a franja um pouco suada para os lados. Seu sorriso bobo e apertado deixava as maçãs do seu rosto muito visíveis, o que a transformava em um verdadeiro anjo.
— Ali, é o 405. Boa noite — ainda com o sorriso no rosto, ela entrou cuidadosamente em casa. Joguei-me forte na parede bege do elevador. Tudo estava flutuando, eu estava no céu. E ao som de Elephant Gun, automaticamente, as coisas se encaixaram, e eu percebi: estava louco por Anna, e nada podia negar aquilo. Lizandra era passado, e apenas Anna importava agora.
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