Akuma No Mai
5 In the Morning: Esse mordomo, Sentindo algo
Notas iniciais
“Não é possível. Ela está aqui novamente. Está me olhando de modo a não me permitir saber o que sente. Me fita com uma ponta de ódio, mas o brilho daquele olhar também indica desejo. Novamente seus lábios sem cor se curvam em um convidativo sorriso, e ela sequer parece com o demônio que conheci, também não se vestindo como tal. Mas afinal, onde exatamente estou? Ah, sim, estou em minha cama. Pois é, é minha cama. E Ela está olhando para mim sentada no parapeito da janela. Em trajes de dormir longos, e violetas assim como seus olhos. Sua pele alva brilha ante a escuridão da noite lá fora. E eu, por que estou admirando-a assim? Não sou capaz de ter qualquer sentimento humano mas... Ela me extasia completamente. Até consigo sentir algo dentro de meu peito vazio. Sinto um tamborilar forte em meu peito. Parece-me que existe um coração, e ele acelera cada ver mais. Ela... Ela está vindo em minha direção. Lenta e arrebatadoramente, me hipnotizando, me enfeitiçando, me fazendo sentir a... Am... Mas o que é que estou pensando? Este mundo humano deve estar me afetando de alguma forma. Ou talvez seja ela quem está me atormentando, sorrindo para mim novamente e seguindo em minha direção, sentando ao meu lado na cama sem se insinuar. Parece apenas querer ficar ao meu lado. E eu também quero ficar ao lado dela, porém não faço ideia do porquê. Sinto que a conheço de muito tempo atrás, mesmo não tendo nenhuma recordação dela em minha memória. Fico cada vez mais tenso ao seu lado, e tudo me atordoa: o vento frio, as cortinas brancas que balançam pelo quarto, o jeito que ela segue a me fitar. Fecho meus olhos para me recompor, contudo isso só me faz piorar, pois sem o sentido da visão, todos os outros entram em alerta. Sinto um perfume vindo dela, e sua mão toca a minha, fazendo com que me arrepie. Logo seu braço direito encosta completamente em meu braço esquerdo, e mais adiante, ela passa o braço por minhas costas e o enlaça em minha cintura. Um arrepio mais forte que o anterior percorre todo o meu corpo. SInto ela virar meu rosto para que eu precise olhá-la nos olhos. Estou ficando apavorado. Não sei como isso pode ser possível, mas sim, estou ficando apavorado. Posso até sentir a respiração dela junto à minha, e sua pele emana uma gelidez característica dos demônios. Não consigo mais fitá-la, e fecho os olhos, tentando me esconder dela, tentando parecer invisível, mesmo sabendo que fechar os olhos não é uma solução viável para tal. Mesmo sem a visão, novamente posso percebê-la chegar mais perto de meu rosto, e ela faz isso devagar; parece querer me enlouquecer. Lentamente, sinto os lábios dela se unirem aos meus, meu rosto avermelhar, e assim...”
Sebastian despertou mais uma vez no meio da madrugada, apavorado e gritando. Porém, desta vez, seus gritos foram ouvidos pelas visitas, e logo Louise entrou pela porta do quarto, notando um mordomo pálido e assustado, sentado na cama com o rosto enterrado nas palmas das mãos.
— Senhor Sebastian, está bem? – assim que o moreno percebeu se tratar da Woman Demon, levantou furioso da cama e a empurrou violentamente para fora de seus aposentos, gritando:
— S-saia daqui! Com que direito entra em meus aposentos e fala comigo? ME DEIXE EM PAZ!
Em seguida, ouviu-se a porta fechando violentamente, e os passos fortes de Sebastian no assoalho de madeira ecoaram pelos quartos.
— Por quê? Por que ela tinha de aparecer assim? Por quê? Por quê? Ela simplesmente poderia me deixar em paz, mas não. Tem que vir até aqui para acabar com a minha vida? E por que, pelos Mil Demônios, eu tinha que sonhar com ela? Duas vezes seguidas? E... O que é isso batendo em meu peito? Eu sou incapaz de ter sentimentos humanos! Eu não sou assim! Não tenho sonhos nem sentimentos, só uma fome incontrolável por almas! Sou apenas um akuma que acaba com o trabalho dos shinigamis! – o moreno não conseguia parar de falar, parecia totalmente descontrolado e tinha a mente embaralhada; depois de mais algum monólogo, gritou tão alto que chegou a estourar alguns vidros da mansão.
Em plena fúria, o homem pulou a janela de seu quarto e correu até os coração do bosque da mansão, lá descarregando tudo o que aparentava sentir. Arrancou árvores com apenas um soco, destruiu tudo o que viu pela frente. Na mansão, o único ser vivo que conseguia perceber o que o demônio fazia era Louise. De dentro de seu quarto, ela observava toda a raiva do mordomo. De inicio, a loura sorriu por tê-lo conseguido atordoar a tal ponto, mas depois passou a sentir-se um tanto culpada.
Deitando novamente em sua cama, ela relembrava a face do moreno.
— Me perdoe, mas era o único modo de eu fazer com que se lembrasse de mim... – a mulher sussurrou para si mesma, virando de lado na cama e logo pegando no sono.
Pela manhã, Sebastian retornou para a mansão em estado deplorável. Fraque rasgado, cabelos desalinhados e as mãos sangrando eram sinais de que o homem finalmente saiu de seu sério. Ele entrou cambaleante pela porta dos fundos, encontrando Louise, que retornava do desjejum de Ciel e Lily. Assim que a mulher notou o moreno escorado na porta, ele desmaiou. Ela ainda teve tempo de sustentá-lo sob seus braços, e então o carregou para o quarto, o colocando na cama e fitando-o por alguns segundos.
— Você precisa de um banho para voltar a seu normal. – ela sussurou. Em pouco tempo, a tina de água quente estava pronta, e Louise iniciou o processo de retirada dos farrapos que vestiam Sebastian. A cada peça retirada, ela via mais e mais marcas no corpo do moreno, e por fim, deixou-o na tina de banho envolto pela cintura com uma toalha branca. Despejou água morna cuidadosamente pelo rosto de Sebastian, que aos poucos foi retomando a consciência. A loura o tirou da água antes que esfriasse. “Eu sei que ele não sente frio, nem eu, mas mesmo assim é desagradável ficar imerso em água gelada.” Pensou consigo mesma, enquanto levava o akuma para a cama novamente. Louise passou algum tempo fitando Sebastian, que parecia de certa forma sereno, e logo conseguiu despertar completamente.
— O que você fez... – antes que ele terminasse a pergunta, ela tocou-lhe os lábios e indicou para que ele ficasse quieto e não se esforçasse.
— Eu estou saindo. Meu trabalho aqui está completo. Não se preocupe, nada de mal foi feito com você. – ela afirmou, saindo do quarto e indo supervisionar os trabalhos dos demais empregados.
Nesse meio tempo, Lilian e Ciel saíram para competir em uma caçada, deixando a casa silenciosa e tranqüila (tirando os habituais desastres de Finny, May Rin e companhia, que logo eram “remendados” por Louise).
Quando as duas crianças retornam, o almoço estava sendo servido, e após a refeição, começaram então os preparativos para a festa do Barão Gray. Lilian se virava sozinha, enquanto Ciel, irritado, chamava constantemente por Sebastian. Assim, Louise se apresentou prontamente.
— Onde está o Sebastian? – a irritação do garoto era plenamente mostrada em seu tom de voz.
— Senhor, vosso mordomo teve problemas esta noite, contudo, eu posso ajudá-lo. Mande, e eu obedeço. – Louise se curvou gentilmente perante o menor. Ainda aborrecido, ele aceitou a ajuda da mordomo, e logo as duas crianças estavam prontas.
Assim que se certificou de que os dois não iriam fazer qualquer coisa que lhes estragasse as vestes, a loura seguiu para seus aposentos, começando a se arrumar também. No intervalo entre o corredor e seu dormitório, ela abriu uma pequena fresta da porta do quarto de Sebastian, e o notou estar se arrumando também. Seguindo seu caminho, em cinco minutos a mulher estava devidamente produzida, com direito a um belo vestido violeta com um corte na perna esquerda, botas de cano alto, o cabelo preso em um coque com várias mechas soltas e a devida maquiagem.
Em seguida, todos se dirigiram à carruagem, iniciando algo como um ensaio para a noite que estava por vir.
— Devemos nos comportar como uma família bela e feliz, para que sejamos o alvo da noite. Eu serei a filha a ser apresentada, e vocês dois tratem de agir como se fossem marido e mulher, ouviram? – Lilian bradava para Louise e Sebastian, percebendo que ambos não tinham a mínima intenção de querer se comportar deste modo – Vamos, quero ver um sinal de afeto entre vocês.
— Isso mesmo. Vocês precisam se comportar com tal. Demonstrem logo o “sentem” um pelo outro. E nada melhor para isso do que um belo beijo apaixonado – Ciel ironizou e escarneceu, quase soltando uma risada.
Os demônios se entreolharam com um estranho sentimento, e depois de engolir em seco, o moreno tocou seus lábios nos da loura, ficando assim por alguns segundos e virando bruscamente.
— Vejam só, meu demônio consegue sentir vergonha! – o garoto ria apenas para zombar de Sebastian, que realmente havia corado e ficou calado por toda a viagem.
Após meia hora de carruagem, finalmente o quarteto se apresentou no local da festa. Sebastian e Louise saíram de mãos dadas e sorrindo, seguidos por Lilian e Ciel.
Assim começa a Akuma no Mai.
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