Akuma No Mai

10 In the Afternoon: Esse mordomo, sem ação


Durante os dias que se seguiram, Louise continuou a rondar a mansão Gray. Aparentemente, tudo era normal. O barão desistira de deixar a cidade, e Lilian lhe contara que faria aniversário ao final daquele mês. Sendo assim, o casamento ficou marcado para um dia após as comemorações da jovem, que se esforçava para parecer amorosa e gentil com seu noivo – coisas que ela nunca foi com ninguém.

O beijo trocado pelos dois adolescentes na madrugada da festa aparentava ter sido esquecido pela condessa, mas a cena permanecia muito vívida na mente de Ciel. O rapaz acabou deixando de lado muitos compromissos pensando em como trazer a condessa de Brook novamente para seus braços, mas nada de concreto surgiu. O garoto teve sorte de não receber nenhum chamado da Rainha, pois nunca havia se mostrado tão desleixado em sua pequena vida; em compensação, passou a realizar muitas de suas tarefas diárias sozinho, ainda que com grande dificuldade.

Sebastian e Louise continuaram a se encontrar às escondidas, pois o moreno decidiu não contar nada a seu amo. Os demônios se viam geralmente no meio da madrugada, para que tivessem a certeza de que não precisariam se separar devido a acontecimentos inesperados; mas desde aquela noite, o contato entre os akumas não passou de um beijo ou outro.

Mais duas semanas se passaram, e Ciel recebeu a visita de sua tia Francis e da noiva Elizabeth, a quem o garoto definitivamente não tratou bem, se recusando a atendê-las de início. Mesmo após Sebastian abrir a porta e atender as duas, o garoto não saiu de seu quarto durante a visita. No mesmo dia, começou a escrever uma carta.

“Tia Francis, querida Lizzy,

Perdoem-me por ter sido tão grosseiro durante vossa visita, porém, haviam muitos problemas em minha mente no momento, muitos deles relacionados à fábrica e à última campanha em prol da Rainha.

Trago aqui uma notícia dolorosa, e que não conseguirei transmitir a vocês por meio verbal. Pois pode então me considerar um covarde, Francis Midford.

Não posso me casar com Elizabeth. Jamais a faria feliz do jeito que ela gostaria, tampouco teria forças para viver ao lado dela com meu estado de espírito inconstante e racional.

Sem mais delongas, despeço-me,

Ciel Phantomhive”

O garoto fechou o envelope com cera negra e o selo da casa Phantomhive, soltando-o sobre a escrivaninha do escritório. Tinha a horrível impressão de que a carta lhe queimara as mãos. Então, isso sechama “remorso”, pensou, olhando para o pequeno envelope várias vezes durante o dia, por muitos dias. A coragem para colocar a carta no correio lhe veio depois de quase uma semana.

Nesse meio tempo, Louise percebeu algo que começou a incomodá-la durante suas rondas à residência do Barão Gray: Lilian vinha passando muito menos tempo nos diferentes ambientes da casa. A akuma farejou rapidamente que havia algo de errado naquilo.

Certa vez, durante a madrugada, a loura ouviu sons abafados vindos do interior da mansão. Se esgueirando até lá dentro, presenciou algo que até para um demônio era repugnante: sua ama estava sendo espancada pelo noivo, aparentemente sem qualquer motivo. Louise então entrou de rompante no quarto na forma de um corvo cinza, se colocando entre o barão e Lilian para interromper a seção de horrores.

— Uah! Mas o que é isso? Saia daqui, seu corvo nojento! – o homem grita, pegando seu casaco e enxotando a ave para fora.

Lilian notou imediatamente se tratar de Louise, ficando assim aliviada. Ao ver a ligeira calmaria da menor, o albino voltou a seu ataque de fúria, desferindo um tapa no rosto da noiva, que foi imediatamente ao chão. Louise voou até a mansão Phantomhive, lá explicando a situação a Sebastian.

— Mas não conte nada a Ciel. Eu também sei o que houve entre ele e minha ama na noite da festa, então... – ela foi interrompida antes de terminar a frase.

— Ele escreveu uma carta para a noiva dizendo que não fará mais o casamento. Penso que merece saber de toda a situação – Sebastian tinha os antigos ares de dominante.

— Não. Se ele se envolver, tudo poderá dar errado. Aquele homem é muito mais esperto do que aparenta ser. Além do mais, sem a expressa ordem de Lily… Lilian – ela corrige -, nós não podemos agir. Sabe como as regras de conduta são imbatíveis, e se agirmos por conta própria, nossos amos pagarão as consequências.

— Tem razão – o moreno coçou o queixo levemente — Mas é preciso impedir a união da senhorita Brook com o barão.

— Eu não posso. Para todos os efeitos, sou apenas a mãe dela, e com esse título, não tenho nenhum direito sobre as decisões de minha ama – a loura abaixou a cabeça.

— Porém, para todos os efeitos, eu sou o pai dela. Ainda posso revogar o casamento e tirá-la de lá – o moreno parecia muito prestativo.

— Você não pode sair daqui sem seu amo, ou ele desconfiará – ela pôs a mão na cabeça – Não há nada que se possa fazer. Estamos encurralados. Irei perder o contrato e terei de voltar ao submundo.

Na casa Gray...

— Vamos, mostre-me logo onde está o demônio! Chame-o! – o barão exigia.

— Eu não mantenho contato telepático com meu servo. Não adianta pedir, mandar ou insistir – Lilian era valente e insistente. Limpou um filete de sangue que escorria de sua boca e se levantou, provavelmente pela quinta vez naquela noite.

— Chame logo seu demônio, ou eu mato você – o homem levantou a garota pela gola do vestido. Tinha um insano sorriso por entre os lábios.

— Mate-me, assim não terei de me casar com você e também estarei livre do contrato do akuma – Lilian sorriu provocativamente, para em seguida lançar uma cusparada na face de Gray.

O barão soltou a menina no chão com violência, dando meia volta e se dirigindo à sala de estar, onde pegou várias bebidas e as misturou, tomando tudo de um gole só. Após o quê, tirou um lenço vermelho do rosto

— Um dia, vou acabar com você, está me ouvindo? – ele gritou para a noiva,

Lilian levantou-se mais uma vez e se dirigiu até o quarto. Lá, ela se limpou dos ferimentos, deitando na cama devagar, pois em seu corpo já existiam tantos hematomas que a dor provinha de qualquer lugar.

“Louise, haja o que houver, não permita que este casamento aconteça. Não sei como você fará isso, não me importam seus métodos, mas não permita que eu me case com esse inútil. Ele criou uma ilusão com aqueles olhos e conseguiu me hipnotizar.” A menina contatou Louise telepaticamente. Ela então se dirigiu até seu guarda-roupas, procurando por uma roupa limpa, gemendo de dor.

No fundo da última gaveta, uma pequena fresta lhe chamou a atenção. A garota encontrou uma abertura para baixo, pela qual notou conseguir passar. Seguindo por um caminho estreito e escuro que passava entre as paredes da mansão até chegar a um pequeno quarto, onde ela teve uma assombrosa visão: vários vestidos de noiva, todos quase que seu próprio tamanho, banhados em sangue seco.

— Não é possível... Ele já se casou com todas as donas destes vestidos... E depois as matou... Como fui tão burra...?

Nesse instante, Louise recebeu o contato telepático junto com tudo o que Lilian vira, graças ao forte laço do contrato das duas, mas a esta hora já estava de volta na mansão de sua ama, e decidiu lá permanecer, pensando em uma maneira de acabar com o casamento.

Lilian então retornou rapidamente para seu quarto, por sorte chegando à cama pouco antes de o barão entrar bruscamente pela porta.

— O que está fazendo aí, hein? Ficou quieta por tanto tempo que pensei que estava aprontando alguma – o homem ria, com as bochechas avermelhadas de tanto beber – Agora venha aqui, minha noivinha... Ainda não me deu sequer um beijo desde que veio morar aqui... – ele andava cambaleante, começando a chegar perto da cama.

Assim que percebeu a alteração do maior e suas insípidas intenções, a menina pulou de um salta da cama, correndo quarto a fora e descendo as escadarias de mármore, pulando a janela que ficava ao lado da porta de entrada da mansão. Ela se escondeu entre alguns altos arbustos que rodeavam a casa e lá permaneceu.

Este cachorro está tão bêbado que se duvidar troca as pernas na frente da escada e rola lá de cima, o que não seria nada mal para mim. Pensou enquanto aquecia as mãos. Dentro da mansão, o barão realmente não teve coragem para descer as escadas, dando meia-volta e decidindo ir dormir, jurando encontrar e acabar com a noiva no dia seguinte.

Pela manhã, Gray levantou da cama com um pulo e saiu à procura de sua noiva. Depois de vasculhar toda a parte interna da mansão, ele saiu porta a fora para olhar o jardim, e entre os arbustos encontrou Lilian adormecida, pálida e com a respiração pesada. Ele a acordou bruscamente, com um chacoalhão em seus ombros, a carregando para dentro da mansão.

— Jamais, jamais fuja de mim como fez ontem, ou eu mato você, entendeu?

— Mandei que me matasse ainda ontem. Agora eu repito: Me mate. Assim ficarei livre do contrato com o demônio e livre de você – a menina sussurrou, recebendo em troca um tapão no rosto e caindo no chão.

— Mais respeito com o seu noivo... –ele diz, segurando a menina pelo pescoço, por sorte, sem machucá-la. Depois ele a soltou e saiu da mansão furioso.

O beco sem saída ia se estreitando cada vez mais. Por um lado, Louise não poderia simplesmente matar o barão, pois ele não representava um mal direto à rainha. Por outro, precisava manter seu contrato, e queria acabar com Gray, pessoalmente ou não, pois espancar um ser indefeso era nojento demais até para os demônios.

Notas finais
Deculpem-me se está meio curto... Minha criatividade não tem me ajudado...