Akuma No Mai
2 At Night: Esse Mordomo, Incomodado
Notas iniciais
Na gélida madrugada da grande Londres, seres misteriosos pairavam sedentos por sangue e famintos por almas, dando sempre a preferência às almas refinadas e evoluídas, que por mais difíceis de capturar, seriam sempre as melhores recompensas. na busca por boas presas, dois demônios se aproximaram perigosamente dos limites dos próprios territórios, até que, na encruzilhada de três ruas, se encontraram cara a cara.
— Ora, se não é o cãozinho medroso que eu encontrei há dois dias... – Louise ironizou, parando a caçada e se encostando em uma parede de tijolos crus da viela, com os braços cruzados e o típico sorriso no rosto.
— Não me chame de medroso. Não sabe do que sou capaz, pirralha. – ele rosna, se forçando a não entrar em posição de ataque.
— Ah, francamente, você acha que eu vou me atracar com o senhor apenas por causa de território? Se precisa de mais almas, pode entrar em minhas demarcações — Louise abanou as mãos para o seu lado da demarcação invisível — Aqui as almas corrompidas são muito mais fáceis de agarrar — completou, com um ar superior.
— Tenho comida e terras o suficiente. O que quero é que você desapareça. Está causando danos ao meu olfato com esse perfume. Mordomos não devem se enfeitar. devem cuidar de seus amos e dos afazeres a eles impostos — Sebastian olhou para a demônio quase enojado.
— Só para constar: eu não uso qualquer tipo de cheiro ou maquiagem. Repudio quem o faz. Se você está caducando e quer arranjar uma desculpa para que não percebam, arranje outra, pois eu não tenho culpa se você está aqui há tantos milênios que sequer lembra a diferença entre o odor de um perfume e o de uma legítima akuma.
Sebastian ficou a ponto de explodir, o rosto em uma inacreditável vermelhidão, mas logo recompôs a figura calma e gentil de sempre, e com um sorriso virou as costas e foi embora no meio das sombras. A mulher sorriu sozinha, fazendo a mesma coisa em seguida.
— Pode me dizer o porquê da demora? – Ciel perguntou irritadiço, andando de um lado para o outro da sala com o camisolão de seda esvoaçando atrás de si.
— Precisei espairecer por algum tempo senhor. Minha mente tem estado conturbada.
— Enquanto limpava sua maldita mente, recebemos outro chamado da Rainha. Há um demônio encarnado no centro da cidade, e ele precisa ser detido.
Demônio e criança correram até o local do incidente, um aglomerado de cortiços empilhados uns nos outros, com manchas de mofo e tinta descascada. na rua que se enchera de gente para ver a situação, uma mulher tinha suas feições distorcidas e gritava sem parar, ameaçando todos que passassem por ela. Mas antes que o mordomo identificasse um modo de resolver o problema, Louise e Lilian apareceram, vestidas como mulheres normais; seguraram a encarnação de akuma pelos braços, e se desculparam gentilmente com os passantes:
— Perdoe-nos a irresponsabilidade. Nossa tia deveria estar em uma clínica de repouso para deficientes mentais, mas ela escapou dos enfermeiros e acabou por vir para cá – explicou Louise a todos e a nenhuma pessoa em especial, enquanto conduzia a mulher para um beco qualquer. Lilian terminou de acalmar os ânimos dos passantes, e logo foi atrás da mordomo. Os sons desapareceram lentamente, assim como a dupla.
— Seu idiota. Perdemos mais um trabalho. Se continuarmos nesse ritmo, elas serão os cães Primários da Rainha. Um terceiro trabalho perdido e eu mato você, desgraçado – enfurecido, Ciel agarrou o pescoço do mordomo e o ameaçou com um punhal escondido na manga bufante do casaco. Sebastian sorriu ironicamente, fazendo o menor o soltar. Se dirigiram mais uma vez para casa.
— Perfeito trabalho, não? Assim, parece até que realmente temos alguma ligação. – Lilian comemorava calmamente, sentada na poltrona estofada em couro de raposa na sala de estar, bebendo chocolate quente e olhando para a cara de sua akuma.
— Sim, senhorita. – Louise era cortesia e servidão. Limpou os lábios com um lenço e sorriu levemente – E devo dizer que esta alma me valeu pelo mês inteiro.
— Se quiser, podemos matar as próximas presas e dar suas almas para o mordomo da casa Phantonhive. – a menor ria.
— Certamente, My Lady. – a mordomo riu também. Retirou-se graciosamente e sorriu, deixando os caninos à mostra.
Em outra mansão...
— Idiota. Retardado. Burro. O que pensa que está fazendo? Vai arruinar tudo o que já foi feito pela casa Phantonhive para a Rainha seu desgraçado! – Ciel gritava em plena fúria enquanto dava passadas vigorosas de um lado para o outro na sala de estar. O salto dos sapatos fazia um insuportável clac, clac, no piso de madeira.
— Senhor, eu...
— Pare de falar como uma pessoa direita e me responda o que você tem na cabeça pra ter perdido dois trabalhos na mesma semana! – o menor encarou o mordomo com as feições distorcidas de raiva.
— Me perdoe senhor. Eu tenho estado com algumas dificuldades e...
— Você é um demônio! Não é passível de dificuldades! – Ciel exclamou, pegou o mesmo punhal de mais cedo e o apontou para sua própria garganta – Me diga agora o que está havendo com você ou eu cancelo esse maldito contrato.
— Você não seria capaz. Esse é o pior blefe que eu já vi em minha existência. – Sebastian sorriu.
— Será...? Não tenho muito a perder mesmo... – o menor apertou a lâmina devagar contra a pele do percoço.
— Pare de brincar e me dê essa faca. – o moreno ficou levemente mais sério.
— Eu já lhe disse que não estou blefando, muito menos brincando. – e o punhal finalmente perfurou a pele alva e delicada do Phantonhive.
— Deixe de drama e me dê logo esse punhal.
— Ghh... – Ciel sentia a dor, mas prosseguiu com o ato até a ponta do punhal abrir uma fenda de um centímetro de comprimento na garganta do garoto. O sangue saía em pequenas golfadas, manchando a gola da camisa e do casaco.
Agoniado, Sebastian deixou a máscara de seriedade cair e agarrou Ciel pelas mãos, arrancando-lhe o punhal e o pondo fora do alcance do patrão.
— Está certo. Eu falo. Mas não faça mais isso; este contrato não será rompido — no fundo, o mordomo estava realmente aliviado por ter tirado a faca das mãos de Ciel.
O menor sorriu e se deixou cair em sua poltrona, pegando um lenço e estancando o sangue. O mordomo retornou a sua posição e começou a falar.
— Louise não é um demônio qualquer. É um tipo que eu não via há mais de mil anos.
— Qual?
— A raça pura. Um Woman Demon.
— Woman Demon... Explique – Ciel parecia interessado na citação. Retesou-se na poltrona e estreitou os olhos.
— Um demônio feminino. Não apenas na aparência, mas no íntimo de suas entranhas. Uma Woman Demon possui mais força, agilidade e poder que vinte demônios como eu. A última vez que vi uma, eu ainda vivia em meu mundo — Sebastian parecia contrariado e tinha no rosto uma expressão dolorida. segurava as mãos em frente ao corpo e olhava meio para o chão, meio para o lado esquerdo, mas não via nada. Voltou sua atenção a Ciel ao ouvi-lo começar a gargalhar.
— Você está atraído por ela? Não acredito...
— Eu tenho medo. Me pôr no caminho dela é sinônimo de morte. As Woman Demon matam qualquer um que as incomode ou lhes falte com o devido respeito, principalmente se o assunto for comida e território.
— Quem diria, Sebastian Michaelis está com medo de uma mulher! – Ciel suspirou fundo para conter o riso, levantou e seguiu para o quarto – Vou me limpar e dormir. Esta conversa já me encheu a paciência. E lembre-se: mais uma falha e eu encerro o Contrato. Se minhas pernas e braços não me acompanham, é melhor que eu morra — entoou solenemente do alto das escadarias e depois se retirou.
— Yes, My Lord. – Sebastian se curvou para o nada e saiu pela janela, escalando a mansão por fora e subindo até telhado. A madrugada era cerrada, o céu um cobertor negro sobre as pobres almas da cidade. Sequer havia pessoas acordadas ou nas ruas. O moreno se retesou em pé na parte mais alta do telhado. olhou friamente para o breu sobre sua cabeça e puxou algum ar para os pulmões. deixou que um grito extrapolasse o silêncio e sobrepujasse-lhe a alma; um grito tão forte e desesperado que foi capaz de fazer Ciel sorrir em seu quarto.
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