Notas iniciais
Dedicando essa fic à Ana Ferrari, Shinya da minha vida, que me deu a ideia pra essa história ♥
Also, minha primeira fic de owari no seraph ♥ que emoção rsrs
Espero que gostem ;)

.... Como eu pude deixar que as coisas chegassem até esse ponto?

O chão de pedra sobre o qual estou sentado é duro e gelado pela noite. Eu não sei mais há quantas horas estou acordado, mas dormir me parece uma trapaça. Eu não mereço tal privilégio enquanto sei o quanto ele está sofrendo.

Mikaela está sentado de frente para mim, do outro lado da cela. Seus pulsos, seu pescoço, sua cintura e seus tornozelos estão algemados e presos por grossas correntes à parede atrás de si. Ele encara fixamente o chão, com a cara da desilusão.

Eu sei que ele faz isso numa tentativa de se distrair da fome. Talvez conte as pedras no chão, eu não sei, mas imagino que a essa altura ele já contou todas as coisas possíveis na cela enquanto tenta ocupar a mente com outra coisa. Isso apenas faz com que eu me sinta pior.

Há duas semanas, talvez pouco mais, eu, ele, Shinoa, Yoichi, Kimizuki, Mitsuba e Makoto viemos até Sanguinem para resgatar Mirai e Guren. Não sei como pude ser tão idiota... Acho que porque Guren é parte da minha família também eu precisava assegurar que ele estava bem. E Kimizuki não deixaria a irmã para trás. Após tantos problemas para nos reencontrarmos, Mika não questionou a decisão, mas... Eu preferia que ele tivesse. Preferia que tivéssemos continuado fugindo do mundo. Foi um tempo... Feliz.

Mas havia essa sensação de incompletude, logo é claro que viemos parar aqui neste covil de lobos. Pensamos que poderíamos só entrar de fininho, salvá-los e sair, e até pareceu que poderíamos no início. No entanto, as coisas não saíram conforme o planejado. Fomos ficando cercados, a defesa deles começando a ficar mais perigosa para nosso grupo. Lembro de ouvir o grito de Shinoa e a ver sendo capturada. Imediatamente, pensei em ceder para Asuramaru, só um pouco. Ele iria entender. Mas minha desconcentração foi o bastante para que Kureto me desarmasse e, em seguida, me imobilizasse. Eu não tinha medo da espada em meu queixo, eu tinha minhas saídas sobrenaturais exatamente para momentos assim. Mas então vi Mika ser preso também. Outra espada estava junto à sua garganta e ele parecia sofrer ao trocar um olhar comigo.

- Yuu-chan! – O ouvi gritar. A espada foi aproximada ainda mais dele quando tentei estender uma mão em sua direção. Se eu fizesse qualquer movimento brusco, seria ele quem pagaria o preço.

.... Eu.... Não poderia salvar minha família?

Sustentando o olhar com Mikaela, eu me rendi, sentindo o sorriso sádico de Kureto sobre mim. Mika parecia desolado. Eu já não conseguia ver nem Shinoa, nem nenhum dos outros. Eu sentia meu coração acelerando cada vez mais, nervoso com o que teria acontecido com cada um deles. E com o que aconteceria comigo e com Mika...

Eu e ele fomos levados a força até uma cela de prisão num subsolo que eu nunca conhecera em meus anos lá. Bem no início do percurso, tentei em vão me libertar, mas tudo o que consegui foi uma forte pancada na nuca e meus sentidos se apagando rapidamente, com a vaga impressão de que Mika chamava o meu nome. Ao acordar, eu vi Mika em frente a mim. Seus olhos estavam fechados e a respiração parecia mais pesada. Eu não sabia por quanto tempo estivera apagado, mas estava feliz em ao menos saber que ele estava bem. Se estávamos juntos, poderíamos encontrar uma saída para aquilo tudo.

E então os detalhes da cena começaram a chegar. Mika estava apenas com a calça, agora suja de sangue que eu esperava que não fosse o dele. Vi as correntes atadas em seu corpo e, ao tentar me levantar e ir até ele, percebi a mim mesmo também preso por correntes à parede. Mas eu não vestia minhas roupas de antes. Trinquei os dentes e senti lágrimas brotarem em meus olhos conforme eu percorria com os dedos as vestes brancas com preto.

Gado.

.... Após tantos anos, eu nunca pensara que usaria de novo essas roupas que me enojavam. Eu me importaria menos se Kureto tivesse me deixado sem roupas, já que sabia que isso fizera parte do processo de qualquer maneira.

- Yuu-chan.... – Ouvi Mika falar comigo. – Está acordado?

- Mika! – Tentei ir em sua direção, mas as algemas não permitiram. Enxuguei as lágrimas dos olhos e abri um sorriso genuíno em poder ouvir sua voz.

Ele me devolveu um sorriso triste.

- .... Que bom que está bem... – Ele balbuciou.

- Há quanto tempo estou desacordado?

Ele deu de ombros.

- Só algumas horas. Mas fiquei preocupado mesmo assim.

- Mika.... – Eu não sabia o que dizer. O que Kureto planejava nos deixando ali? Nossas vidas tinham algum valor? Se não, ele já nos teria matado. Então percebi algo reluzindo em seu rosto. – Você... Está chorando?

Ele riu, mas pareceu falso.

- Você também está.

Eu não tinha cabeça para brincadeiras nem para implicâncias no momento.

- Mika.... Por que fomos deixados aqui?

Seu semblante ficou sombrio e sua boca tremeu, conforme mais lágrimas saíam de seus olhos. Eu me inclinei em sua direção, sendo novamente parado pelas correntes.

- Mika!

Ele desviou o olhar.

- Yuu-chan.... Eu não quero machucá-lo.

- É por causa desse maldito uniforme, não é? – Perguntei, furioso. – Aquele Kureto imbecil vai se ver comigo quando eu sair daqui! Não vou deixar ele nos humilhar dessa forma!

- Yuu-chan. – Mika me interrompeu, triste. – Pare com isso….

Eu o olhei, confuso.

- Não é.... Pra nos humilhar....

- .... O que está dizendo, Mika?

Ele tocou a garganta, desviando o olhar.

- ... Você está com sede, não é? – Perguntei.

Mika não parecia ter se machucado gravemente, mas era comum se alimentar ao menos um pouco todos os dias. Eu fizera questão de que ele estivesse saudável nos quatro meses que se passaram. Quanto tempo fazia que ele não bebia sangue? Uns dois dias? Depois de uma luta intensa como aquela?

- É isso o que ele espera que aconteça, então? – Continuei, ainda olhando para ele. Eu estava com raiva. Do Kureto, principalmente, mas de mim por ter tido a guarda baixa e permitido que nós dois ficássemos naquela situação. – Ele quer que você beba meu sangue e me mate?

- Não! – Ele me encarou. – Você não entende? Não é nada disso....

- Então o que é? – Insisti. – Fale, Mika!

Ele não tentava secar as lágrimas que vertiam de seus olhos rubros. A expressão dele não era de tristeza. Era de puro desespero.

- Yuu-chan... – Ele começou. – Você sabe como os demônios surgem?

Eu fiz que não com a cabeça. Asuramaru nunca entrara em detalhes sobre isso. E não é como se tivéssemos uma aula sobre isso na escola.

.... Talvez até tivesse, pra falar a verdade, mas eu deveria ter dormido nela.

- Quando um vampiro.... Fica muito tempo sem beber sangue.... – O ouvi contar. – A sede começa a ficar insuportável. E se começa a perder o controle....

- Eu sei. – Interrompi. – Lembro daquele primeiro dia....

“Daquele primeiro dia em que você bebeu meu sangue”, eu quis dizer. Ele entendeu.

- Com o passar do tempo, a humanidade começa a se perder por completo. – Ele claramente lutava para manter a sobriedade da voz ao falar aquilo. – Se passar tempo demais, o vampiro entra em frenesi. E não há mais o que o faça voltar a ser o que era. É aí que sabe que ele se tornou um demônio.

Eu engoli em seco. A roupa não era para me irritar, não só para isso pelo menos. Era para me colocar no local em que todos os vampiros colocavam os humanos. Para lembrá-lo que eu era alimento. As correntes certamente não o deixariam se aproximar de mim, então tudo o que ele teria para fazer seria me observar e... Sentir fome.

Como deveria ser para ele? Será que meu cheiro se tornaria mais forte conforme ele estivesse mais e mais faminto? Será que em algum momento ele começaria a me ver realmente como gado? Eu me odiava por não poder entendê-lo, não saber como ele estava se sentindo com tudo aquilo. Por não poder ajudá-lo.

Eu só podia observar enquanto Mikaela enlouquecia lentamente.

Isso doía. Mais do que qualquer ferimento. Mais do que a humilhação de ter sido jogado ali, literalmente, como um animal. Doía não poder fazer nada pela pessoa que mais importava.

- Mika.... – Eu sussurro. – Me perdoe....

Ele não levanta o olhar. Demora alguns instantes para responder.

- Por que está se desculpando?

Sua voz está fraca e meio áspera. Seu tom gentil ainda está lá, mas eu sei que ele faz esforço para isso acontecer.

- Eu poderia.... Parar de comer o que eles trazem.... Se eu morrer, vai ser menos doloroso para você, não vai?

Mika fixa os olhos em mim.

- Não se atreva a fazer isso. – Ele rosna. – Você não vai desistir de tudo. Não depois de tudo pelo que passamos.

- Você prefere continuar sentindo dor?

Ele trinca os dentes com uma expressão perturbada.

- Eu aguentaria toda a dor do mundo por você, Yuu-chan.

Eu sinto minhas mãos suarem. Desvio o olhar. Por que continua tão bom comigo? Eu... Apenas te trago mais sofrimento.

- Além do mais, – Ele continua – a dor não vai passar.... Mas quando tudo acabar eles devem te libertar. Então você deve seguir em frente. Por nós dois.

- Mika...

Eu quero abraçá-lo. Eu quero confortá-lo e impedir que ele volte a chorar, mesmo sabendo que não posso fazer nenhuma dessas coisas. Eu estendo minha mão em sua direção. Ele faz o mesmo, me olhando nos olhos. Nós curvamos os dedos levemente, fingindo que seguramos a mão um do outro. Um pequeno gesto que criamos e que repetimos incansáveis vezes nesse curto espaço de tempo, mas que, para nós dois, parece uma eternidade. Ainda estamos juntos.

- Yuu-chan.... – Ele choraminga, não conseguindo se controlar. – Está doendo tanto....

Abaixamos as mãos e eu o encaro, pesaroso. Eu costumava amar os seus olhos azuis, mas agora aqueles dois rubis são insubstituíveis para mim. É esse quem Mika é. Eu não espero que ele seja nem um pouco diferente de quem é, mesmo que seja um vampiro.

- Mika.... – Repito, sem saber o que fazer.

Passamos um tempo em silêncio, apenas eu ouvindo ele chorar e me odiando pela minha impotência. Mika puxa as pernas para junto do corpo e abraça os joelhos. Eu vejo que ele está tremendo.

- Sangue....

Eu paraliso. De novo não, por favor.

- Sangue.... – Sua voz já não tem aquela gentileza. Ele levanta um pouco o rosto e olha para mim, mas sei que ele não está vendo a mim. Ele está desesperado com a fome e só enxerga alimento à sua frente. Eu sei que se ele conseguisse se soltar agora iria voar em mim e provavelmente me drenar por completo. Eu daria a minha vida para que ele mantivesse a sua. Mas nem isso tem como acontecer. Depois de tudo, eu continuo não conseguindo ajudá-lo quando mais importa.

Seu olhar é vazio e animalesco e consigo ouvir meu coração batendo forte. Meus instintos me gritam para sair dali, para fugir daquela fera. Eu respiro fundo e o encaro. Ele está conseguindo aguentar por tanto tempo por minha causa, o mínimo que posso fazer é me manter forte para ele. Eu sou a sua prancha nesse mar de loucura no qual ele foi colocado.

- Sangue... – Ele fala mais alto. – Me dê o seu sangue! EU PRECISO DE SANGUE!

- MIKA!!!

Ele congela, de pé, com as mãos estendidas em minha direção. As unhas como garras e as presas à mostra. Eu agora estou de pé também, mantendo as mãos à minha frente, não para me proteger, mas para tentar acalmá-lo. Após uma pequena eternidade, suas mãos trêmulas vacilam e ele escorrega até o chão, desolado. Em seguida, a consciência parece lhe voltar, fraca. Ele olha para as próprias mãos, completamente assustado, e cobre o rosto com elas.

- AAARRRRRGHHHHHHHH!!!!!

Seu grito ecoa pela cela e me surpreendo em como ambos ainda temos muitas lágrimas para chorar. Ele se contorce grotescamente em seu desespero.

- POR QUÊ? POR QUÊ EU TINHA QUE VIRAR UM MONSTRO, YUU-CHAN?

- Mika... Está tudo bem. Não pre---

- NÃO ESTÁ TUDO BEM! – Ele tira as mãos da cara, me olhando fundo, como se quisesse transmitir toda a sua alma em um olhar. – EU NÃO AGUENTO MAIS, YUU-CHAN!!!

Eu não consigo reagir. Não tenho o que falar. Seu peito se movimenta exageradamente, provavelmente o ar está lhe faltando. Será que isso é um dos efeitos da sede, ou é só pelos soluços do choro? Ele se encolhe, como um filhote indefeso.

- Yuu-chan... – Ele fala, baixinho. – Esse não sou eu... Eles... Estão me deixando louco, mas esse não sou eu, por favor, acredite!

Seus olhos me suplicam alguma salvação e me pergunto quanto mais daquela tortura eu vou aguentar até me entregar à minha própria insanidade.

- Mika, respire. Eu estou aqui com você. Eu vou continuar com você, não importa o que aconteça, então apenas fique calmo.

Ele continua encolhido e chora em silêncio. Suas mãos ainda tremem. Droga, eu quero tanto poder tocá-lo. Quero poder envolvê-lo com meus braços, ao menos para que ele se sinta um pouco mais seguro. Quero me libertar dessas malditas algemas e ir até lá para matar sua fome.... É impossivelmente doloroso só poder olhar enquanto ele se quebra por completo.

Após alguns minutos ridiculamente longos, tento retomar uma conversa.

- Mika, o que você gostaria de fazer se pudéssemos sair daqui?

Ele não levanta o olhar.

- Não seja idiota, Yuu-chan. Sabe que isso não é possível.

- É, mas... – Tenho uma pequena ideia, só para tentar fazê-lo sorrir. – Se pudéssemos escapar daqui e vivermos juntos... Isso não seria legal? Onde não existissem mais essas maluquices de vampiros, demônios ou serafins.

Ele ri em deboche.

- Eu continuaria sendo um vampiro. E você continuaria tendo um serafim dentro de você, assim como eu, pra falar a verdade.

Reviro os olhos, impaciente.

- Deixe de ser tão chato. Só estou dizendo que seria legal podermos fugir de tudo e... Vivermos como um família...

- .... Quer dizer que mudou de ideia? – Ele pergunta. – Então agora você escolheria fugir comigo?

Eu não o respondo, deixando meu consentimento no ar. Ele abre um sorriso, mas não tenho certeza se ele é real ou se está só rindo do seu destino.

- .... Você iria envelhecer ao meu lado... Mas eu continuaria jovem... Isso não daria certo.

- Eu não me importaria! – Digo sem pensar. Penso ver suas bochechas corarem um pouco, mas deve ser só impressão. – Eu... adoraria passar o resto da vida ao seu lado, em paz.

Ele não fala nada de imediato. Eu o espero responder.

- Isso é cruel, Yuu-chan. – Ele fala, com desgosto evidente. – Me fazer pensar essas coisas, sabendo que em breve eu... Não vou mais nem conseguir falar com você como eu mesmo.

- É melhor pensar em coisas boas. – Eu respondo. Não faço ideia de onde estou tirando tanta força para esse momento. – Eu prefiro que você pense em coisas felizes, porque te ver sempre triste... Está me matando também.

Ele olha para mim e, desta vez, o sorriso em seu rosto é de verdade. É aquele sorriso que enche a minha alma e me faz pensar que ele é como o Sol para mim... Radiante, trazendo luz para as trevas da minha vida. Ele estende a mão para mim e eu estendo a minha para ele. Enquanto fingimos estar juntos, eu sorrio. É bom, e eu passo algum tempo desse jeito, até abaixar a mão, já que nenhum de nós tem muita energia, de qualquer forma.

- Mika... – Eu hesito, com medo de que o que vou falar a seguir o deixe furioso comigo. – Talvez, no final... Tenha um jeito de permanecermos juntos.

Ele levanta uma sobrancelha, duvidando.

- O que quer dizer? – Ele tosse ao forçar a voz e demora até completar o pensamento. – Outra fantasia de final feliz?

Eu nego com a cabeça.

- Eu... Só estava pensando....

Mika se senta com as pernas cruzadas e faz um sinal para que eu continue.

- Bem... É possível que humanos façam contratos com demônios, certo? Então... Eu poderia fazer um contrato com você. Nós ficaríamos juntos, ao menos em parte.

Eu suo frio. Por favor, Mika, não me entenda errado. Eu... Só não quero ter que me despedir de você enquanto ainda houver outra possibilidade.

Ele me olha incomodado. Claramente, não está nem um pouco satisfeito com o que eu acabei de sugerir.

- Então você já aceitou que não há escapatória pra mim?

- Não foi o que eu quis dizer. – Infelizmente, eu tenho que considerar essa... Possibilidade.

Ele suspira e desvia o olhar, parecendo imensamente triste.

- Você é impossível. Não esperava que fosse tão egoísta... Primeiro me faz virar um vampiro, agora quer que eu vire um demônio para não deixar você sozinho? Cresça...

- Eu não quero que isso aconteça, tá legal? – Eu levanto a voz. – Mas... Eu não suportaria te perder de novo!

- Yuu-chan... Você é muito ingênuo.

- Eu não me importo! Eu não quero que você me deixe, Mika!

Ele engole um suspiro e me encara. Sua boca está entreaberta e ele parece querer me dizer alguma coisa.

- Tsc. Se eu virar um demônio, não vou mais ser eu mesmo, Yuu-chan. Vou estar corrompido e apenas as partes podres de mim vão sobrar.

- Eu não acredito nisso. – Eu insisto. – Você... É bom demais para que nenhuma parte boa de você sobre! Eu iria poder conversar com você e, de algum modo, ia encontrar em você o que te faz ainda ser você!

- .... Yuu-chan....

- Eu não vou desistir de você enquanto eu ainda puder fazer alguma coisa! Eu garanto que iria achar um jeito de fazer com que você também percebesse que ainda é você mesmo!

Mika desvia o olhar.

- .... Você falou a mesma coisa sobre eu me tornar um vampiro.

Fico em silêncio.

- Eu sinto muito, Mika. – Falo para ele, totalmente sério. – Eu sinto muito por não ter conseguido te transformar de volta em humano.

Ele dá de ombros.

- Não é como se realmente tivesse um jeito de isso acontecer...

- Mas eu deveria ter me esforçado mais.

- Yuu-chan, já chega!

Ele tosse e cospe um pouco de sangue. Isso não é nada bom. Ele está se esforçando demais... Eu tento engatinhar até o mais próximo que consigo dele.

- Mika, eu não vou te abandonar. – Falo com a mais profunda honestidade. – Eu não vou te deixar sozinho de novo. Eu vou fazer o que for preciso para que continuemos juntos. Mesmo que eu acabe me destruindo com isso, eu vou continuar ao seu lado!

Mikaela me observa, como se tentasse ler minha expressão. Ele deve saber que eu falo sério. Eu não vou desistir dele. Ele me estuda e, pouco a pouco, percebo que a dúvida em seu rosto vai cedendo lugar a outra coisa. Uma esperança, mas misturada a um certo arrependimento.

- Yuu-chan, isso pode não acabar nada bem para você. Você sabe que humanos que interagem demais com demônios começam a se parecer demais com eles...

- Mika, eu não me importo! – Eu queria poder segurar seu rosto, forçá-lo a olhar para mim. – Se você vai acabar me destruindo se eu... Fizer um contrato com você, eu não me importo! Você está sofrendo por minha causa e eu não posso fazer nada! – Eu espero que ele consiga entender o que eu sinto... Eu... Não posso perdê-lo novamente. Sinto minha voz ficar meio chorosa. – Você se sacrificou por mim a vida inteira, não acha justo que dessa vez eu sofra um pouco por você?

- Yuu-chan.... – Ele sussurra e tenta vir até mim, sendo parado pelas correntes. Ele cerra os dentes, frustrado. Eu seguro o olhar na sua direção e ele o retribui. Então o vejo sorrir de leve, com lágrimas brotando de seus olhos de novo.

- Mika, eu... Farei o que for preciso por você.

- Não vou ser mais eu, Yuu-chan... Você sabe como eu fico... – Ele se interrompe e põe a mão na garganta. Sua respiração fica mais pesada e seu corpo cai para a frente, fazendo ele se apoiar com a outra mão, torto.

- Mika! – Estendo a mão, preocupado. Ele estende a dele com a palma aberta, como que para dizer que está bem.

- Yuu-chan, obrigado. – Ele continua abaixado. Sua voz parece ainda mais rouca e ele tem extrema dificuldade em completar cada palavra. – Você... Sempre foi a razão de eu continuar vivendo.

- Mika....

Ele levanta o rosto para mim. Seus cabelos dourados estão sujos e pregados na testa. Seu rosto está cheio de poeira, após tantos dias ali, e sei que não estou nem um pouco melhor. Seus olhos rubros estão inchados de tanto chorar. Mas, de alguma forma, ele ainda consegue ser belo. É por esse rapaz que eu daria cegamente a minha vida. Eu estou cansado de apenas vê-lo fazendo o possível e o impossível por mim. É a minha vez de me sacrificar por ele.

- Yuu-chan... – Ele diz, com a voz quase sumindo. Suas mãos voltaram a tremer daquele jeito perigoso. – Eu te amo....

Eu o encaro. Aquilo.... Parecia inesperado, mas... Também parecia que eu sempre soubera. Desde o princípio. Eu sorrio para ele.

- Vamos sair dessa juntos. Eu te prometo.

Eu estendo a mão, repetindo o nosso gesto combinado. Ele faz o mesmo, mas, assim que “segura” a minha mão, ele começa a tremer mais forte. Sua mão se abaixa subitamente e eu me assusto, me desequilibrando. Mika começa a grunhir e me dirige um olhar mortal. Ele quer o meu sangue, eu sei disso.

- Mika! – Eu grito, mas ele não parece me ouvir. Tampouco fala algo em resposta. Ele começa a convulsionar, se tornando cada vez mais parecido com o predador que era no momento. Eu não consigo mais ver em seus olhos aquele vestígio de consciência ao qual eu grito em seus momentos de surto.

Eu entro em pânico.

- Mika! – Eu tento me levantar, com o coração acelerado. – Mika, volte! MIKA!!!!!

Ele me ignora, com os olhos sedentos. Ele não me reconhece mais. Minha expressão é de puro terror.

.... O que fizeram com ele?

- Mika, por favor, olhe para mim! – Eu ainda tento. Seu olhar ainda está em mim, mas vejo que ele estava certo. Aquele não é mais o meu Mika.

Ele continua tentando se soltar das correntes, seus pulsos estão sangrando pelos puxões que ele está e vejo que seu abdômen também está sendo cortado enquanto ele se força para a frente o quanto pode, rosnando para mim.

- Por favor, pare! – Eu mal percebo quando as lágrimas começam a sair de meus olhos. Eu não quero vê-lo se perder em sua loucura, em sua sede. Mas não consigo desviar o olhar, buscando ainda um meio de trazê-lo de volta para mim.

Tem que haver um meio.

De repente, com uma força que não sei de onde veio, ele consegue libertar uma das mãos. Ele deve ter quebrado o pulso para tirá-lo da algema e sangue escorre por seu braço. Ele tenta livrar o outro. Eu sei que é inútil, devido às algemas maiores, em seus pescoço e cintura, mas ele parece acreditar que pode chegar até mim. Na verdade, é porque sei que ele não consegue fazer outra coisa.

- MIKAELA!!!

Meu grito ressoa por todo o ambiente e ele ruge alto em resposta. Observo horrorizado quando um par de chifres brota de sua cabeça, um de cada lado. Seus olhos são tomados por uma negritude horrendo e eu grito e choro e tento ir até ele, tudo ao mesmo tempo. Eu não me importo que ele vá me matar assim que puser as mãos em mim. Eu preciso chegar até ele!

De repente, a porta da cela se abre e, calmamente, Kureto entra, ignorando o nosso desespero. Eu o olho com um ódio tão forte que nunca antes senti, mas ele apenas sorri sádico e observa Mika terminar de se tornar um demônio.

- Que decepcionante... – Kureto fala. – Pensei que seria um bom momento para o serafim aparecer... No final, ele só foi muito covarde de tocar a trombeta...

Pelo rosto de Mikaela, surgem marcas, como uma tatuagem, que vão escurecendo conforme ele grita. Eu observo desolado. A humanidade de Mika... Realmente foi toda embora?

Kureto faz um sinal e dois homens com o uniforme do exército demoníaco japonês entram na sala. Antes que eu perceba, um deles me dá uma forte pancada na cabeça e eu perco os sentidos.

Acordo em um ambiente diferente. Será que morri? Pareço estar a céu aberto.

- Yuu-san.

- Yuu.

Eu escuto vozes me chamando, mas ainda me sinto deveras desorientado. Então vejo rostos conhecidos.

- Shinoa! Guren!

A menina me abraça forte.

- Pensei que tivéssemos te perdido, seu idiota!

Eu retribuo o abraço, meio sem jeito. Felizmente, os olhos de Guren estão normais, então suponho que ele esteja em sã consciência.

- O que.... Aconteceu? – Eu balbucio.

Shinoa me solta e me apoio com uma das mãos para me manter sentado.

- Nós te achamos desmaiado naquela cela. Ficamos com medo...

Eu balanço a cabeça.

- Como me encontraram? Onde estavam? O que aconteceu?

- Digamos que a rainha dos vampiros me devia um favor. – Guren diz. Eu não entendo nada. A rainha dos vampiros? – Ela forjou a própria morte para poder agir por baixo dos panos mais livremente. Alguns vampiros invadiram a base humana de Sanguinem, comandados por ela. Digamos que ela e Mahiru são velhas conhecidas.... Então pedi uma ajuda para libertar alguns prisioneiros.

Eu continuo sem entender muita coisa. Guren estava trabalhando com os vampiros?

- Os vampiros mataram Kureto e a maioria das pessoas, mas Guren conseguiu uma trégua. – Shinoa conta. – Seria suicídio para eles matar todos os humanos. A rainha providenciou para que alguns de nós fugíssemos sem chamar atenção.

Eu a observo, me sentindo perdido. Estamos em uma rua qualquer de uma das muitas cidades abandonadas e destruídas pelo tempo. Ponho a mão na cabeça, me sentindo tonto.

- Vou deixar vocês sozinhos. Tenho que ir ver como estão os outros.

Dizendo isso, Guren se afasta de nós. Eu olho para Shinoa. Seus cabelos estão totalmente soltos e ela está com uma aparência de acabada. Não vejo o habitual sorriso irônico.

- Os outros estão bem? – Eu pergunto. – Yoichi, Kimizuki, Mitsuba...

Ela faz que sim com a cabeça.

- Todos nós sofremos um bocado nas últimas semanas, mas Guren conseguiu nos libertar. Vamos ficar bem, todos nós.

Eu percebo que ela também se refere a mim. Shinoa coloca sua mão sobre a minha.

- Tive medo de que você tivesse morrido.

Eu assinto em silêncio. Nenhum de nós fala nada por alguns instantes. Então ela força um sorrisinho e me dá um soquinho no braço.

- Acabou o seu fogo, senhor “vou matar todos os vampiros do mundo”?

Eu realmente não quero ter que pensar nisso agora...

- ... Fico feliz que todos estejam bem...

... Menos ele.

Shinoa percebe que eu não estou no clima para brincadeiras e fica séria também.

- Yuu.... Eu quero te contar uma coisa, antes que outro fim do mundo aconteça.

- Vá em frente. – Eu digo, dando de ombros.

Então ela cola os lábios aos meus. Quando ela se afasta eu a encaro, confuso. Caramba, todo mundo resolveu virar o meu dia de cabeça para baixo?

- .... O que isso significa? – Eu solto, mesmo já sabendo a resposta. Ela cora. Eu desvio o olhar.

- Eu gosto de você. Queria que soubesse. – Shinoa suspira e passa uma mecha do cabelo que caía em seu rosto por trás da orelha. – Resolvi que se te encontrasse de novo eu iria falar. Não adianta ficar mantendo segredos quando se pode perder as pessoas que lhe são mais importantes da noite pro dia.

Eu olho em seus olhos, sem saber como responder.

- Shinoa, eu.... – Eu gaguejo um pouco. – Eu não estou apaixonado por você.

- Tudo bem. – Ela me dá um sorriso triste. – Mesmo assim, ainda somos família, certo?

Eu sorrio para ela.

- Certo.

Ela me abraça de novo.

- Eu não espero que você corresponda assim do nada...

Eu a envolvo em meus braços e afasto um pouco nossos rostos para poder olhá-la.

- Eu não estou apaixonado por você. – Eu repito. – Mas isso não significa que isso não pode vir a acontecer um dia. Você é importante para mim.

Ela sorriu, suas bochechas completamente vermelhas.

- Alguém abaixou a guarda. – Eu provoco me referindo ao jeito meiguinho que ela mostra agora. Abro um sorriso sedutor, ou, sei lá, algo assim, só para implicar.

Ela me empurra, fingindo irritação. Mas depois me olha e começa a rir.

- Você continua péssimo em tratar as mulheres, Yuuichirou. – Ela implica de volta.

Eu sorrio. Por mais que pareçamos ofensivos um com o outro, eu gosto disso. Faz parecer que tudo está bem.

Então, eu não sei porque só agora, lembro de algo muito importante.

- Shinoa.... O que aconteceu com o Mika?

Ela fecha o sorriso.

- Ele era insubstituível, não era?

Eu faço que sim com a cabeça. Assim como foi quando reencontrei os humanos, com doze anos de idade, sinto que Mika faz muita falta. Ele também faz parte da minha família, no fim das contas, e eu não quero voltar a ter aqueles pesadelos horríveis que ficavam me lembrando que ele não estava presente.

Mas Shinoa abre um sorriso discreto e aponta para um canto, onde estão mochilas que suponho serem dela e de Guren. Ali, envolta por um pano de cor clara, está o que parece ser uma espada.

.... Será possível...?

Eu olho para Shinoa e ela consente. Então eu a puxo para um abraço apertado.

- Vá em frente. – Ela diz. – Sua família vai estar completa de novo.

Eu a olho, gentil.

- Obrigado. Sem você, ou Guren, ou os outros, aqui, isso não seria possível.

Ela fica corada, o que me faz rir baixinho. Ela ri também e me empurra na direção que indicou. Eu me levanto e vou até lá. Shinoa, ou Guren, ou outra pessoa qualquer, desenhou com antecedência um círculo de invocação ao lado de onde as mochilas estão. Provavelmente pensaram, corretamente, que eu iria querer fazer aquilo tão antes quanto pudesse.

Com cuidado, eu desenrolo o pano. No interior, há uma espada de lâmina clara e cabo branco. Não há bainha. A guarda é decorada de dourado, mas de resto ela parece bem simples. Eu observo atentamente cada detalhe antes de aproximar minha mão.

Com um arrepio, lembro em um flash de Mika cedendo à insanidade. Os olhos que não me enxergavam querendo me devorar. As unhas como garras em mãos cobertas de seu próprio sangue. Respiro fundo, afastando esses pensamentos de minha mente. Eu mesmo pensei em fazer isso, então não vou andar para trás. Com o coração acelerado, eu toco o cabo da espada e a levanto, indo em direção ao círculo de invocação.

Minha consciência se apaga por um momento e eu me vejo em um ambiente inteiramente branco, sem cenário. Eu reconheço imediatamente o meu subconsciente. Há alguns passos de mim, está a espada que meu corpo físico segura.

- Então você veio mesmo...

Eu me viro ao ouvir a voz familiar e vejo alguém de costas para mim. Ele usa uma blusa azul justa, com detalhes estranhos nos ombros e nos braços, além de uma calça simples. A roupa inteira parece como que feita de fumaça, ondulando como a chama de uma vela. Dois chifres negros brotam por entre seus cabelos loiros. Ele se vira preguiçosamente para mim e sei que terei que ser mais forte do que nunca para não resistir a qualquer que seja a tentação que ele irá me oferecer. Eu preciso me manter consciente para que possamos permanecer juntos de verdade.

- Você está pronto, Yuu-chan? – O demônio me pergunta, com um sorrisinho cínico e os olhos vermelhos brilhando.

- Estou, – respondo – Mika.

Notas finais
Espero que tenham gostado da fic. Agradeceria muito se deixassem um comentário ^^
Essa fic surgiu por causa de uma imagem (que depois não achei mais) do Mika como demônio e uma consequente teoriazinha sobre como e o que aconteceria. Dito isso, estou mais do que aberta a ideias para outras "teorias conspiratórias" que quiserem sugerir ;)
Kissus ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!