Akaluri - Parte 1

2 Uma identidade difícil de esconder


— Desvia-te. – disse ela para mim — A não ser que queiras acabar como esse desgraçado aí no chão.

- Mas o que é que…

Paralisada de medo, quase não conseguia sequer pestanejar, quanto mais desviar o meu corpo. Ela acabou por me empurrar para o lado e entrar no apartamento pela janela partida.

- Então e agora, vais parar? – perguntou ela, para o rapaz que estava no chão. Este, contorcido com dores, não respondeu nada, fazendo a rapariga suspirar, antes de o agarrar pelo tornozelo e arrastá-lo para a varanda novamente. — Parece que vou ter que te atirar mais uma vez, mas agora, será para o chão, três andares abaixo.

- NÃO, POR FAVOR! EU PROMETO QUE NUNCA MAIS FAÇO NADA!

- Hm... Porque deveria confiar em ti? Não sei... Por um lado, até aprecio a tua cara de desespero.

- POR FAVOR HYUNA, NÃO FAÇAS ISTO! — o rapaz inundava cada vez mais a cara cheia de lágrimas — EU NÃO QUERO MORRER!

- Oh! Eu não te vou matar, não te preocupes.

Ao ouvir isso, o rapaz suspirou de alívio. No entanto, ela pousou-o na beira da varanda, de forma a deixá-lo agarrado somente pelas pontas dos dedos.

- H-HEY! O QUE ESTÁS A FAZER?!

- Eu disse que não te ia matar, mas não garanti que não irias morrer hoje. Se quiseres, morre, senão, salva-te sozinho. Entretanto, eu tenho coisas a fazer, por isso, vou andando.

Aquela rapariga de brilhantes olhos lilás que tinha agora descoberto o nome, saltou da varanda e caiu em pé no chão sem qualquer dano, pronta para ir embora. Por sorte, o Ichiro estava a passar lá em baixo, em direção ao prédio. Ele não me parecia muito contente. Agarrando-a pelo braço, começou a falar coisas que, de onde eu estava, não conseguia ouvir. Ao mesmo tempo, eu a Manaka e o Hikari estávamos a tentar salvar o tal rapaz, puxando-o novamente para o lado de dentro da varanda. Aí, a Manaka gritou para a Hyuna:

- JÁ CHEGA! PARA DE FAZER SOFRER ASSIM OS OUTROS POR VONTADE PRÓPRIA!

Logo após uma pequena troca de palavras entre a Hyuna e o Ichiro, ouvimo-lo berrar igualmente:

- NEM TE ATREVAS A FAZER ISSO, HYUNA! ESTOU A AVISAR-TE!

- Avisar-me de quê? Para mim não é difícil acabar com ela num segundo, se não queres que eu o faça, anda parar-me. – a Hyuna rapidamente voou até ao apartamento e levantou a Manaka pelo pescoço com as duas mãos, apertando aos poucos – Cala a boca. Andas sempre a meter-te nos assuntos onde não és chamada. Tu não tens nada a ver com o que eu faço ou deixo de fazer, muito menos sabes os meus motivos. Percebeste?

A Manaka tentava libertar-se com dificuldade das mãos da Hyuna, quase sufocando. Enquanto isso, vi o Hikari correr até à cozinha. Antes que eu pudesse intervir, a Hyuna largou-a, deixando a Manaka cair da varanda abaixo.

- MANAKA! – gritei, em desespero, segurando o corrimão da varanda.

Lá em baixo, o Ichiro conseguiu apanhá-la sem dificuldade, enquanto a Hyuna largou um pequeno riso sarcástico, quase como se ela já estivesse a prever tudo aquilo. Eu não entendia como é que alguém podia ser assim.

- Akaluri! Temos de ir ver como está a Manaka. – o Hikari estendeu a sua mão esquerda para mim, segurando uma frigideira com a outra, o que me fez rir um pouco – De que te estás a rir? Anda!

O meu instinto era saltar pela varanda, para chegar lá baixo mais rápido, já que sabia que isso não me ia causar qualquer dano… Porém, ao olhar para a mão do Hikari, pensei que não o devia deixar lá sozinho, então peguei nele ao colo e atirei-me, sem sequer lhe dar tempo para refletir. Enquanto saltava, revelei as minhas brancas orelhas e cauda de gato, a minha outra identidade escondida. Sabia que era arriscado mostrar-me naquela forma, mas senti que aquele seria um momento urgente. Pousando o Hikari no chão novamente, dirigi-me à Hyuna. Atirei-me para cima dela, deitando-a ao chão, na tentativa de a atacar. Porém, foi-lhe quase indiferente.

- Fizeste-me um arranhão no braço.

- Não te metas com eles, ou eu...!

Ela empurrou-me para o lado e meteu-se em cima de mim, agarrando com força os meus braços contra o chão.

- Ou tu o quê? Eu só me meto com quem me devo meter.

Ela começou a torcer cada vez mais o meu braço direito, sem muita dificuldade, o que me fez cerrar os olhos e os dentes com força, tentando conter a minha voz para não gritar com a tortura de dor que sentia. De repente, ouvi um barulho e não senti mais as suas mãos geladas prenderem-me os braços. Aí, reparei que a Hyuna estava com uma mão na cabeça, a olhar para trás. Lá, estava o Hikari que tremia com a tal frigideira na mão, muito provavelmente tendo acabado de usar aquele mesmo objeto para lhe bater na parte de trás da cabeça… Apesar do seu ato corajoso, ele acabou por deixar a frigideira cair no chão, dando alguns passos para trás, com receio, como se, de repente, se tivesse dado conta do que tinha acabado de fazer. Felizmente, tudo aquilo conseguiu dar-me oportunidade de escapar: levantei-me e segurei na mão do Hikari, para fugirmos os dois. Fomos correndo juntamente com a Manaka e o Ichiro, deixando assim a Hyuna para trás, que desistiu de nos importunar. Passado algum tempo, o Hikari pediu para descansarmos um pouco.

Estávamos os quatro divididos em pares, sentados em dois bancos castanhos do mesmo parque no qual havíamos encontrado o Ichiro pela primeira vez, mais cedo. Não era um local muito grande, mas bastante bonito, na minha opinião… Tinha árvores magníficas, um chafariz lindíssimo e vários tipos de flores encantadoras e muito bem cuidadas. Definitivamente, eu considerava-o o meu parque favorito.

- Ufa... Isto é que foi correr! — exclamou a Manaka ao pegar no telemóvel, para ver as horas — Com esta coisa toda, já passa das nove e estou cheia de fome…

- Eu ainda tenho aqui o saco com a comida que fui comprar.

- Ahh! Que bom! Ainda bem que tiveste a ideia de comprar comida fora!

- Pois, diz isso quem ia fazer comida para todos nós. Afinal, a minha ideia acabou por nos salvar da fome e talvez de um incêndio na cozinha.

- Hey! Olha que eu, desde que comecei a trabalhar no café, aumentei muito os meus dotes culinários!

- Tinhas alguns antes?

- Desculpem, mas… — interrompi, confusa – Então onde é que está aquele rapaz?!

- Aquele com a máscara preta? – perguntou o Ichiro.

- Sim.

- Eu levei-o para um sítio escondido, para ele poder fugir.

O Ichiro estendeu o saco de comida para a Manaka, que pegou nele e distribuiu uma pequena caixa a cada um de nós, assim como pauzinhos, para comermos.

- Udon! – exclamei — Já não como há algum tempo, é tão bom!

- Akaluri…

- Sim, Manaka?

- Estás bem? Por acaso não te dói o braço?

- Huh? Porquê?

- É que… — ela apontou para o meu braço direito – Olha para ele.

Quando olhei, reparei que o meu braço tinha uma enorme pisadura. Ele estava avermelhado e também um pouco arranhado, algo que de certeza tinha sido feito pela Hyuna. Limitei-me a por a minha mão esquerda por cima da ferida, de forma a tentar esconder.

- Ah, não tinha notado…

- Também te queria perguntar mais uma coisa… – falou o Hikari, apontando para as minhas orelhas e cauda – O que é isso?!

- Oh… — nervosa, respirei fundo e escondi a minha forma mágica, voltando ao normal – Eu vou contar-vos…

- Se não estiveres à vontade, não precisas! – interrompeu a Manaka.

- Ah, não… Não faz mal. Agora que me viram assim, acho que já não posso esconder mais… Mas não podem contar a mais ninguém, seja quem for… Ok? É muito importante que não espalhem nada sobre isto...

- Podes só explicar ao Hikari, nós já entendemos. – disse o Ichiro.

- Como assim? Vocês sabem?

- Nós conhecemos a Hyuna, acho que isso já explica muita coisa... Já para não falar que nós também temos outra identidade que tentamos esconder, assim como tu.

- Quê?! – retorquiu o Hikari — Estou cada vez mais confuso! Vocês também são como ela?!

- Akaluri, se quiseres, eu posso fazer com que o Hikari se esqueça disto tudo.

- Eu não quero, Manaka... Estaríamos a ser injustos com ele. E, já agora, como é que ias conseguir fazer isso?!

- A minha outra identidade, assim como a do Ichiro, é sermos vampiros. Cada um de nós tem um único poder especial, que varia de uns para os outros. O meu, por exemplo, é poder distorcer a mentalidade dos outros, mas, como eu não nasci com estas características naturalmente, assim como tu ou o Ichiro, eu apenas consigo fazê-lo exclusivamente com os humanos, o que significa que não podia controlar a tua, por exemplo, mesmo que estivesses na tua forma humana.

- Ah, então... o Ichiro partilhou os poderes dele contigo?

- Sim, foi assim que me tornei uma de vocês. É por isso que os meus poderes também são uma variação dos dele, relacionados com a mente.

- Foi por causa disso que a minha mãe mudou de ideias assim do nada!

- Exato. Mas, de qualquer das formas, eu já tinha descoberto que não podia distorcer a tua mente há muito tempo, por isso duvidava que escondias alguma coisa, apesar de nunca ter dito nada. Simplesmente, achei melhor não tocar no assunto até chegar o momento indicado.

- Esperem aí, isto já é muita informação para mim apenas num dia. – comentou o Hikari – Deixem-me ver se percebi tudo... Então vocês os dois são vampiros e a Akaluri é uma mistura de gato com humano?! E a Manaka controla mentes?!

- Não é como se eu pudesse mesmo "controlar mentes", como dizes. — explicou a Manaka — Tal como falei, eu apenas as consigo distorcer. Posso alterar o estado de espírito ou trocar alguns elementos dentro das memórias ou pensamentos de alguém, mas nunca conseguiria mudá-los por completo, eliminar alguma coisa ou até forçar alguém a agir, não tenho esse poder...

- Acho que entendi. — disse ele — Mas espero que não faças nada comigo!

- Hahah, claro que não!

- Desculpa nunca te ter contado nada, Hikari…

- Não precisas de pedir desculpa, Akaluri. Eu percebo que não seja algo que possas contar assim… Eu apenas estou um pouco baralhado, não sabia que seres assim existiam mesmo. Confesso que ainda estou incrédulo...

Após ficarmos uns momentos calados, eu decidi voltar para a minha forma normal. Não sabia se tinha sido boa ideia ter contado ao Hikari e aos outros a verdade, mas senti que podia confiar neles. Depois de comermos, fomos caminhando de volta para o apartamento, de onde a Hyuna já havia saído. O Hikari decidiu ficar connosco também, depois de avisar a sua avó, que morava com ele. Estávamos todos bastante cansados, então, a Manaka e o Ichiro abriram o sofá para fazer uma cama e levaram-me a mim e ao Hikari para o quarto deles. Era pequeno e bem simples, com duas camas separadas, cada uma face a uma cómoda onde deduzi que estaria a roupa deles, pois foi de lá que eles tiraram os seus pijamas. Naturalmente, a Manaka emprestou-me um dos dela e o Ichiro ao Hikari, apesar de lhe ficar um pouco grande. Depois de nos despedirmos deles, eu e o Hikari deitamo-nos cada um numa cama. Mesmo cansados, ficámos algum tempo despertos a falar sobre vários assuntos, porque o dia tinha sido cheio de acontecimentos. Quando já não aguentávamos mais com o sono, apaguei a luz e adormecemos.

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Ainda deitada na cama, já sentia alguns leves raios de sol nas minhas pálpebras, que vinham dos pequenos espaços da persiana. Acreditando que aquela luz seria a mesma que iluminava o meu quarto, acabei por abrir os olhos, para depois me lembrar que afinal não estava em casa. Em retrospetiva, o dia anterior quase parecia ser inacreditável… Tinha conhecido pessoas novas; o Hikari havia finalmente voltado para a sua cidade natal depois de estar fora durante quatro anos; descobri que perto de mim existiam mais seres como eu (tal como a misteriosa rapariga que atacou); a minha segunda identidade tinha sido revelada... As coisas estavam seriamente a mudar e, com isso, questionei-me se a minha rotina não ia mais voltar a ser a mesma, depois de tudo.

Sentada na cama, o meu olhar acabou por se fixar na serena face adormecida do Hikari, que estava na cama ao lado da minha. A minha visão, sendo um pouco mais apurada do que a dos humanos, permitia-me ver coisas mais detalhadamente; isso fazia com que às vezes me desligasse um pouco do mundo, enquanto observava algo profundamente. Perdia-me então olhando para os seus cabelos roxos despenteados, que lhe cobriam ligeiramente as pálpebras. Com uns lábios parecendo um pouco secos e gélidos, notei que a sua boca estava suavemente aberta, o que acentuava o seu ar inocente enquanto dormia. Aquilo fez-me recordar memórias passadas da minha infância com o Hikari, de quando brincávamos juntos. Quando voltei a cair em mim, finalmente decidi levantar-me da cama e ir à cozinha para comer qualquer coisa, mas, antes disso, olhei para as horas: eram oito e meia da manhã. Pensando que tinha acordado bem cedo, hesitei ligeiramente e perguntei-me se alguém estaria acordado naquele horário. "Não seria melhor ficar mais algum tempo a dormir?", pensei. De qualquer das formas, eu sabia que não ia conseguir voltar a adormecer, por isso decidi sair do quarto. Assim que cheguei à porta da cozinha, reparei que lá havia um papel pendurado com um fio na maçaneta da porta, que resolvi ler: "Bom dia Akaluri/Hikari! Deixei este papel aqui caso vocês acordassem mais cedo que nós e estivessem com fome. Bem… eu não gosto muito que estejam na cozinha sem a minha presença ou a do Ichiro, então resolvi jogar pelo seguro e meter aqui um papel a avisar que". Eu fiquei bastante confusa e questionei-me porque é que a frase não estava corretamente terminada.

- Entro na cozinha ou não? E o que raios ela me queria avisar sobre? — sussurrei para mim mesma — Às vezes a Manaka é uma distraída… Aposto que ela nem sabe que não acabou de escrever o papel ou devia estar com tanta pressa que nem pensou direito! Agora não sei o que…

- Bom dia. — interrompeu uma voz grave.

- B-bom dia, Ichiro.

- Que papel é esse?

- Não sei, a Manaka deixou isto aqui…

Ele tirou o papel das minhas mãos e começou a ler.

- A sério… — ele sorriu ligeiramente enquanto falava; era um sorriso bem pequeno, o qual talvez uma pessoa que não estivesse atenta a ele não notaria — Bem, vamos entrar na cozinha eu ajudo-te a preparar as coisas, Akaluri.

- Ok, obrigada!

Ele abriu a porta e foi buscar duas chávenas ao armário, pousando-as em cima da mesa.

- O que queres tomar como pequeno-almoço?

- Hm... Pode ser um café com leite e umas bolachas, se tiveres...

- Sim, bolachas e café é o que não falta nesta casa, graças à Manaka.

- Como assim? Bolachas, eu até entendo, mas sempre pensei que ela não gostava de café.

- De facto, ela não gostava, mas a universidade tem dessas coisas, se é que me entendes.

- Oh... Coitada. — comentei, rindo — as noites que ela deve passar sem dormir...

O Ichiro pegou numa das chávenas e meteu-a na máquina de café. Depois de estar pronto, ele colocou lá dentro um pouco de leite quente e metade de um cubo de açúcar, estendendo-me a mão com a chávena.

- Toma. — disse ele.

- Obrigada. — respondi, pousando a chávena à minha frente.

- Que bolachas queres? — ele mostrou-me alguns pacotes diferentes — Temos de canela, chocolate, manteiga…

- Hmm... Por acaso não teriam palmiers? Já não como há algum tempo…

O Ichiro arrumou as outras bolachas e procurou na prateleira se havia algum um pacote de palmiers. Assim que o viu, ele pousou-o em cima da mesa e eu agradeci, abrindo-o. Entretanto, alguém entrou na cozinha.

- Bom dia...

- Bom dia, Hikari! — respondi — Dormiste bem?

- Sim, dormi bem. — ele observava à sua volta — Gosto desta cozinha. Tem um aspeto meio... rústico?

- É simples apenas. — respondeu o Ichiro — O que queres para pequeno-almoço?

- Pode ser… — o Hikari fez uma pausa para pensar — Só um pão com queijo e um copo de leite morno, por favor.

- Só temos pão de cereais, não te importas?

- Ah, claro que não me importo, melhor ainda! — respondeu o Hikari, sentando-se ao meu lado.

O Ichiro abriu o pão, no qual meteu uma fatia de queijo. Depois de o aquecer um pouco na tostadeira, ele pousou-o num prato, que colocou em cima da mesa em frente ao Hikari, juntamente com uma caneca de leite moderadamente aquecido.

- Obrigado.

- Ichiro, a que horas é que a Manaka costuma acordar? — perguntei.

- Depende... Quando é obrigada, ela até acorda cedo, mas quando tem folga, dorme bem até quase às três da tarde…

- Ela deve estar cansada, especialmente depois do que aconteceu ontem…

- Sim, é melhor deixá-la descansar mais um bocado. Depois, quando formos almoçar, acordamos a Manaka com o almoço já pronto.

Durante algum tempo houve um estranho silêncio enquanto eu e o Hikari acabávamos de tomar o pequeno-almoço. Enquanto isso, eu pensava nos acontecimentos do dia anterior e em todas as dúvidas que eu ainda queria que fossem esclarecidas.

- Ichiro…

- Diz.

- Qual é a vossa relação com essa tal Hyuna? Isto é... Se é que posso perguntar.

- Não sei bem explicar... Para mim, ela é alguém que eu simplesmente não suporto. Para a Manaka, ela deve ser vista como uma espécie de ameaça, suponho.

- Conhecem-se há quanto tempo? Ela sempre fez este tipo de coisas?

- Eu e a Hyuna conhecemo-nos há uns anos. No início estava tudo bem, ela era uma pessoa gentil. Depois tornou-se bastante arrogante e fria.

- E há algum motivo em particular?

- Preferia não falar sobre isso.

- Eu entendo...

- Então o que vamos fazer agora? — perguntou o Hikari.

- Não sei. — respondeu o Ichiro — Há algo que querem fazer?

De repente, a Manaka entrou também na cozinha esfregando um olho, com um ar bastante sonolento.

- Bom dia a todos...

- Bom dia. — respondi — Acordaste mais cedo do que o costume, não foi?

- Sim, não dormi muito bem esta noite. E, sabendo que estavam cá, preferi levantar-me.

- Pois, eu percebo...

- Olha… Não achas que devíamos fazer algo a respeito disso? — ela apontou de novo para o meu braço, tal como na noite anterior -Talvez fosse melhor esconder essas feridas.

- Tens razão... — concordei — Se a minha mãe vir isto…

- Tens sorte porque curas mais rápido que os humanos, senão nem sei como farias!

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Depois da Manaka me tratar da ferida, vesti o meu casaco cinzento e saímos do apartamento. Já que era fim de semana, queríamos aproveitar para dar um último passeio pelo centro da cidade e falarmos sobre a tal proposta de trabalho, antes de cada um voltar para sua casa.

- Eu gostaria de entender melhor a vossa ideia… — disse a Manaka — Se nos falta dinheiro para aumentar e melhorar o café, como vamos ter dinheiro para empregar quatro pessoas de um dia para o outro? O chefe não aceitou que trabalhassem de graça.

- Nós apenas estaremos lá para vos ajudar, então eu pensei propor-lhe que o nosso salário podia ser ganho distribuindo todas as gorjetas entre nós, os voluntários. Para tal, podíamos ser transparentes com os nossos objetivos das remodelações e anunciar isso aos clientes, para que eles tenham noção da mudança; talvez isso possa incentivar as gorjetas! E, enquanto angariarmos fundos para o aumento do café, a ideia seria estarmos encarregues de vos ajudar tornando o atendimento mais rápido, assim como ajudarmos na introdução de novos ou melhorados produtos para o cardápio e também ter uma animação naquela parte do karaoke, é claro!

- Wow… — ela parou uns segundos para refletir naquilo que eu acabara de dizer — Realmente, Akaluri, ideias nunca te faltam! Parece-me um plano bastante realista, com esforço! Vocês fariam mesmo isso pelo café? Trabalhar sem salário fixo até arranjarmos tudo?

- Sim, claro! Não tem mal… O único contratempo que poderíamos causar ao café para balançar o nosso trabalho, é de sermos nós a decidir os nossos próprios horários semanais a propor, obviamente, todos trabalhando as mesmas horas distribuídas pela semana, como bem entendermos, para continuar justo. Eu propunha cada um de nós trabalhar somente doze horas por semana, que achas?

- Akaluri…. — ela abraçou-me – Isso ajudaria imenso! Vocês sendo quatro, a trabalhar cada um doze horas, já nos acrescenta, no total... quarenta e oito horas a mais por semana de trabalho extra! Muito obrigada! Estava com medo que algo mau fosse acontecer ao café!

- Não tens que agradecer, apenas queremos ajudar! Todos te adoramos a ti e ao café!

- Bem, parece-me que isto se resolveu mais rapidamente do que aquilo que eu pensava — acrescentou o Ichiro.

- Então, o que isto significa? — perguntou o Hikari — Já estamos contratados?

- Falta-me só falar com o chefe, mas aposto que sim! — exclamou a Manaka — Juntos vamos conseguir tornar o café ainda melhor!

Contentes com a conclusão do assunto, continuamos caminho. No entanto, ao longe, notei uma baixa rapariga de longos cabelos azuis, com um vestido fazendo uma leve referência a um estilo vitoriano bastante simplificado, de tons castanhos e brancos; era a Sara. Ela estava a conversar muito amigavelmente com um homem alto, de cabelos grisalhos, que parecia ser quase uns 40 anos mais velho do que ela. Um pouco chocados, nós olhamos uns para os outros, na incompreensão do que se estava a passar ali. O que é que ela estaria a fazer com aquele homem? Não parecia ser o seu pai... Tudo aquilo parecia ser muito estranho e suspeito...