Akaluri - Parte 1

6 Talvez um dia normal


Estava a trabalhar no café, daquela vez atrás do balcão, a preparar bebidas e arranjar a vitrina, que exibia uma tentadora seleção de bolos fofinhos e bolachas coloridas. Naquele espaço, preparávamos também os crepes, pois gostávamos que os clientes pudessem ver-nos a confecionar algo fresco, assim que faziam o seu pedido. Aquela abordagem acabou por ser um verdadeiro sucesso, dando ao nosso café a reputação de servir crepes originais e deliciosos, sempre embrulhados na base com um papel decorado, ideal para quem preferisse levá-los e comer à mão. Naquela altura, o café já tinha passado por algumas mudanças: o uniforme era novo e cada funcionário tinha uma cor e um animal atribuídos. A mim calhou o rosa claro e o coelho.

— Agora sim, é a tua vez de cantar! — exclamou a Manaka.

— Oh não... — respondi.

— Já todos o fizemos e não foi assim tão aterrorizador! — comentou a Naomi, enquanto me empurrava para o pequeno palco do café — Vai! Tu consegues!

— Eu não teria tanta certeza… E não és ninguém para falar a partir do momento que não tens medo de estar em frente ao público!

— Não digo isso só por mim! Eu sei que sabes bem a coreografia e a letra, por isso vai correr bem!

Em pé, no palco, fechei os olhos por uns segundos após observar os clientes, que naquele momento eram o meu público. Respirei fundo enquanto segurava o microfone, sentindo-me ainda mais nervosa do que o habitual. As pessoas continuavam a conversar entre si, a maioria sem sequer notar a minha presença. Eu não sabia como captar a sua atenção, e, na verdade, nem tinha grande vontade de o fazer. No entanto, era necessário, por isso a Naomi pegou no microfone.

— Boa tarde! — falou ela, com entusiasmo.

— Boa tarde! — responderam alguns clientes em coro.

— Vamos começar com o karaoke! Estejam livres para virem cantar, tocar música ou dançar algo, logo a seguir à atuação da Akaluri! Se quiserem vir, podem inscrever-se falando com qualquer um de nós, até as cinco da tarde! Obrigada!

Assim que a Naomi me devolveu o microfone, ouvi a música começar a sair das colunas. Respirei profundamente uma última vez e, sem pensar demasiado, comecei a cantar e a dançar. Enquanto atuava, percebi que entre o público estava aquela linda rapariga de cabelo rosa e olhos vermelhos, com quem eu tinha tentado falar no outro dia. Quando terminei, os clientes aplaudiram e, depois de agradecer, desci rapidamente do palco, dirigindo-me de imediato para a caixa. Quanto menos tempo passasse em cima daquele palco, melhor! Peguei num tabuleiro que estava pousado no balcão, com uma fatia de bolo de chocolate e um pequeno batido de baunilha, juntamente com um papel que dizia "mesa 4". Instintivamente, soube que esse pedido era o dela.

— Aqui tens! — disse, ao chegar à sua mesa — Bom apetite!

— Foste tu que me serviste no outro dia também, não foste? Gostei da tua atuação no palco.

— Ah... Sim, fui eu… — hesitei, envergonhada — Muito obrigada…

— Toma.

Ela entregou-me um desenho feito com lápis de cor e canetas coloridas. Nele, estava representada uma rapariga de cabelos compridos, com orelhas de coelho e em cima de um palco, vestida exatamente como eu naquele momento. A atenção aos detalhes era incrível, e fiquei surpreendida pela forma como ela capturou tão bem a minha imagem no seu próprio traço. Estaria ela a estudar artes também?

— Sou eu? — perguntei, para ter a certeza.

— Sim, fica com ele.

— Wow! Está lindo! — exclamei, sorrindo — Obrigada! Vou fazer uma moldura para ele. Um dia, vou-te fazer um desenho em troca, para te agradecer.

— Também desenhas?

— Sim! Aliás, estou no último ano do curso de artes visuais, no secundário. E tu, qual fizeste?

— Oh... Hm... Eu estudei humanidades.

— E decidiste ir trabalhar logo de seguida? Não gostavas de prosseguir os estudos? Humanidades parece-me ser tão interessante!

— Não foi bem uma decisão minha ir trabalhar... Diria mais uma obrigação; mas planeio um dia continuar os estudos.

— Entendo... Por vezes nem é assim tão fácil. Quantos anos tens, já agora?

— Tenho dezanove. E tu?

— Eu vou fazer dezassete, daqui a nada. Como te chamas?

— Ichigo…

— O nome é tão fofo! Combina muito contigo! — sorri.

— Oh... Não digas isso... — falou ela, bebendo um pouco do seu batido de baunilha.

_________________________________________

— Manaka! — exclamei, chegando de volta ao balcão — Consegui.

— Conseguiste o quê?

— Finalmente falei com aquela linda rapariga de olhos vermelhos que no outro dia me disseste que era um ser como nós. Temos algumas coisas em comum; ela até me deu o seu número!

— Não me lembro… Quem?

— A que está na mesa quatro.

— Ah, sim… — afirmou ela, enquanto olhava para a mesa — E então? Correu bem?

— Ela deu-me um desenho. — falei, estendendo a folha para ela.

— És tu? — perguntou a Manaka, olhando atentamente o desenho, com ele ainda na minha mão.

— Sim! — sorri — Está lindo não está? Porque não pegas nele?

— Tenho medo de o estragar... Hoje tenho andado só a fazer desastres…

— Como assim?

— Assim que cheguei ao café, em vez de parar, abrir a porta e entrar, eu continuei sempre a andar e bati contra ela; depois, ao ir para a cozinha, tropecei nos cordões das minhas próprias sapatilhas… Aí, notei que nem sequer os tinha atado, ao sair de casa…

— Mas o que… — mesmo sentindo uma enorme vontade de desatar a rir, aguentei, e, sentindo uma pequena impressão na garganta, comecei a rir baixinho, para não perturbar os clientes — O que se passa contigo?! Quem costuma fazer esse género de coisas sou eu!

— Ah, mas não acabou por aí! Depois de eu miseravelmente cair no chão do balneário do café, fui trocar de roupa. A partir daí, o dia correu normalmente, até eu levar alguns pratos à cozinha, para serem lavados. Todos eles caíram ao chão e partiram.

— Bem, é verdade que às vezes podes ser um pouco esquecida, distraída ou até desastrada… mas não costumas ser assim tanto só num dia! Acho que bateste um recorde.

— Hey! — ela deu-me uma leve cotovelada no braço, seguido por uma pequena gargalhada.

— Passa-se algo para estares assim ou é só mesmo uma coincidência?

— Bem… Eu talvez… Hm… Ontem eu fui para o hospital e… Basicamente… Eu e o Ichiro beijámo-nos e… — ela baixou um pouco a cabeça, com a face tão vermelha quanto um tomate – Nós começamos a namorar…

— A sério?! Mas isso é ótimo! Não estava nada à espera!

— Eu sei, mas... — ela suspirou — Eu acho que, só nós os dois entendemos o que sentimos um pelo outro, só nós passámos por aquilo que passámos juntos… E eu… bem… Eu já gosto dele há bastante tempo… Normalmente não sou muito boa a esconder aquilo que sinto quando se trata disto, mas… como nós já morávamos juntos e como ele sempre cuidou de mim, eu não sentia uma grande necessidade de me aproximar dele ainda mais… porque achava que não havia mais proximidade possível com alguém do que morar na mesma casa, não é?

— Pois, eu compreendo… E estou feliz por vocês!

— Obrigada! — ela sorriu.

— Mas olha, um dia eu quero saber a vossa história, ok?

— Claro!

________________________________________

— Estou exausta… — disse a Manaka, trancando a porta do café. — Os fins-de-semana são mesmo horríveis a trabalhar aqui… Ainda por cima o café fecha ainda mais tarde que o normal...

— Pois… — respondi — Pelo menos amanhã já é segunda-feira!

— Sim… Mas bem, eu vou descansar. Até à próxima, Akaluri!

— Fica bem! — disse, enquanto andava para a rua oposta, onde ficava a minha casa.

Com o céu a escurecer mais cedo do que nos meses anteriores, comecei a notar como o tempo tinha passado depressa e que o meu aniversário se aproximava. Uma brisa ligeira, um pouco fria mas agradável, passava por mim; sendo especialmente bem-vinda após um longo dia de trabalho. Pelo caminho, os postes de iluminação projetavam um tom alaranjado nas pequenas poças de água no chão e as árvores abanavam suavemente os seus ramos com a brisa. Enquanto caminhava (e tentava não engolir os cabelos que teimavam em cobrir-me o rosto, por causa do vento), estava a ouvir música, o que, por si só, já tornava o ambiente à minha volta um pouco mais especial. Ao chegar a casa, raspei as sapatilhas no tapete e abri a porta com a chave. Assim que entrei, dirigi-me diretamente à cozinha, já que a última vez que tinha comido fora há cerca de cinco horas. Tentando não fazer muito barulho, peguei nos restos do jantar que estavam no frigorífico e aqueci-os no micro-ondas. Depois de comer, preparei-me para dormir e fiquei a trocar algumas mensagens com o meu novo contacto, a Ichigo, acabando por adormecer um pouco mais tarde.

______________________________________________________________

[ Manaka P.O.V ]

Sem conseguir dormir, eu levantei-me da cama e, ainda agarrando o meu pequeno peluche, fui para a cozinha. Lá, deparei-me com o Ichiro, sentado numa cadeira, a beber um líquido vermelho de um copo.

— Que se passa? — perguntou ele, ligeiramente enervado — Eu não gosto que venhas aqui para a cozinha quando estou a fazer isto…

O Ichiro não precisava de beber sangue todos os dias; na verdade, bastava-lhe uma vez por semana para se manter saudável. Embora apreciasse bastante o sabor, o que era natural para um vampiro, ele detestava a necessidade de o fazer. Para evitar prejudicar outros seres vivos, ele fazia sempre o papel de algum tipo de médico, conforme necessidade. A sua recente licenciatura em química e o facto do seu pai ser médico, ajudava imenso na sua credibilidade. Ele conseguia o sangue que precisava através de uma clínica veterinária, onde recolhia amostras de sangue de animais saudáveis que não iriam ser utilizadas. Por vezes, o Ichiro colaborava também com bancos de sangue, que lhe forneciam pequenos excedentes que também não seriam utilizados ou que se encontravam perto da sua data de validade. Em ocasiões de extrema necessidade, por vezes, ele chegava a beber um pouco do meu sangue também.

— Não te preocupes… — disse, tentando acalmá-lo.

— Eu não me sinto bem com isto…

— Eu sei, mas tu precisas… Eu entendo…

— Ok... — respondeu, suspirando — Então, o que se passa, Manaka? Porque não dormes?

— Eu só estava a pensar se esta noite nós podíamos… tu sabes…

— Hm? — perguntou ele, levantando uma sobrancelha — Podíamos o quê?

— Se podíamos dormir juntos...

— Ah… — ele suspirou — Sim, claro. Pode ser.

— Se não quiseres eu não te obrigo! Desculpa por ter…. Espera… Quê?!

— Eu disse que sim.

— Ah… Que bom! — sorri — Vamos então.

Após ele terminar de beber, fomos os dois para o quarto e juntamos lado a lado as nossas camas individuais. Pela primeira vez, o Ichiro decidiu vestir o seu pijama à minha frente, em vez de o fazer no quarto de banho, como era habitual. Sentada na cama, o meu coração não conseguia controlar-se enquanto eu observava o Ichiro de costas, tirando lentamente a sua camisola e depois as calças, para finalmente vestir o pijama.

Peguei novamente no meu pequeno coelhinho de peluche e deitei-me na cama, à espera. O Ichiro deitou-se logo a seguir e ficámos a olhar-nos nos olhos durante um momento silencioso... Ele não precisava de dormir muito, por isso costumava aodormecer tarde e acordar bem cedo. Fechei os olhos, aproximando-me dele para me sentir mais confortável e para o tentar aquecer, já que a sua pele costumava estar sempre gelada. Nesse instante, senti os seus lábios pousarem suavemente na minha testa, dando-me um beijo de boa noite, enquanto me envolvia nos seus braços.

— Dorme bem, Manaka.

A sua voz permaneceu na minha mente até eu adormecer. Não era a primeira vez que ele me desejava boa noite, pois costumávamos já dormir no mesmo quarto, embora em camas separadas. No entanto, senti que daquela vez foi diferente. A experiência de interagir com o Ichiro como sendo meu namorado, era completamente nova e especial. Estava profundamente feliz.

________________________________________

Acordei, cheia de dores. Nunca pensei que aquela manhã iria terminar assim. Pior ainda, tudo havia acontecido enquanto a minha música favorita tocava no rádio do carro. Ela acabara por se tornar uma música que eu nunca mais tivera vontade de ouvir. Estava presa no meu assento, com o carro completamente virado de lado e algum sangue a escorrer pela minha testa.

— Pai? Mãe?

Depois de um enorme esforço, consegui finalmente libertar-me, mas uma grande tontura tomou conta de mim. Para me acalmar e tentar recuperar o equilíbrio, coloquei uma mão na cabeça e a outra no chão, que conseguia tocar através da janela aberta do carro. Gatinhei devagar até aos meus pais, de onde reparei que vinha bastante sangue. Constatei que, estranhamente, nenhum dos airbags tinha aberto. Antes que tivesse tempo de reagir ou falar qualquer coisa, para ver se eles ainda estavam em vida, senti uma mão gelada cobrir os meus olhos e tapar a minha boca, arrastando-me para fora do carro. Por mais que eu me tentasse soltar, não era possível. A pessoa que me segurava tinha uma força imensa, contrariamente a mim, que estava enfraquecida pelo acidente. Pouco depois, desmaiei e acordei deitada numa cama.

— Boa tarde. — ouvi, abrindo lentamente os olhos.

— Onde estou? — perguntei, confusa.

— Estás em minha casa, Manaka. Sofreste um acidente de carro e eu trouxe-te até aqui…

Ao lembrar-me do sucedido, comecei a entrar em pânico e levantei-me repentinamente.

— OS MEUS PAIS?! ELES ESTÃO BEM?! ONDE É QUE ELES ESTÃO?!

— Não te exaltes, por favor. — disse o rapaz, segurando o meu braço.

— Eu não sei quem tu és! Deixa-me!

— Eu entendo que isto te possa parecer repentino e anormal, mas eu garanto-te que não tenho nenhuma má intenção e só estou a tentar tomar conta de ti, prometo. Por favor, tenta manter a calma e confiar em mim, por mais que pareça difícil.

— Diz-me apenas onde estão os meus pais, eu só quero saber se eles estão bem…

A sua mão deslizou pelo meu braço até chegar à minha, que segurou cuidadosamente.

— Eu não sei uma boa forma de te poder dizer isto, mas… Os teus pais não sobreviveram ao acidente. Sinto muito...

Eu não estava a acreditar naquilo que acabara de ouvir. Pensava que ainda tinha muito tempo com os meus pais... Descobrir que tudo tinha acabado num instante, não era algo nada fácil de aceitar. Algumas lágrimas pesadas começaram a escorrer pelo meu rosto destroçado. Aquilo que eu mais temia, tinha acabado de acontecer... Durante horas a fio, apenas chorei descontroladamente, enquanto o Ichiro se mantinha a meu lado, passando a mão nas minhas costas. Aos poucos, consegui recuperar alguma calma.

— Não estás a falar a sério, pois não? — perguntei — Eles não podem ter…

— Estou a dizer a verdade.

— E agora… O que é que eu faço…?

— Não tens que fazer nada, Manaka... Eu sei que é extremamente difícil suportar, é cruel, injusto, assustador... mas eu posso tomar conta de ti a partir de agora, se estiveres de acordo. Depois de assistir ao que passaste, por favor, eu insisto.

— Mas eu nem te conheço! Como é que sabes o meu nome?! Como posso confiar em ti?!

— Eu sei... E não te preocupes, podes não saber quem sou, mas eu conheço-te. Qualquer pergunta que tiveres sobre mim, eu respondo. Para me apresentar e explicar um pouco melhor: eu andei na mesma secundária onde estudas agora. Eu sou o Ichiro. Já acabei o décimo-segundo ano de ciências e estou agora no segundo ano da faculdade de química, enquanto trabalho, para me sustentar. E eu sei que tu és a Manaka, também de ciências, mas deves estar agora no décimo-primeiro ano, se não estou errado.

— Ichiro… Esse nome parece-me familiar… — eu parei uns segundos para refletir — Não me digas que foste tu aquele aluno que tirou as melhores notas do país... Os professores falam sempre tanto sobre ti como um exemplo a seguir.

— Bem, sim, fui eu… Ainda bem que pelo menos te lembras disso, mas não importa. Tu estás bem?

— Fisicamente, sim… — respondi, ainda cheia de lágrimas — Mas… Só de pensar que nunca mais vou poder ver os meus pais...

O Ichiro puxou-me e envolveu-me fortemente nos seus braços, sem me soltar durante todo o tempo em que estive a chorar, mais uma vez, que pareceu uma eternidade. Estava a lembrar-me de todos os bons momentos que havia passado com os meus pais e a pensar no enorme aperto que sentia no coração, que me doía tanto, como se ele estivesse a ser amarrado por cordas. Não conseguia convencer-me do facto que nunca mais os iria ver e sentia-me horrível por não ter tido sequer uma oportunidade de me despedir. Foi tudo tão repentino...

________________________________________

— Manaka! Já acordaste? — ouvi o Ichiro chamar-me — Levanta-te, senão ainda vais chegar atrasada para a escola.

Levantei-me e rapidamente vesti as minhas calças de ganga, juntamente com botas castanhas e uma camisola cinzenta escura, de manga comprida. Acrescentei a seguir o meu pequeno colar azul com uma lua crescente, que me fora oferecido pelo Ichiro. Era um colar que fazia questão de colocar todos os dias. Seguidamente, fui à casa de banho continuar a preparar-me, até me dirigir finalmente para a cozinha.

— Bom dia… — disse, depois de beijar o Ichiro na bochecha.

— Bom dia, Manaka. Preparei o teu pequeno-almoço favorito. Come, antes que fique frio.

— Obrigada!

Eu comecei a tomar o meu pequeno-almoço com uma cara bastante alegre, visto que estava delicioso.

— Então… Gostaste desta noite?

— Sim… Por acaso, dormi bem; mas tive um pesadelo... Voltei a sonhar com o acidente…

— Ah, isso não é bom… Estás bem?

— Sim, sim! Não te preocupes…

— Há uma coisa que eu ainda não te contei sobre esse dia.

— O quê?

— A forma como o acidente ocorreu.

— Como assim? Tu sabes como é que aconteceu? Porque é que nunca me contaste?

— Eu não sei ao certo, mas aposto que foi por culpa de um ser mágico. Eu não disse nada porque não queria estar a acusar ninguém ou a dar-te falsas esperanças de podermos vingar os teus pais...

— Mas o que… Que raios ele queria?! O que é que nós fizemos de mal aos seres mágicos?!

— A minha mãe contou ao meu pai sobre como funciona o mundo deles, escondido dos olhos de todos. Inicialmente, o dever dos seres mágicos era ajudar os humanos, como já te contei. No entanto, era um trabalho bastante injusto e cada vez mais difícil. Pelo que ele me disse, eles estão a organizar uma revolta contra os humanos, por estarem gradualmente a destruir o planeta. Acho que foi um ser mágico que fez aparecer diante de vocês a ilusão de que um cervo estava a passar à frente do carro, de repente, o que fez com que o teu pai se assustasse e automaticamente virasse o volante, por reflexo, o que acabou por causar o vosso acidente.

— Eu tenho que encontrar esses seres.

— Ninguém os consegue ver, às vezes, nem mesmo nós... que somos uma mistura das duas espécies. Se eles continuarem assim, aos poucos, o fim da humanidade é inevitável, especialmente tendo em conta que alguns dos seres mágicos podem controlar certos elementos, podendo criar maremotos, terramotos, incêndios, etc. De qualquer das formas, vingança não te ia servir de nada.

— Mas isto não é justo… Nem todos somos iguais, não merecemos sofrer o mesmo destino.

— Não penses dessa forma… Por mais coisas más que tenham acontecido e que possam mais tarde acontecer eventualmente, eu acredito que nem todos os seres mágicos pensem da mesma forma e talvez muitos desistam ou simplesmente caiam neles mesmos e parem com esta confusão desnecessária. Afinal, levar uma vida de ódio, violência e destruição não é bom para ninguém. Sei igualmente que os teus pais e os teus amigos vão sempre ter um lugar especial no teu coração, não importa o que aconteça… E, por um lado, assumo que as coisas acabaram por ficar bem, dentro do possível... não achas?

— Sim… Tens razão. — respondi, com um ligeiro sorriso — Obrigada por me teres salvo e continuares a cuidar de mim, Ichiro.

________________________________________

[Akaluri P.O.V]

— Estás atenta, Akaluri?

Eu parei de desenhar e pousei o lápis, olhando para a professora. Por mais que a adorasse, aquela aula estava a ser demasiado secante e eu não me conseguia concentrar. Não importava quantas vezes tentava ouvi-la; eu simplesmente não conseguia parar de pensar no Hikari e no facto de ele ter que ir embora. Desenhar era a única coisa que me ajudava a distrair a cabeça, naquele momento. Assim que a aula acabou, a Naomi foi ter comigo.

— Akaluri, o que se passava contigo na aula?!

— Nada… — respondi, desviando o olhar.

— Não me parece! Sei que desta vez a aula é um pouco mais teórica, mas os professores de oficina das artes adoram-te! Nunca te costumam chamar assim à atenção...

— É o Hikari…

— O que tem o Hikari?

— Ele vai ter que ir embora… Não vai ficar aqui muito tempo. Ele disse que só voltou por causa da avó dele, que precisa de algum tratamento específico que só há nesta zona do país. Isso significa que, depois desse tratamento acabar, o Hikari vai voltar para onde se tinha mudado antes.

— Mas achas que há algo que se possa fazer?

— Gostava de saber… — suspirei — Mas não faço a mínima ideia… Ele também não me parece muito interessado em arranjar soluções.

— De certeza que isso não é só impressão tua? — questionou a Naomi.

— Duvido. Quando tento falar sobre o tema, ele desvia sempre o assunto...

— Não te deixes abalar com algo assim. Tens-me a mim, à Sara, à Manaka, e ao Ryuu também! Lembra-te disso!

— Sim, tens razão... — respondi, não conseguindo evitar ficar triste, de qualquer das formas — Bem, vou para casa.

— Ok. Eu vou ficar por cá para as aulas de apoio, juntamente com a Sara. Até amanhã!

— Até amanhã, Naomi. — disse, saindo da sala.

Mais uma vez, fui andando para casa sozinha, ouvindo música. Era difícil para mim ignorar os problemas sem solução ou as tristezas que sentia, mesmo sabendo que haviam coisas à minha volta com as quais me podia alegrar. Infelizmente, isso afetava bastante o meu estado de espírito, mas esforçava-me cada vez mais para encontrar um equilíbrio na minha mente, tentando não ser consumida pelo negativismo. Com o meu aniversário aproximando-se, tentei ver isso como uma boa oportunidade de estarmos todos juntos, nem que fosse a única e última vez.