Era de noite e eu já estava na cama, pronta para dormir, mas ainda queria ouvir uma história:

- Mãe! Conta aquela história de ti e do meu pai!

Cansada, porém sorridente, a minha mãe fez uma pequena pausa, para organizar a forma como ia contar a mesma história que já me contara mil vezes.

- Era um dia de primavera. Eu estava no meu quarto, como sempre, à janela, a olhar para as àrvores em flor no jardim... até que, num certo momento, entrou um avião de papel a voar pela janela, que eu não sabia de onde vinha...

- Vinha dele!

- Sim! – ela sorriu – Eu abri o tal papel e vi que estava lá uma coisa escrita para mim; uma mensagem querida. Acabei por sentir vontade de responder, escrevendo outro avião de papel. Assim, começamos a falar através de cartinhas... Conversamos durante imenso tempo, meses, anos... até que, um dia, chegou um avião de papel que apenas dizia: “Olha pela janela” e, quando olhei, vi o homem mais bonito e encantador que conhecera! Ele tinha uns brilhantes cabelos brancos e uns lindos olhos azuis e verdes, tal como tu! De tanta alegria que senti por finalmente poder vê-lo depois de tantas conversas, comecei a chorar. Numa das cartas, ele havia-me antes contado que era um ser mágico e disse que, por causa disso, não o podia ver, mas que ele fazia questão de me ir ver a mim todos os dias, comentando sobre como eu estava. Ele também disse que, se alguma vez eu o visse, ele teria que desistir da sua forma mágica para isso acontecer, mas já não poderia estar mais comigo três anos depois. Mesmo assim, eu insisti... Queria tanto vê-lo... Então, ele acabou por abdicar dos seus poderes por mim, para que nos pudéssemos finalmente ver e estar juntos… — com lágrimas nos olhos, ela fez uma pausa para respirar fundo – Foi aí que descobri que, afinal, tudo era real. Ele não estava a inventar histórias sobre quem ele era na realidade, então, passei a confiar plenamente nele. Guardei o seu segredo como havia prometido e, nesse mesmo ano, casamos. Depois, nasceu a pequena gatinha mais linda do mundo: Akaluri, uma menina entre duas espécies.

- E depois disseste para eu fingir ser uma humana normal!

- Sim. Seria muito perigoso se te mostrasses na tua outra forma aos outros... Não ficas invisível para os humanos, como os seres mágicos normais ficam, como o teu pai... Tens que ter muito cuidado! — ela suspirou — Mas agora é hora de dormir.

Nesse momento, a minha mãe deu-me um beijo na testa cheio de ternura e desejou-me boa noite. Lembrava-me desse dia como se tivesse sido há pouquíssimo tempo, mas já se havia passado mais de 10 anos… Na minha forma mágica, eu tenho algumas características de gato, mas existem vários tipos diferentes de seres mágicos, para além do meu. Sendo assim, eu não sou um ser que possa mesmo usar magia em si, como outros conseguem, mas tenho todos os sentidos excecionalmente apurados, juntamente com uma força — e sobreudo equilíbrio e velocidade — mais capacitada do que os outros. Para além disso, a minha mãe também me informou, graças ao meu pai, que os seres meio-mágicos têm igualmente a capacidade especial de partilhar os seus poderes com um único ser humano, mas eu ainda não tinha descoberto a utilidade de o fazer. A minha vida era praticamente normal. Concentrava-me principalmente nos estudos e nos meus amigos.

- Akaluri! – Olhei para o lado e vi que quem me chamava era a Naomi, uma boa amiga minha desde o sétimo ano; o ano em que ambas entramos naquela mesma escola, que ia desde o terceiro ciclo até ao final do secundário – Olha esta nova figurinha que saiu!

- Wow! É mesmo fofa! Quanto custa?

- 49... – ela fez uma cara triste – Que pena ter gasto o meu dinheiro todo a comprar tecidos e acessórios… Tenho mesmo que poupar...

Eu fiquei sem saber o que lhe responder ao certo, pois sabia que a Naomi não era nada boa a poupar, de todo. Entretanto, a campainha tocou e os alunos à nossa volta dirigiam-se para as suas salas, em completa desordem, como qualquer secundária.

- Que disciplina temos agora, Akaluri?

- Hm... Agora temos desenho.

- Já decoraste o horário? As aulas ainda só começaram há uns dias!

- Eu sei o horário desde o dia em que o recebemos!

- Como é que tu consegues? No ano passado, não consegui sequer decorar nem metade do horário até às férias de verão!

Eu encolhi os ombros. De facto, para mim não era difícil decorar nada, mas talvez tivesse algo a ver com a minha outra identidade, apesar de não ter a certeza. Juntas, fomos até à nossa sala habitual de desenho, onde já maior parte da turma esperava o novo professor. A aula estava a ser interessante e eu estava a gostar imenso de desenhar o modelo de referência daquele dia: um pequeno vaso de flores. No entanto, fui notando que uma estranha rapariga estava a olhar para mim durante aula, o que me deixava ligeiramente desconfortável. Ela tinha o olho esquerdo tapado pela sua franja. O seu cabelo era longo, azul-escuro e os seus olhos amarelos. Assim que cruzamos o olhar, ela sorriu e virou-se de novo para a frente. Foi algo estranho, visto que nunca nos tínhamos falado antes, mas decidi ignorar.

_________________________________________

A aula tinha acabado e, enquanto várias alunas — incluindo a Naomi — se dirigiam ao novo professor, eu arrumava o meu material.

- Hey, chamas-te Akaluri não é? – perguntou a tal rapariga de cabelo índigo, dirigindo-se até mim.

- Eu? — olhei para baixo por reflexo, um pouco embaraçada pela timidez – Sim, é o meu nome... E, olha, na aula... Estavas mesmo a olhar para mim ou foi só impressão minha?

- Eu estava a olhar para ti, sim! – ela sorriu — Pareces fofa, então queria conhecer-te!

- Como assim?!

- Eu sou nova nesta escola, então tenho que me forçar um pouco a socializar... E, ainda por cima, tu tens um aspeto assim mais único e diferente, por isso fiquei curiosa... Não te importavas se eu passasse o intervalo contigo?

- Eu estou à espera de uma amiga, mas claro, pode ser. – suspirei, mais uma vez não sabendo como negar pedidos — Como te chamas?

- O meu nome é Ushio Sarada, mas prefiro que me chamem Sara! – ela sorriu novamente — Prazer em conhecer-te.

- Prazer… — respondi, timidamente.

Depois da estranha introdução, ela agarrou a minha mão esquerda e fez uma espécie de cumprimento estranho, olhando fixamente nos meus olhos. Uns segundos mais tarde, apareceu a Naomi, que já tinha acabado a conversa com o professor, ainda rodeado por várias alunas. Ela parecia confusa ao ver uma desconhecida falar comigo, visto que conhecer pessoas novas não fazia nada o meu género.

- Quem é essa? — disse ela, parecendo ter perdido qualquer noção de respeito.

- Eu chamo-me Ushio Sarada, mas costumam chamar-me Sara! Prazer!

- Prazer. — disse ela, hesitante – Eu chamo-me Naomi.

- Vamos passar o intervalo juntas… — acrescentei.

- Chamas seis minutos um intervalo? Não dá para fazer nada...

- Naomi, não temos culpa que tenhas ficado na conversa com a nova paixoneta da turma inteira!

- Hehe, desculpem! — respondeu, brincando — Mas o professor, para além de ser lindo e jovem, também é muito talentoso e interessante...

- Bem... — respondi, mudando de assunto — Ficamos então a lanchar aqui na sala, enquanto esperamos pela próxima aula.

__________________________________________

Depois da aula acabar, ainda tínhamos a tarde livre, por isso decidimos ir até ao nosso café favorito. Ao sentar-me num dos lugares disponíveis, lembrava-me dos tempos que tinha passado naquele café. Era estranho estar ali no último ano do secundário, não sabendo se continuaria a voltar lá depois, quando tivesse que ir para mais longe, na universidade. Eu sempre havia achado aquele café aconchegante, fofo e com um ótimo serviço... também ficava num local de muito fácil acesso para mim; adorava a roupa azul das empregadas e a linda decoração! Era mesmo o estilo típico de um café temático. E, melhor do que tudo, era igualmente onde tinha começado a trabalhar a minha amiga de infância!

- Boa tarde a todas! – a jovem empregada de cabelo rosado olhou para a Sara — Wow! Tu e a Naomi trouxeram alguém novo! Como te chamas?

- Chamo-me Ushio Sarada, mas todos me tratam por Sara. – ela sorriu – Sou nova na escola aqui ao lado, por isso nunca vim cá. Este café parece ser muito bom!

- A Akaluri e a Naomi são clientes regulares aqui, mas nunca as vi trazer ninguém com elas antes!

- Isso é porque esta estúpida não tem quase amigos nenhuns! – respondeu a Naomi, apontando para mim.

- Eu não sou muito boa com essas coisas…

- Sim, eu sei, mas isso nem sempre é bom… Tens que começar a ser mais sociável!

Depois do que a Naomi disse, eu olhei casualmente para o lado, mais uma vez evitando a conversa. No entanto, fiquei praticamente imóvel com o choque recebido pelo que tinha acabado de ver. Levantei-me segundos mais tarde, dirigindo-me rapidamente para uma mesa afastada, onde estava, sozinho, um rapaz com um aspeto bastante familiar.

- Akaluri? — a Naomi tentava chamar-me, mas a minha mente estava em outro lugar — Bem, eu queria que ela socializasse mas não era preciso exagerar!

- H-Hikari? – Ainda não tinha a certeza se era ele, mas a cor roxa dos seus cabelos despenteados, assim como os seus brilhantes olhos âmbar não me podiam fazê-lo confundir com mais ninguém. No entanto, eu mal acreditava nos meus olhos, por melhor que eles vissem quem estava diante de mim. – Não pode ser! És mesmo tu?!

- Akaluri?! Não acredito!

- Hikari! – exclamei, dando-lhe um enorme abraço – Estava cheia de saudades tuas! Estou tão feliz por te ver! Nem deves ter noção do quanto!

- Awn! Eu também estava com muitas saudades tuas! Bem, digamos que vou morar aqui novamente.

- A sério?! Estou tão contente! Mas, para que escola vais?

- Vou para uma escola que fica aqui pertinho... – disse ele, sorrindo.

- Isso significa que vamos estar na mesma escola outra vez! Que bom!

- Sim! – confirmou ele, animado.

Ao perceber quem era, a Naomi finalmente se aproximou de nós, juntamente com a Sara. Ambas sentaram-se.

- Hikari! — exclamou ela — Quase nem te reconheci!

- Naomi, que saudades!

Ao ver aquele alarido, a mesma empregada, ou melhor, a minha amiga de infância, veio ter connosco mais uma vez:

- Vá, já viram o menu? Digam lá os vossos pedidos para irmos preparando as coisas, enquanto vocês colocam a conversa em dia.

- Eu gostaria de pedir um batido de morango e um croissant folhado de pistáchio. — respondi, pedindo o habitual — E tu, Hikari?

- Para mim, um croissant de manteiga e leite com chocolate.

- Hm… Eu quero pocky de morango e um chá verde! — disse a Naomi.

- Acho que... pode ser apenas um cappuccino gelado. — pediu a Sara.

Assim que ela anotou tudo, a empregada foi preparar as coisas atrás do balcão, que naquele dia parecia nem estar tão cheio de bolos e doces, como sempre. De alguma forma, tudo parecia estranhamente mais vazio naquele café. Com as empregadas mais atarefadas que o habitual, pelo aumento de clientes, o café acabava também por perder a sua animação. Não me parecia um assunto assim muito importante para eu falar com os outros, mas, como queria ajudar, achei que devia comentar a minha opinião. Assim sendo, levantei-me e fui falar com a minha amiga.

- Olha, espero não estar a incomodar, mas... por acaso, passa-se alguma coisa, Manaka?

- Hm? Como assim, Akaluri?

- Não sei, o café não parece tão animado como sempre e as vitrinas estão mais vazias que o normal. A área do karaoke está completamente vazia e vocês parecem um pouco exaustas…

- Ah… — ela olhou para baixo, suspirando — Estamos com uns problemas em arranjar novos funcionários... e precisamos também de aumentar o café, ou pelo menos de organizar melhor o espaço, porque temos cada vez mais clientes, só que também nos falta dinheiro…

- Entendi. Manaka, se quiseres, nós podemos ajudar-te a fazer anúncios! Eu tenho algum jeito para isso, pelo menos no aspeto visual.

- Sério? – ela sorriu enquanto os seus olhos azuis brilhavam – Obrigada! Não sabes o quanto isso iria ajudar!

- De nada! Vou falar sobre isso com os outros, para ver o que podemos fazer em conjunto. Depois digo-te alguma coisa, está bem?

Ela acenou com a cabeça para concordar e rapidamente voltou mais animada ao seu trabalho. Entretanto, eu voltei para a mesa onde me esperavam.

- Olhem. – interrompi, sentando-me – Não notam que o café parece mais triste?

Os três olharam à sua volta e a Naomi respondeu:

– Agora que o dizes…

- Bem, é que eu estive a falar com a Manaka, a empregada que nos veio atender agora, e ela disse que o café está, não só com falta de funcionários, mas também com falta de espaço e de dinheiro. Por causa disso, ofereci a nossa ajuda para fazer uns anúncios, tanto para angariar clientes, como trabalhadores. O que acham?

A Ushio, ou melhor, Sara, respondeu quase imediatamente:

- Podemos desenhar uns pequenos cartazes e tirar fotocópias para distribuir nas lojas e pela cidade!

- Hm... Eu achava melhor se fizéssemos outra coisa, Sara… — comentou a Naomi — Sabes, eu e a Akaluri já frequentamos muito este café e as empregadas são praticamente todas nossas amigas. Eu acho que, já que temos bastante tempo livre por estarmos no último ano, a melhor forma de ajudar seria trabalharmos aqui a meio-tempo, sei lá, como voluntárias? Nem que fosse só este ano letivo ou assim... Até quase como uma forma de lhes agradecer! Assim também íamos angariando mais dinheiro para aumentar o café!

- Boa ideia! – exclamei — Estão todos de acordo?

- Sim. – disseram em coro.

- Bem, então vamos todos falar com a Manaka; acho que ela vai adorar!

Dirigimo-nos juntos para o balcão e, passado um tempo, a Manaka chegou:

- Olá! Obrigada a todos pela ajuda... E então? Arranjaram alguma ideia?

- Não só arranjamos uma ideia, como também já temos quatro pessoas dispostas a trabalhar aqui a meio tempo! – respondeu a Naomi.

- Uau! – ela olhou para nós, impressionada — Não sei se temos fundos para aguentar com quatro salários a tempo parcial, mas, mesmo assim... Como conseguiram?

- Foi fácil! – respondi — A Naomi deu a ideia de virmos trabalhar para aqui como voluntárias e ajudar-vos, pelo menos até o café melhorar e conseguirem mesmo arranjar funcionários para nos irem substituindo entretanto.

- A sério? Como voluntárias? Vocês fariam mesmo isso?!

- Claro!

- Melhor não podia ser! – exclamou a Manaka, animada – Mas ficarem apenas como voluntárias sem receber nada em troca não me parece muito justo.. Querem vir comigo falar com o gerente, para vermos o que é possível fazer? De qualquer das formas, acho que ele vai arranjar uma solução... afinal, vocês são definitivamente as clientes favoritas da casa!

__________________________________________

Passado um tempo, a Naomi teve que ir embora e demo-nos conta que já era altura do café fechar. Após todos os clientes terem ido embora, ficamos a ajudar a Manaka a fechar o café, podendo assim discutir mais um pouco sobre o recente assunto. De seguida, enquanto passávamos todos pelo parque em frente, a Sara cortou o silêncio:

- É verdade, eu não tenho os vossos números! Posso? – parada à nossa frente, ela fez uma pausa à espera de resposta, mas como ninguém disse nada, acrescentou — É que eu tenho mesmo de ir embora…

Olhamos uns para os outros antes de concordar em darmos os nossos números, afinal, tínhamos acabado de a conhecer, mas não queríamos ser rudes. Demos-lhe os nossos contactos e íamos aproveitando também para ficar com aqueles que ainda não havíamos guardado, como o novo contacto do Hikari. A Sara agradeceu, antes de se despedir e ir embora. Continuamos então andando pelo parque, à espera que surgisse assunto.

- Quem são estes? – disse um rapaz, sentado num banco – Não me lembro de teres dito que ias trazer companhia, Manaka.

- Ah, olá Ichiro… Esta é a Akaluri, a minha amiga de infância. Já te falei imenso dela! E este é o Hikari, amigo da Akaluri.

- Hm… Estou a ver.

A Manaka já me havia falado de um tal de Ichiro algumas vezes, era o seu melhor amigo, mas nunca o tinha visto antes. Ele olhou para o Hikari e depois para mim, fixamente nos meus olhos. Senti um calafrio devido à intensidade do seu olhar gelado. Depois, notei que ele sussurrou algo no ouvido da Manaka, que não consegui entender, e ela acenou-lhe com a cabeça, de forma a concordar. Ao mesmo tempo, eu e o Hikari olhamos um para o outro, ambos sem percebermos o que acontecia. Nunca havíamos visto aquele rapaz alto, de cabelo loiro e olhos vermelhos glaciais, e, pior ainda, o Hikari nunca tinha sequer ouvido falar dele, mas, apesar disso, limitamo-nos apenas a segui-los, embora ambos sentindo-nos um pouco confusos.

Passado pouco tempo, chegámos ao prédio no qual a Manaka morava. Ela tirou uma chave da sua bolsa, que abriu a porta de vidro da entrada. Enquanto esperávamos pelo elevador, eu observava à minha volta, reparando brevemente na simples decoração que havia. Entramos no elevador e nele estava presente um silêncio que começava a incomodar bastante, tudo piorando com aquela música ambiente irritante. No entanto, esse mesmo silêncio quebrou-se à porta de casa da Manaka, no terceiro andar.

- Esta é a nossa casa! — disse a Manaka, abrindo a porta do apartamento — Entrem!

- A vossa casa? — perguntei — Vocês os dois moram juntos?

- Moramos juntos, sim... – ela riu ligeiramente – É uma longa história. Mas, já que nunca se conheceram, eu apresento-vos o Ichiro.

- Oi. – disse ele, desinteressado, olhando para o telemóvel na sua mão.

- O-olá! O meu nome é Akaluri. – respondi, nervosa, puxando a seguir o Hikari pelo braço — E este é o Hikari!

- O-oi. – o Hikari sorriu ligeiramente e acenou com a mão, corando.

- Eu sei, ela já disse os vossos nomes lá fora.

- A-ah, sim, pois foi! — respondi, envergonhada com a situação.

O Ichiro limitou-se a olhar para nós apenas durante uns segundos, logo depois continuando a mexer no seu telemóvel. Eu e o Hikari, sentindo-nos um pouco ignorados, olhamos um para o outro discretamente, continuando extremamente confusos com tudo. Não me vinha um bom pressentimento com aquele rapaz e parecia que o Hikari sentia o mesmo, mas deduzi que talvez fosse tudo da nossa imaginação. A Manaka logo se apercebeu que a situação estava um pouco tensa, então falou:

- Sentem-se no sofá enquanto eu preparo o jantar.

- Não te preocupes com isso, já chega passares o dia a cozinhar e servir no café e ainda vais fazer o jantar? Eu vou buscar qualquer coisa lá fora para jantarmos.

- Mas assim vais gastar dinheiro, Ichiro…

- Até já. – respondeu ele, enquanto saía do apartamento.

A Manaka suspirou.

- Qual é a vossa relação ao certo? Não eram melhores amigos apenas? – perguntei — Eu pensei que moravas sozinha, desde que, bem... Tu sabes... mas não queria estar a assumir nada.

- Hm… É um pouco difícil explicar, mas não estamos juntos! Apenas moro com ele por certos motivos… mas prefiro deixar este assunto para outro dia, se quiseres mesmo saber… Entretanto, sentem-se, vá! Eu vou trazer pelo menos umas bebidas, enquanto esperamos.

Senti-me um pouco mal por ter abordado um tema que me parecia ser desconfortável para a Manaka, mas tentei não pensar muito nisso. Enquanto ela preparava as bebidas na cozinha, o meu telemóvel começou a tocar. Ao pegar nele, vi que era a minha mãe que me ligava. Tinha esquecido completamente de avisá-la que ia chegar mais tarde…

- É a tua mãe? — perguntou o Hikari, olhando preocupado para o meu telemóvel. Ele já estava ciente do feitio dela.

- Sim… Vou atender.

Assim que atendi o telemóvel, senti a necessidade de o afastar imediatamente do meu ouvido.

- ONDE É QUE TU TE METESTE? JÁ DEVIAS ESTAR EM CASA! VEM JÁ AQUI ANTES QUE EU TE VÁ BUSCAR!

- Desculpa não ter avisado... Eu fui ao café onde trabalha a Manaka, como costume... e depois ia para casa, mas encontrei o Hikari e acabei por ficar mais tempo lá, até porque também estou a pensar em começar a trabalhar lá com os meus amigos.

- Não me mintas, eu sei muito bem que esse café fecha às sete e já são oito. Onde é que tu estás?

- Eu estou em casa da Manaka…

- E PEDISTE-ME PERMISSÃO PARA IRES A CASA DELA? VEM JÁ PARA CASA!

- Mas ela não mora longe... E eu estou só aqui a falar com ela para combinarmos melhor as coisas e para ver se eu posso ir ajudar lá no café, mais nada... Eu já ia voltar para casa depois de jantarmos todos juntos.

- O QUÊ?! PASSA O TELEMÓVEL À MANAKA IMEDIATAMENTE, ANTES QUE EU ME ZANGUE!

- Está bem. — levantei-me e fui à cozinha dar o telemóvel à Manaka — Toma, é a minha mãe, ela quer falar contigo.

- Oh... ok. – conhecendo igualmente o feitio dela, a Manaka respirou fundo e pegou no telemóvel, metendo em altifalante — Olá, boa noite!

- Boa noite, Manaka. Estás em tua casa com a Akaluri?

- Sim, estamos aqui as duas em minha casa. Peço desculpa por não lhe termos dito nada, mas foi tudo um pouco repentino. Nós estávamos a precisar de ajuda no café e a Akaluri gentilmente perguntou se podia trabalhar lá como voluntária, juntamente com alguns colegas, por isso achei que seria melhor ficarmos aqui a falar um pouco sobre isso.

- Ah, está bem. Então ela pode ficar aí a dormir? É que não posso ir buscá-la agora, tenho que preparar o jantar e tratar das coisas em casa.

- Claro que sim! Não tem problema algum!

- Ok, obrigada. Fiquem bem, adeus. — ela desligou.

- Bem, Akaluri, pelos vistos hoje vais ficar cá a dormir! Então, estás contente?

- A sério?! Ela mudou completamente de atitude! Como é que consegues fazer sempre isso?!

- Oh! – sorriu a Manaka, devolvendo-me o telemóvel — Não é nada demais. Vai lá para a sala ter com o Hikari, para ele não ficar sozinho. Eu já vou ter convosco, não gosto que estejam aqui na cozinha.

- Está bem, obrigada.

Ao abrir a porta da cozinha, ouvi um grande estrondo vindo da sala. Tanto eu, como a Manaka, fomos rapidamente ver o que se passava. Lá, reparamos que uma janela estava quebrada e que um rapaz de cabelo descolorado e vestindo uma máscara de tecido preto que lhe tapava a boca, estava deitado no chão, rodeado de pedaços de vidro.

- Estás bem, Hikari?! — perguntei.

- Sim, estou bem. Apenas me assustei um pouco, mas não acho que posso dizer o mesmo desse rapaz... Quem é?

- O que aconteceu aqui? — perguntou a Manaka.

- Ele simplesmente partiu o vidro e derrapou pelo chão até à parede. — respondeu o Hikari.

- Como é que isso é possível? — questionei.

- Não sei. Parece que foi atirado…

- Atirado? — perguntou a Manaka — Como? Nós estamos no terceiro andar!

- Isso eu também não percebo... — concordou o Hikari.

A Manaka aninhou-se ao pé do rapaz desconhecido. Ela parecia estar a tentar fazê-lo voltar ao normal, visto que estava bastante abalado, mas ainda parecia consciente. Entretanto, eu fui em direção à varanda para investigar, passando através da janela partida. Lá fora, estava uma esbelta rapariga que nunca antes tinha visto. Ela era alta, magra e com uma grande cauda e chifres pretos, o seu cabelo era longo com uma franja e fazia degradê de lilás para roxo. A rapariga levitava mesmo em frente aos meus olhos, mal conseguia acreditar que era real. Apesar de receosa, a única coisa que conseguia pensar naquele momento era se finalmente teria ali encontrado alguém como eu.