Akai ito

1 Capítulo único


O destino é uma estrada que não possui fim. Ao terminar de percorrer suas retas e curvas, altos e baixos, vê-se mais uma vez no começo a encarar o longo caminho que lhe aguarda. A estrada pode ser mais curta ou mais longa, ter menos ou mais curvas, mas decerto jamais tem um ponto final.

Uma centena de gerações viveu neste mundo enquanto os deuses repousaram adormecidos em seus berços de ouro e prata. A devoção aos três grandes foi quase extinta, enquanto suas histórias se perderam aos poucos a cada geração, distorcidas, esquecidas.

O caminhar dos humanos, que sempre lhe parecera lento, tornara-se demasiado rápido e ele conseguia ver o precipício logo à frente. Mas pouco lhe importava a proximidade do fim, pois jamais fora pastor da humanidade, apenas de suas almas.

O despertar de seu sono indesejado fora conturbado não pelo avanço dos séculos que lhe passaram despercebidos, ou pelo ritmo acelerado com o qual caminhava a humanidade. Havia um estranho espaço vazio ao seu lado... um espaço que costumava estar preenchido por alguém quem lhe fazia extrema falta. Por nenhuma outra razão o mais velho dos Três vestiria um corpo humano ou pisaria em Terra.

E então de súbito, a estrada que jamais tem fim, acabou-se. O caminho sinuoso obscureceu-se e as belas árvores que permeavam o percurso, tornaram-se defensoras ferrenhas que não permitiram que fosse mais adiante.

— x -

A cada dia ao se levantar, olhava para o céu com esperança de ver qualquer sinal de seu retorno. E durante todos os infindáveis séculos que se passaram, fadado à existência terrena, sua esperança se tornava mais escassa. Ainda que a promessa permanecesse vívida em sua memória, sentia que havia falhado em cumpri-la. O sol já não brilhava intenso como antes e as cores haviam deixado de ser vibrantes há muitas décadas. Seu rosto sempre jovial, aparentava cansaço; Mas não o cansaço banal que qualquer humano pode sentir, seja ao final de sua dia produtivo ou de sua vida. Havia cansado de ser forte, de ter esperança, e de esperar. Esperar pela vida, esperar pela morte... esperar por alguém que jamais retornaria.

Havia dedicado todos aqueles séculos a ajudar os necessitados, empregando toda sua força vital em dar esperança aos que já não possuíam nenhuma. Até que viu a si mesmo desesperançoso.

No oriente existe uma lenda que narra sobre o fio vermelho do destino. Diz-se que ele pode se emaranhar e estender infinitamente, mas jamais se romper.

Ao olhar-se no espelho já não podia ver mais sua antiga forma divina com seus cabelos flamejantes e o corpo tão bem esculpido que fora capaz de conquistar toda e qualquer Musa em seu tempo. O olhar destemido e desafiador havia sido substituído por um cansado e sem vida. O poder retido em sua alma já não era o bastante para manter o calor natural em seu corpo, deixando que uma simplória lágrima percorresse o caminho até seu queixo sem evaporar.

Ressentiu-se por tudo aquilo, por toda aquela existência sem sentido. E então lembrou-se do tesouro que lhe havia sido confiado. Algo muito mais antigo que qualquer coisa já criada neste mundo. Seu dono a via como um objeto amaldiçoado; uma afirmação correta ao se tratar do único objeto existente capaz de ceifar a vida daqueles que não podem morrer.

Pensou se o encontraria em seu reino, adormecido sob o infinito florescer dos Campos Elíseos, onde havia paz para as almas. Estaria morto? Havia voltado a ser parte do todo?

A última fagulha de esperança em sua alma se extinguiu ao pensar na morte daquele que controlava a própria morte. Determinado a colocar um fim naquela espera, secou a lágrima e retornou à realidade.

A movimentação agitada no corredor lhe despertou a atenção e logo que foi avistado, puxaram-no para a sala de emergência onde o paciente havia sido colocado. O breve relatório que lhe deram sobre o ocorrido descrevia o impossível. O homem deveria estar morto, ou estaria em alguns minutos, pois jamais nenhum corpo humano poderia sobreviver a tamanho impacto.

Aproximou-se do leito cercado por socorristas e com uma pequena ficha em mãos, estava pronto para dar uma chance para aquele homem, a chance de continuar vivendo, a qual não se daria naquela noite.

O movimento súbito do paciente apenas lhe chamou a atenção quando sua mão o tocou, envolvendo o pulso que segurava a caneta a fazer anotações. Somente então pôde notar os olhos azuis profundos que o encaravam.

— Te encontrei. – A voz do paciente soou rouca e forçada — a voz de um homem quase morto – mas ainda assim, feliz.

O som de sua voz foi o bastante para reacender a fagulha dentro dele. Pela primeira vez em centenas de anos, viu-se sorrir verdadeiramente, um sorriso acompanhado de lágrimas e intensa felicidade. O ambiente se aqueceu com o calor de sua alma tão ardente quanto o próprio sol. Suas mãos envolveram a do homem, que agora parecia se recuperar rapidamente, como se o tempo avançasse de forma diferente para ele.

O mundo não existia do lado de fora daquela bolha de sentimentos que os envolvia. E embora para os socorristas aquilo parecesse algo milagroso, fazendo-os paralisar por completo, para os dois deuses era apenas o reencontro de dois seres imortais.

Qualquer coisa que pensasse em pronunciar parecia incompleto. Indigno de ser dito naquele momento. Podia ver sua verdadeira forma por debaixo daquela fantasia de homem, e foi buscando aquela face tão bela que sua mão se ergueu até tocar sua pele.

O toque quente foi recebido com alívio por sua pele que há tanto almejava por senti-lo novamente, ao menos uma única vez. O deus do submundo trouxe sua mão para mais perto, tocando-a com os lábios, contrastando sua pele sempre fria com a dele sempre quente. Um simples toque com imenso significado.

Sentado na maca em que havia sido colocado, alcançou o rosto do jovem deus, secando as bochechas rosadas com os polegares. Havia tanto escondido naquelas lágrimas; Dor, alívio..., mas já não havia mais motivos para macular tão bela face com sentimentos banais.

As árvores que haviam se colocado em seu caminho agora abriam espaço para que prosseguisse. E na curva logo à frente estava o recomeço da estrada, ao qual Hades deu boas vindas. Tomou-lhe a mão mais uma vez, repetindo o gesto de beijá-la e então deitando a face sobre ela, aproveitando-se novamente de seu calor.

— Achei que estava morto. – A voz finalmente encontrou espaço para passar por entre o nó que havia se formado em sua garganta. Os olhos verdes encontraram os azuis dele, enquanto Hades buscava as palavras por onde começar.

— Ah, Apolo...

Notas finais
Mesmo entre os deuses do Olimpo, a única arma capaz de extinguir a vida de um deles é a espada de Hades, dada à ele por seu pai Chronos para que matasse seus irmãos.
Quando Chronos se ergueu do Tártaro para destronar Zeus, os três grandes deuses travaram uma terrível batalha contra ele, finalmente destruindo seu espírito. Antes que a batalha tivesse início, Hades confiou sua espada a Apolo, para que nenhum dos deuses pudesse ser morto por Chronos.
Ao final da terrível batalha, os três grandes deuses, exaustos e feridos, entraram em sono profundo e jamais foram vistos novamente.
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