Akai Tsuki
1 O Fim da Vida e o Inicio da Loucura
Notas iniciais
Ouço meus próprios gritos de remorso, com todo aquele sangue misturado com a dor de meu corpo atirado no final da estrada deserta. A garota grita de terror e susto. Eu não deixarei nada pra trás mesmo, mas choro.
“Este será o final de sua vida” ouço minha própria consciência zombando, mas meus pensamentos começam a parar. O grito contínuo ecoa em minha mente, fervendo meus sentidos e me deixando louco.
Ainda posso lembrar de minhas últimas e detestáveis palavras. Mesmo com esse comportamento desprezível eu ainda tinha esperança, mas ela desaparece em segundos, não posso mais consertar meus erros.
A cor azulada do céu se funde com a escuridão, a voz começa a parar, só sobram os lamentos da garota chorando perante a meu corpo imóvel ali deixando esse mundo sujo e corrompido.
Como a dor de repente parou e estou me vendo inconsciente no chão? Estou morto?
A garota para de gritar, se vira e me olha.
-Desculpe – diz ela com os olhos saltados, parece uma louca.
A policia e a ambulância chegam, eles seguram a garota que se debate loucamente, gritando e chorando. A colocam no carro de policia e cobrem meu corpo com um saco preto.
O que está havendo afinal?
Corro até eles e um médico me atravessa, olho pra mim mesmo boquiaberto. “Você está morto” a voz sussurra “ Você está sozinho pra sempre”. Isso é terrível! Mas por que eu deveria me importar? Quero chorar. O que vou fazer? Eu já estava sozinho antes, mas agora talvez seja pior. Minha vida (e morte) é uma droga!
A garota louca grita no carro batendo nas janelas desesperadamente, foi ela quem me matou. Corro atrás do carro, com raiva e confusão. Quero entender por que ela me matou. Quero entender!
Acompanho a discussão na delegacia:
-Você foi acusada de homicídio culposo – conta o delegado – Por matar Hitasura Kori. Por que o matou?
-Eles estão por toda parte – diz ela calma, mas no fundo aflita.
-Que quer dizer? Quem está por toda parte? – ele fica confuso.
-Os monstros, os vozes, os demônios...
O delegado ri.
-Você que sou idiota?
-É verdade! Um estava no garoto com o escudo de dor e frieza, ele...
-Responda a primeira pergunta! – ele a corta – Por que o matou?
-Ele tinha um Oni – responde ela – Preciso matá-los ou isso me enlouquecerá!
-Temo que você já esteja louca – o delegado escreve algo num papel e se levanta da cadeira.
-Os sussurros dizem que não sou como vocês – fala a garota.
-De fato – ele sai.
A garota fica mais aflita e me vê com o canto do olho.
-Eu queria ser heterodoxia – comenta do nada.
-Quem é você? – pergunto, ela me vê e eu posso falar, isso é bom.
-Eu queria ser uma pessoa normal.
-Por que você me matou? – acho estranho o que ela diz.
-Deve ser terrível e dolorosa, no entanto eu poderia ser uma psicopata – ela sorri.
-Você é doida?
-Você ainda é um deles? – ela parece com medo – Posso matá-lo um milhão de vezes se precisar!
-Não sei do que você está falando – digo – Quem é você afinal?
-Dely, acho que meu nome é Dely.
-Dely – repito, esse nome não é japonês.
De repente o delegado entra na sala com dois homens que parecem doutores.
-Não! – Dely tenta fugir deles, mas os homens lhe dão uma injeção e ela desmaia.
-Dely! – queria ajudá-la, mas atravesso eles, não posso fazer nada – Droga!
Eles a levam para algum lugar e eu os sigo. Quero compreender a razão de minha morte, Dely não pode ter me matado simplesmente por matar. Ou pode?
Observo enquanto ela dorme na ambulância em andamento, ela fica gemendo e chorando como se estivesse tendo um pesadelo.
-Chiyo... – murmura com lágrimas nos olhos – Não morra Chiyo... Aguente firme... Vou te salvar.
Me pergunto do que ela está falando.
Chegamos a algum lugar. Levam Dely numa cadeira de rodas. É um hospício...ou um sanatório (sei lá qual é a diferença de um de outro, nunca estive num lugar desses).
Colocam-na num quarto escuro e percebo que nem está dormindo mais. Fica num canto de olhos arregalados.
-Dely...
Ela solta um gritinho de susto.
-Desculpe – é estranho me desculpar, não costumo fazer isso.
-Você também veio mentir? Pare! Odeio essas mentiras! – ela tapa os ouvidos – Vocês querem me enlouquecer! Não vou deixar...
-Dely se recomponha sua louca! – me altero – Por que me matou?!
-Preciso matar os Oni, eles mentiram. Minha felicidade foi dilacerada quando finalmente disseram a verdade, mas prefiro a verdade que uma doce mentira – ela ri – Chiyo precisa de mim.
-Ah, como posso acreditar numa maluca?
-Minha insanidade é desconhecida a você? – indaga Dely.
-Só quero entender! Por que me matou?! – repito fora do sério.
-Me ajude! – pede ela – Ajude Chiyo!
-Quem é Chiyo?! Droga! – me irrito ainda mais.
-Ele nasceu errado, ele não gosta de matar, não é como os outros Oni – conta Dely rapidamente – Ele está preso, está sofrendo, está gritando, pedindo ajuda...
-Para com isso! Está me agoniando com sua loucura!
-Ajude Chiyo... Antes da lua vermelha.
-Lua vermelha? – fico mais curioso.
-Na lua vermelha os Oni vão se libertar, matar todos, vão tornar a Terra um Inferno – explica ela.
-Lua vermelha... – arregalo os olhos, parece que me lembro de algo assim – Talvez seja um sonho.
-O quê? Você viu a última Akai Tsuki? – Dely se surpreende – Foi a duzentos e sessenta e três anos atrás. A lua se ergueu vermelha no céu e os demônios se livraram da barreira dos mundos, foi um massacre de treze segundos, até uma pessoa desconhecida formar uma nova barreira. Ele tirou as memórias das pessoas, mas algumas ainda lembravam.
-Apesar de eu lembrar de uma lua vermelha e de ver monstros assassinando pessoas friamente – falo – eu não estava vivo há duzentos anos.
-Seu espírito estava.
-Mas como posso ajudar esse Chiyo? – indago – Estou morto! E mesmo vivo eu nem me importaria!
-Você é um covarde...
-Não me chame de covarde! – ordeno – Sua psicopata, louca!
-Cale a boca! Você morre de medo de sofrer – diz ela – Não quer ser ferido por isso trata os outros tão mal!
-Sua...
-Está fazendo de novo – ela cantarola – Seu escudo de dor e frieza... Covarde!
-Não vou discutir com uma doente mental – cruzo os braços.
-Há quanto tempo estou aqui? – seu tom muda pra aquela voz de garotinha de filmes de terror.
-Sei lá, alguns minutos – respondo.
-Não – nega Dely – Faz séculos... Séculos que vago nesse mundo em colapso.
-Ah, não adianta falar com você – concluo com raiva.
-Meu coração não é como você em tudo – comenta ela desenhando no chão.
Vejo o que Dely desenha com uma pedra. Parece ser um garoto de olhos arregalados gritando, preso por correntes. Ele tem chifres e dentes pontudos.
-Esse é Chiyo? – deduzo.
-Chiyo – concorda – Me ajude a sair daqui pra salvá-lo.
-Não tenho como fazer isso!
-Você é um espírito, pode ferir os Oni – fala ela – E eles também podem feri-lo.
-Não me importo com isso, as pessoas podem chorar sangue que não ligo – digo – Assim como elas não ligam pra mim!
-Então você não existe, queime no inferno sozinho nesse eterno vazio.
Reviro os olhos, o que ela diz não pode me atingir, não posso deixá-la me ferir.
-Tudo bem, vou ajudá-la a impedir os Oni e salvar Chiyo – concordo – Não tenho nada a perder mesmo.
-Prepare-se para enlouquecer...
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