Akai Ito (Fio Vermelho) - Primeira Temporada
46 Capítulo 46 – Travessura de Nanami
Notas iniciais
Yoshi olhou para a entrada da caverna e suspirou. Sinceramente não sabia o que fazer... Em todos últimos dez anos manteve sua raiva voltada para Naoki. Seu grande amigo que se tornou um traidor e causou tanta tragédia... Mas nos últimos meses muitas coisas mudaram, além de descobrir que seu conselheiro – homem que confiou – era um traidor e planejava sua morte.
Será que Key tinha razão? Devia dar chance de Naoki explicar?
Nunca deu ao feiticeiro essa oportunidade... Bem, Naoki fugiu... Mas com razão, havia ordem de morte sobre sua cabeça.
Yoshi voltou a olhar para os dois na caverna. O pequeno menino de fios brancos estava dormindo e Key parecia concentrado na leitura de um livro. — Eu vou... Respirar um pouco de ar. — Yoshi disse se levantando.
Key ergueu o olhar. — Tome cuidado! — Disse rapidamente e voltou atenção ao livro de capa de couro e aparência antiga. Possivelmente um livro de feitiços.
O Imperador deixou a caverna e seguiu para fora. Olhou ao redor, vendo os pinheiros com suas folhagens verdes e o céu azulzinho. Sabia que estava próximo a aldeia de Akai, então era incrível ver que a camada espessa de gelo que por anos cobriu o local, não era nem de perto visível.
Ele fechou os olhos e puxou o ar para seus pulmões, mas quando um barulho de galhos ecoou, seus olhos se abriram e virou a face. Não encontrou nada, mas sabia que além das árvores estava quem procurava. Yoshi se moveu em sentido ao ruído. Levou menos de cinco minutos para chegar à clareira e se deparar com Naoki sentado em uma grande pedra.
O feiticeiro pantera tinha os olhos fechados, em posição de meditação, contudo mantinha-se atento a tudo. — Se perdeu?
Yoshi suspirou. Sabia que não seria fácil. Aproximou-se do ex-amigo e encostou-se à pedra – ao lado de Naoki. Não respondeu de imediato, em sua mente formulava várias perguntas, mas nenhuma parecia certa.
Naoki sem paciência de esperar e ciente o que Yoshi desejava, iniciou.
— Eu não sou o traidor... E doeu pensar que importava tão pouco para você.
— Eu tinha provas... Meu povo estava dizimado... Minha esposa falecido e Eiji ferido... Minha mente não era mais coerente na época. E as provas... Pareciam tão verdadeiras. — Yoshi defendeu-se.
— Eu tinha um esposo e filho... Meu Misaki sacrificou-se para proteger Nanami... E meu filho cresceu órfão dos dois pais e subjugado por todos como rejeitado e amaldiçoado. — Naoki falou.
— Como saberia que não era um traidor Naoki? — Yoshi indagou virando-se para encarar Naoki, que agora estava de olhos abertos.
Naoki olhou magoado. — Confiou naquele velho... Ao invés de mim.
— Então me prove... Explique-me... — Yoshi implorou.
Naoki ficou calado. Ponderando se valia a pena contar ou não. Depois de tantos anos não sabia se valeria a pena. — Na época... Estava investigando ações de outro mago, pois haviam índices de que nas proximidades havia tido sacrifício de animais e pessoas... E pontos mágicos... Foi quando a guerra estourou. Apesar dos Lobos atacarem, da nossa eterna rixa... Descobri que eles foram enganados por uma bruxa... Que fez parecer que nós matamos uma família inteira de Lobos, então eles se achavam no direito.
— Nunca... Jamais permitira isso! — Yoshi falou.
— Mas a bruxa matou e colocou eles contra nós. Enquanto eu tentava acalmar a guerra para que os lideres dos dois clãs conversassem... Uma forte magia cobriu Masao... Uma magia que quebrou o selo de um mal a muito tempo selado no templo sagrado de Masao... Selado por meus antepassados.
— O Oni Tiger! — Disse Yoshi. Era o crime em que Naoki era acusado, de liberar o Oni que matou tantos do lado dos Lobos e Gatos. Um crime imperdoável.
— Sim! Quando ele foi libertado... Eu estava no portão principal de Masao, tentando criar um selo protetor ao redor de Masao, para impelir os lobos para fora e cessar a guerra... Mas a besta foi libertada, e o grande tigre em sua fúria recém despertada matou tantos no caminho... — Naoki disse com pesar. Aquele dia ainda parecia vivo em sua mente.
— Mas quem... Eu senti a sua magia... — Yoshi disse.
— Sim! Por que quando vi o Oni livre, sabia que mataria todos se não parasse... E confesso, o mais importante para mim era minha família. Misaki em casa com nosso pequeno bebê... Nanami com apenas três anos... — Naoki falou. Ele temeu tanto que sua família fosse morta. — Mas como feiticeiro e único na linhagem da minha família como mago, precisava fazer tudo para parar a besta... Fui para casa... Conversei com Misaki... E ele concordou comigo.
Yoshi não estava entendendo. — Concordou com o que? O que fez?
— O Oni precisava ser selado de novo... Mas de uma forma que jamais poderia se libertar totalmente de novo. De forma que outro o controlasse. Contudo, para sair bem sucedido, o seu mal precisava ser controlado pela bondade mais pura... — Naoki não segurou as lágrimas.
Yoshi sentiu a dor do outro em si. — Você não... Não fez isso...
Naoki acenou. — S-Sim... Selei Misaki em um colar que protegeria nosso bem mais precioso... Que o esconderia de tal bruxa. E então... Usei o selamento para guardar o Oni Tiger dentro de meu filho. Nanami!
Yoshi segurou a respiração e seus olhos se arregalaram. Naoki tinha feito algo que Yoshi jamais teria coragem. Não de colocar em risco um de seus filhos. O ‘homem’ julgado traidor — sacrificou sua família para ajudar a todos.
— Mas... Esse tempo todo... Ele é... Tão pequeno e frágil... Como segura um ser tão perigoso!? — Yoshi indagou.
Naoki enxugou as lágrimas. — Nanami pode parecer frágil e delicado de aparência, mas sua alma é forte... E sua pureza é grande. E Misaki e eu sempre estivemos o protegendo. Agora entende? Nunca trai Masao... Ou tentei dar algum golpe...
— Mas por que não tentou explicar nesses anos todos? — Yoshi perguntou.
— Eu estava investigando. Sabia quem era o responsável por tudo e não irá parar por ai... Sua ganância não permitiria! Ela esteve procurando pelo Oni! Sabia que eu tinha selado em algum lugar... E quando... Ela achou seu rastro em Masao... Sabia que precisava proteger Nanami!
Yoshi arqueou sobrancelha. — Como...?
— A ideia do casamento! Eu convenci o Ancião de Akai a forjar uma aliança. E no fundo sabia que jamais entregaria seu filho... Eu mexi os pauzinhos para que Hachiro tivesse ideia de Nanami! — Naoki explicou.
Yoshi suspirou e afastou-se da pedra. Colocou-se de frente para o feiticeiro, descrente. — Mas... Não sei onde isso ajudaria?
— Precisava de alguém forte e destemido para proteger meu filho. Masao tinha virado as costas para minha família... Meu menino! E... Estava traçado no destino que Kensuke e Nanami que seriam perfeitos juntos... Apenas agilizei as coisas! — Naoki deu os ombros.
O imperador inclinou a cabeça para baixo e fechou as mãos em punhos. Havia tantas coisas diante de si. Tantos erros que havia cometido. — Essa bruxa...
— Ela está atacando... Tentando pegar Nanami! Usou Hachiro em Masao e tem um espião em Akai! Contudo, engana-se ela se deixarei que toque no meu precioso menino!
— E Misaki...
— Está vivo! E atualmente fora do selo e vivendo em Akai! Ainda tem de recuperar a memória... Mas será breve. — Naoki pulou da rocha caindo com graça no chão. — Não somos amigos novamente... Duvido que um dia volte a ser. Magoou-me muito que me virou as costas... Mas não quero haja raiva entre nós. — Naoki estendeu a mão.
Yoshi olhou para ela por meros segundos e então ergueu a mão e apertou a de Naoki. Então encarou os olhos do outro. — Vou conquistar sua amizade de novo, serei merecedora dela.
— Duvido...
— Eu irei... Eu juro. — Yoshi declarou. — Farei com que me perdoe.
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A porta do quarto principal da casa foi aberta e uma cabeleira loira surgiu. A cabeça virou para os lados a fim de garantir que não havia ninguém por perto, e então a figura deixou o quarto.
Nanami seguiu pelo corredor nas pontas dos pés até a porta do quarto de seu melhor amigo de todo o mundo. Olhou no corredor novamente e então ergueu a mão para bater na porta, mas antes que seu punho fechado fosse contra a madeira, a porta se abriu.
Nanami levou a mão ao coração e quase gritou. — Ahhh... Sayuri-chan!
— Shii! Silêncio. — O ruivinho disse levando o dedo indicador aos lábios enquanto fazia ‘shii’.
— Então não me assuste! — Nanami resmungou fazendo um bico e estapeou o ombro do amigo. — Vamos logo...
— Não é melhor de noite? — Sayuri perguntou enquanto seguia o amigo pelo corredor.
Nanami parou e olhou ao redor, para ter certeza que não tinha ninguém na sala de estar da casa. — Não... Se for de noite, Ken-chan vai desconfiar como na ultima vez. Ninguém espera que ataquemos cedo...
Sayuri encolheu os ombros. Não vendo ninguém a vista, os dois terminaram de descer as escadarias e correram para a porta. Abriram com cuidado para não alertar Ryo, Seiji e Kensuke que estavam no escritório, e então escapuliram para fora.
O sol brilhava forte no alto céu e toda a população dos Lobos cumpriam seus deveres do dia-a-dia e as crianças brincavam. Nanami e Sayuri seguiram de mãos dadas com os melhores sorrisos. Os aldeões sorriam para eles e acenavam, e os pequenos retribuíam. Seguiam como se fossem apenas dar uma passeio.
Quando chegaram a um determinado ponto, Sayuri puxou Nanami pela mão e eles se esconderam ao lado de uma casa. Olharam ao redor e seguiram em silêncio para trás. Seguiram protegidos por algumas árvores até o local onde ficava o calabouço em Akai, praticamente uma caverna. Eles ficaram escondidos até que viram os sentinelas se afastarem para o almoço. Um erro ridículo da segurança, saindo ambos ao invés de intercalarem o horário. Como havia somente um prisioneiro e esse certamente não fugiria, deixaram a prisão desprotegida, para sorte da dupla arteira.
Nanami fez sinal com a cabeça para o ruivinho quando os guardas estavam longe. Eles correram para a prisão. Tinham menos de meia hora para soltarem Maiko e fugirem. Nanami e Sayuri entraram na caverna e seguiram para o subterrâneo. Correram pelos corredores rochosos e por fim chegaram na ala que ficava as selas.
— Aqui! — Nanami disse sem folego. Ele retirou um molho de chaves – que havia roubado do escritório de seu marido – e procurava a certa para abrir a cela.
Maiko levantou ao ver os dois gatinhos e os encarou pasmo. — O que...?
— Eu prometi que ajudaria. Ken-chan não me escuta, então vamos ajudar a escapar. — Nanami explicou enquanto testava as chaves.
— Rápido Nana-chan! Se formos pegos... Quero nem pensar... — Sayuri estava olhando repetidamente para a entrada a fim garantir que não vinha alguém.
— Não! — Maiko gritou. Ele se levantou e agarrou as barras da cela. — Não podem fazer isso! Vão acabar entrando em uma enrascada.
Nanami pegou mais uma chave e soltou um gritinho quando o cadeado desbloqueou. — Sim! — Ele abriu a porta e estendeu a mão para Maiko. — Vamos... Não o deixarei aqui... Ande logo!
Sayuri suspirou. — Ele não vai desistir... É bom sair logo. — Disse para Maiko.
Maiko olhou sem saber o que fazer. Pelo pouco que conhecia de Nanami, sabia que Sayuri dizia a verdade. Os três se entreolharam e saíram da ala da cela. Seguiram pelo corredor com passos cautelosos, e qualquer barulho os fazia parar.
Quando finalmente deixaram o calabouço, eles se amontaram pertinho e ficaram olhando para ver se não encontravam alguém. Sem ninguém a vista, os três correram pelo local rumo à floresta que cercava a Vila. Quando andaram alguns metros dentro da floresta, decidira parar.
Suas respirações estavam afoitas. Nanami apoiou a mão em uma árvore e puxava o ar com força para seus pulmões. Sayuri inclinou-se para frente e apoiou as mãos nos joelhos. Já Maiko acabou sentado no chão.
— Isso foi... Uma loucura total... — Maiko disse. — Mas confesso... Divertido.
— Sim! Agora... Temos que... Encontrar... — Sayuri falou com dificuldade. — Temos que encontrar... Um lugar para Maiko se esconder...
— Até que convença Ken-chan a acabar com essa palhaçada de execução. — Nanami afirmou.
Eles ouviram passos e ficaram retos, seus corações pulsando como loucos. Não podiam ser pegos agora, não quando estavam tão pertos.
— Quem está ai? Estou armado! — Disse Nanami ao que pegou um grosso galho do chão e o segurou com força.
— Oh lindo... Não sabe ficar calado. — Sayuri negou com a cabeça.
— Quem... Say? Nana? — A voz de Chizuru veio de perto. Logo entrou em campo de visão e encarou o grupo. Ele viu Nanami e Sayuri, mas suas sobrancelhas arquearam quando viu Maiko. — Não... Vocês não fizeram isso... Oh merda...
Nanami ficou com medo de seu cunhado ir correndo contar para Kensuke, então largou o galho e correu até Chizuru, segurando-o pelo braço. — Por favor... Não conte a Ken-chan! Nos ajude, por favor!
— O quê? Nanami isso é loucura! Serão acusados de traição e serão condenados como Maiko! Não vou deixar que os dois sejam mortos. Precisam devolver Maiko à cela antes que descubram. — Chizuru alertou. Ele havia indo a floresta para colher algumas flores para enfeitar a casa de seu pai... Pois Seiji iria visitar aquela tarde.
Sayuri negou com a cabeça e correu para segurar o moreninho, agarrando o outro braço dele. — Agora é nosso cúmplice, e se formos pegos, você será também.
Maiko bateu a mão aberta na testa. Aquilo estava se tornando uma verdadeira confusão. Não queria nem pensar onde tudo iria acabar.
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Chizuru estava completamente fora de si, se pensava em ajudar Maiko em sua fuga, mas ele já estava intrometido nisso. Não havia saída, ele tinha que se arriscar.
— E-Eu posso me virar sozinho desde aqui… Somente correr para algum lugar em que possa me esconder por um tempo. — Maiko sugeriu profundamente agradecido por eles o estarem ajudando. Embora todo o medo do mundo fizesse parte de seu ser agora, esperança brotava em seu coração, de que possivelmente poderia salvar sua vida.
— De jeito nenhum! — Sayuri não concordou e Nanami balançou negativamente a cabeça. — Se for sozinho, os sentinelas irão te encontrar. Eu sei de uma forma que podemos nos distanciar sem sermos vistos…
— Sabe? — Os outros três perguntaram juntos.
— Claro. Chizuru é a solução! — Sayuri apontou para o ninshin maior.
Chizuru arregalou os olhos impressionado, mas em seguida empalideceu.
— O que? Não! O que eu posso fazer?
Sayuri apontou o dedo em seu rosto como se o desafiando em ir contra.
— Você conhece essas redondezas muito melhor do que nós, porque viveu praticamente a vida toda em Akai. Deve conhecer algum esconderijo, algum local do qual Maiko ficará seguro até que possamos convencer Kensuke que ele está errado.
— Oh Deus dos lobos… — Chizu passou as mãos em seus cabelos os penteando com os dedos para trás. Ele estava nervoso, desesperado. Que maldita situação em que se meteu. — Tudo bem, eu acho que sei de um lugar.
Sayuri, Nanami e Maiko suspiraram de alívio, até segundos atrás pensando que Chizuru não iria cooperar.
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Kensuke estava com uma sensação estranha no peito. Desde que se levantou naquele dia estava sentindo isso. Sua primeira impressão de Nanami tinha sido inocente ao vê-lo dormir quando levantou mais cedo. Então o que seria aquela sensação de “alguém está aprontando hoje”?
Tentando não se importar, Kensuke participou da primeira reunião com seus betas desde a viagem. Ryo estava com um humor animado ultimamente, o que não costumava ser típico dele, Kensuke gostou de vê-lo tão feliz.
Seiji parecia um pouco apreensivo, embora continuasse o mesmo. Assim ele esperava, Seiji era um de seus melhores amigos, mas em breve seria seu cunhado. Este era um motivo que faziam as coisas mudarem um pouco, porque qualquer deslize dele, e Kensuke estaria extraindo suas bolas fora de seu corpo.
— Suke… Kensuke? — Seiji o chamou e só então o Alfa saiu fora de seus pensamentos.
— Oh, desculpe. — Sentiu-se um pouco envergonhado. — Eu estava um pouco pensativo.
— Pensando em Nanami? — Ryo cruzou os braços. Ambos os betas estavam sentados em poltronas em frente a mesa de carvalho de Kensuke.
— Isso provavelmente. — Seiji riu e Kensuke lhes retribuiu com um sorriso.
— Faço todo o tempo. Ryo sabe bem como é. E Seiji também já deve conhecer esse sentimento não é mesmo? — Kensuke apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Impossível não pensar. — Seiji riu de novo e então foi para o assunto de interesse. — Alfa, o que está planejando para a próxima semana? Já está bem perto e eu não o vi comandar nada mais do que o habitual.
Kensuke olhou-o por um longo tempo.
— Planejar o que? Vai haver algo importante? — Perguntou com desdém.
Os olhos de ambos os betas cresceram de tamanho.
— Eu não posso acreditar… — Ryo ficou sério enquanto Seiji estava rindo. — Você está acasalado, então como pode esquecer-se da Lua de Sangue?
Agora fora a vez dos olhos de Kensuke se arregalarem. Em seguida, ele soltou um suspiro e sorriu maliciosamente.
— Eu havia me esquecido completamente deste período. Nanami não é um lobo, por isso não passa nada de anormal com ele. Quanto a mim, bem… Ainda não senti quaisquer sintomas.
— E não sentirá até faltar pouco mais de dois dias para a noite de Lua de Sangue. — Seiji mordeu o lábio inferior. — Não há jeito de fazer meu casamento acontecer antes desse dia?
— Seiji! — Kensuke bateu com as mãos contra a mesa, levando os dois betas a se arrepiarem. — Vocês irão casar na data que eu decidir, e não será agora. — Kensuke se voltou contra a cadeira e suspirou. — E já temos uma cota de casamentos esta semana. Agora eu entendo essa necessidade do povo querer se casar tudo de uma vez.
— Temos que planejar algo, todo ano fazemos… — Disse Ryo.
— Nós faremos. Quero que me ajudem a pensar em algo. Antes eu sempre pensava em alguma coisa com antecedência… Acredito que era porque desejava ter um acasalamento… Porém agora, como tenho Nanami, não passou muito pela minha cabeça. — Falou o Alfa coçando o pouco de barba por fazer em seu maxilar.
Os dois betas e Kensuke passaram a debater sobre ideias para a Lua de Sangue. Era um dos períodos mais esperados do ano. Momento em que os casais se apaixonavam e acasalavam com seus parceiros. Depois disso, sempre haveria ninshins grávidos.
Mas mesmo que discutissem, Kensuke estava se distraindo fácil. Sua mente não parecia estar ali para o seu trabalho como líder. Algo o preocupava profundamente.
Levantando-se com um suspiro, ele resolveu dizer.
— Quero que me deixem por escrito suas ideias para discutirmos mais tarde. Tenho que encontrar Nanami. — Algo não estava bem.
Ryo e Seiji, normalmente iriam zombar de brincadeira, mas ficaram sérios, com certeza reconhecendo a aura preocupada que Kensuke exalava.
Saindo de seu escritório para o corredor. Kensuke resolveu dar uma passadinha em seu quarto, verificando se Nanami estava lá. Uh, nem sinal. Cama feita, tapetes em perfeito alinhamento. Tudo nos conformes.
Talvez a cozinha.
Kensuke desceu as escadas com um pouco mais de pressa. Seria habitual ver Chizuru trabalhando em algo pela casa, cozinhando ou preparando o almoço, talvez até já se preocupando com o jantar ou ensinando Nanami com os afazeres domésticos.
Kensuke foi até o quintal na lateral de sua propriedade, os lençóis estavam lá, secos. Mas nada de seu pequeno companheiro.
Nem Chizuru.
Kensuke correu, por todos os cômodos, todos os prováveis locais onde Nanami e seu irmão estariam. Até mesmo pela casa de seu pai e a casa de Shou.
Nada deles.
Soltando maldições, ele voltou para seu lar, encontrando seus dois betas na entrada, ambos sérios e apressados.
— Kensuke, temos notícias.
— Eu sei. — Kensuke bateu em sua testa. — Sabem de Sayuri? Onde Sayuri está?
Ryo olhou-o curioso.
— Ele me disse pela manhã que iria a um passeio pela vila com Nanami. Porque? Não os encontrou?
— Eu praticamente vasculhei a vila inteira e perguntei a todos, mas não há sinal de onde Nanami ou Sayuri esteja, e Chizuru também…
— Chizuru?! — Seiji pulou dos últimos degraus franzindo a testa. — Ah pelo amor de Deus, Kensuke!
— Estou dizendo! Eles resolveram aprontar de novo… — Kensuke amaldiçoou de novo. — E o que vocês precisavam me dizer? — Se lembrou no ultimo segundo de desespero.
As faces de Ryo e Seiji amedrontaram Kensuke.
— Alguns sentinelas rastrearam rastros de intrusos. — Seiji suspirou, penteando seus cabelos para trás com os dedos, nervoso. — O cheiro ainda estava fresco, porém ninguém conseguiu um caminho certo a encontrar quem esteja de intruso em nossas terras.
— Isso é preocupante… Mas não tanto quanto ter nossos companheiros lá fora correndo riscos. Seiji, vá chamar Yamato para comandar os sentinelas que farão proteção da Vila. Peguem suas armas, nós iremos entrar na mata agora!
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— Só mais alguns… Tenho sentido um cheiro estranho por perto, não é seguro esperar por mais tempo. — Disse Key para Naoki que estava quase no topo de uma macieira.
— Paciência Key… Só mais algumas. Tenho certeza que Megume vai adorá-las. — Naoki chacoalhou mais um galho, e Key agilmente as colheu com seu cesto em mãos.
Um arbusto se moveu, e Key ficou em alerta, perdendo uma porção de maçãs que caíram ao chão.
— Merda! Preste atenção Key! — Naoki gritou lá de cima, mas Key não se importou. Ele colocou o cesto de lado e tomou uma maçã em sua mão, captando cheiros distintos, mas muito agradáveis vindos daquele arbusto.
Quando ele se aproximou, Naoki pulou do alto e caindo graciosamente ao chão, rosnados chamando a atenção de ambos. E um miado.
Um pequenino gatinho branco pulou do arbusto chiando. Seus pelos arrepiados enquanto ele mostrava dentes ponte agudos, mas de nada assustadores. Mais um gato alaranjado com um baita rabo felpudo e um lobo menor que não rosnava, mas sim tremia com o rabo entre as pernas.
— Parem vocês! — Um jovem gritou detrás de uma árvore. — Eles não parecem ameaça… Vocês não são, não é?
Key balançou a cabeça com olhos enormes para aquela cena. Em seguida ele sorriu amplamente, agarrando o gatinho branco menor do chão e o embalando em seus braços. O mesmo miou alto o suficiente como se desesperado e com medo.
Naoki se assustou quando o gato laranja praticamente pulou sobre a cabeça de Key e começou a atacá-lo com seus dentes e garras.
— Já chega, se acalmem! — Gritou, os fazendo parar de imediato. — Não somos ameaça, estamos aqui em paz, porém escondidos. Perdoem-me se invadi a área de vocês, mas pretendemos sair o mais breve possível se os incomoda tanto. — Naoki gentilmente tomou o gato ruivo de Key, o colocando sobre o chão com cuidado, ele ainda parecia nervoso. E quando foi para o tomar o lindo gatinho branco e medroso, ele parou.
— Na-Nanami…?
Nanami ergueu seus olhos azuis profundos para os olhos de seu pai. Pura emoção brotou naqueles orbes brilhantes. Ele pulou dos braços de Key e se transformou em meio caminho, para abraçar seu pai tão forte como poderia.
— Papai! — Ele gritou em emoção, deixando Naoki completamente sem reação. De olhos arregalados e coração se derretendo.
Ele mal podia acreditar que seu filho estava ali, o abraçando. Parecia tão irreal.
Ele o abraçou de volta, tão terno e carinhoso como jamais fez antes. Saudade de tantos anos se acumulando em seu coração se transformou em emocionantes lágrimas que rolaram em seu rosto.
Nanami chorou como um bebê, nunca querendo soltá-lo.
Key, assim como os outros que já tinham se transformado, olhavam para aquela cena surpresos, mas emocionados.
— Senti tanta sua falta papai… — Nanami choramingou. — Achei que não o veria mais…
— Eu também senti muito a sua falta, meu amor. — Naoki agarrou Nanami e beijou toda a sua face úmida pelas lágrimas. — Sinto muito por ter estado tanto tempo longe de ti, me perdoe…
— Não importa papai! Você tem que vir comigo! — Nanami implorou.
— Então esse que é o seu querido filhinho Naoki? — Key chegou com um grande sorrisão. Seus cabelos loiros desgrenhados e uma porção de arranhões sobre a testa.
— Esse é o meu lindo Nanami… Este é Key, um grande amigo meu e aprendiz de magia. — Naoki apresentou ambos.
— Gente… Eu sei que é lindo o reencontro, mas sinto cheiro de mais lobos chegando. — Maiko alertou, se aproximando. — Nós precisamos nos esconder, rápido!
Naoki assentiu. — Venham todos para o meu esconderijo, posso abrigá-los até os lobos irem embora.
Apesar de se moverem em direção ao esconderijo, já era tarde, porque uma porção de lobos enormes saiu por detrás das árvores e os rodearam em círculos. Todos rosnando para Naoki e Key que estavam com os menores, inclusive para Maiko que havia fugido.
— Deixem os ninshins de lado e vamos resolver este assunto de igual para igual. — Kensuke se transformou, em sua altura mais autoritária. Seu semblante maligno não permitia jogos ou desafios. Ele parecia como se fosse rasgar meio mundo.
— Espere Ken-chan! Você não se lembra dele? — Nanami ficou à frente de Naoki, enfrentando seu marido. — Ele é Naoki, meu pai!
Kensuke suavizou sua expressão, abanando para os outros trocarem para suas formas meia lua. Ele relaxou ao ver que Nanami e os outros estavam bem. Mas quando ele viu Maiko, seus olhos fritaram Nanami.
— O que você pensa que fez Nanami?!
Maiko abaixou suas orelhas e se colocou à frente do gatinho branco, como se de alguma forma fosse protegê-lo.
— Eu sinto muito, Alfa. — Maiko disse com sua voz trêmula. — Sinto tanto… Foi tudo culpa minha, eu… Por favor não castigue Nanami-san… Eu aceito minha execução, mas por favor não culpe a ele!
Kensuke abriu a boca para dizer algo, mas nada saiu. Então ele fechou firmemente a mandíbula e suspirou pesadamente.
Ryo tomou Sayuri em seus braços rapidamente, assim como Seiji puxou Chizuru para ele.
— Maiko… — Kensuke estava prestes a dizer algo, quando Nanami o interrompeu.
— Você não irá matá-lo! Eu o salvei, Maiko quer encontrar seu companheiro! Ele não é malvado Ken-chan, mas foi chantageado por pessoas maldosas! — Grunhiu para ele, por dentro assustado que Kensuke estivesse engolido em seco e parecia nervoso, embora estivesse se controlando, mas por fora demonstrando ser corajoso. Afinal ele era a cadela Alfa.
— Nanami… Não pretendia matá-lo de qualquer maneira. — Kensuke suspirou relaxando novamente. — Embora não pudesse te dizer, porque não tinha certeza… Meu plano era ter Maiko banido de nossa matilha.
Nanami arregalou os olhos. — Mas você disse…
— Eu sei, eu disse que ele seria enforcado. Esta era a verdade, as principais regras… Mas ouvi o que você contou a Sayuri… — Kensuke suspirou.
— Ken-chan… — Nanami sorriu aliviado. Mas isso não pareceu convencer o Alfa.
— Ele terá uma dolorosa punição ao invés de sua morte. Esta é uma decisão minha, depois… Você decide o que será da vida de Maiko, Nanami. — Kensuke desviou seu olhar, agora para Naoki que estava sério. — Seja bem-vindo em nossa terra. Sendo pai de Nanami, peço que você e seus seguidores fiquem em nossa vila. Garantiremos que sejam tratados da melhor forma, por minha honra. — Kensuke se curvou, algo que um Alfa raramente fazia. Mas como Naoki era pai de seu amado, ele merecia o gesto.
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— Este é o lugar onde você esteve vivendo estes dias, papai? — Nanami deu ênfase ao chamado “papai”. A palavra saía orgulhosamente de seus lábios, assim como Naoki absorvia com grande amor.
— Sim, filho. — Ele guiou Nanami para dentro da caverna que era coberta por magia, mas naquele momento cancelando qualquer feitiço. — Key vive comigo, assim como Megume e Yoshikazu, que estão recentemente sob meus cuidados.
Os olhos de Maiko ficaram arregalados. — Não… Não creio… Por acaso você disse Megume?
— Sim, por que? Por acaso você conhece algum Megume? — Perguntou Naoki curioso. Assim como todos os outros olharam para o antigo prisioneiro.
Maiko tentou responder, contanto nada saiu por entre seus lábios. Seus olhos cresceram como bolas de gude, assim como lágrimas se reuniram e então jorraram por seu rosto até o queixo. Maiko tremeu completamente quando a visão de um lindo garoto de longos cabelos brancos como a neve apareceu na entrada da caverna.
Continua...
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