Akai Ito
1 Akai Ito
Notas iniciais
Tive essa idéia ano passado, mas só agora achei a história boa o bastante pra ser postada (o tanto de vezes que eu editei essa one vocês nem imaginam).
Serão escritas uma história para cada letra, de diferentes casais (que eu shippo, obviamente) e serão "curtas", entre 2000 e 3000 palavras. Como eu tenho uma certa dificuldade em fazer capítulos curtos durante meus surtos de inspiração da madrugada (DS que o diga), alguns serão maiores, como essa one.
A idéia a principio era postar todas as ones junto, como um conjunto mesmo. Mas, como não há nenhuma ligação cronológica entre elas, optei por postar separado. O que significa que, talvez a próxima seja a história da letra V, por exemplo. Não faz diferença na leitura.
Enfim, espero que gostem ♡
“Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se…
Independentemente do tempo, lugar ou circunstância…
O fio pode esticar ou emaranhar-se,
mas nunca irá partir”.
Go 五
Doug olhou em seu relógio mais uma vez enquanto esperava próximo a uma barraca de tiro ao alvo. Mais pessoas chegavam ao parque a cada minuto que passava, o que provavelmente significava que eles teriam que enfrentar longas e longas filas para irem nos brinquedos. Tudo por causa de duas pessoas atrasadas. Pensou em ligar para seus amigos, mas assim que ergueu a cabeça avistou um deles se aproximando, passando em meio a uma família que seguia para a bilheteria. Não havia nem sinal do outro.
Kyle acenou e andou mais depressa até chegar ao amigo.
— Desculpe a demora. Cadê o Ben?
— Bilheteria. – Doug apontou para a estrutura colorida com uma enorme placa de metal. Uma fila grande já estava formada, mas por sorte Doug e Ben haviam chegado mais cedo e o loiro prontamente se dirija para comprar os bilhetes. – Achei que Roland fosse nos encontrar aqui.
— Anxelin viaja amanhã à tarde, então Roland decidiu ir na casa dela. – Kyle explicou. Haviam combinado aquela ida ao parque há meses, assim que ficaram sabendo que Doug tinha sido aprovado na faculdade e iria se mudar para a capital. – Foi por isso que demorei, eu fui a carona dele.
Doug fez um aceno em entendimento. Provavelmente Roland tinha esquecido que a namorada viajaria no dia seguinte, porque naquela manhã ele havia confirmado sua ida ao parque.
— Ela vai para a mesma faculdade da Melody?
— Sim, só que a Mel teve que ir mais cedo para resolver a matricula delas.
— É por isso que precisávamos sair. – Ben completou ao se juntar aos amigos. Ele cumprimentou Kyle com um soquinho. – Ou o Kyle iria passar a semana inteira chorando e ouvindo músicas tristes ao lembrar que a Melody está morando do outro lado do país.
— Isso é verdade. – Kyle deu de ombros, concordando, para divertimento de seus amigos. – Então, qual brinquedo vamos primeiro?
— O que tiver menos fila? – Benjamin sugeriu, observando mais outro grupo de pessoas chegando ao parque.
— Certo, eu vou ver o Booster e vocês o Orbiter.
Os garotos concordaram e seguiram em direção aos brinquedos.
Doug observava ao redor animado. As inúmeras luzes se difundiam em meio as exclamações de alegria, os risos e os sons que os brinquedos produziam pelo parque. Ele não sabia exatamente onde ficava esse Orbiter, já que era sua primeira vez ali, mas Ben parecia tê-lo encontrado, pois apontou em uma direção mais à frente. Doug ergueu o olhar por sobre a multidão, mas não conseguiu encontrar o brinquedo que buscavam.
O rapaz tentou não se distrair por cada brinquedo que via, mas era quase impossível. Ele parou em frente ao “Crazy Dance” – dizia o letreiro. Um brinquedo com um conjunto de cadeiras que giravam tanto em torno da pista quanto em seu próprio eixo, acompanhado de uma música eletrônica e luzes piscantes.
Aquilo prendeu sua atenção.
Foi somente quando o brinquedo diminuiu a velocidade até estar quase parando que Doug percebeu que estava ali há tempo demais. Virou-se em busca de Ben, mesmo sabendo que não encontraria o amigo ali por perto.
Ótimo, tinha acabado de chegar na cidade e já tinha se perdido em um parque de diversões. Doug balançou a cabeça negativamente e riu de si mesmo. Decidiu, então, por seguir na direção em que Ben havia apontado minutos antes.
Parecia haver mais pessoas agora no parque do que quando chegaram, tornando mais difícil andar sem esbarrar em alguém. E não demorou muito para isso acontecer. Doug virou-se para pedir desculpas, mas não encontrou ninguém que aparentasse estar irritado ou incomodado pelo seu ato.
No meio da profusão de cores que preenchia o parque naquele momento, um brilho vermelho destacou-se, atraindo a atenção de Doug, a qual instantaneamente passou a fitar. Era um brilho fraco, translúcido, que seguia em meio à multidão. O garoto olhou em volta, porém ninguém mais parecia notar.
A medida em que seus olhos se moviam na direção em que seguia o brilho vermelho, sua respiração se tornou mais pesada. Uma ansiedade cresceu em seu peito enquanto buscava a origem do brilho vermelho.
Pessoas começaram a empurrar-lhe para sair do caminho, porém a atenção de Doug não podia ser desviada daquela incomum luz. O tempo movia-se em lentidão aos olhos do rapaz quando um breve vislumbre azul passou diante de seus olhos.
— Ei, Doug!
Doug pulou onde estava, mais pelo toque do que o chamado do amigo. E ali estava ele, com um sorriso divertido em face.
— Se perdeu? – Ben questionou com aquela expressão risonha.
— O que era aquela luz vermelha? – Doug indicou onde estivera observando, porém nem ele conseguia mais ver. – Seguia naquela direção.
— Provavelmente de algum brinquedo. O parque está cheio de luzes. – Ben deu de ombros, não se importando muito com a história da luz vermelha. – Vamos, Kyle disse que tem apenas cinco pessoas na fila do Booster.
Doug acenou, sentindo-se momentaneamente confuso. Virou-se novamente em busca do brilho vermelho, porém nada encontrou.
É apenas efeito das luzes. Nada demais. Foi o que sua mente disse enquanto seguia seu amigo pelo parque.
{...}
Yon 四
— Ah, mas nem pensar que eu vou nessa coisa.
— Doug, viemos aqui se divertir.
— Exatamente, se divertir. Não me fazer subir numa coisa que será a causa da minha morte. – Apesar de reclamar com seus amigos e negar com veemência subir em qualquer brinquedo que apresentasse um considerado risco para sua saúde física e mental, lá estava ele, parado na fila do Booster. Era o brinquedo que mais o assustou naquele enorme parque. Não teria aceitado a sugestão de Ben e Kyle se soubesse como realmente era aquela máquina.
— Você tem que superar esse seu medo de altura.
— E me colocar nessa gaiola que gira é a resposta para isso?
— Anda, Doug. – Ben colocou as mãos sobre os ombros dele, empurrando-o para acompanhar a fila. – Já dissemos que vamos arrumar toda a sua mudança se você ir pelo menos em um brinquedo.
— Não tenho problemas em ir nos brinquedos. – Doug resmungou, mas foi interrompido por Kyle, que ignorou seu comentário.
— E eu te disse que essa seria a primeira coisa que você tinha que fazer quando viesse morar aqui.
— Nã-ão! Você disse que a primeira coisa que eu tinha que fazer era vir neste parque! Não houve especificação nenhuma de que eu devia subir nessa máquina de tortura. Podemos ir em outro?
— Depois que você for nesse!
Continuaram discutindo pelos minutos que se seguiram, mas de nada adiantou para Doug. Agora ele se encontrava dentro da cabine, praguejando mentalmente sua fraqueza em ter cedido aos amigos, enquanto o responsável pela segurança daquele brinquedo-assassino fechava a barra de proteção.
— Só relaxa, Doug. Isso vai ser demais! – Ben fez um sinal positivo com o polegar e o garoto acabou por sorrir nervosamente, mesmo sem acreditar por um segundo que aquilo terminaria bem.
Assim que o brinquedo começou a se mover, Doug respirou fundo e apertou a proteção. Ao seu lado, Kyle já erguia os braços, gritando em ansiedade. Ben não estava muito diferente dele, visto que movimentava seu corpo para frente, como se com isso fizesse o brinquedo ir mais rápido.
Doug só queria sair dali.
Os próximos minutos foram flashes de gritos e luzes que giravam e giravam na cabeça de Doug, fazendo-o se sentir cada vez mais desorientado. Perdeu a noção do tempo em que ficou no Booster. Em algum momento, seus óculos quase foram arrancados de seu rosto, e em outro Doug achou que tivesse “apagado” por alguns segundos. Ainda tonto, soltou-se do colete de proteção assim que pararam e encaminhou-se tremulante para o mais longe que pudesse daquele brinquedo.
Esbarrou em algumas pessoas pelo caminho sem rumo, mas as reclamações destas foram perdidas em meio ao som das vozes no parque. Baixou a cabeça e piscou algumas vezes para clarear a visão, e uma luz vermelha foi a primeira coisa que seus olhos captaram.
Ele sentiu sua cabeça girar ainda mais.
Tirou os óculos e encostou a cabeça na parede de um dos quiosques, respirando pesadamente. Fechou os olhos com força, querendo desviar sua atenção de tudo que parecia girar a sua frente. Ele não devia ter aceitado ir naquele brinquedo. Como odiava alturas! Odiava o coração acelerado, a cabeça girando, a dificuldade em respirar e as pernas que mal queriam lhe aguentar, prontas a desmoronar a qualquer segundo.
— Você está bem?
Doug não respondeu. Ao invés disso, apertou os lábios e fechou os olhos com mais força. O ritmo de seu coração pareceu se duplicar, pulsando por todo o seu corpo. Sentiu uma mão repousar-lhe hesitante sobre as costas e ouviu aquela voz suave e feminina novamente.
— Você... está me ouvindo?
— S-sim.
Sua voz soou baixa até mesmo para seus ouvidos. Sua cabeça girava tanto que ele ficou com medo de desmaiar – talvez pela segunda vez naquela hora. Achou melhor então permanecer com sua cabeça imóvel. Sua respiração estava entrecortada e, ao contrário de sua voz, soava alta.
Conseguia sentir que havia algo diferente... e não parecia relacionado ao pânico causado pelo brinquedo.
— Você parece que vai vomitar. E desmaiar. – Ele pode perceber o leve tom de preocupação na voz dela, porém continuou não confiando em seu corpo e em sua capacidade de não vomitar daquele momento. – Tem que manter os olhos abertos e olhar para um ponto fixo, isso vai te ajudar com o enjoo.
— Não consigo.
Dessa vez, ela riu. Uma risada baixa e divertida. A mão dela ainda continuava em suas costas e Doug percebeu o que havia de diferente: cada centímetro de sua pele formigava devido aquele simples toque. Sua mente se concentrou em sentir apenas aquele gesto, esquecendo lentamente o pânico que sentira há poucos minutos.
— Sei que o lugar não é favorável, com esse monte de luzes e barulhos... Mas tenta por alguns segundos, tudo bem? – A mão que antes apoiava-se em suas costas agora repousava sobre seu ombro esquerdo. Doug inspirou profundamente, tanto para acalmar-se quanto para absorver aquele maravilhoso aroma de rosas. Expirou sentindo-se então um pouco mais calmo.
— Obrigado pela ajuda.
— Você ainda não abriu os olhos.
Apesar de tudo, Doug esboçou um sorriso.
— Ainda acho que posso vomitar a qualquer segundo, não quero correr o risco.
— Então é melhor você se sentar. Tem uma- Ei!
A exclamação da garota somado a seu brusco afastamento fizeram Doug se desequilibrar e quase ir ao chão. Pelo menos descobriu que suas pernas já respondiam normalmente e, assim, conseguiu retomar sua capacidade de se mover. Ergueu a cabeça, abrindo os olhos em busca da dona da voz que lhe oferecera ajuda, mas tudo ficou embaçado e somente foi capaz de distinguir duas figuras andando apressadas; as vozes ainda lhe alcançavam.
— Vamos logo. Jay já está na fila.
— Pode ir mais devagar?
A resposta, porém, não chegou aos ouvidos de Doug, indicando que ambas as garotas já estavam fora de seu alcance.
Doug rapidamente colocou seus óculos de volta, olhando ao redor sem saber exatamente a quem procurar. Seria impossível saber quem era a garota em meio a toda aquela multidão animada que percorria o parque.
E além disso... O brilho vermelho estava lá mais uma vez.
— Quem era ela?
Doug não respondeu imediatamente à pergunta de Ben. Respirou fundo, os olhos fixos na peculiar luz avermelhada que serpenteava por entre a multidão, mas ninguém – além dele – parecia notar. Ele piscou algumas vezes e ela pouco desvaneceu, mas com certeza estava ali.
— Doug? – Ben tornou a chamá-lo. Doug nem mesmo notara o momento em que o amigo havia parado ao seu lado; só o notou quando o garoto estalou os dedos em frente ao seu rosto. – Está tudo bem?
— Sim, sim.
— Certeza? – Ben tocou em seu ombro, analisando a expressão do amigo. – Você se afastou e não te encontrávamos...
Doug sentia que seu corpo já não apresentava mais aquela sensação desagradável de que iria vomitar ou desmaiar, ou os dois, a qualquer momento. Sua mente já havia se acalmado, mas a luz avermelhada ainda era visível.
— Estou melhor. Só não me faça subir naquele brinquedo de novo.
Ben riu, apertando o ombro do amigo. Doug sorriu enquanto retornavam de encontro a Kyle; uma sensação estranha, diferente, crescia em seu corpo. Como se tivesse acabado de encontrar algo muito importante, muito precioso, mas não era capaz de compreender seu significado. Essa sensação se fez presente durante toda a noite até o momento em deitou seu corpo sobre a cama, horas depois. E no momento em que apoiou sua cabeça sobre o travesseiro e o sono finalmente vencera, aquela estranha sensação invadiu seus sonhos acompanhada da brilhante luz vermelha, como um guia para o desconhecido...
{...}
San 三
Observou os carros passarem pela rua, um ou outro motorista buzinar e gritar para os motoqueiros... apenas um dia normal naquela cidade. Estava se acostumando em morar em uma cidade grande, apesar de seus pais ainda estarem preocupados.
— Mãe, estou morando aqui faz só um mês. – Doug a lembrou, o riso presente em sua voz. Sua mãe frequentemente ligava para saber sobre o filho e, claro, dizer o quanto estava com saudades.
Doug amava cada segundo daquelas ligações.
— Mas parece tanto tempo. Seu pai ficou chateado que você não conseguiu vir para o aniversário do seu primo.
— Eu sei, queria ter ido. E como foi a festa?
— Ah, foi linda! — A voz da mulher adquiriu um tom mais alegre a menção da festa de aniversário de Sam. – Mas eu não sei quem entregou bebidas para aquele ranzinza, e você sabe o que acontece quando seu tio fica bêbado. Acredita que ele começou...
Ele sorriu pela empolgação de sua mãe, quando algo chamou a atenção em meio ao organizado caos chamado de transito: um brilho saltou diante de seus olhos e captou toda sua atenção. A princípio, achou que fosse apenas reflexo das luzes sobre o asfalto, mas então lembrou-se de sua primeira noite na cidade... quando também havia visto os “reflexos das luzes”, como dissera a sim mesmo.
E mais do que o brilho vermelho, havia também a voz suave que o acalmou e antes disso, o coração batendo mais rápido, a ansiedade que o dominara...
... e que começava a surgir novamente.
Como havia feito no parque, Doug acompanhou com o olhar a leve luz avermelhada a procura de seu destino. Um carro saiu da vaga em que ocupara e foi quando a viu.
Do outro lado da estrada, uma garota estava sentada em um dos bancos, sua atenção voltada para o celular. E o brilho estava lá. Doug conseguia ver, mesmo de longe, que o brilho seguia exatamente para a mão da garota.
Alguma coisa dentro dele dizia que a conhecia, apesar de Doug não lembrar de já tê-la visto alguma vez em sua vida. Mas ele não conseguia parar de olhá-la.
Ela ergueu a cabeça e Doug prendeu a respiração, receoso de que ela o flagraria observando-a. Porém não fora o que aconteceu, uma vez que a garota direcionou seu olhar para outra direção.
Doug nem mesmo percebera que havia um rapaz parado ao lado dela. O rapaz apontou para o celular que a garota segurava e cruzou os braços. Ela levantou-se e ergueu as mãos em rendição.
Doug sentiu um sorriso surgir em sua face ao vê-la guardar o celular na bolsa, divertido com a cena.
E foi quando ela olhou exatamente em sua direção...
Doug inclinou a cabeça para trás no exato momento em que um ônibus azul parava em sua frente. Interrompeu sua visão da garota e o fez recobrar a consciência de que ainda estava com o celular no ouvido e uma chamada em andamento.
— Doug?— A voz da mulher soara preocupada pela falta de resposta do filho. — Você está bem? Ainda está me ouvindo?
Doug ainda demorou um pouco para responder, sua mente parecia lutar para retomar o foco.
— Ah, sim, mamãe. Eu estava ouvido. É que o ônibus acabou de chegar. – Doug apressou-se em erguer a mochila sobre o ombro e ir em direção as portas do automóvel. – Ligo para a senhora assim que sair do escritório.
— Tudo bem, boa sorte na entrevista. Sei que vai conseguir.
— Obrigado, mãe.
Doug despediu-se e guardou o celular, tentando não se atrapalhar ao subir os degraus. Pegou o passe e o estendeu ao motorista. E, pela segunda vez naqueles últimos minutos, sua atenção fora desviada. Um brilho claro contornava um de seus dedos.
— Então?
Doug ergueu o olhar, encontrando o motorista com uma expressão impaciente. O garoto ainda segurava o passe.
— Ah, sim. Desculpe. – Doug soltou o bilhete e encaminhou-se para um lugar vazio no ônibus. Enquanto seguia, não conseguia tirar os olhos de sua mão direita. Curioso, virou-a lentamente, observando a coloração vermelha rodear toda sua mão.
Ele sentou-se em um lugar vago ao fundo do ônibus, sem ninguém ao seu lado. O ônibus logo começou a se mover e Doug rapidamente virou-se para a janela, a procura da garota que acabara de ver. E lá estava ela, ainda parada ao lado do rapaz, mas com o olhar direcionado ao ônibus em que Doug se encontrava.
Quando o ônibus fez a curva, Doug voltou-se para observar novamente sua mão direita e o estranho brilho que a contornava. Dessa vez, parecia enfraquecer-se a medida em que o ônibus descia a rua, até chegar ao ponto em que Doug não conseguia mais distingui-lo.
{...}
Ni 二
Doug fechou o livro e inclinou a cabeça para trás. Fez uma careta ao perceber que seu pescoço estava um pouco dolorido por ter ficado tanto tempo com a cabeça abaixada enquanto lia seu livro favorito.
Ele respirou fundo, observando o céu do fim de tarde e sentindo a deliciosa brisa fria que percorria todo o bosque. Doug gostava daquele lugar. Tentava ir pelo menos uma vez por semana e sentar em dos bancos em frente a fonte central com um livro ou apenas colocar umas músicas e relaxar. E foi assim durante os últimos quatro meses. Aquela era uma maneira de afastar-se do caos da cidade grande e respirar um pouco de ar puro. Não se arrependia de ter se mudado para a capital, mas também não podia negar que sentia falta da paz e tranquilidade que sua cidade natal oferecia.
Sua tranquilidade, no entanto, foi interrompida ao ouvir um grito feminino.
Doug virou-se em direção ao som. Ele não resistiu a um sorriso quando viu o motivo da animação.
Um grupo de jovens divertia-se na quadra de areia, do outro lado da fonte. E um deles – uma garota – havia caído em meio a terra, provavelmente ela a origem do grito. Enquanto sentava-se, Doug notou os cabelos roxos que ela possuía. Com as mãos sobre a barriga, um rapaz – aparentemente de cabelos brancos – ria ao lado, mas não demorou muito para que a garota de cabelos roxos puxasse suas pernas e o derrubasse de cara na areia.
Doug não se conteve e riu.
Quando mais outro garoto – esse não possuía cabelos coloridos – se juntou a brincadeira, Doug já havia se esquecido do livro. Ele se pegou observando aquele grupo de amigos: rindo e correndo entre si, tão ou mais animados do que as crianças que brincavam no parquinho. Deveria ter se sentido desconfortável por fitá-los por tanto tempo, mas não conseguia desviar o olhar. Havia alguma coisa naquele grupo...
Então outra garota apareceu. Doug não conseguiu entender como não a tinha notado antes, não quando seus cabelos azuis se destacavam tanto em meio a todas aquelas pessoas e sua presença parecesse simplesmente... irradiar?
Doug tirou os óculos e passou as mãos sobre os olhos, mas quando os recolocou, nada havia mudado.
Ela estava lá, conversando com a garota de cabelos roxos que agora sentava-se próximo a porta da quadra, colocando patins. Seria uma cena completamente normal, se não fosse pelo reflexo vermelho que nublava os olhos de Doug a cada vez que olhava para a garota de cabelos azuis.
Doug estava considerando intensamente levantar-se e ir conversar com ela, mas antes que pudesse se mover, os outros dois rapazes as chamaram. O garoto de cabelos brancos também usava patins, mas parecia com dificuldades em se manter em pé sobre a areia que caíra fora da quadra. Enquanto a garota de cabelos roxos o ajudava a se equilibrar, a de cabelos azuis pulou sobre as costas do outro rapaz. Este a segurou e pulou algumas vezes, fazendo-a rir e Doug poderia jurar que ouvira aquela risada entoar em seus ouvidos.
Então Doug notou algo cair no chão. O garoto levantou-se do banco para avisar a garota, mas o grupo já se encaminhava para a saída do parque, próxima a quadra.
Doug apertou o livro, e seguiu em direção ao campo de areia.
— Hey! – Seu grito tinha o objetivo de atrair a atenção da garota de cabelos azuis, ou de seus amigos, mas a única atenção que conseguiu foi de um grupo de mulheres que passavam ao seu lado. Elas o olharam assustadas e saíram conversando entre si, levando Doug a sentir seu rosto esquentar de vergonha. Ele afastou isso de sua mente e correu até onde o grupo de amigos encontrava-se momentos antes. O objeto caído ao chão tornava-se mais nítido à medida que Doug chegava cada vez mais perto.
Doug abaixou-se, pegando o objeto vermelho com cuidado, verificando se estava danificado. Era uma pulseira trançada na cor vermelha, com um pequeno pingente prateado da letra E. Ergueu-se com a pulseira em mãos a procura do grupo de amigos, mas não conseguiria encontrá-los. Nesse momento, a dona daquela pulseira já estava muito longe dele.
{...}
Ichi 一
— Vocês vão levar alguém?
A menina loira de olhos verdes debruçou-se a sobre a mesa fitando seus amigos de maneira curiosa. Ao seu lado estava Roland, seu namorado, digitando freneticamente no celular, enquanto Kyle conferia uma lista de nomes em um caderno.
— Não tenho ideia. – Doug respondeu distraidamente, ocupado com seu notebook.
— Eu nem pensei nisso. – Ben comentou, um ar pensativo levemente presente em seu rosto.
— Mas, e aquelas garotas de quem vocês falaram no outro dia?
Um rubor preencheu a face dos garotos em consequência a frase de Melody. Roland, ao desviar o olhar para os amigos, sorriu divertido e balançou a cabeça.
— Veja só os amigos que eu tenho. – Roland largou o celular sobre a mesa e apontou para Doug. – Um está apaixonado por uma luz...
— Não estou apaixonado por uma luz. – Doug interrompeu em voz baixa, mas o suficiente para todos ouvirem.
— Tem razão. – Kyle pôs a mão sobre o ombro de Doug, uma expressão solidária ao completar: – É pela misteriosa garota que aparece sempre que você vê uma luz vermelha. É completamente normal.
Doug revirou os olhos, mas não retrucou. O que deixou espaço para Roland continuar:
— ...e o outro está apaixonado por uma garota que nem sabe que ele existe.
— Claro que ela sabe que eu existo! – Ben exclamou indignado, arrancando risadas dos presentes. – Já conversamos algumas vezes, sabia? Ela só...
—... te ignora. A gente sabe disso.
— Por que não a convida para a festa? – Anxelin sugeriu, a animação presente em sua voz fez o namorado rir. Porém, Ben a fitou curiosamente por alguns segundos antes de lhe questionar, em tom duvidoso:
— Como eu faria isso?
Melody revirou os olhos, impaciente.
— Não sei. Talvez você possa ligar para ela e perguntar? É só uma sugestão.
— Obrigado pelo conselho, Mel.
— Não foi nada. – A garota lhe sorriu docemente. Ela apontou para o celular sobre a mesa: – Mas é sério, liga para ela e a convide.
Anxelin acenou enfaticamente.
— Agora, de preferência.
— Tudo bem! – Ben sorriu brevemente e alcançou o celular, sob o olhar atento de ambas as garotas. – Não precisam me olhar como se fossem me bater.
Anxelin e Melody não tiveram a chance de responder, pois o rapaz afastou-se da mesa, seguindo para longe da doceria.
— Aonde ele vai?
— Provavelmente vai andar o bairro inteiro enquanto conversa com ela. – Kyle fez um aceno em descaso. – Ele faz isso quando está nervoso. E ansioso.
— E preocupado. E com raiva. – Roland completou.
— Vocês sabem alguma coisa dessa garota misteriosa do Ben?
Kyle e Roland se entreolharam, relembrando sobre as tantas vezes em que Ben se empolgava e começava a descrever a misteriosa aluna de artes. Já haviam decorado cada palavra daquela história.
— Eles se esbarraram na entrada da universidade, uma coisa assim.
— E o Ben a seguiu até o pavilhão de Artes para se desculpar. – Roland fez uma careta, forçando-se a lembrar. – Isso foi... na segunda semana de aulas?
— Primeira. – Kyle corrigiu.
— É, e desde então ele não consegue parar de falar nela.
— Tanto tempo assim?
Roland riu.
— Pra você ver como nosso amigo é corajoso.
— Mas ele já chamou ela para sair uma vez, não? – Kyle lembrou.
— Ah, verdade. – A expressão de Roland denunciava seu divertimento. Nunca tinha visto Ben ficar daquele jeito, o que foi engraçado. – Ficou desolado e cabisbaixo por mais de um mês, tadinho.
— Mas só foi ela dizer um “oi” que ele se apaixonou de novo. – Kyle inclinou a cabeça suspirando falsamente. – “Ah, ela tem olhos tão encantadores. E o sorriso dela me tira a atenção. Seus cabelos roxos são tão-”
— Ela tem cabelos roxos? – Melody interrompeu, sem conseguir conter uma risada. – Sério?
Anxelin também ria, sem conseguir acreditar.
— A garota dos sonhos dos dois tem cabelos coloridos?
— Isso é engraçado. – As risadas das duas garotas duraram mais alguns segundos, mas logo Melody voltou-se ao caderno que Kyle estava usando minutos antes. – Mas voltando à festa, quem ficou responsável pelas bebidas?
— Eles dois. – Kyle apontou para o casal a sua frente, Anxelin e Roland.
— Nós? Então acho melhor irmos logo.
— Uhm, é melhor mesmo. – Roland levantou-se, um resquício de diversão ainda presente em sua voz. – Eu vou com a Anxelin comprar as bebidas e vocês tentem fazer o Doug largar esse notebook.
– Você poderia se concentrar, por favor? – Kyle reclamou com o amigo de óculos. Ao perceber que não surtira efeito nenhum, o moreno puxou o notebook, afastando-o do alcance de Doug. – Estamos discutindo algo importante aqui.
Roland balançou a cabeça em negação, mas apresentava um sorriso no rosto.
— Não acredito que você está estudando no meio das férias.
— Não estava estudando. – Doug respondeu tentando alcançar seu notebook de volta. Melody agora lia o conteúdo que havia mantido Doug tão distraído durante toda a tarde. – Eu estava ouvindo, Kyle. E ainda acho um exagero fazer uma festa para isso.
Amanhã iria fazer um ano que Doug e Ben haviam se mudado oficialmente para a cidade. E, claro, aquilo era apenas uma desculpa para que Kyle e Roland pudessem organizar uma festa.
— Pesquisando isso de novo?
Poucos dias depois de ter visto pela última vez a luz vermelha, Doug comentou com seus amigos sobre aqueles estranhos acontecimentos. Na ocasião, Kyle apenas disse que poderia ter sido os efeitos das luzes do parque, assim como Doug havia pensado. E Ben, em tom de brincadeira, sugeriu que aquele seria o caminho para a ponta do seu fio vermelho.
Doug não fazia a menor ideia do que aquilo significava, então passou a pesquisar a respeito. Leu blogs, textos e comentários sobre aquela lenda e quanto mais pesquisava, mais encantado ficava. Já não podia mais esquecer.
— Acho essa história tão linda e romântica. – Anxelin suspirou, abraçada a cintura de Roland.
— Você acha tudo lindo e romântico, Anxelin. – Kyle revirou os olhos e riu quando a loira lhe mostrou a língua em um gesto completamente infantil. O casal seguiu caminho para o carro de Anxelin e logo partiram em busca das bebidas para a festa.
Um ano. Já fazia um ano que ele estava morando naquela cidade, morando com seus melhores amigos. Havia conseguido um emprego no escritório de contabilidade (sua mãe ficou imensamente feliz e lhe mandou mensagens de parabéns pelo menos cinco vezes ao dia durante a primeira semana), a faculdade estava indo bem (os estudos exigindo cada vez mais) e ele passou a amar aquela cidade como se sempre tivesse vivido ali.
Além disso, passara-se um ano desde que vira aquele brilho vermelho pela primeira vez...
— Você já considerou que talvez sua garota de cabelos azuis não more aqui?
A pergunta de Melody o pegou de surpresa. Ele não havia parado para pensar naquela possibilidade. Em sua mente ele apenas queria encontrá-la e entender o que estava acontecendo e qual o motivo. O motivo de seu corpo reagir daquela maneira. O motivo de seu coração acelerar pelo simples vislumbre de uma luz avermelhada. E o motivo do por que ele não conseguia esquecer aquela garota de cabelos azuis.
— Mel, não estrague as esperanças desse pobre rapaz. – Kyle disse risonho, despertando Doug de seu devaneio. – Ele já escreveu até um poema sobre ela.
— Não brinca! Por que você não mostra essas coisas pra gente?
— Porque é pessoal! E o Kyle não deveria sair por aí espalhando isso.
Kyle teve a ousadia de rir diante do constrangimento do amigo.
— Depois você discute comigo. – Kyle virou-se para Melody. – Precisamos ir pegar gelo e copos porque eu tenho certeza que o Roland irá esquecer.
— É, e não podemos contar com a memória da Anxelin para lembrar isso.
— Eu vou ficar mais um pouco aqui. – Doug apressou-se em dizer ao perceber que seus amigos o esperavam. – Vou com o Ben.
— Tudo bem.
— Não se atrase muito porque ainda temos que organizar as músicas. – Doug acenou em confirmação. Kyle bateu levemente em seu ombro e saiu no momento em que uma das garçonetes aparecia para recolher as xicaras e pratos sobre a mesa.
Doug acenou para a mulher e voltou-se para seu notebook. Ali estava a imagem de um casal com suas mãos unidas por uma linha vermelha. Akai Ito, a lenda do fio vermelho que conecta dois amores destinados um ao outro; almas gêmeas traçadas pelo destino e unidas por um fio vermelho. Quanto mais longo e emaranhado fosse esse fio, mais distante e doloroso seria o encontro; quanto mais curto fosse, mais rápido e mais feliz seria o encontro dessas almas gêmeas.
Parecia apenas mais uma das várias lendas que circulavam pelos quatro cantos do planeta, que fazia as pessoas divagarem sobre o amor e essas coisas. Entretanto quanto mais Doug lia, mais as memorias daquela misteriosa luz vermelha se tornavam nítidas em sua mente. Não era apenas uma ilusão de luzes. Na primeira vez, talvez. Mas e quanto ao bosque? Ainda estava claro naquele dia, não havia faróis de carros e nem luzes incandescentes para criarem qualquer reflexo de luz.
Havia apenas aquela sensação de euforia, risos, cabelos azuis e uma pulseira vermelha...
Passou a mão sobre os cabelos, confuso consigo mesmo. A garçonete já havia se afastado sem que ele percebesse, deixando apenas sua xicara de chocolate pela metade sobre a mesa. Seus olhos recaíram sobre as linhas azuis que contornavam por toda a extensão da xicara. Outra cor que não saia da sua cabeça: azul.
O problema era que não conseguia apagar aquelas imagens, não importava o quanto tentasse, aqueles cabelos azuis sempre voltavam a sua mente. E sempre estava presente em seus sonhos. E a voz que ouvira no parque de diversões... a risada que ouvira no bosque...
Fechou os olhos, a imagem vivida em sua mente.
Sabia que sua mente estava apenas lhe pregando uma peça, talvez influenciada pela lenda das almas gêmeas..., mas Doug não conseguia associar aquelas memórias a diferentes pessoas. Tantas noites em claro, tantos dias distraído relembrando todos os momentos em que vira a luz vermelha. Quatro vezes no último ano e em todas havia uma garota.
Uma garota de cabelos azuis.
Ele tinha certeza de que era a mesma pessoa. Só não sabia como.
Abriu os olhos, com a mão ainda sobre o rosto e os óculos tortos, e ofegou. Era muito mais encantador do que ele se lembrava, mas ali estava, depois de tanto tempo... o brilho avermelhado que fazia seu coração disparar e um sorriso surgir em seu rosto.
Seu coração bateu em ansiedade a medida em que arrumava os óculos e erguia o olhar, concentrando-se para não perder o foco do brilho vermelho que seguia por entre as mesas e cadeiras. As sensações de ansiedade e expectativa estavam presentes novamente em seu corpo. Ele sabia o que significava agora. Ou ao menos tinha uma vaga ideia. Queria estar certo, desejava que estivesse certo. Aquilo representava que ela apareceria.
Não sabia como e nem porque, mas em todas as outras vezes aqueles sentimentos serviram de presságios antes de vê-la.
E ele a viu.
A garota saiu pela porta da doceria; a cabeça virando rapidamente para os lados, seus olhos pareciam buscar por alguém pelo modo como esquadrinhavam o ambiente. Os cabelos azuis moviam-se, atraindo o olhar maravilhado de Doug.
Cabelos azuis...
Era ela!
Doug sabia que ela iria aparecer e mesmo assim não pode deixar de ficar surpreso. Ela parou sua busca e abaixou a cabeça por alguns instantes antes que seus olhos se voltassem diretamente para onde Doug estava.
Doug fechou o notebook e levantou-se, um sorriso ansioso em sua face ao observar a expressão confusa que marcou o belo rosto da garota de cabelos azuis. Ele acenou, chamando-a – o que surpreendeu não só a garota, mas ele próprio.
Puxou a carteira e a abriu, procurando num nível quase desesperador pelo objeto que guardara ali desde o momento em que o encontrou no bosque, sete meses atrás. Lá estava a pulseira vermelha, que o acompanhava para todos os lugares desde então.
— Ah, oi. – As mesmas sensações que tinha sempre que via a luz vermelha estavam ali novamente. Não, não as mesmas sensações. Havia aquele olhar curioso que ela lhe direcionava e o pequeno sorriso em seus lábios que fizeram Doug perder a capacidade de pronunciar qualquer coisa coerente. – Tenho a sensação de que conheço você de algum lugar...
Doug não foi capaz de responde-la de imediato, pois sua mente ainda não havia conseguido assimilar o fato de que a garota de cabelos azuis estava realmente parada a sua frente. Não era um sonho, neles Doug nunca conseguira ver o rosto dela tão nitidamente e nem o quão lindo seus olhos eram. E mesmo se o agora fosse um sonho, Doug não queria acordar nunca mais.
— Ahn, eu- quer dizer, você esqueceu isso. – Doug estendeu a mão entre eles e a abriu, revelando a pulseira vermelha sobre a palma.
O olhar da garota recaiu sobre sua mão e Doug a viu franzir a testa, hesitando brevemente. Com um assomo de coragem, Doug escorregou sua mão esquerda pelo pulso direito dela. O olhar da garota rapidamente voltou-se ao rosto de Doug, fitando os olhos verdes por trás dos óculos. Ele sorriu, nervoso, e lentamente ergueu a mão dela, seus dedos contornando delicadamente o pulso da garota ao virar a mão com a palma para cima.
— Faz alguns meses que a perdi. – A garota sussurrou, o esgar de um sorriso perpassou por seus lábios.
Doug ergueu a outra mão, a que segurava a pulseira, e levou em direção a mão da garota. Seus olhos não ousaram se desviar nem por um segundo sequer dos dela.
— Sete meses, para ser exato.
Dessa vez ela não escondeu o sorriso. E Doug agradeceria eternamente por isso.
Se ambos não estivessem tão distraídos em seus pequenos devaneios teriam percebido o leve brilho avermelhado que flutuou em torno de suas mãos no momento em que se tocaram tão brevemente.
— Tanto tempo... – A voz dela não passou de um sussurro, mas Doug conseguiu entendê-la. – Onde você encontrou?
— Eu vi quando a pulseira soltou do seu pulso quando você estava naquele bosque afastado da cidade. – Doug indicou uma das cadeiras e ela prontamente aceitou sua sugestão. – Eu ainda tentei te chamar, mas você acabou não me ouvindo. E eu não consegui te achar mais naquele dia.
— E carrega com você desde então?
— Sempre acreditei que um dia iria conseguir te encontrar. E te devolver.
— Obrigada.
Doug inclinou a cabeça, a observando. Quantas vezes havia imaginado aquele momento? Quantas vezes deitara a cabeça no travesseiro e sonhara em encontrar a dona dos cabelos azuis? Sonhava com eles quase todas as noites e daria tudo para tocar naqueles cachos azulados. Mas se conteve. Isso sim seria estranho. E provavelmente a assustaria.
— O que foi?
— Nada.
— Então por que está sorrindo?
— Cabelo azul. – Deixou escapar, enquanto tentava esconder o sorriso.
— Oh, é. Uma loucura da adolescência que deu certo.
— É lindo.
— Obrigada. Incrível você ter encontrado no bosque. – Ela segurou a pulseira entre eles, passando o polegar levemente sobre a letra e. – Só notei que tinha perdido quando sai do parque, à noite, e achei que tinha caído quando fui no Booster.
Doug fez uma careta a menção do brinquedo. Depois daquele dia, o rapaz nunca mais subira naquela máquina de tortura e não tinha a mínima vontade de fazê-lo novamente.
— Por que a careta? – Ela interpretou sua reação de maneira errada.
— Eu tenho um pouco de medo de altura. – Doug confidenciou, empurrando os óculos constrangido. – Me faz querer vomitar.
O sorriso que iluminou o rosto dela surpreendeu Doug.
— Eu sabia que lembrava de você!
— O que- já me viu vomitar? – Se possível, Doug ficou ainda mais constrangido.
— Não, quer dizer, quase. – Seu tom energético o estava deixando cada vez mais confuso. Ela havia se empolgado com o fato de tê-lo visto vomitar? – No parque, há... não sei, um ano? Você estava passando mal em frente a um dos quiosques. Parecia que ia desmaiar.
A incredulidade devia estar estampada no rosto de Doug, pois ela riu mais uma vez. Ele continuou ali, parado com a boca levemente aberta e uma expressão bobamente cômica, a mente retomando a lembrança daquele primeiro dia na cidade.
A voz calma e o aroma de rosas. O toque em seu ombro. O vislumbre vermelho...
— Era você. – Sussurrou para si mesmo.
— Era você, não é? Sabia! – Ela apoiou a mão sobre a sua o que só fez com que Doug se perdesse ainda mais. – Me desculpe por não o ter ajudado, minha amiga estava ansiosa para ir em um dos brinquedos novos e me arrastou.
Desde o primeiro dia... Doug concluiu, perdido em si mesmo. Desde o começo, era realmente ela. No parque, no ponto de ônibus e no bosque... Sempre foi ela que fizera seu coração disparar. Ele desconfiava que fosse a mesma pessoa, mas ter uma confirmação de que seus pensamentos eram reais era surreal.
Estava tão absorto em suas memórias que demorou a responder. E só percebeu isso quando já não sentia mais o toque dela.
— Mas você me ajudou! – Apressou-se a dizer, ainda com as imagens repassando em sua mente. – Se não tivesse sido você, eu provavelmente teria desmaiado no meio do parque. Obrigado.
Ela sorriu, mas desviou o olhar quando soou um breve toque de seu celular. Havia recebido uma mensagem provavelmente, algo que a fez revirar os olhos e balançar negativamente a cabeça.
— O que houve?
— Meu amigo disse que vai se atrasar. Ele sempre se atrasa.
— Esse amigo... – Doug começou lentamente quando ela pôs o celular sobre a mesa novamente. Uma dúvida que ele queria esconder o mais fundo possível, mas não evitou questionar: – É o que tem cabelos longos?
— Mais para irmão do que amigo, mas sim. Como- Ah, ele estava no bosque, verdade.
E no ponto de ônibus, Doug completou, mas não disse nada. A resposta dela trouxe um sorriso para seu rosto.
— Foi ideia dele irmos no bosque naquele dia. Sabe, no dia em que perdi a pulseira. – Ela apoiou o queixo sobre a mão direita, um leve sorriso despontando de seus lábios. – Aquela foi a primeira vez que fomos. Jay tinha descoberto aquele lugar e nos obrigou a ir. "Para distrair da faculdade", ele disse.
— Eu costumo ir lá para me distrair, também. A sensação de paz é incrível.
— É. Não que o lugar seja silencioso ou coisa assim, porque não é. – Eles riram. Isso era verdade. Sempre tinha crianças por lá e o som de risadas era muito frequente. Misturado aos sons dos pássaros do viveiro no bosque só deixavam aquele lugar ainda mais maravilhoso. – Mas o ambiente é diferente. Você vai muito lá?
— Meus planos era ir pelo menos uma vez por semana, só que as coisas ficaram um pouco apertadas no trabalho e faculdade nos últimos meses. – Só de lembrar a correria que havia sido o último mês, a cabeça de Doug já doía. – Mas, no próximo fim de semana, eu com certeza estarei lá. Preciso terminar um livro.
— É o seu cantinho da leitura? – Doug deu de ombros, sorrindo. Ela inclinou-se levemente sobre a mesa, voltando a brincar com a pulseira. – No próximo fim de semana, ahn?
— Se não aparecer nenhum imprevisto, sim. – Doug inclinou-se também e baixou a voz, como se fosse revelar um segredo. – Os bancos ao redor da fonte são os melhores.
— Bom saber.
— Não acredito!
— Ben! – Doug sobressaltou-se pela aparição repentina do amigo. Ben estava parando alguns passos atrás de Doug, porém seu olhar estava completamente focado nela.
— Eu não acredito. – Benjamin repetiu, sua mente ainda processando o que estava vendo. Ele já a tinha visto, tinha uma vaga lembrança disso. Mas não foi o que o impressionou e, sim, o fato de que ela tinha cabelos azuis. Azuis como a garota que Doug havia descrito e que todos desconfiavam – secretamente – ser apenas uma alucinação dele. E ela estava ali conversando com ele. Do nada! Mas...
A garota, recuperada do susto da repentina aparição do rapaz, estranhou o olhar fixo.
— Oi. Você estava sentado aqui?
— Não, não, sem problema. – Ben acenou em descaso e apontou para a mesa. – Só vou pegar meu notebook e deixo vocês dois sozinhos.
Ben aproximou da mesa e pegou o notebook junto com a mochila que estava sobre uma das cadeiras. Moldou a palavra “como?” para Doug e o rapaz só sorriu. Também não tinha a mínima ideia da resposta para aquela pergunta.
Mas havia outra questão a ser feita.
— Qual foi a resposta?
Ben jogou a mochila sobre o ombro, um sorriso enorme presente em sua face. Ele olhou mais uma vez para a garota de cabelos azuis e voltou-se para Doug.
— Ela disse que ia pensar. Não é um não, pelo menos. – Ele soltou uma risadinha e acenou para Doug e para a garota, que permaneceu em silêncio apenas observando. – Te espero no carro. Prazer em conhecê-la!
— Desculpe pelo susto. – Doug apressou-se a dizer.
Ela riu.
— Não se preocupe. Eu-
Novamente eles haviam sido interrompidos. Dessa vez o celular dela iluminou-se, indicando uma chamada. A garota rapidamente atendeu.
— Oi, M.
Doug inclinou-se, apoiando-se no encosto da cadeira enquanto a garota conversava no telefone. As lembranças que tinha do parque não faziam jus ao tom de voz dela. Era muito mais suave do que se lembrava, uma voz que o encantava e o fazia se esquecer de tudo que acontecia no mundo. E seus olhos... hipnotizantes. Era simplesmente a perfeita combinação.
— Perto.... Parei na doceria e não, eles não têm sua torta de morango... Ele disse que ia se atrasar.... Não sei, dez minutos?.... Que emergência? Mal? – Ela afastou o celular e o encarou, confusa. – Caiu. Acho que aconteceu alguma coisa.
Doug franziu a testa. A imagem que tinha surgido no celular dela era uma garota de cabelos roxos. Talvez a mesma que estava no bosque naquele dia...
"Ela tem cabelos roxos? Sério?" Foi o que Melody questionou.
"A garota dos sonhos dos dois tem cabelos coloridos?" Foi o que Anxelin dissera em seguida.
Quais eram as chances?
— Você tem uma amiga, eu acho... que tem cabelos roxos?
— Sim, por que? – Ela respondeu, distraída com o celular.
— Estuda artes? Terceiro semestre? – A garota o fitou, acenando lentamente. Doug riu o que só a deixou mais confusa. – Quais são as chances de ela ser a mesma garota por quem meu amigo está apaixonado?
— Eu diria que não é impossível. – Um sorriso malicioso formou-se em seus lábios. Ela abandonou o celular e apoiou os dois braços sobre a mesa, inclinando-se para frente. – É ele? O que pegou o notebook e saiu?
— Ben não para de falar de uma garota que ele conheceu na faculdade no começo do ano. De cabelos roxos, que estuda artes e frequentemente recusa-se a sair com ele.
— Não acredito! Mal me contou sobre um “principezinho” que ela conheceu na faculdade. – O sorriso dela se tornou mais travesso ao fazer as aspas. – Ele é o Benjamin? Que coincidência!
Muitas coincidências em um só dia.
— E ele acabou de chamar sua amiga para sair.
— Então essa é a emergência!
A garota riu alto. E para Doug foi inevitável não sorrir.
— Uma obra do destino. Akai Ito. – Murmurou, ainda fascinado pela expressão divertida no rosto dela. Ele deveria estar parecendo um idiota durante toda a conversa, mas não havia como não se perder em cada gesto e sorriso, em cada expressão e em cada palavra dela.
— Ahn? Akai- o que?
Doug sentiu seu rosto esquentar violentamente. Ele não deveria ter dito aquilo. Uma coisa era contar para seus amigos aquela história, outra completamente diferente era contar para a garota que o levou a pesquisar sobre aquela lenda e que quase o enlouquecera.
— É só uma coisa que eu li. Sobre amor verdadeiro e tal.
— Sério? E como é?
Ela realmente pareceu interessada, o que só o deixou ainda mais embaraçado.
— Hum, não é nada. Só uma lenda.
— Por que está ficando vermelho? Agora estou curiosa. – Ela fez um biquinho em meio ao sorriso e cruzou os braços sobre a mesa. Agora além do rosto vermelho, ele tinha certeza de que não havia mais nenhum ar em seus pulmões. A qualquer segundo ele poderia derreter pela simples visão da perfeição. – Me conta.
— Ah... certo. Só um segundo. – Doug abriu o notebook, a página de um blog ainda em exibição. Ele rolou a página até uma parte em destaque e virou o computador para a garota. – Aqui.
— Que rápido. – A garota comentou com um sorrisinho. Doug pressionou os lábios, mas não disse nada. Sabia que ainda estava com o rosto corado. – “Akai Ito unirá as pontas do fio, não importa quanto tempo isso leve, nem o que se passou no meio do caminho, as pessoas, definitivamente, hão de se encontrar”.
— “O fio pode se emaranhar, mas nunca irá se partir”. – Doug completou. Já havia lido aquela passagem tantas vezes que já estava enraizada em sua memória.
— Você acredita nessa lenda?
Depois de tudo que Doug havia visto e sentido naquele último ano, ele não tinha dúvidas. Ou era isso, ou ele estava com sérios problemas.
— Por que não? Tem pessoas que acreditam em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa.
— Eu acredito em Papai Noel. – A voz séria somado ao franzir de sobrancelhas fez Doug querer voltar no tempo e se bater antes de ter falado aquilo.
— Oh, eu... eu não... – Ele se atrapalhou nas palavras, gaguejando sem conseguir evitar. Apoiou as mãos sobre a mesa. – Me desculpe. Eu não queria ter dito de-
A expressão séria dela desvaneceu num piscar de olhos, sendo substituída por uma de divertimento.
— Sua expressão foi tão fofa – Ela riu baixinho. Doug limpou a garganta e voltou-se a sentar corretamente. Empurrou os óculos, constrangido consigo mesmo. – Mas, sério, é lindo da sua parte acreditar nisso.
— Não vejo problemas em acreditar no amor.
— Dizem que o amor é apenas uma mera ilusão da mente humana.
— Ou essas pessoas apenas não encontraram a ponta do fio vermelho ainda.
— É, talvez seja isso. – Pela terceira vez, o celular dela se fez presente. Dessa vez, porém, ela demorou mais para verificar. Somente quando tocou pela terceira vez, foi quando ela suspirou e o pegou. – Jay já chegou. Agora eu é que estou atrasada. Preciso ir.
— Tudo bem. Quer que eu te acompanhe?
— Não precisa. Minha amiga mora aqui perto. – Ela tamborilou os dedos sobre a mesa e, por fim, se levantou. Doug a acompanhou. – Boa sorte em encontrar seu fio vermelho.
— Tenho uma sensação boa em relação a isso. – Ele sorriu. – Mas obrigado. Boa sorte com o seu também.
— Mesmo que eu não acredite?
— Talvez não precisamos acreditar. – Doug respondeu. Estavam parados de frente para o outro e o aroma de rosas parecia mais intenso agora. Ele viu quando a garota moveu as mãos em frente ao corpo, segurando a pulseira vermelha e passando o polegar sobre a letra e. – Simplesmente... acontece.
Ela não disse nada, continuando a torcer a pulseira vermelha nas mãos. Ficaram em silêncio pelo que pareceu uma eternidade. Doug trocou nervosamente o peso dos pés, xingando a si mesmo. Ele não sabia o que dizer.
Ela acenou e fez menção de virar-se para ir embora. As palavras saíram antes que Doug pudesse sequer pensá-las.
— Você não me disse seu nome.
Ele viu o sorriso surgir em seu rosto fez toda sua vida valeu a pena naquele exato segundo.
— Ah, é verdade. – Ela deu uma breve risada e estendeu a mão. – Me chamo Evie.
— Prazer em conhecê-la, Evie. Meu nome é Doug.
— Prazer em conhecê-lo Doug.
Enquanto os dois riam, Doug sentiu sua mão direita formigar com o toque. Seus olhos voltaram-se para onde suas mãos permaneciam unidas e o brilho que emanava delas. Ele desfez o aperto e imediatamente não havia nada. Sem formigamento, sem luz... Ele podia jurar que tinha visto suas mãos emitirem um brilho vermelho. E ele não havia sido o único a notar, visto a expressão surpresa no rosto de Evie.
Parecia estar revivendo aquele dia no parque, seu coração batia mais rápido e sua respiração se tornou irregular. Com um ímpeto, ele deu um passo à frente e entrelaçou suas mãos novamente. Ela não recuou ou fez qualquer menção de afastá-lo. Doug a ouviu arfar brevemente quando ergueu as mãos na altura dos olhos.
Havia um calor desta vez. Uma sensação morna sobre sua mão direita e que se espalhava sobre seu braço.
A misteriosa luz vermelha que envolvia suas mãos unidas pareceu pulsar quando Evie apertou sua mão.
Talvez não precisasse ser literalmente um fio.
Mas lá estava.
Akai Ito.
Evie desviou o olhar de suas mãos e o fitou. E Doug mergulhou naquele intenso olhar sem nenhum receio de se perder. Nada mais importava naquele momento. Tudo ao seu redor se tornou tão insignificante; as conversas desvaneceram e o barulho do transito não passou de um simples murmúrio ao vento... poderia ter caído um meteoro naquele segundo que ele nem teria notado. Tudo o que via era aquela luz vermelha refletida nos belos olhos castanhos.
Ela sorriu.
— Oi – Evie disse, sua voz não passando de um sussurro.
— Oi – Doug respondeu no mesmo tom; encontrava se com dificuldade de dizer qualquer coisa.
Tinha acontecido.
O fio vermelho de seus destinos havia finalmente se encontrado.
Zero 零
Notas finais
Para quem não conhece, talvez, eu tenho uma longfic de Descendentes, que reconta o primeiro filme respeitando os acontecimentos e acrescentando algumas coisas que deixam a história mais interessante.
https://fanfiction.com.br/historia/741740/Descendentes_Desenvolvendo_Sentimentos/
Inclusive, recomendo as historias incrivelmente maravilhosas escritas pela Bárbara Dias. Ela possui duas ones postadas (e algumas mantidas escondidas). Atualmente, ela está com uma coleta de ones, sobre a musica Dear Future Husband.
https://fanfiction.com.br/u/326972/
Além disso, temos uma historia de descendentes sendo escrita no twitter. As chamadas "au" é uma modalidade de historias bem interessantes de se ler.
Para quem quiser acompanhar: https://twitter.com/4Hearts2/status/1135650437485465601
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