Aka 06
2 A Primeira Fenda
Eles nos convenceram de que estava tudo bem, que estando aqui, poderíamos ajudar nossa família. Mas o que é uma família? Nada parece fazer sentido.
Minha família é a minha casta? São as cores? Os números? O sistema o qual tem nós ajudado? Ou não?
A alguns dias comecei a pensar o por que. Por que eles são tão "livres"? Por que eles podem fazer aquilo que não podemos? Por que temos esses "poderes" e eles não? Por que?
Qual é a minha história?
Desde que melembro, meu nome é Aka 06.
Respirei fundo pela última vez como eles me pediram, foi meio difícil quando eu não tive para onde olhar, não pude me mover ou respirar enquanto eles não mandassem.
Era pequeno, apenas grande o suficiente para que eu entrasse. Apesar do início da claustrofobia, eu pude fazer o que mandavam, eu pude obedecer a eles mais uma vez.
Eles tiraram-me de meus pensamentos puxando a maca para fora da grande cápsula que eu estava. Me levantei indo para perto de um guarda, assim como me disseram.
Fui escoltada até a porta, paramos por um momento enquanto ele confirmava os resultados do exame que acabei de fazer.
— Como está Ao 03? — escutei um sussurro logo atrás de nós.
— Seus níveis de radiação foram elevados. — outra voz respondeu no mesmo tom — Ele foi exposto pela demonstração sem sentido de Aka 02.
— Aka 02… — se calou por um momento — Se estamos falando dos Aka, como está Aka 06?
Virei meu rosto cautelosamente para que eles não me notassem. Reconheci Kaito assim que estabeleci minha visão, era ele quem estava comigo a maior parte do tempo.
— Se continuar assim, teremos que a afastar dos demais. — o homem se aproximou de Kaito enquanto abaixava ainda mais sua voz — Ela… dos Ao… vida — não entendi muito do que ele falou, mas pela expressão de Kaito, ele não gostou nem um pouco.
Senti uma mão me empurrando levemente para frente, fazendo com que eu voltasse a andar.
— Vamos Aka 06, está tudo bem. — ele sorriu me olhando — Você está totalmente bem. — ele abaixou a voz conforme falava.
"Eu estou mesmo bem?"
Cheguei na sala espelhada, mais conhecida como meu quarto.
— Eu posso… — olhei para o homem que me escoltou e que ficaria na porta, até Kaito voltar, espero — ...Tocar piano?
Ele olhou para dentro e ergueu uma sobrancelha.
— Faça o que quiser. — me deu as costas logo fechando a porta.
Me sentei na baqueta colocando minhas mãos sobre as teclas, movi meus dedos habilmente enquanto uma leve melodia soava na minha cabeça. Seguindo as ordens das notas que eu me lembrava, a melodia foi reproduzida perfeitamente.
Sempre tive uma paixão incompreendida pelo piano, nunca soube como aprendi, mas sei que desde que me lembro, toco exatamente como soa dentro da minha cabeça.
Respirei levemente enquanto meus dedos ainda se moviam, me lembrando dos momentos que passei ali. Não era sempre que eu poderia tocar, então eu tratava de aproveitar cada segundo disso.
Parei com a música, pensando ter ouvido uma conversa do lado de fora. Um fato impossível, levando em consideração que a sala era a prova de som. Nunca antes ouvi nada do que acontecia do lado de fora.
Uma fresta na porta apareceu, logo seguida por uma cabeça que eu conhecia muito bem.
— Kaito. — sorri levemente para ele
— AKA 06. — ele se aproximou sentando na cadeira a minha direita — Como você está?
— Eu estou bem. — tirei meus dedos das teclas — E você? Trabalhando muito?
Ele soltou um suspiro profundo colocando a mão esquerda na testa, fazendo movimentos irregulares nesta com os dedos.
— Você nem imagina. — ele fechou os olhos por um momento — São tantas e tantas coisas.
— Por que você não me conta? — perguntei um pouco curiosa — Eu poderia te ajudar com pelo menos uma dessas suas " coisas ".
Virei a cabeça de lado para ter uma ampla visão de seu rosto, eu queria ver sua reação, Kaito era sem dúvidas uma figura para se ver.
— AKA 06... — ele estendeu meu "nome" mais tempo do que o necessário com outro suspiro frustado — você sabe que eu não posso. Mas… eu posso abrir uma exceção quanto a…
Ele levantou uma das mãos, que até o momento não percebi estar escondida por trás das costas.
— O que? — perguntei sem poder acreditar no que via.
— Sim, é o livro que te falei outro dia. — ele balançou na frente do meu rosto — Você o queria não? Agora eu estou te dando. — ele aproximou o livro da minha mão e fechou meus dedos contra ele.
— Oh Kaito. — eu sorri um pouco mais, com, provavelmente, olhos agradecidos — Obrigada. — o abracei de lado como nossos corpos permitiam — O que você quer por isso?
Não pude deixar de perguntar, Kaito já me ajudou tantas vezes, não sei nem explicar o quanto ele é legal comigo.
— Já que você insiste. — ele coçou levemente a nuca enquanto me dava um olhar envergonhado — Você poderia tocar uma música para mim?
Virando-me novamente para o piano, decidi tocar a música que outrora ele havia dito ser a melhor.
Meus dedos voaram novamente pelas teclas, sendo parados apenas por um toque oposto ao som do piano.
— Desculpe. — Kaito se desculpou olhando para um dispositivo retangular, este pensei ser o objeto de barulho estrangeiro.
— Está tudo bem? — perguntei preocupada observando seu rosto retorcido em aparente raiva.
— Sim. — ele forçou um sorriso se levantando — Eu preciso ir. — parou um instante acariciando o topo da minha cabeça — Você é uma boa pessoa A, nunca deixe que te falem o contrário.
Ele saiu do quarto fechando a porta atrás de si.
Me sentei na cama com o livro novo em mãos, segundo o que Kaito falou, nenhuma outra casta teve acesso a ele. Não entendo o motivo, era apenas um livro comum.
Ao começar a ler fui interrompida por algo de fora. Talvez ocorreu alguma falha no sistema.
Me levantei indo em direção a porta, tocando o ouvido nela e a mão na parede.
— Você… faça! — ouvi partes do que alguém falava.
— Não... eu… tem que… você. — reconheci a voz de Kaito — … rápido…
Logo escutei um barulho alto enquanto uma leve luz vermelha brilhava dentro do quarto, me aproximei, quando a luz se apagou, um círculo vermelho apareceu no lugar.
— Com licença. — Kaito entrou no quarto novamente.
— O que é isso? — apontei para o círculo.
Ele estava olhando em meus olhos, mas não pareceu me ver. Kaito ficou em silêncio, pensando profundamente, em algo que não pude saber.
Sem falar qualquer coisa, ele se dirigiu a parede onde o círculo estava e levantou a mão, esta continha algo parecido com o número dois gravado em algum tipo de papel redondo, havia uma ponta atrás com duas bolinhas, uma amarela ao lado de outra roxa, acima destas uma azul e acima da azul uma vermelha, está última com um risco negro no centro, Kaito colocou sobre a marca.
— Não se preocupe A, amanhã é dia de tomar sol. — ele saiu fechando a porta parcialmente — Divirta-se! — fechou por completo.
O modo como andava, o soar de sua voz, sua expressão, essa expressão que eu antes nunca presenciei, me deu um sentimento conflituoso.
Eu estava com medo.
***
Apesar de tudo o que ocorreu ontem, decidi que seria melhor esquecer por enquanto, Kaito poderia apenas ter estado em um momento ruim. Vou fazer como ele me pediu, aproveitar esse curto espaço de tempo para estar com Ao 21 e Kiiroi 08.
Ao 21 e Kiiroi 08 eram o que eu podia chamar de companheiros pacíficos, sempre que tínhamos esse banho de sol ficávamos juntos.
A primeira vez que tivemos um contato maior, foi em algum dia durante o banho de sol, quando Ao 21 esbarrou acidentalmente em Kiiroi 08, ela segurou a camisa dele tentando se equilibrar, no entanto, fez com que ele se atrapalhasse em seus próprios pés para o meu lado, a consequência foi nós três tentando não cair. Teria sido engraçado se não tivesse sido tão lamentável. Após uma troca de desculpas e uma conversa agradável, estávamos em bons termos.
— Ao 21, Kiiroi 08. — comprimento com um toque em seus ombros — O mesmo de sempre? — perguntei olhando Murasaki 19 sentado separado dos outros, com apenas outro Murasaki em pé a sua frente.
— Murasaki 19 está calmo hoje, como todos os outros. — Ao 21 explica olhando em volta.
Copiei Ao 21, comprovando com meus próprios olhos o que ele falou.
— Murasaki 22 está tentando mostrar que é melhor que ele. — Kiiroi 08 falou — Os Kiiroi, Murasaki, Ao e Aka devem estar apreensivos com essa troca. — firmou o olhar naquela mesa dos dois. — Eles se lembram do que aconteceu na última vez.
— Eu com certeza me lembro.- Ao 21 falou com um olhar contemplativo — Todos tivemos que pagar por eles.
— Sim, mas já passou. — falei quebrando o clima estranho.
Começamos a falar sobre nossas experiências no mês, até que o som alto de algo batendo em uma mesa nós distraiu.
Nos viramos para ver Murasaki 19 em pé encarando 22 fixamente.
— Você ACHA que pode me vencer? — 19 perguntou lentamente no momento em que dava a volta na mesa — Sua força é tão grande quanto sua habilidade de insultar… — chegou ao ponto em que ambos os corpos ficassem a centímetros de distancia, quase como se brigassem pelo mesmo espaço — nada. Você não é nada.
Murasaki 22 deixou sua mão em punho, subindo com força acertando o primeiro soco. 19 certamente não ficou feliz com isso.
— Eu não ACHO que posso vencer você. — ele encarou um 19 de cabeça meio curvada — Eu vou!
— Nos seus sonhos. — rebateu levantando o rosto, deixando a mostra o lábio inferior cortado sangrando levemente. — Você não deveria ter feito isso.
19 se firmou nos ombros do 22, em uma grande velocidade acertou uma joelhada na barriga dele, desde agora a briga ficou intensa, assim como todas as vezes em que 19 estava envolvido.
Murasaki 19 foi um dos principais causadores da discórdia entre as castas, um garoto com complexo de superioridade, pensa ser o melhor, fora e dentro de sua cor. Não tenho certeza, mas tudo começou no nosso primeiro banho de sol, quando um outro Aka se auto declarou o melhor entre os demais, o que levou 19 a bater nele, com força suficiente para deixar o Aka inconsciente.
Mesmo que segundo nossos cuidadores os Aka fossem a casta superior, Aka 01 estava subestimando todos, então Murasaki 19 o "parou". E assim, quase todos os nossos dias ao sol eram interrompidos pelas brigas dele. Outras castas começaram a evitar aqueles que não eram deles, iniciando essa rivalidade que dura até hoje.
Eu, Kiiroi 08 e Ao 21 fomos os poucos que não estão nessa disputa pelo melhor.
— EI! Murasaki 19. 22. Parem! — três guardas chegaram separando os dois.
Murasaki 22 se acalmou sendo segurado, enquanto 19 se separou bruscamente dos braços que o prendiam.
— VOCÊS.- o terceiro olhou entre eles — Me sigam! — caminhou para a grande porta.
Olhei atentamente para tudo, encarando por fim, Murasaki 19 um minuto a mais, me distrai quando ele virou seus olhos em minha direção, me olhando com igual ou maior intensidade.
O guarda empurrou 19 levemente, com o ato, ele levou sua cabeça para frente, poucos segundos depois voltou a me olhar, deu um sorriso de lado limpando o sangue dos lábios com uma mão, logo andando novamente.
— Vocês tem alguma coisa? — Ao 21 perguntou me tirando de um transe, que nem mesmo eu sabia que estava.
— O que? — perguntei incrédula — Claro que não.
— Não precisa se exaltar.
— Sua pergunta não me deixa muita escolha, é do 19 que estamos falando.
— Ah, não sei. — Kiiroi 08 se intrometeu — Essa troca de olhar deixa muito a pensar. Foi meio estranho. — franziu os lábios descontente.
— Hum. — murmurei com horror — Com essa atitude, estranho seria não olhar.
— Todos vocês. — o último guarda chamou — Para o quarto!
As pessoas começaram a andar em direção as portas duplas do espaço. Todas notoriamente expressando raiva em seus olhares, o que era compreensível, já que não seria a primeira vez que 19 estraga mais um dos poucos dias ao sol que temos.
— Então vamos lá. — Kiiroi 08 chamou.
— Vai na frente. — Ao 21 pediu — Eu tenho algo pra falar com a Aka 06.
Kiiroi 08 ergueu as mãos enquanto andava de costas ainda encarando nós dois.
— Muito bem. Até o próximo dia. — acenou já andando normal.
Me virei para Ao 21 vendo que estávamos sozinhos.
— E então... Você nos diria se estivesse com alguém, certo? Com um contato maior, eu digo.
O olhei sem entender durante alguns segundos.
— É claro que eu diria. Por que me perguntou algo assim?
Ao 21 se aproximou colocando uma mão no meu ombro.
— Não sei. Sua resposta para Kiiroi 08 não me convenceu. — revirou os olhos.
— Sério isso? — perguntei ainda mais incrédula que da última vez — Aquele 19 e eu? Nem em meus piores pensamentos.
— Sinto muito. — ouvi ele suspirar — É que quando te vejo com alguém… algum outro homem, não me sinto bem, você é incrível. Não sei o por quê, mas quando estou perto de você…
— Ao 21. — o mesmo guarda chamou ele antes que pudesse terminar sua fala — Senhor Akito quer falar com você. Aka 06, aconselho que vá imediatamente para seu quarto.
— Tudo bem. — falei intercalando meu olhar entre os dois — Até mais Ao 21, depois terminamos essa conversa.
— Sim. — ele murmurou enquanto tocava minha cabeça e seguindo o guarda.
Depois de Ao 21 seguir o guarda, decidi que eu deveria sair também.
Passei pelas grandes portas que levavam ao corredor a direita, não tínhamos permissão para ir além desde, as únicas vezes são aquelas que somos chamados para uma reunião.
Alguns passos a frente, notei duas pessoas próximas, certamente não da mesma casta, bem, provavelmente não.
Sei que não era correto, mas decidi andar furtivamente até eles. Se perguntarem não iria mentir.
''Este é o caminho para o meu quarto, claro.''
Respirando fundo deixei meus passos leves, que seja, eu não posso interromper duas pessoas, isso não seria educado.
Quanto mais me aproximava, as duas pessoas se tornavam mais nítidas, um que eu mal suportava ver e uma outra garota, uma que achei ter visto com os Kiiroi. Uma deles.
Com olhos mais largos parei minha caminhada.
" 19 abraçando alguém?! Impossível! "
Quando ele ergueu os olhos da cabeça da garota, me olhou diretamente. A expressão severa não condizendo com seu ato, essa certamente não era uma visão para se ver, não quando se tratava dele.
Com um toque na cabeça da garota e um aceno meio gentil, ele se despediu dela.
Ainda virado para onde a Kiiroi saiu, Murasaki 19 falou comigo.
— Pensei que você soubesse melhor...- me olhou de lado enquanto dava passos lentos, com a voz baixa, apenas o suficiente para me alcançar — Achou que eu não notaria sua presença? Acabou, você não viu nada. Pode ir agora.
Com um último olhar ele foi para o quarto. Tanto faz, não é como se me importasse mesmo.
Abri minha porta, logo após entrar ela se fechou com um barulho mínimo. Olhei mais uma vez para o símbolo que colocaram recentemente na parede, antes de me deitar e começar a pensar.
Ao 21 nunca foi tão curioso sobre assuntos assim, principalmente quando se tratava daquele garoto. Me pergunto o que ele queria e o que planejava me dizer. Uma coisa é certa, parecia algo importante pra ele.
Minha mente se desviou para a cena do corredor, mesmo quando ele disse que não era nada, não pareceu assim, Murasaki 19 não era esse tipo de pessoa. Estar tão próximo a alguém e no meio do corredor? Isso tem que ter algum truque.
E mesmo que ele tivesse o intuito de ter me deixado ameaçada eu não me senti assim, conhecendo ele desde sempre e sua atitude eu até poderia, mas foi diferente agora.
Não que seja importante tudo o que estou pensando, são apenas desvios, Murasaki 19 ainda é aquele garoto arrogante, eu imagino.
" Eu posso pensar nisso depois, acho melhor dormir um pouco agora. "
***
— A todos por favor, levantem, sua presença é solicitada na sala de reuniões. Sua presença é solicitada! Sua presença é solicitada!
Revirei na cama tentando ignorar a voz que saia da mesinha ao lado.
Ouvi a porta sendo aberta, resmunguei um pouco antes de sentir alguém se sentando ao meu lado e chamando meu nome levemente.
— A, acorde, o senhor Hideki está esperando. — ele tocou meu ombro tentando chamar minha atenção — Vamos A! — ele empurrou mais forte.
— Não. — Murmurei cobrindo minha cabeça.
— Levanta! — ele puxou a coberta me fazendo levantar de uma vez.
Encarei Kaito por um momento, em uma situação que eu não queria perder, como eu não desviei meu olhar, ele também não.
— Tudo bem. — falei meio alto logo soltando um suspiro — Tudo bem.
— Vamos. — ele se levantou — Vista outra roupa, o senhor Hideki está chamando todos.
Apenas concordei com a cabeça esperando ele sair do quarto para me trocar.
Espero que esteja tudo bem. O senhor Hideki quase nunca nos chama, e quando chamava era por um comunicado extremamente importante, como a retirada de alguém de sua casta, por exemplo. Ninguém sabia para onde esses iam, só que nunca mais vemos eles de novo, imagino que eles tenham saído daqui.
— Pronto. — falei tocando a porta para alertar Kaito de que já estava pronta.
— Vem. — ele me deu o braço.
— Você sabe sobre o que ele quer falar? — perguntei um pouco curiosa.
— Você logo saberá, A, a curiosidade não é algo para se ter. — ele avisou tocando minha testa levemente.
— Mas...
— Olha, estamos quase chegando. — ele sorriu mínimo enquanto me soltava — esteja bem, sim?
— Eu sempre estou. — falei firme.
— É claro que sim. — e entrou para a sala dos guardas.
Um guarda abriu a porta para que eu pudesse entrar, quando entrei pensei que talvez eu fosse a última a chegar, todos já estavam organizados em seus lugares, cada casta separada.
Procurei pelos Aka, os encontrei do outro lado da sala, eles mais longe do que qualquer outra.
— Pensei que nunca iria chegar — 05 falou olhando diretamente em meus olhos, quase como um desafio.
— O que não seria problema seu — retornei não deixando seus olhos escuros.
" Como se eu fosse fugir de olhos como esses. "
— Silêncio! — Uma voz chamou nossa atenção do palco, o senhor Hideki estava ali parado diante um microfone com alguns guardas ao redor — Eu pedi que todos estivessem presentes para anunciar a chegada de alguém importante. Uma de vocês. A tratem com respeito, assim como vocês tratam a si mesmos, conheçam Kiiroi 54.
Uma garota entrou graciosamente pelas portas duplas e parou ao lado do senhor Hideki com uma postura meio rígida. Seus olhos cor de mel penetrantes voaram pela multidão, sem dar um segundo olhar a ninguém. Ainda que ela mal se movimentasse, seus cabelos dourados balançavam ao seu redor, eram como fios de ouro.
Mesmo quando eu lia livros com frequência ou quando alguém entrava para estar com todos juntos ao sol, por tudo o que eu me lembre, nada nunca foi tão marcante quanto sua entrada, ela era incrível em vários sentidos, ainda que eu não a tenha conhecido, eu sabia então que isso era verdade.
— Se dispõe a dizer algo? — Sr. Hideki posicionou o microfone mais próximo a boca dela, que estava agora ao seu lado.
— É um prazer estar aqui. Espero que todos nos demos bem. — ela se curvou levemente.
— Encerrada a reunião. — o senhor Hideki começou — cuidado ao voltarem para seus quartos e tenham um bom dia. — ele se virou saindo da sala.
— Oh uma Kiiroi. — 05 ao meu lado ironizou colocando a mão sobre sua caixa torácica — Você poderia ser um deles 06, já que é tão próxima dos fracos.
Revirei meus olhos ignorando suas palavras, cruzei os braços observando como os outros reagiam a chegada dessa nova Kiiroi.
Fiquei atordoada com tanta conversa que surgiu ao meu redor. Comentários como "Ninguém novo nunca esteve aqui..." ou então "Ela é tão bonita e elegante" eram os mais comuns. As pessoas estavam reagindo a presença dela, e em sua maioria de uma maneira boa.
Meus olhos se cruzaram com os de Kiiroi 08, ela balançou a cabeça de forma negativa enquanto mordia o lábio inferior nervosamente. Tinha algo errado com ela, ou com o que ela estava sentido, seja o que for, eu saberei no nosso próximo encontro.
Passando meus olhos novamente pela sala encontrei Ao 21 me observando atentamente, ao perceber que agora eu o encarava ele olhou para os Kiiroi, assim como todo mundo, menos, é claro, um par de olhos desinteressados, ameaçadores e grandes detentores de mistério.
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