Ajna
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Com intuito de proteger os humanos de tantos sentimentos desprezíveis, e ainda sem entender como algo assim pôde acontecer, Luz criou Ajna — um paraíso escondido no Terceiro Reino — que funcionava como um "Centro de Controle", de onde os Zettais poderiam monitorar os humanos e evitar que a maldade atingisse o local. Ali existia uma linda floresta esmeraldina, uma cachoeira cristalina, de onde jorrava a água mais pura do Universo, um deserto dourado de areia macia e ventos calorosos, tinha um céu sempre azul (mesmo nos dias de chuva) e as noites eram abrilhantadas por milhões de estrelas que mais pareciam diamantes adornando uma bela dama. Porém, para que ninguém mais pudesse tentar uma aproximação, uma vez que apenas os escolhidos poderiam viver ali e desfrutar de tamanha beleza — colocou por toda a Costa uma imensa cadeia de montanhas geladas e aterrorizantes, que protegeria Ajna dos aventureiros.
Luz enviara também alguns de seus Guardiões e Mensageiros para habitarem seu paraíso, a fim de que ajudassem as pessoas, guiassem as lideranças e evitassem que o poder e orgulho corrompessem a vida dos Ajnianos. E todos viveram felizes ali, por muito tempo, até que começaram a se dividir entre a Fábrica (onde eram lapidadas as pedras extraídas do Deserto — também chamado Terra do sol — e produzidas as mais belas joias já vistas) e a Floresta (eram pessoas mais simples, que viviam da terra, da produção dos pomares e caça dos animais selvagens, para vestes e alimentação).
No início, Luz achou isso muito bom, pois seu povo desenvolvia cada vez mais novas melhorias para a vida de todos em comunidade, compartilhando sua produção e convivendo pacificamente, ela achava que — por desconhecer e se distanciar do mal — os ajnianos estariam livres de cair em tentação e enfraquecer o Sobbuh. Mas o tempo foi responsável por mostrar à Luz o quanto estava enganada, pois o povo acabou revelando sua mesquinhez e ganância, o compartilhar transformou-se em vender e comprar, com valores cada vez mais injustos. As pessoas idosas, enfermas e órfãs — que não podiam produzir — eram expulsas para o deserto, próximas às montanhas, pois ali não incomodariam as "pessoas de bem", como se autodenominavam.
Tarde demais, Luz se deu conta do que estava acontecendo: em sua essência, as pessoas eram Energia e, dessa forma, havia resquícios de Sombra em seus espíritos, ou seja, mesmo que a desconhecessem, a escuridão habitava desde sempre no Sobbuh de cada um deles. Além disso, alguns Zettai haviam sido corrompidos por Sombra ainda em Era Vita, e passaram a transformar humanos em escravos conhecidos como Coldess — que tinham por missão drenar a energia vital dos humanos — e, ainda que houvessem bons ajudantes em Ajna, Luz achou por bem fazê-los retornar para junto de si, com medo de perdê-los também.
Ela não sabia o que poder ter feito pelos Ajnianos, mas era vaidosa demais para culpar a si própria, para enxergar e admitir suas falhas como mestra, e por isso lhe bastava culpar a irmã por todo o mal que assolava o Terceiro Reino, sem entender a parcela de responsabilidade que pesava também sobre suas costas e de seus queridos humanos, que se quer tentaram resistir à força da Sombra dentro de si.
Desesperada e com ideias escassas, Luz tomou a decisão que mudaria para sempre o seu caminho e a história de Ajna: enviar o único ser de sua inteira confiança para salvar seu paraíso. Lumm deveria ir à Ajna e escolher uma pessoa, alguém que fosse digno o bastante para aprender e compreender os segredos da Lummini, alguém que pudesse ajudá-lo na missão de plantar boas sementes nos corações humanos novamente, limpar sua mente, abrir seus olhos para a verdade e renovar a Sobbuh em seus espíritos, uma vez que Luz tinha esperança que os humanos se voltassem contra Sombra e destruíssem de vez a hera venenosa da escuridão, os espinhos que cresciam e sufocavam cada vez mais seus corações.
Lumm não acreditava muito que o plano da amiga tivesse qualquer chance de alcançar os resultados esperados, pois ele também costumava observar os humanos e já havia percebido o quanto podiam ser fraco diante das tentações, mas Luz era sua mestra e ele lhe devia fidelidade e confiança, por isso em nenhum momento hesitou em atender seu pedido e, tão logo pôde, partiu para Ajna, transformando-se em humano, já que agora os Zettai não podiam mais coexistir com os homens.
O Mensageiro havia passado meses em Ajna e ninguém lhe parecera bom o suficiente, todos tinham fraquezas, um sinal que evidenciava as trevas que corrompiam a alma. Apenas os moradores do Deserto não demonstravam maldade em seu jeito medíocre de viver, mas estes também não tinham inteligência ou força suficiente para aprender e praticar a Lummini. Lumm estava desesperado e, quando já planejava seu retorno fracassado à Era Vita, decidiu passar seus últimos dias na Terra do Sol, aproveitando as belezas que os Supremos haviam colocado à disposição dos homens, além de ajudar como podia aquela gente sofredora. Foi num desses dias quentes, em que o tempo parecia não avançar, que ele conheceu Anna.
Uma menina franzina, de pele queimada pelo sol e grandes olhos castanhos, longos e desgrenhados cabelos negros, usando um vestido que certamente não fora feito sob sua medida, visto que parecia folgado demais para seu pequeno corpo. Mesmo com toda a pobreza e necessidade aparentes, ela trazia água e um pouco de pães e frutas em seus braços, alimento que fez questão de compartilhar com cada um dos que estavam lá, inclusive Lumm, sempre ostentando um sorrido enorme e brilhante em seu rosto suado.
O servo de Era Vita estava deslumbrado com a simplicidade e alegria de Anna, sua generosidade o fez querer aproximar-se cada vez mais e, embora ele não pudesse lhe dizer a verdade sobre o que fazia ali, pediu se ela não poderia ajudá-lo a encontrar uma pessoa especial, pois tinha um pedido a realizar e uma tarefa a cumprir. Anna pensou que Lumm estivesse apaixonado ou comprometido com alguma ajniana e procurava pelo seu amor e, mesmo que alguma coisa em seu interior se sentisse bastante incomodada com essa constatação, ela aceitou sua proposta, contando-lhe que conhecia algumas pessoas que seriam úteis em sua busca também.
O tempo passava e os dois estavam cada vez mais próximos, faziam juntos todos os deveres diários e, ao cair da tarde, iam dar de comer e confortar os que estavam excluídos da Cidade. Nesses momentos, eles conversavam sobre todas as coisas, histórias de vida e planos futuros, mesmo que Lumm sempre desconversasse e nunca contasse nada sobre sua origem, pois achava que as pessoas o veriam como louco ou tentariam se aproveitar de seus poderes, se soubessem quem realmente era.
Estava terminando o prazo que Luz havia determinado e, mesmo com a ajuda de Anna, Lumm ainda não encontrara ninguém capacitado e puro o suficiente, a quem pudesse passar seus conhecimentos. Ele desenvolvera um sentimento especial pela nova amiga, e sabia que se continuassem próximos a despedida seria ainda mais dolorosa, causando feridas que talvez jamais fossem cicatrizadas, e o que ele menos desejava no mundo era que Anna se tornasse uma pessoa amargurada.
Com a desculpa de que havia encontrado quem tanto queria, o Mensageiro passava cada vez menos tempo ao lado da menina, e às vezes se escondia para observá-la de longe, para que ela pudesse se acostumar gradativamente com sua ausência. Ele não suportava vê-la tão chorosa pelos cantos, quando se reuniam com os exilados estava sempre distante e, não raramente, percebia que ela ia deitar-se mais cedo, alegando um cansaço que nunca existira antes.
Sem saber como agir nessa situação, pois nunca se sentira tão confuso e impotente quanto agora, Lumm procurou por Berta, uma velha senhora que vivia num casebre ao pé da montanha. Ele lhe contou sobre tudo: sua história, sua missão e como se sentia em relação à Anna. A senhora ouviu tudo com um sorriso sereno estampado no rosto, como se conhecesse todas as perguntas e soubesse todas as respostas e, com a máxima atenção, para entender todas as coisas loucas que o garoto lhe dizia (desde que Lumm aparecera em Ajna, Berta o tinha como um filho, e mesmo que fosse o servo mais importante de Era Vita, naquele momento ela só o enxergava como um menininho assustado pela descoberta do primeiro amor). Ao terminar seu relato, ele sentiu-se tão aliviado que chorou – pela primeira vez em toda a sua existência – e, sob o olhar cuidadoso da velhinha, se deu conta de que sempre estivera apaixonado por Anna, que ela era a escolhida, a única pessoa digna de conhecer a Lummini e de tomar o seu coração. Mas como ele poderia lhe dizer tudo isso agora, depois que já a tinha magoado tanto? Luz o chama de volta à Era Vita e ele não podia simplesmente desobedecê-la e voltar atrás, como se nada tivesse acontecido.
Decidiu resolver um problema de cada vez: primeiro, precisaria de mais tempo como humano em Ajna, e para isso precisava da permissão de Luz que – mesmo sendo uma dos Supremos – ainda era sua melhor amiga e entenderia a situação, embora o Zettai ainda não pretendesse falar com ela sobre Anna e seus sentimentos.
Lumm disse à mestra que havia encontrado, somente agora, a pessoa certa para aprender a magia da Lummini e que, por isso, precisaria de mais tempo para ensinar e treiná-la, pois se tratava de um poder que não admitia falhas e precipitações, algo feito de maneira errada e a pessoa seria facilmente enganada e dominada por Sombra. Ao citar a irmã das Trevas, o Mensageiro sabia que havia ganhado a batalha, pois Luz não tinha se perdoado e não conseguia nem pensar na hipótese de ver Sombra em liberdade.
Com mais tempo para agir, agora Lumm estava tranquilo e disposto a procurar por Anna, planejava lhe contar tudo de uma forma que não a assustasse, nem a afastasse com tanta informação. Numa noite de fogueira na Vila dos Exilados – como era chamado o território ao pé da montanha – ele tentou se reaproximar da jovem, que ficou visivelmente confusa, mas não conseguiu recusar.
Já tarde da noite, o Mensageiro finalmente reuniu toda a coragem e pediu para Anna uma conversa em particular, pois ele sabia que seria definitiva, e seu segredo precisava manter-se seguro. A menina havia acreditado na história de que ele realmente encontrara quem tanto procurava e, por isso, imaginou que ele queria apenas despedir-se, por isso engoliu todo o seu sofrimento e amor que sentia para ouvi-lo uma última vez.
Os dois caminharam pela floresta durante um bom tempo, e quando estavam próximos à Anahata (uma gruta protegida por tanta Energia, que nem mesmo Sombra seria capaz de violá-la), havia uma linda campina de flores coloridas, cortada pelo rio cristalino que nascia nas montanhas frias. Era um lugar aberto e tranquilo, o que facilitaria a conversa entre eles, pois precisariam realmente estar sozinhos para acabar com todos os mistérios que os rondavam, e colocar em ordem seus sentimentos.
Quando já andavam há algumas horas, Anna percebeu que Lumm estava com dificuldades para iniciar a conversa, então decidiu – num ímpeto de coragem – dizer a ele tudo o que sentia, ainda que soubesse que seu amor não era correspondido. Não se sabe se foi pela tensão do momento, ou pelas caras e gestos exagerados que a jovem fazia ao “cuspir” todas aquelas palavras, mas o Zettai começou a rir feito louco, e nem percebeu o quanto Anna se sentira ofendida com a sua reação, pois ela esperava pela rejeição, não pela humilhação e desprezo dos seus sentimentos, afinal eles eram amigos. No entanto, ao perceber que Anna interpretara seu riso da pior maneira possível, Lumm tratou logo de se retratar e, pegando em suas mãos carinhosamente, revelou que também a amava, e que ela lhe dera esperança e, por ela, enfrentaria o que fosse para estarem juntos, mas que antes era necessário lhe contar sobre sua vida para somente então começarem uma história, pois queria dar a menina a liberdade para desistir e seguir sozinha o seu caminho, ele sabia o peso do fardo que carregava e respeitaria a sua vontade.
Após ouvir todas as palavras sobre Era Vita, Luz e Sombra, sobre o fato de Lumm ser um Zettai Mensageiro e, finalmente, sobre a Lummini e a missão de seu amado, Anna encontrava-se num estado de felicidade que a fazia sentir-se segura e, ainda que houvesse muito a ser esclarecido e ela soubesse dos perigos que os aguardavam, aceitou a proposta de Lumm sem pestanejar, pois estariam juntos e ela aprenderia com ele tudo o que lhe fosse ensinado.
Enfim, começaram o treinamento logo ao amanhecer do próximo dia: Lumm e Anna trabalhavam juntos durante todo o dia, na Floresta, e às noites eram de ensinamentos, conversas e amor. A jovem sempre pensara em Luz como uma megera tirana, que governava apenas para os mais poderosos, afinal sempre vira os órfãos e idosos sendo humilhados, tratados de forma pior que muitos animais selvagens, mas ao ouvir as palavras saudosas e carinhosas de Lumm sobre sua melhor amiga, ela percebia que a Mestra do Conhecimento se preocupava muito com seu povo, e passara a respeitar e admirá-la.
Anna era uma excelente aluna, e se esforçava muito para aprender tudo o que Lumm lhe ensinava. Porém, embora estivesse vivendo um lindo romance, o Mensageiro sabia que – cedo ou tarde – o dever lhe chamaria e teria que regressar à Era Vita, além de prestar contas à Luz. Ele esperava lhe contar tudo dobre a amada, pois tinha certeza que ela compreenderia seus sentimentos e lhe permitira viver como humano em Ajna, pois mesmo desta forma, ainda continuaria ajudando a amiga em seus planos de cuidar e salvar Ajna da escuridão de Sombra e dos Coldess.
Sem que o amigo soubesse, Luz vigiava tudo de perto e, mesmo que lhe incomodasse muito a situação de Lumm, ela não acreditava em seu amor e achava que tudo não passava de diversão, afinal ele nunca havia estado num corpo humano e podia aproveitar para experimentar todas as sensações e momentos humanos, como uma válvula de escape para a solidão que sentia em Ajna, e foi apenas por pensar dessa forma que a Mestra não tomara nenhuma providência, apenas monitorava discretamente os acontecimentos e, no fundo, teve pena da pobre moça, pois logo Lumm estaria de volta e seu coração seria estilhaçado. Contudo, ela não poderia prever a força e o amor que crescia nos corações do casal, tão sólido que um fruto foi gerado: Anna estava grávida e Luz nada poderia fazer, uma vez que as decisões sobre a vida e a morte eram tomadas apenas pelo Destino, e ele jamais concordaria em assassinar uma criança apenas por um capricho da irmã.
Lumm estava radiante com o nascimento de seu filho, Kyelle, mas teria que acertar suas contas com a Mestra do Conhecimento para ser completamente feliz, ele precisava de sua autorização para tornar-se definitivamente humano e viver com sua nova família, em Ajna. Ele se despediu da mulher, com a promessa de não demorar mais que o necessário, pois estava consciente de que luz lhe pediria para treinar um substituto antes de desligar-se das funções de Mensageiro.
Assim que pôs os pés em Era Vita, Lumm encontrou Luz transtornada, e por um segundo a confundiu com sua irmã maligna, parecia que a deusa estava se partindo ao meio em tanta dor, e ela de fato estava sofrendo, sentia-se traída pelo amigo, pois o Mensageiro fora enviado à Ajna para ajudá-la e a apunhalara de todas as maneiras possíveis. Tendo sua visão deturpada pelo ciúme, Luz lhe aplicara uma severa punição: a partir daquele dia, Lumm dormiria todos os dias ao lado de Sombra, para que seu Sobbuh servisse de alimento para a mestra das trevas.
Luz não aceitava que Lumm preferisse outra companhia que não a dela, e acreditava que – se ele sofresse o bastante – se libertaria do feitiço de Anna e desistiria da ideia absurda de tornar-se humano para viver com a jovem e sua criança, em Ajna. Os dias passaram-se e o Lumm continuava falando de sua nova família para a amiga, ele não conseguia enxergar maldade vinda dela e planejava que – o ouvindo falar do que sentia – ela o compreenderia e o libertaria do castigo. Porém, enquanto persistia em sua amizade e em seu amor por Anna e o filho, o Zettai enfraquecia cada dia mais, ele pereceria se continuasse com aquilo.
Luz estava desesperada e, levada apenas pela emoção, propôs a Lumm um acordo, no qual ele deveria matar sua amada para que, dessa forma, se tornasse humano, pudesse regressar a Ajna e cuidar de seu filho. Mas enfatizou que, ao matar Anna, ele deveria esquecê-la para sempre, como se ela nunca tivesse entrado em sua vida, pois não suportaria ver o amigo atormentado pela culpa de uma morte em seus ombros.
Lumm não consegui acreditar no que ouvira, nunca imaginara que a mestra seria perversa ao ponto de lhe fazer uma proposta tão monstruosa, como se lhe fosse possível assassinar a mulher que amava esquecê-la, livrar-se do amor e da culpa como se tirasse poeira dos pés. Contudo, não havia outra escolha, Kyelle era o único inocente nessa história – e ele sabia que Luz nunca o deixaria em paz enquanto Anna estivesse viva – e ele precisava aceitar esse acordo com Luz, regressando imediatamente para aquela que seria a última e mais dolorosa missão de sua existência.
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