Aiyana e Iaraque - A LENDA DO LOBO E DA ÁGUIA

3 Capítulo 1 - O Conselho dos Nove Sábios e a Mãe Natureza


Meu nome é Taru-Noré, um dos mais antigos entre os anciãos da tribo Kaaporu, um guardião das histórias que moldam nosso destino.

Minha vida foi dedicada a ler os ventos, ouvir as canções do céu e interpretar os sussurros das estrelas. A cada ciclo, observamos a Mãe Natureza nos guiar, seus sinais ocultos entre as nuvens, nas correntezas dos rios e nos ventos que varrem a terra. Nossa tribo existe há incontáveis gerações, e nossa missão sempre foi clara: manter o equilíbrio sagrado, conectando nossas ações às forças naturais e ao cosmos, refletindo a grandiosidade da responsabilidade que carregamos.

A Mãe Natureza, ou a deusa Selene, representada pela Grande Lua, é a entidade primordial que deu origem a tudo: terra, céus, rios, florestas, estrelas e até mesmo o próprio cosmos. Ela é a personificação do equilíbrio e da harmonia. Sua presença é sentida em todos os ecossistemas e ciclos da vida. Embora intangível, sua força se manifesta nas tempestades, nos eclipses e nas mensagens silenciosas que permeiam a natureza. Nós, o Conselho dos Nove Sábios, somos seus servos e representantes na terra.

Somos um conselho formado pelos membros mais sábios e experientes da tribo, conhecidos por nossa conexão espiritual profunda com a natureza e o cosmos. Fomos escolhidos por demonstrarmos, ao longo de nossas vidas, virtudes como sabedoria, justiça e um forte vínculo com os elementos naturais e espirituais. Nossa função é clara: somos guias espirituais, ajudamos os jovens escolhidos a compreenderem sua missão como guardiões, orientando-os desde o nascimento até o ritual de selamento. Mas também somos juízes e protetores da ordem. Investigamos e punimos aqueles que quebram as leis e realizamos rituais de comunicação com a Mãe Natureza para interpretar suas vontades e prever ameaças à harmonia.

A aldeia Kaaporu repousa nas sombras protetoras das grandes árvores ancestrais, onde o solo é fértil e os rios correm límpidos. No centro da aldeia, ergue-se a Tenda dos Nove Sábios, um círculo de pedras marcadas com símbolos antigos rodeia a grande fogueira central, onde nos reunimos para deliberar sobre o destino da tribo. Nossas vestes são adornadas com penas raras e pedras sagradas, símbolos da conexão entre o céu e a terra.

Era uma noite de lua cheia, e o fogo queimava alto no centro do círculo, projetando sombras dançantes sobre as pinturas das paredes da tenda. O ar era carregado de expectativa. Yara-Tiná, a guardiã da terra e minha igual em sabedoria, sentou-se diante de mim. Suas mãos estavam pousadas sobre o solo sagrado, seus olhos fechados em profundo transe. Ela buscava uma resposta, pois a natureza falava de algo que até os mais velhos não compreendiam.

Nos dias anteriores, havíamos lido os sinais na floresta, no ciclo das águas e nos ventos que mudavam de direção sem aviso. O vento estava parado, as águas corriam mais lentas do que o normal. Os pássaros mudavam seus voos antes do tempo, lobos uivavam sem razão aparente. Os anciãos murmuravam entre si. Sabíamos que algo grande estava para acontecer.

“O equilíbrio se inquieta,” murmurei, observando as chamas oscilarem no centro da tenda. Fechei os olhos e permiti que minha consciência se expandisse no ar noturno. E então a vi.

Uma visão tomou conta de mim, clara como a luz da lua sobre o lago calmo.

"O equilíbrio será testado, e o livre-arbítrio decidirá se a harmonia seguirá ou se despedaçará."

Minha respiração voltou com um suspiro profundo sob os olhos atentos dos anciãos.

Mas eu tinha certeza, Selene nunca fez nada em vão. Ela sempre quer dizer algo, sempre quer que aprendamos algo. Parecia brincadeira do destino, mas, na verdade, Selene queria ensinar à tribo que existe o livre-arbítrio dentro de qualquer escolha dela. Nem sempre as coisas são perfeitas, e os anciãos deviam estar preparados para isso.

E assim, a profecia revelou que em breve nasceriam duas crianças para o novo ciclo de guardiões. E assim, eu, Taru-Noré e Yara-Tiná fomos escolhidos para sermos seus mentores. Um grande desafio, assim pensavam os anciãos.

No dia seguinte, seguimos para a Montanha Sagrada, onde a comunicação com Selene sempre foi mais intensa. A ascensão era um ritual em si. Caminhamos em silêncio, acompanhados pelo vento que parecia guiar nossos passos. O topo da montanha era um círculo de pedras luminosas, onde se projetava uma luz azul incandescente; um local onde a energia da Mãe Natureza fluía com força.

No centro do círculo, ajoelhamo-nos. A lua brilhava com intensidade anormal. A brisa tornou-se um sussurro, como se Selene falasse diretamente a nós. Fechamos os olhos e ouvimos.

"Um lobo correrá pela floresta sem destino, buscando algo que nunca poderá alcançar. Uma águia voará alto, mas nunca encontrará repouso. Seus destinos se cruzarão, e o eco de seus espíritos abalará o mundo e o equilíbrio será testado.”

Ao abrirmos os olhos, sentimos o peso da revelação. Os casais escolhidos para gerar os próximos guardiões já estavam entre nós. Nossa missão estava traçada. Selene havia falado.

Saímos dali com a missão de sermos mentores de duas crianças que seriam responsáveis por manter o equilíbrio da natureza. Deveríamos treiná-los e orientá-los com muita sabedoria. Poderia ser um grande desafio, mas também tudo seguiria seu curso normal se cumpríssemos nosso papel com dedicação, como sempre fizemos.

De volta à aldeia, reunidos, conversávamos sobre o que aquilo significava.

A dúvida pairava sobre nós. Diferente de qualquer outro ciclo antes, esta profecia parecia carregada de algo além do que conseguimos compreender.

"Nada pode quebrar o equilíbrio," disse um dos mais velhos entre nós. "Sempre houve um Guardião da Terra e um Guardião do Céu. O ciclo não se rompe."

Mas Yara-Tiná não estava convencida. "E se desta vez for diferente? E se a roda do tempo girar de um modo que ainda não conhecemos?"

As palavras dela pairaram no ar como folhas levadas pelo vento. Mas o destino segue seu curso, indiferente aos desejos dos homens.

E, naquela noite, sob o olhar silencioso da lua, senti que algo havia sido posto em movimento. Algo que nem mesmo os anciãos poderiam deter.

"Chamemos os casais escolhidos para gerar os próximos guardiões. Vamos prepará-los", disse Yara-Tiná.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.