Aishiteru, Otou-san
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Se te amar é pecado, então jamais serei inocentado.
Hizuri Kyoko se remexeu no banco de couro escuro, seus dedos não paravam de brincar com o cinto do carro, os olhos fixos no próprio colo. Estava em um conflito de emoções naquele momento; Animação, nervosismo e tristeza. Não queria deixar seu pai sozinho, na verdade, ela não sabia se conseguiria viver sem ele, Kuu era tudo para ela.
— Está empolgada, Kyoko? — O homem de meia idade desviou o olhar da estrada sem trânsito e a encarou, um sorriso iluminava o rosto bonito dele, ela queria ver seus olhos cor de avelã, mas ele estava de óculos escuros.
A menor balançou a cabeça para baixo e para cima em afirmação, aquela era uma etapa completamente nova em sua vida, iria começar as aulas na universidade em que sempre sonhou ingressar. Devia estar mais feliz, Kyoko.
Ela respirou fundo e olhou pela janela, como o ar condicionado estava ligado, o cheiro amadeirado do perfume dele estava por todo o carro, iria sentir muita falta daquilo. Do lado de fora do vidro fumê, as casas e árvores passavam na velocidade do Range Rover preto do seu pai, aquela era uma área residencial muito tranquila, mas Kuu insistia em levá-la todas as vezes.
Aquela era a quinta e última vez em que iam para montar os móveis e arrumar as coisas dela em uma casa que dividiria o aluguel com outras duas garotas; Kanae e Chiori. Kuu fez questão de conhecê-las pessoalmente, e Kyoko sentia que iriam se tornar grandes amigas. A faculdade ficava a apenas duas quadras dali e, do outro lado da cidade, em um apartamento grande e luxuoso, era onde morava sozinha com seu pai.
O loiro estacionou o carro em frente a uma casa amarela familiar, tinha uma típica cerca branca, gramado verde e janelas de madeira. Aquele era o estilo de casa americana que seu pai e ela tanto almejavam morar, mas por conta dos fãs dele não era algo viável.
— Chegamos. — O mais velho deixou a chave na ignição e desceu do carro, Kyoko tirou o cinto e ia abrir a porta quando, como sempre, Kuu foi mais rápido e abriu primeiro. Ela devolveu o sorriso e pegou na grande mão que ele estendeu para ela, ajudando-a a sair do carro.
Então ele foi até o porta-malas e pegou uma mala lilás com corações azuis — Uma das muitas coisas que ele deu para ela. —, a morena sabia que ele não a deixaria carregar sua própria mala, era o jeito dele, por isso não insistia mais.
Com a mão livre, Kuu pegou um molho de chaves do bolso de trás da calça jeans escura que vestia e abriu o portão da frente, ele deu espaço para ela passar e seguiram juntos por um caminho de pedrinhas que ia até uma porta branca com uma guirlanda de natal pendurada. — Apesar de ser fevereiro.
A casa era ainda mais aconchegante por dentro do que por fora; Assoalho, teto cor gelo, paredes marfim, pé direito alto e móveis de madeira.
Chegaram ao quarto dela e seu pai colocou a mala grande em cima da sua nova cama de solteiro, demorou alguns segundos para ele finalmente se virar para ela, que ainda estava ao lado da porta. Então Kuu a encarou por trás das lentes escuras e um suspiro saiu por entre seus lábios.
Kyoko vestia uma saia branca soltinha até a metade das coxas e uma blusa de manga comprida rosa bebê, sapatilhas pretas nos pés pequenos e um colar fino de ouro no pescoço, um presente que ele deu em seu aniversário. O pingente era composto por uma fada com asas coloridas — Feita de várias pedras preciosas. — que segurava uma varinha em formato de estrela.
Ele foi até a sua menina e mexeu em seu cabelo longo e preto, bagunçando-o. Se fosse qualquer outra garota, reclamaria, mas sua pequena apenas sorriu. Ela era a luz de sua vida. Depois que sua esposa faleceu e Kuon partiu com o Boss para o Japão em busca de um recomeço, ele não tinha mais ninguém além da Kyoko.
A encontrou pouco antes da Julie morrer, em uma viagem de família a Kyoto, sua mãe a maltratava e Kuu não pôde fazer vista grossa, discutiu com Saena e ela não hesitou em entregar a própria filha, se lembrava muito bem das palavras dela "Se acha que não sou uma boa mãe, então por que o senhor não cuida?". Aquilo foi a gota d'agua para o loiro pegar a menina de apenas seis anos nos braços e adotá-lá, demorou cerca de um ano para a oficialização, mas valeu cada segundo, agora ela era a sua... Filha.
— Pai? — Sua doce voz o tirou dos pensamentos.
Kyoko estava preocupada, seu pai vinha agindo estranho desde que começaram com a mudança, sendo que foi ele quem deu a ideia... Na verdade, ficaria muito ruim para ela, eram três horas de distância entre sua casa e a faculdade. Se não se mudasse, ficaria sem tempo e disposição para estudar, sabia disso, mas por que doía tanto? Ele a iria buscar todo final de semana, de qualquer forma.
— Vai dar tudo certo — Ela pegou na mão quente dele e sorriu. —, eu não vou fazer nada de errado, pai.
O problema não era ela, eram os outros. Queria protegê-la de tudo e de todos. — Eu sei, confio na minha menina... — Ele então cruzou seus longos dedos com os dela e, com a outra mão, pegou na cintura fina e a puxou para um abraço apertado. Como sempre, o corpo pequenino se encaixou perfeitamente ao seu, Kuu queria ficar daquele jeito para sempre, ouvindo a respiração calma e ritmada enquanto a aquecia com o seu corpo.
Com a cabeça enterrada no peito duro e as mãos aferradas a blusa dele, Kyoko suspirou aliviada, ultimamente estava sentindo um muro invisível entre eles, Kuu falava menos e seus sorrisos não atingiam os olhos cor avelã. Horas, minutos, segundos, não soube quanto tempo ficaram naquela posição, mas se separaram quando ouviram o barulho do portão da frente. Devia ser uma das colegas de quarto dela. O loiro bufou.
— Não faça algo só porque os outros o fazem. — Começou com o discurso paternal de despedida, já era o sexto só aquela tarde. — Qualquer coisa, não importa o que, é só me ligar que eu vou atender na hora, ok? — A morena acenou com a cabeça, queria rir, mas se o fizesse ele iria repetir tudo de novo, até ter a certeza de ela ouviu corretamente. — E... Nada de garotos. — Se sentiu péssimo pela última sentença, sabia que estava sendo um completo egoísta, irracional. Mas só de imaginar outro homem a tocando o levava à beira da insanidade.
Além do mais, tinha acabado de fazer dezoito anos, era muito nova e inocente para lidar com garotos lotados de hormônios, ele já foi jovem e sabia muito bem o que os rapazes daquela idade queriam de garotas doces e inocentes como Kyoko.
Sua pequena ficou vermelha como um tomate, uma visão adorável. — C-claro, pai. — Balançou a cabeça envergonhada e soltou as mãos da blusa dele.
— Então até sexta, princesa. — Dito aquilo, o mais velho afastou a franjinha da testa e se abaixou a sua altura para plantar um beijo ali, mas, ao mesmo tempo, ela levantou a cabeça para contar que esquecera a bolsa no carro. O resultado foi um beijo na boca.
Em um relacionamento normal de pai e filha, ambos iriam rapidamente se afastar assim que os lábios se tocassem, mas não foi o que aconteceu ali.
Ambos estavam com os olhos abertos, chocados, mas não se moveram, até que em um ápice de loucura e desejo acumulado, ambos fecharam os olhos e se beijaram, já não era um simples roçar de lábios. Kuu pediu passagem com a língua áspera e tal foi a sua surpresa quando seu pequeno anjo cedeu um espaço para ele entrar, os lábios macios e rosáceos, então ele perdeu a compostura e moveu a língua dentro da boca molhada, era notável a inexperiência dela, mas Kyoko aprendia muito rápido e logo ela copiava seus movimentos com mestria, uma dança de línguas rapidamente se iniciou.
Mas tudo terminou tão rápido como começou, ouviram um barulho de rodinhas e passos vindos do corredor, eles se separaram como se o contato um do outro queimasse, então, um segundo depois, Chiori apareceu na porta. Ela carregava uma mala de rodinhas preta e mascava um chiclete, seu olhar se intercalou curioso entre eles antes dela acenar com a mão livre em um cumprimento informal.
— Kanae falou que vai atrasar um pouco. — Chiori disse e Kyoko notou o receio de sua colega em entrar no quarto. Seu pai era ator, ela não, tinha certeza de estava com uma expressão aterrorizada naquele momento.
{ Três semanas depois }
Kuu abriu outro pacote de batatinhas, estava jogado no sofá da sala, o chão de carpete coberto por pacotes de biscoitos, latas de refrigerantes, balas de açúcar e outras tantas guloseimas calóricas. Nas últimas três semanas, mesmo sabendo cozinhar, ele estava sobrevivendo de snacks. Se Kyoko o visse naquele momento, o repreenderia por horas, talvez dias. Mas ela não está mais aqui.
Estava sozinho naquele apartamento enorme e, como sempre, a culpa era inteiramente dele. Primeiro foi a sua esposa, depois seu filho e agora a... Kyoko. Seu coração não suportava mais perdas, então estava ali, sentado, esperando que sua vida fosse levada, por quê aquilo não podia ser chamado de vida, não sem ela, seu raio de luz.
Não dormia mais, sequer trabalhava, sua barba estava enorme, olhos fundos, pele pálida e olheiras. Ela não respondia suas ligações nem mensagens, nada. Só sabia que estava bem porque ligava todo dia para a faculdade e lhe informavam que Hizuri Kyoko estava indo às aulas. Mas isso não era o suficiente, queria vê-la pessoalmente para se certificar de que estava realmente bem.
Kuu sabia que o que fez não tinha volta, ela nunca o perdoaria, por isso não foi buscá-la aos finais de semana, não aguentaria ver nojo e rejeição em seus lindos olhos âmbares, aquilo iria acabar de destroçá-lo. Eram três semanas, mas parecia uma eternidade. Ele entendia que precisava dar um tempo para ela, mas era tão difícil. Não sabia o que fazer, pensar e como agir. Kyoko era tudo para ele.
Kuu enfiou outra batata na boca, do seu sabor preferido, mas não sentiu gosto algum, só o fez lembrar do beijo que roubou de sua própria filha. Eu sou um monstro.
Então, de repente, ouviu o que parecia ser o toque do seu celular, levantou tão rápido do divã que ficou tonto, os olhos abertos em expectativa. Seria ela...?? Escutou um segundo toque e amaldiçoou mentalmente, a sala estava um caos, porém seguiu atento ao som e, antes do terceiro toque, ele agarrou o celular que estava embaixo da sua mesa de centro e viu "Anjo" no visor do aparelho, atendeu. Suas grandes mãos tremiam.
Esperava escutar qualquer coisa; Um xingamento — Mesmo que ela não xingasse. —, grito, choro, tudo, menos uma batida de música eletrônica. Ele tirou por um segundo o celular da orelha e olhou a hora, já passava das três da madrugada. Sua mente deu voltas e mais voltas, mas parou na mesma pergunta: O que estava acontecendo?
—... Filha? — Kuu chamou em um fio de voz, temia que ela encerrasse a ligação.
O estômago da Kyoko embrulhou do outro lado da linha. Fazia algum tempo que ele não a chamava de filha e, depois do que ocorreu, ele simplesmente trouxe à tona? Aquilo era como jogar sal na ferida aberta em seu coração, para ela soou como uma repreensão, como se o fizesse para lembrá-la que era sua f.i.l.h.a, nada mais que aquilo.
O loiro estava agoniado, ela simplesmente não o respondia, então arriscou novamente. — Filha, você está bem? — Também queria perguntar onde ela estava aquela hora da noite, mas controlou a própria língua, iria assustá-la se enchesse de perguntas.
O corpo da menor reverberou ao ouvir a palavra "filha" novamente, quando ela deu por si, grossas lágrimas escorriam por suas bochechas coradas devido às bebidas que tomara. Quando era criança, foi um sonho quando Kuu a chamou de filha com amor estampado em sua voz e olhos, Saena, sua mãe verdadeira, nunca tinha pronunciado aquela palavra antes, muito menos expressado afeto para com ela.
Porém, naquele exato momento, Kyoko só conseguia pensar que soou estranho quando ele a chamou daquela forma. Queria continuar sendo Hizuri Kyoko, mas não por ser sua filha.
— G-gomen... Hic... Gomenasai... Hic... Hic... — Ela, definitivamente, era a pior pessoa do mundo. Querer o próprio pai de uma forma impura, depois dele a acolher, aquilo era completamente inortodoxo. Tinha certeza que os Deuses iam mandá-la para o inferno por tamanho pecado.
Kuu andava de um lado para o outra na sala escura, passos pesados, o aperto de sua mão quase quebrando o celular em pedaços, então Kyoko por fim se pronunciou, mas sua voz estava mole e soluçava a cada palavra dita. Ela estava bêbada? Chorando? Ou os dois? Qualquer que fosse a resposta a queria ao lado dele JÁ!
Ia perguntar onde estava quando ela tornou a falar, nem em mil anos Kuu imaginaria ouvir o que viria a seguir. — Aishiteru, otou-san... — Eles moravam nos EUA e raramente falavam em japonês, mas ele era fluente e sabia muito bem a diferença entre "Daisuke" e "Aishiteru", o primeiro se destinava a amigos e família, já o segundo para... Amantes. Sua mente conectou as peças e ele por fim entendeu o porque dela ter pedido desculpa. Ela o amava como um homem?? E se sentia culpada por isso? As perguntas foramavam um redemoinho em sua cabeça, não sabia se estava sonhando, tudo era surreal.
"Está sozinha, linda?"
Foi muito baixo, mas ouviu uma voz de homem entre as batidas da música alta, parecia que estava falando com Kyoko, se referindo a ela como "Linda". Seu sangue ferveu. — Onde você está?? — Mas a única resposta que teve foi um bip, bip, bip.
O loiro socou a parede e correu para pegar a chave do carro, iria encontrá-la onde quer que estivesse, esperava que o jovem que escutara pelo celular não fizesse nada a sua garota, senão alguém ficaria sem os dentes.
Enquanto dirigia tentava freneticamente ligar para ela, mas caía em caixa postal. Estava em pânico, probabilidades do que podia estar acontecendo escurecia sua visão e o fazia rezar como nunca antes fizera, não podia deixar que algo acontecesse a ela.
Kuu lembrou que tinha pego o contato de suas colegas de quarto, Kanae e Chiori, então ligou para a primeira que apareceu em sua lista.
— Alô? — Uma voz sonolenta o respondeu, era Kanae.
— Onde a Kyoko está? — Era notável o desespero em sua voz, Kanae engoliu saliva, sabia que era o pai de sua colega, pois olhou o contato antes de atender. Também sabia que Kyoko tinha ido a uma festa de uma das garotas da classe, então olhou para a cama onde ela deveria estar e depois para a hora em seu celular, eram quatro da madrugada! Ela tinha dito que ia voltar antes de meia noite por causa da prova que teriam.
— Onde ela está?? — Kuu repetiu a pergunta, sua voz saiu como um rosnado. Kanae deu um pulo, olhos arregalados. Então rapidamente informou o local da festa e terminou com um "Traz ela de volta", a resposta saiu automática da boca dele "Eu vou".
Em um percurso que em média duraria três horas, Kuu fez em uma, estava rodando em velocidade máxima e, por causa da horário, não tinha trânsito. Na esquina do endereço que Kanae lhe dera, já dava para ouvir uma música, ele apertou o volante e percebeu que não tinha vaga nas proximidades da casa, então estacionou na primeira vaga que encontrou e correu até a de número 1028.
Ele não olhou para a fachada da casa, sequer bateu na porta, apenas pegou a maçaneta entre os dedos e abriu com força, uma fúria descomunal o dominava, então correu os olhos avelã por todos aqueles jovens se esfregando na sala. Ela não estava ali.
Ele foi para a cozinha, área de serviço, banheiro e nada, absolutamente nada. Então saiu dali e seguiu para o jardim, seus olhos imediatamente pairaram sobre uma pessoa em especifico, era sua Kyoko, tinha certeza. Porém sua felicidade acabou assim que viu um rapaz a puxando para um amontoado de pessoas dançando, uma mão segurava o braço dela e a outra rodeava a curva da cintura, um sorriso sacana brincava em sua boca. Kuu se encheu de vontade de quebrar aquele rostinho acneico.
Passou por entre uma quantidade absurda de jovens embriagados, não se importou de empurrar os que não saíam da sua frente, então ele parou ao lado de sua pequena e a primeira coisa que fez foi pegar o pulso do garoto, tirando as mãos dele de cima dela. O adolescente o encarou com um misto de surpresa e raiva.
— O que que foi, coroa? Vai procurar outra! — Gritou, mas ninguém olhou para eles, todos ali estavam mais preocupados com o próxima remessa de drogas do que com as pessoas ao redor. Kuu sentiu a cabeça latejar, estava no limite para mostrar quem era o "coroa" ali, mas se controlou e descontou toda sua raiva no pulso do garoto, o mais novo soltou um berro e Kyoko enfim notou sua presença, os olhos dela estavam vermelhos e, mesmo lotada de maquiagem, era visível as olheiras profundas. Ela cheirava a bebida.
— O-otou-san? — Ela perguntou com a visão turva e o batom vermelho manchado. Kuu olhou para a menor e apertou os dentes, era um homem calmo e brincalhão, raramente perdia a paciência e não se lembrava da última vez que xingou. Mas, vendo a mini saia e o decote profundo da blusa de alça que ela vestia, a única coisa que veio a sua cabeça foi "Que porra de roupa era aquela?!"
O jovem não sabia o que significava "otou-san", muito menos que língua era aquela, mas ele não ficaria ali para descobrir, aquele coroa era forte e tinha um olhar assustador, não queria encrenca, então simplesmente deu o fora.
Kyoko tampou a boca com as mãos, por fim percebendo o estado em que se encontrava e o quanto estava ferrada, então correu na direção contrária ao seu pai. Ela ainda não estava pronta para conversar com ele!
Porém sua tentativa de fuga foi por água à baixo com a combinação de sua embriaguez e a sandália de salto altíssimo que calçava, três passos depois seu corpo tombava rumo ao solo. Ia cair no gramado molhado se dois braços fortes não a segurassem, ela olhou para trás e tudo que viu foi a expressão preocupada do seu pai.
Com os braços de Kuu rodeando sua cintura, Kyoko se virou para ele, era impossível fugir dele, sabia daquilo, então resolveu implorar por desculpas, era o mínimo que devia fazer. Então ela se curvou em uma dogueza, mas logo se arrependeu, sua bile desceu para o esôfago e, de repente, todas aquelas bebidas fortes que bebera estavam em sua garganta.
Vendo ela se curvar em desculpa, o loiro soltou sua cintura e segurou seus ombros, mas aquilo fez com que, em vez dela vomitar no chão, o fizesse no sapato que usava.
Kyoko cambaleou, os olhos em pânico pelo que fizera. Seu pai não falou nada, apenas tirou o sweater azul que vestia e limpou delicadamente sua boca, então se abaixou e a pegou com cuidado no colo, uma mão na curva de sua cintura e outra na coxa desnuda.
Embrulhada no corpo quente e sem camisa, ela se aconchegou e se permitiu fechar os olhos, o cheiro dele invadindo suas narinas.
— Vou te levar para casa. — A voz dele era firme, e Kyoko quis perguntar qual casa; a que dividia com as colegas ou... — Nossa casa. — Ele respondeu como se soubesse exatamente o que ela pensava.
Respirou aliviada e lentamente caiu nos braços de Morfeu. O mais velho sentiu o corpo dela relaxar e a respiração quente contra o seu peito cadenciar, então olhou para ela e sua expressão imediatamente se suavizou, Kyoko dormia como um pequeno anjo.
Kuu notou alguns olhares sobre eles, afinal estava carregando no colo uma garota com a metade de sua idade e ela estava, aparentemente, inconsciente.
Chegaram no carro e ele se contorceu o máximo que pôde para deitá-la no banco de trás sem atrapalhar seu sono. Se certificou que ela estava confortável e, por fim, sentou no banco do motorista.
{ Na tarde seguinte }
Kyoko abriu os olhos, mas rapidamente os fechou, sua cabeça latejava e o corpo doía. Era como se um caminhão a tivesse atropelado. Então ouviu uma movimentação ao seu lado e tentou abrir os olhos novamente, só que devagar.
Primeiro ela viu o teto branco, depois reconheceu o quarto com sendo o do seu pai e, por último, viu o rosto dele próximo ao seu, ele estava de pé, inclinado em sua direção, o cabelo loiro caía para frente e os olhos avelã a examinavam com atenção.
— Boa tarde, dorminhoca. — Kuu sorriu e uma ruga apareceu nos cantos de seus olhos, ela sabia que era por conta da idade, mas simplesmente não conseguia deixar de achar adorável. Kyoko sem perceber sorriu de volta, os sorrisos dele eram contagiantes.
— Como está se sentindo? — Perguntou enquanto sentava na beira da cama de casal, ela sentiu o colchão afundar com o peso dele.
— E-estou melhor... — A mais nova se surpreendeu com o quão rouca sua voz saiu.
— Certeza? Se precisar eu comprei remédio. — Apontou para uma bandeja de inox com um copo, cartela de comprimidos e uma jarra de água. — De qualquer forma, você tem que se hidratar. — Seu pai pegou o copo e encheu antes de entregar a ela. Suas mãos se roçaram e Kyoko sentiu um arrepio na espinha, era assim toda vez que se tocavam.
A morena fechou os olhos ao sentir outra pontada na cabeça, ele a encarou preocupado e contou que o comprimido era justamente para dor de cabeça, ela sorriu, Kuu sempre parecia adivinhar tudo o que precisava. Pegou o remédio que ele estendera e tomou em um gole. Sua boca estava seca e a água desceu como um líquido dos deuses.
— Sobre ontem... — Limpou a garganta, não sabia como começar.
— É melhor conversarmos depois que você melhorar. — Pegou o copo das mãos dela e colocou de volta na bandeja, ela agradeceu com um aceno de cabeça. — Só quero que saiba que eu te amo e nada no mundo vai mudar isso.
Seu coração se apertou e teve vontade de chorar. Aquilo se chamava aceitação. Seu pai sabia que ela tinha sentimentos impuros em relação a ele, mas era uma pessoa muito boa para se desfazer dela. Aquela era verdade. — Pelo menos na mente fértil da Kyoko.
Ela precisava contornar a situação de algum modo. — Pai, e-eu não me lembro de muita coisa, mas eu quero pedir perdão, você teve o trabalho de...
— E do telefonema? Você se lembra...? — A interrompeu, voz temerosa.
— Eu te liguei? — Mentiu. Se odiava por fazer aquilo, nunca tinha mentido para ele, mas não queria ver sua rejeição estampada no rosto toda vez que o olhasse, e para isso ela precisava convencê-lo de que a declaração daquela madrugada não passava de um ledo engano.
Ele abaixou a cabeça e encarava o que Kyoko achava ser o chão, mas sua mente estava distante, o coração destroçado. Não devia ter criado esperanças em primeiro lugar, ela estava bêbada. — Pai? — Chamou, agora era ela que estava ficando preocupada.
— O que importa é ter você ao meu lado. — Apesar da imensa dor, aquela era a mais pura verdade. Sabia que um dia teria que entregá-la a outro homem, mas sempre olharia por ela, era sua menina, afinal.
Então Kuu pegou a bandeja e se afastou, mas não foi rápido o suficiente, ela logo notou os olhos opacos, e as olheiras continuam ali, por acaso ele não tinha dormido? A menor então olhou para a cadeira da cozinha que estava posicionada ao lado da cama grande e, imediatamente, uma imagem dele acordado cuidando dela durante toda à noite veio à tona em sua mente.
Ele se importava tanto com ela e Kyoko estava ali, mentindo descaradamente. Kuu era um ator, devia ter notado suas mentiras e se decepcionado.
— ...E se eu disser que l-lembro...? — Agarrou a blusa do pijama dele no momento em que ia atravessar a porta do quarto. Dizer que a consciência dela estava pesada era um eufemismo.
— Pode ter a certeza de que qualquer tipo de amor que sinta por mim é recíproco. — A amava de todos os jeitos possíveis.
— Qualquer tipo? — Perguntou e Kuu viu os olhos âmbares brilharem pela primeira vez desde o incidente do beijo.
— Sim, princesa. — Será que podia ter esperanças?
Contudo, ela se calou. O silêncio era absoluto no cômodo. Depois do que parecia ser horas de espera, ele sorriu gentil para ela, não queria que o brilho se apagasse. Faria de tudo para mantê-lo, inclusive atuar.
— Você quer que eu encha a banheira? — Kuu se controlou para não olhar para o corpo dela, ainda vestia a roupa reveladora da noite anterior. — Ah, e eu preparei uma comida reforçada, tenho certeza que vai fazer você se sentir bem melhor.
O estômago da Kyoko chiou, não comia a comida dele há três semanas, simplesmente amava tudo o que ele cozinhava.
Agarrou a blusa dele com a outra mão, não queria que fosse embora e a deixasse ali sozinha. Precisava contar, não aguentava mais esconder, fingir ou mentir, o amava há tanto tempo que ela sequer se lembrava de quando todo aquele sentimento surgiu, de quando seu coração foi corrompido.
— E se for um amor sujo? — Ela mordeu o lábio inferior, o pulso a mil por hora. Queria cavar um buraco e nunca mais sair, mas naquele momento era tudo ou nada.
— Amor sujo? Não existe um am...
— Não diga que não existe, pai. — O interrompeu, uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha corada. — É sujo, muito sujo... Por quê a única coisa que quero agora é que me beije de novo. — Ela falou de supetão, pois se parasse, aquelas palavras nunca deixariam sua boca.
O loiro travou, aquilo era surreal, por acaso estava sonhando? A bandeja que segurava começou a tremer e percebeu que suas mãos tremiam, o rosto quente, provavelmente estava corado. Era como se voltasse a adolescência, mas o irônico era que estava na casa dos quarenta anos.
Ele engoliu em seco, se falasse o que queria falar, tudo mudaria dali para frente. Sabia que o peso da diferença de idade aumentaria com o passar do tempo, Kyoko tinha a vida toda pela frente, não queria ser uma carga para ela.
A escolha estava nas mãos dele; Podia mentir e vê-la sofrer, pelo menos até se esquecer dele, por pensar que seus sentimentos não eram correspondidos ou contar a verdade e amá-la como um homem enquanto ela se mantivesse interessada, porém, ele iria sofrer muito mais ao entregá-la a outro, por que saberia como era tê-la.
Naquela altura, Kyoko estava encolhida na sua frente, as lágrimas desciam como uma cachoeira, incessantes. Suportava qualquer coisa, menos vê-la chorar.
Ela soluçou mais uma vez antes dele finalmente tomar uma decisão, se abaixou a sua altura e colocou a mão livre sob o queixo, fazendo-a o encarar. —...Aishiteru, Kyoko. — Falou placidamente, o amor refletido em seus olhos e voz era quase palpável. Depois de anos de comedimento e discrição, o mais velho sentiu um peso enorme sair das costas, adrenalina correndo em suas veias.
Aquela declaração a atingiu como uma bomba, ele estaria mentindo? Ou falando aquilo para agradá-la? Kuu viu a desconfiança nos olhos dourados e percebeu que só palavras não iria convencê-la, então decidiu colocar todo o seu amor em gestos.
— Eu não estou mentindo... Kyoko. — Ele enterrou a cabeça na curva do pescoço estreito, entre os cabelos negros que cheiravam a bebida. Então resolveu provocá-la, deu beijinhos por toda aquela área sensível antes de seguir para seu queixo — Onde deu uma leve mordida. — e, por fim, os lábios carnudos.
Faltava pouco para os olhos dela saírem das órbitas, não sabia o que fazer, seu corpo já não respondia mais, ofegava, suas pernas tremiam. Ele pronunciou seu nome de modo fogoso e ela só pôde fechar os olhos pela intensidade sonora de cada letra. O toque dele era tão sedento, o olhar ardente, Kuu nunca mentiu para ela... Será que podia acreditar??
Seu corpo estava todo arrepiado, culpa dos inúmeros beijos molhados que traçavam um caminho de fogo em sua pele e da barba por fazer que lhe dava cócegas, tudo aquilo mexia com algo em seu interior. Então ele mordeu seu queixo e Kyoko suspirou, o corpo quente, mas Kuu parou e ela abriu os olhos pela repentina perda de contato — Queria mais. —, não devia ter feito aquilo, ele estava a ponto de beijá-la, faltavam milímetros para seus lábios se encontrarem novamente. A mais nova deu um pulo para trás, o rosto completamente vermelho.
— Eu vou ao banheiro. — Fugiu do quarto e fechou a porta do banheiro atrás de si, era uma suíte e ela conseguia imaginá-lo parado no cômodo sem entender, o cabelo despenteado e as sobrancelhas arcadas. Kyoko queria ir até lá, mas estava morrendo de vergonha, além disso, ela não tinha escovado os dentes... Oh, Deus, em que eu sentou pensando?
— Hizuri Kyoko, você sabe que não pode escapar dos meus beijos, não é? — Ouviu a risada gostosa dele do banheiro e sentou na tampa do vaso, ela passou os dedos finos pelo cabelo sedoso e colocou atrás das orelhas furadas. Um sorriso genuíno brindou seu rosto, então acenou para cima e para baixo com a cabeça em resposta, sabia que ele não podia ver, mas isso não importava. A verdade: Era impossível escapar dos beijos dele.
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