Aishiteru
1 Oneshot
Notas iniciais
SASAENG
Kamihara Ayumi caminhou o mais sorrateiramente pelo gramado até ficar atrás de uns arbustos. Ela pegou seu celular e deu um zoom. O objeto de seu interesse era um jovem americano recém chegado a sua escola. Ele estava sentado no gramado sob uma árvore, lendo um livro qualquer. Ela escolheu os ângulos e passou a tirar fotos com o celular. Então resolveu ser mais ousada e saiu de seu esconderijo. Tentou passar casualmente por ele. Ao chegar bem próximo sacou o celular e passou a gravar um vídeo dela mesma falando em japonês.
— E aqui estou eu em minha escola, nesse início de primavera, e adivinhem quem é meu colega de classe? — Ayumi virou o celular na direção de Kim que levantou o rosto para a menina e imediatamente recolheu suas coisas e saiu dali. Ela correu atrás dele.
— Ei, não vá! Fale alguma coisa, vai.
Kim conseguiu se desvencilhar dela ao chegar no banheiro masculino. Ele ficou ainda alguns minutos ali até soar o alarme indicando o início de uma aula. Ele saiu apressado e notou que a garota vinha em seu encalço. Infelizmente ela entrou logo atrás dele, pois estavam na mesma série e sala de aula. Kim pensou com desgosto “uma sasaeng”.
Ayumi fez upload do vídeo com sua perseguição no YouTube. Escreveu hashtags: #KimDasilvaSmith, #AmericanActor, #EagleTeam, #TVseries. Seus vídeos antigos tinham sido solenemente ignorados. Nem seus colegas de classe a prestigiavam. Sua carreira como vlogger era um vexame. Talvez, agindo como fã desmiolada o povo poderia prestar mais atenção nela.
— Muito bem, vejamos o que descubro sobre Kim da Silva Smith no Wikipedia.
Sua pesquisa não a levou longe. Havia pouca coisa no Wikipedia, como informações banais, filmografia, data de nascimento e país de origem.
— 18 anos. Temos a mesma idade. Ele nasceu no Brasil? Por essa não esperava. Aqui não fala que ele está estudando em Tóquio. Será que está fazendo laboratório para o seriado americano? Se eu conseguisse essa informação as fãs iriam me adorar. Amanhã irei me aproximar novamente.
Ela olhou no relógio e tomou um susto. Procurou o controle remoto e ligou a TV. O seriado americano “Eagle Team” estava nos créditos iniciais. Série policial onde cinco jovens trabalhavam para um investigador da polícia. Na verdade uma releitura de “anjos da lei”, antigo seriado dos anos 80. Kim da Silva Smith era o último ator a aparecer nos créditos. Na TV parecia franzino e fraquinho, mas na verdade era bem mais alto que ela. Seu tempo na tela era minúsculo, em comparação com os atores principais, mas Ayumi percebeu com surpresa que só se interessava por suas cenas.
— Deve ser porque o conheço pessoalmente. Não entendo como ele pode estar estudando aqui no Japão e gravando série de TV na América.
Após a exibição do episódio, a TV passou uma vinheta de alguns minutos mostrando uma entrevista com os jovens atores. A pergunta era “Como seria a mulher ideal para você?” Os outros rapazes citaram atrizes e cantoras populares americanas. Na vez de Kim responder ele soltou um “Tomioka Tamiko”. Uma roqueira japonesa com jeitão de tomboy.
— O que? Nenhum homem gosta de Tamiko. Ela é uma sapatona. Ele não sabe disso não? Coitado! Se apaixonou por uma lésbica. — Ayumi fez pouco caso enquanto ajeitava os óculos de grau no rosto.
No dia seguinte, Ayumi vestiu-se para ir à escola. Seu uniforme era maneiro. Parecia até um cosplay de colegial: jaqueta e gravata azul-marinho e saia plissada, xadrez. Se ela ao menos não usasse óculos de grau poderia ficar até mais bonita. Fez uma selfie sem os óculos. Admirou-se na selfie e desanimou. Com óculos ou sem óculos continuava sem graça e comum. Passou a mão nos cabelos. Se ao menos não fossem crespos ...
— Aí seria a feia do cabelo liso. Sem chance. Nunca vou sobressair pela minha beleza. É melhor ficar esperta e virar uma selfmade woman (mulher que trabalha duro pra conquistar sucesso e riqueza). Isso aí.
Ela correu para pegar o metrô. Chegou na escola em cima da hora. Tinha checado seu vídeo no YouTube durante a viagem. Havia muitos likes e deslikes. Muita gente comentou para perguntar “quem é esse?” e outros simplesmente a xingavam, dizendo que era uma stalker, ou pior, sasaeng. “Não sou uma sasaeng. Apenas uma garota curiosa, que procura informar as pessoas. É isso.”
Ao chegar à escola ela o viu. Ele estava com problemas com a mochila. Ela discretamente retirou o celular e começou a filmar. Colocou o aparelho no bolso, deixando a câmera exposta.
— Oi, você precisa de ajuda? Notei que está com problemas com a mochila. Deixe-me ajeitar para você.
— É você de novo? Não, não preciso de ajuda. Pode deixar que eu ajeito sozinho.
— Que é isso? Eu ajeito para você. Minha mochila tem o mesmo problema. Viu? Prontinho. — Ela tinha tomado a mochila das mãos dele e sem cerimônias ajeitou o zíper emperrado. A seguir devolveu o objeto com um sorriso.
— Obrigado! — Kim se curvou para ela, como manda a etiqueta japonesa, e então virou as costas e foi embora. Ela correu atrás e cortou sua passagem.
— Não vá ainda. Eu me chamo Ayumi. Prazer em conhecê-lo. — Ela estendeu a mão para ele no modo ocidental de cumprimento.
Kim ficou indeciso por um momento, mas cumprimentou-a segurando sua mão levemente.
— Eu me chamo Kim.
— Sim, eu sei. — Ayumi sorriu feliz. Tudo estava dando certo. Seu vídeo seria um sucesso.
— Vamos, já começou a aula. — Kim falou calmamente e foi andando.
Ayumi o acompanhou, como se fossem amigos. E isso a deixou nas nuvens. No intervalo ela fez upload do vídeo, que mesmo com problemas de enquadramento e sombras, tinha um bom som e dava para ouvir a voz deles direitinho. Ela correu para o refeitório para almoçar e o viu em um canto sozinho. Sacou o celular e ficou filmando-o, enquanto estava na fila. Depois de um tempo isso a incomodou. “Por que ele fica sozinho? Ele é famoso, estrangeiro, devia ter um séquito atrás dele, tentando chamar sua atenção. Por que só eu que percebo sua existência?”
Ayumi pegou sua bandeja e foi até ele. Sentou-se ao seu lado.
— Oi, tudo bem se eu sentar aqui?
—Tudo bem. Eu já estou terminando mesmo.
— Não vá por minha causa. Eu só queria uma companhia na hora do almoço. Por favor! — Ayumi falou tristemente. Deveria ganhar um prêmio por essa atuação.
— Ok!
— Posso fazer uma pergunta?
— Faça. Só não garanto responder.
—Como você faz para gravar o seriado “eagle team” se está aqui no Japão, estudando?
— Eu ... saí do seriado.
— O que? Não pode ser. Ontem à noite eu assisti você na TV.
— Eu gravei cinco episódios e depois saí.
— Mas por que? Quem seria louco de sair de uma série de sucesso?
— Acho que eu sou esse louco. Escolhi sair da série e vir ao Japão para estudar.
Ayumi estava perplexa. Lembrou-se do celular. Ela devia ter deixado ele ligado, nem que fosse para gravar a voz dele. Mas agora estava na casa do sem jeito. Tudo bem, mais tarde ela faria um vídeo em sua casa contando as novidades.
— Ayumi, certo?
— Sim, é o meu nome.
—Poderia guardar segredo dessa informação? Ao menos por enquanto? O estúdio pode ficar irritado se essa notícia vazar. Você entende, não?
Ayumi murchou um pouco. Ela sempre poderia mentir e postar de qualquer maneira, quem poderia impedi-la?
— Pode me fazer esse favor como amiga e colega de escola, Ayumi?
— Cl ... Claro. Seu segredo está ... seguro comigo. — Ayumi abaixou a cabeça e disse internamente “merda”.
Mais tarde, já em casa, Ayumi ligou o notebook e ficou pensando sobre o que faria. Foi ler os comentários do vídeo anterior. Havia mais deslikes do que likes. Muitos comentários com emojis de corações, mas a grande maioria era de pessoas revoltadas. As palavras creepy (sorrateira), bullying (intimidante), stalker (perseguidora) e sasaeng (fã obcecada) apareciam aqui e ali. As coisas não saíram como o planejado. Ela desligou o notebook e desistiu de fazer o vídeo. Ligou o celular e ficou revendo os vídeos. No fundo ela gostava do rapaz, mas tinha que admitir para si mesma que só gravara os vídeos para conseguir atenção. Derramou algumas lágrimas pelo seu fracasso. Quanto ao dilema anterior, não havia mais o que decidir. Contar ou não sobre a saída de Kim do seriado era irrelevante quando todo mundo a odiava por fazer vídeos dele.
No dia seguinte o cumprimentou na entrada da escola. Ele parecia surpreso mas foi simpático. Ayumi decidiu que merecia uma compensação por desistir de postar vídeos sobre ele.
— Ei, Kim, que tal um cinema? Gostaria de ver um filme comigo?
— Ayumi, eu tenho que estudar e redigir um ensaio ...
— Por favor, eu guardei seu segredo.
Kim ficou desconcertado por ela citar aquele assunto e mortificado por se sentir chantageado. Baixou a cabeça enquanto pensava sobre o que fazer.
— Tudo bem. Não quer ir ao cinema comigo? Já estou acostumada a ir sozinha, mesmo. É até mais divertido. Não tem ninguém para me dar spoiler do filme. — ela deu um meio sorriso resignado.
— Eu vou com você.
— Sério? — Ayumi ficou tão feliz que o abraçou apertado, com um sorriso que ia de uma bochecha a outra. Então lembrou-se que eram praticamente estranhos então o soltou imediatamente, dando um passo para trás. — Desculpe, acho que invadi seu espaço pessoal.
— Tudo bem! Eu não me importo.
— Espere, deixa ver se entendi bem: você está me dando autorização para abraçá-lo?
— Acho que sim. — Kim riu.
Ayumi ficou nas nuvens e sorriu à toa o dia inteiro. Marcaram de ver um filme no dia seguinte, após a escola. “Logan”, o filme do Wolverine. Kim pagou as entradas, e ela comprou a pipoca. Vibraram e se divertiram como dois adolescentes, e ela percebeu que ele era um garoto comum, sem um pingo de glamour ou deslumbramento. Ele poderia muito bem ser seu amigo. Essa constatação de que ele era um rapaz acessível a tornou ousada. Quando ele menos esperou, ela aproveitou o escurinho do cinema para dar um selinho nele. Ele ficou surpreso e ela deu seu melhor sorriso amarelo de constrangimento. Ao menos ele não surtou.
Depois desse dia passaram a sair juntos para cinema, teatro, shows, concertos e jogos. Inclusive ao show da Tomioka Tamiko, no qual Ayumi fez a triste revelação de que Tamiko era gay, ao que Kim respondeu rindo "eu sei". Durante a semana almoçavam juntos e sentavam-se próximos na sala de aula. Ayumi corrigia sua pronúncia e escrita em japonês, e ele fez a gentileza de ler seus posts e vídeos nas redes sociais, e comentar neles. Ela se acostumou a dar selinhos e a roubar beijinhos. Ele parecia não se importar.
NAMORADA
Após algum tempo, uma repórter de uma revista de celebridades veio até a escola deles, e pediu para entrevistá-lo, com direito a um cameraman para filmá-lo. Ayumi estava ao lado dele, segurando seu braço, como sempre fazia, pois ela decididamente não respeitava seu espaço pessoal.
— Garota, pode afastar-se por favor? — disse a repórter.
— E se eu não quiser? — Ayumi falou petulante.
— Você por acaso é namorada dele?
—Sim. — Ayumi falou irritada.
— Não, é apenas uma amiga. — Kim falou calmamente.
Diante disso, Ayumi largou seu braço e foi embora, sem olhar para trás. Guardou rancor dele.
— Custava ele ter dito que eu era namorada, para aquela reporter metida não me olhar como se eu fosse lixo? Fez isso só para me humilhar. Para mostrar o local que eu ocupo no coração dele. Sou só a colega de classe. A garota com quem ele fez amizade para que guardasse o segredinho dele. Se não fosse isso, ele nem falava comigo.
No dia seguinte fez questão de evitá-lo. Sentou-se bem longe durante as aulas e fez sua refeição perto de outros alunos que também a ignoravam. Sentia falta da calma companhia dele e de seus olhos meigos, mas estava ressentida. Não o perdoaria tão cedo.
No caminho para o metrô sentiu alguém segurando seu braço. Era Kim.
— O que quer? — ela falou de cara fechada.
— Precisamos conversar.
— É mesmo? Não acho que temos alguma coisa para conversar. — Ela respondeu atravessado.
— Vamos sentar ali, Ok?
Sentaram-se em um banco coberto de parada de ônibus. Ayumi ainda estava irritada e evitava olhá-lo.
— Ayumi, eu gosto de você. Muito mesmo, mas como uma amiga. Não é possível sermos namorados.
— Por que você é famoso e eu não?
— Não é isso.
— Por que eu sou feia e sem graça?
— Não. Você é muito fofa, Ayumi. E muito querida. É a garota que eu mais gostei na minha vida.
Ayumi olhou para ele. Era um rapaz bonito para os padrões ocidentais. Olhos verdes. Longos cabelos negros, cacheados. Sobrancelhas fartas e um rosto anguloso. Incrivelmente alto e magro como um personagem de anime. Ele com certeza preferia garotas ocidentais, lindas como ele. O que uma oriental baixinha e gordinha poderia querer com um homem desses?
— Tudo bem. Já entendi. Desculpe pela minha reação. Eu não tinha nenhum direito de imaginar esse tipo de relacionamento entre nós...
— Eu sou gay.
Ayumi ficou estupefata.
— Mas ... mas eu nunca te vi com outros rapazes, e ... você nem olha pra eles. Não é possível.
— Eu já tive um namorado. E eu era muito apaixonado por ele. É totalmente possível, sim.
— Você já namorou garotas também?
— Não.
— Então como pode ter certeza de que não é bissexual, ou pansexual? Existem muitas possibilidades. Você não pode simplesmente dizer “só gosto de rapazes” sem nem ao menos dar uma chance para as garotas.
— Não tenho vontade de me envolver em outro relacionamento tão cedo.
— Você não precisa se envolver. Deixa só eu me envolver.
— O que?
— Deixe-me ser sua namorada. Não precisamos contar nada para ninguém. Só eu saberei.
— Isso não parece certo.
— A menos que você queira outra garota. Uma ocidental, com o padrão de beleza americano. Afinal você é um ator conhecido. Não ia ficar bem ter uma namorada feia. — Ayumi mordeu os lábios e baixou a cabeça.
Onde ela estava com a cabeça? Eles dois não tinham nada a ver. Ela deveria se dar por satisfeita por ele ao menos conversar com ela.
—Ayumi, vamos esquecer tudo isso e voltar a ser amigos, está bem? – Kim apertou a mão dela.
— Sim, claro! Eu já vou indo. Vou pegar o metrô. Até amanhã! — Ayumi escapuliu rapidamente e desceu correndo a escada do metrô.
Ficou ruminando o tempo todo da viagem que era uma garota burra por se apaixonar por um estrangeiro, sim porque agora tinha certeza de que estava apaixonada. Só isso explicaria por que as lágrimas continuavam escorrendo na sua face. Seu lado mais frio e racional lhe dizia que tudo aquilo não passava de besteira, e que amor era o fruto de reações hormonais, e que em alguns anos não teria mais que se importar com esse inconveniente, mas a simples lembrança do rosto de Kim a fazia chorar novamente.
Saiu do metrô e enxugou o rosto. Seguiu pelo velho caminho que iria levá-la para casa. Estava absorta em seus pensamentos, mas estacou quando ouviu alguém chamar seu nome. Virou-se lentamente e deu de cara com Kim.
— Você me seguiu? — ela perguntou num fio de voz.
— Você não parecia bem.
— Não precisava. Eu já vou chegar em casa. — ela pensou consigo mesma “bendito orgulho que me impede de chorar vergonhosamente na frente dele”. Virou-se para ir embora.
— Eu vim aqui te pedir para ser minha namorada.
— Você é gay.
— Talvez eu seja Bi. Como vou saber se não namorar com você? — Kim segurou as mãos dela.
— Tem certeza de que me quer? — ela perguntou com a voz trêmula.
— Toda certeza do mundo.
Ayumi atirou-se em seus braços e chorou, mas dessa vez de felicidade.
Algum tempo depois estavam no estúdio alugado de Kim. Era pequeno mas prático e confortável. Havia todos os utensílios de cozinha, um futon, espécie de acolchoado servindo de cama, um chabudai, que é uma mesa baixinha, para comer sentado no chão. Uma estante com livros, gadgets, muitas aquarelas chinesas nas paredes. Um toque japonês ou outro na decoração, e um único porta-retrato mostrando uma mulher com traços orientais, abraçada a um menino loirinho que lembrava a fisionomia de Kim. "Minha mãe", ele havia explicado. Ela perguntou por que não tinha algo do Brasil nas paredes, lembrando da onipresente bandeira verde-amarela dos brasileiros. Kim limitou-se a por a mão no coração, sem dizer palavra.
Uma das vantagens de ser namorada oficial é que ela poderia beija-lo. O quanto quisesse. Na hora que quisesse. Do jeito que quisesse. Inclusive deitar-se sobre ele e dar um beijo de língua. Talvez ela estivesse abusando da sorte, mas sua maré de azar estava demorando a chegar. Separou-se e limpou a boca dele com um lenço.
— Desculpe! Acho que eu babei em você. — Ayumi observou seu rosto. Sempre os mesmos olhos meigos, de quem nunca lhe negaria nada, nem nunca a magoaria. — Você não pode ser tão passivo assim. Um homem sempre tem que se impor para a mulher.
— Realmente? Você quer que eu seja um macho troglodita e a arraste pelos cabelos? — Kim riu.
— Não, mas eu queria que você ficasse bravo às vezes, só um pouquinho. Só para eu ter medo ou ficar com raiva de você.
— Isso não vai acontecer. Eu não sou assim.
— Eu sei. Já percebi. Você é como um grande gato angorá. Lindo e fofo. Só que às vezes eu queria que fosse um leão. — ela deitou a cabeça no peito dele.
— Quer terminar o namoro porque eu não correspondi às suas expectativas? — Kim perguntou zombeteiro.
— Nada disso. Você é o meu primeiro namorado e eu quero mantê-lo. Você é meu. — Ayumi subitamente se deu conta do que dissera e ficou envergonhada. Levantou a cabeça e olhou ansiosa para Kim. — Desculpa ter dito isso. Você ficou com raiva? Quero dizer, você não é minha propriedade. É senhor de si mesmo e ...
— Ayumi, eu não me importo.
— Você não se importa que eu o trate como propriedade, como se fosse um objeto? Isso tá muito errado, Kim.
— Eu não me importo que você diga que eu sou seu. Eu gosto da sensação de pertencer a alguém. É uma sensação gostosa, aconchegante. — Kim lhe deu um olhar amoroso.
Ayume esfregou a cabeça no peito dele e sorriu satisfeita.
— Aja assim só comigo, Kim. Há muitos predadores por aí. Eles não teriam piedade de você.
Kim olhou para o teto como se assistisse a um filme. Lembranças de um sujeito agressivo que o arrebentou de pancada sem nenhum motivo aparente. Um travo de amargura turvou seu rosto.
Ayumi sentiu algo machucando sua testa, no peito dele. Sem cerimônias ela desabotoou sua blusa e descobriu um cordão dourado com um anelzinho de criança como pingente.
— O que é isso? Presente da sua mãe?
— Não. Meu ex-namorado me deu.
Ayumi sentou-se ao lado dele, que ainda estava deitado no futon.
— Por que ainda usa um presente dele? Você ainda o ama?
Kim olhou para o teto. Parecia infinitamente triste e cansado.
— É complicado. Ele me machucou diversas vezes. Um médico me aconselhou a chamar a polícia.
— Oh! Deve ter sido terrível.
— Sim. Eu não penso em voltar para ele nunca mais, mas eu sinto falta dele. Nunca poderei esquecê-lo. Não fique com ciúmes, Ayumi.
Ayumi debruçou-se sobre ele, voltando à posição anterior e beijou-o levemente.
— Oh, meu amor, não sinto ciúmes. Você agora me pertence. Não é assim que você prefere? Você é meu agora. — Ela voltou a aconchegar a cabeça no peito dele. — Precisamos registrar isso de alguma forma.
— Somos jovens demais para casarmos.
— Não estava pensando em casamento, mas em algo mais duradouro.
— Não está pensando em filhos, não é?
Ayumi riu. Levantou-se e mostrou o punho da mão para Kim. Havia uma estrelinha nele.
— Uma tatuagem.
Foram juntos ao estúdio de tatuagem e disseram ao artista o que queriam. Deixaram para mostrar suas tattoos após ficarem prontas, para surpreenderem um ao outro.
Ayumi tatuou no punho da outra mão "KiSS".
— Beijo? Ou a banda de Gene Simmons? — Kim perguntou curioso.
— Não, bobo, é seu nome: Kim da Silva Smith.
Kim preferiu caracteres japoneses: "かみはら あゆみ".
— Meu nome, mas quem não souber japonês vai pensar que é uma palavra banal, como "tranquilidade". Assim não tem graça. — Ayumi reclamou chateada.
— Ok! Vou fazer outra.
Além do nome da namorada no antebraço direito, Kim tatuou "KK" no punho esquerdo.
— O que significa, Kim?
— Significa Kamihara Kim, pois eu pertenço a você.
Ayumi ficou tocada. Teria chorado se fosse romântica. Ela simplesmente ficou na ponta dos pés e deu um demorado beijo em seu namorado.
GÓTICO
Ayumi e Kim foram a um evento de cosplay. Ayumi queria que fossem como super heróis ocidentais, já que Kim não era familiarizado com o universo dos mangás e animes. Mas ele preferiu algo mais ao gosto japonês, como Code Geass, um anime futurista antigo. Ele escolheu uma fantasia do personagem Lelouch Lamperouge, com direito a peruca de cabelos espetados, lentes de contato vermelhas e casaca negra estilizada. Ayumi então escolheu uma fantasia da personagem Kallen Stadtfeld. Para compor melhor a heroína ela tingiu o cabelo de ruivo, o deixou empastado e pesado, e usou lentes coloridas de grau em vez dos óculos de sempre. Ambos foram ao evento e posaram para fotos. Não ganharam nenhum concurso, mas acharam tudo fascinante. Tanto é que aquilo virou um hábito.
De tanto se fantasiarem para esses eventos, Kim passou a usar algumas dessas roupas no dia a dia. Ele descobriu que havia um nicho para pessoas que consumiam esse tipo de vestimenta e adereços fantásticos, os góticos. Ayumi ficou preocupada com a fixação dele, mas ao ver que ele se divertia com as fantasias, aderiu a essa moda também.
No início as pessoas ficavam escandalizadas ao verem o tipo de roupas com que iam a shows, lanchonetes e shoppings, mas depois ninguém ligava mais. Afinal os japoneses eram famosos por lançarem moda, digamos, fantasiosas.
Kim podia ter se tornado um gótico, mas foi Ayumi quem mudou radicalmente. Ela passou a usar lentes coloridas, roupas apertadas que revelavam sua silhueta curvilínea, e maquiagem. Kim achou que ela estava se transformando em outra pessoa, e ele não sabia se era uma mudança para melhor. O sinal de alarme só buzinou com estridência quando ela desmaiou no banheiro feminino, de tanto vomitar. Ele teve que leva-la a um hospital onde lhe disseram que ela era bulímica. Ele ficou calado e a levou para casa, após a alta do hospital, depois de passarem o dia todo lá.
A casa da família de Ayumi ficava no subúrbio. Era antiga e tinha um que de decadência. Aparentava ser um pouco estreita externamente, mas tinha um interior confortável e aconchegante. Seus pais tinham idade avançada e ficaram extremamente irritados com a notícia de que Ayumi tinha passado mal e ido parar no hospital.
O velho Kamihara aproximou-se de Kim e falou rispidamente.
— Você a engravidou? Foi por isso que ela passou mal?
— Não, senhor. Eu não toquei na sua filha. — Kim falou assustado.
— Ele a engravidou e ela perdeu o bebê. Por isso passou mal e foi para o hospital. — a mãe de Ayumi gritou e apontou o dedo em riste para Kim.
— Não, senhora. Eu não fiz isso. — Kim falou agoniado.
— Querem parar? Kim não fez nada comigo. Eu sou virgem, ok? Tão virgem como o dia em que nasci.
— Mentira! Você está encobrindo o mal passo de seu namorado. — a mãe gritou também.
— Kim, vá embora! Chega de humilhação! Não quero que você escute mais esses absurdos. Deixe que eu lido com eles.
— Tem certeza?
— Sim, tenho. Até amanhã! — ela falou enquanto o empurrava pra fora de sua casa.
Ele fez reverência aos pais dela e foi embora.
No dia seguinte ela foi ao estúdio de Kim. Ainda tinha olheiras do dia anterior, que ela tentou disfarçar com maquiagem, mas sua expressão era doentia, pois ainda se recusava a comer, para não ter que vomitar.
— Desculpe por ontem, meus pais são antiquados. — Ayumi falou chateada.
— Vem cá, Ayumi. Sente aqui do meu lado.
Ela foi até o futon e sentou-se com dificuldade ao lado de Kim.
— Aqui não é muito confortável. Você devia ter cadeiras, Kim. Nem todo mundo gosta de sentar-se no chão.
— Ayumi ... suas roupas estão muito apertadas, por isso não consegue sentar-se no chão com facilidade, como antes.
Ela se levantou incomodada. Sentía-se cansada, mas não queria ser analisada por Kim, pois isso a tornava ridícula. Talvez tivesse sido um erro ir até ele, no fim das contas.
— Ao menos você gosta de me ver assim, não? — ela falou num fio de voz, desviando os olhos dos dele. Aquele olhar de quem podia ver seus erros e defeitos era insuportável.
— Não, eu não gosto.
— Mas ... eu estou bonita agora. Posso ficar do seu lado sem envergonhá-lo. — "por que você não vê que eu fiz tudo por você, Kim?"
— Você nunca me envergonhou. Ao contrário, você tem uma personalidade tão forte que eu tenho medo de que fique entediada comigo.
— Isso nunca vai acontecer. — Ayumi escorou-se na parede, pois sentía-se muito fraca. Esforçou-se para manter a expressão altiva apesar da falta de energia.
— Pare de se machucar, Ayumi.
— Veja ... veja como estou magra. Eu fiz isso por você. — falou num fiapo de voz sem encara-lo.
— Você está doente. Está se maltratando por minha causa e eu não quero isso.
Kim pegou o celular e abriu a galeria de fotos. Levantou-se e foi até ela para mostrar- lhe o celular. Havia uma foto dos dois, abraçados e sorridentes. Ayumi estava rechonchuda e usava óculos de grau.
— Foi por essa garota que eu me apaixonei, Ayumi. Se você quer mudar o cabelo, suas roupas, tudo bem, mas não quero ver você sofrendo para ser outra pessoa. Não por mim, Ayumi. Eu quero você feliz, saudável.
— Foi a primeira vez que você falou que se apaixonou por mim. — ela falou baixinho, sorrindo, e olhou para Kim, antes de tudo se apagar como uma lâmpada queimada.
Quando acordou estava deitada no futon do estúdio de Kim. Sua roupa futurística, um body metálico de corpo inteiro, estava sobre o chabudai. Estava vestida com uma camiseta largona de Kim, com estampa de Fred Gwynne, caracterizado como Herman Munster, do seriado "Os monstros". "Ainda bem que vesti uma lingerie nova", pensou. Ela tateou seu corpo e constatou que ainda usava as roupas de baixo. "Kim ainda é um cavalheiro, mas aonde ele está?" Como se respondesse a sua pergunta, Kim entrou no estúdio. Trazia sacolas de papel com verduras.
Ele preparou uma sopa de carne e pão com geléia. Ayumi comeu uma tigela de sopa, dada na boca por seu namorado, mas recusou o pão. Depois da refeição e de lavar a louça, sob os protestos de Ayumi, que insistia em se levantar para ajudá-lo, mas uma vertigem a provou estar errada, ele deitou-se ao lado dela no futon.
— Está chateado por ter que cuidar de mim?
Ele respondeu com um beijo adocicado.
— Geléia de amora. E eu disse que não queria comer.
— Você não sabe o que perdeu. Estava deliciosa.
Ayumi ficou olhando para aquele ser tão gentil e delicado, que a deixava emocionada, que até esqueceu que ele a despiu e a vestiu com as roupas dele. Quando ele se aproximou e a beijou novamente, foi tão natural e desejado, como se fossem um casal casado já de muitos anos. O beijo se tornou intenso e sedento, sendo que somente os lábios não poderiam saciar aquele desejo. Por isso, quando Kim retirou sua blusa e passou a beijar seu colo, era esperado que ele alcançasse sua aréola e mordesse de leve seu mamilo, para então sugá-lo. Primeiro um, depois o outro seio. Então, ele desceu seus lábios quentes e ansiosos até seu abdome, demorando-se ao beijar o umbigo e as curvas dos quadris. Os beijos seguiram um caminho mais ao sul, em direção aos pelos pubianos. Ayumi sentiu arrepios e calor. Passou a tremer como vara verde. Nem tanto por ele explorar seu corpo, mas por ser ele, a pessoa a quem mais desejara ter a seu lado. Alguém a quem viu na TV. Tão inacessível e distante. Separados por geografia, língua e cultura. Não era seu destino estarem juntos, mas de alguma forma, um paradoxo ocorreu. E conspirou para que aquele rapaz fosse parar na sua escola, falando seu idioma e aceitando-a como parceira. Algo verdadeiramente mágico e irreal que permitiu que seus corpos se encontrassem aqui, nesse instante, seminus, tão íntimos.
— Kim ... — Ayumi gemeu.
— O que foi? Você quer que eu pare? Não está se sentindo bem? Eu te machuquei? Desculpe, Ayumi, eu me excedi. Você está fraca e eu me aproveitei de você. Desculpe. — Ele ficou de joelhos ao lado dela, enfiou as mãos na cabeça e apertou os olhos, chateado consigo mesmo.
— Não é isso. Eu só fiquei emocionada. É a minha primeira vez.
Ele não disse nada e a ajudou a vestir a blusa novamente.
— Eu vou esperar você sarar e ser a mandona de sempre, que zomba de mim por ser passivo, e me diz que eu sou um gatinho angorá e não um leão. Afinal você é a dona desse gatinho.
Ele se deitou ao lado dela novamente e começou a cantar em português: "menina, por que fui te encontrar agora? Te carreguei no colo, menina. Cantei pra ti dormir."
— O que diz a letra?
— Um homem se apaixona por uma jovem que ele conheceu quando ela era criança.
— Sou eu?
Kim riu e a olhou apaixonado. — Sim.
Como se inspirada pelo momento, Ayumi começou a cantar em japonês: "Diga-me a verdade, eu te imploro. Explique-me seus pecados, eu te imploro. Lágrimas criminosas que continuam a transbordar têm escondido a minha face."
— Conheço essa música. Fragrance. É linda. Sempre achei que fosse um hino gay.
— Talvez seja. Fala sobre estar perdido e confuso e se amparar em outra pessoa igualmente perdida e confusa.
— Cumplicidade.
— Sim. — Ayumi virou-se para ele e acariciou seus cabelos. — Vou sarar rapidinho para você não ficar melindrado na nossa primeira vez. Vou baixar uns videos pornôs bem safados.
Kim riu. — Não precisa. Li uns livros de anatomia, o kama sutra, e o guia do orgasmo feminino.
— Que menino aplicado. — risos — Eu ainda prefiro vídeos. Podemos ver juntos.
— Você é quem manda, minha ama e senhora.
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