Daisuke estava convencido que, até o final daquele dia, teria Hikari como sua namorada. O ruivo vinha juntando coragem há anos, não se sentia mais como aquele garoto bobo, agora se garantia, iria usar de toda sua honestidade e se confessar para ela. Enquanto se perdia em pensamentos imaginando O “sim” como resposta e o;’ momento do beijo”, sem perceber fazia caras e bocas se contorcendo na cadeira, ISSO PORQUE NÃO ERA MAIS O MENINO BOBO, OBSERVEM!

— Hey! Está tudo bem aí, cara? — O loiro chamou atenção do amigo a fim de livrá-lo do vexame que estava dando em público.— Entrou formiga na sua cueca?

— Fica na sua, loirinho! hoje nem você estraga meus planos! — O rapaz afirmou confiante, apontando o polegar contra o peito.

— Tá bom, se você diz… — Takeru sorriu com uma gota se formando em sua cabeça. Seria possível que até hoje Daisuke nutrisse a velha rivalidade ridícula?

A voz da professora chamou a atenção de todos:

— Cumprimentem nosso novo aluno, Ichijouji Ken! — A classe inteira voltou à atenção para o ex-gênio, famoso em tempos passados, agora em carne e osso, ao vivo e a cores diante de seus olhares curiosos. Acabrunhado e diminuído pelos cochichos,o pobrezinho parecia um coelhinho assustado.

— É um prazer conhecê-los! — Ken cumprimentou formalmente e se curvou em reverência.



Takeru, Hikari e Daisuke trocaram olhares incrédulos e confusos, com piscadelas quase sonoras, expressões cômicas a se desenhar nos rostos e bocas quase a convidar moscas.

Após um minuto de silêncio, a classe explodiu em euforia.

— Silêncio! — A professora vociferou, mas abrandou em seguida. — Ichijouji-san, está aqui para ser tratado como um aluno normal, o que significa; sem pedir autógrafos, tirar fotos ou sufocá-lo durante o intervalo! — os alunos murcharam em seu acentos.— Pode tomar um lugar.

Ken assentiu avistando Daisuke e Takeru acenando, chamando-o para sentar-se perto deles. Era um dos últimos lugares da fila, uma carteira do lado da janela, Hikari sentava-se em sua frente, o loiro ao seu lado e o ruivo ao lado da castanha.

A Digiescolhida da luz deixou um pensamento escapar.

— Ah meu Kami, a Miyako-chan vai surtar quando souber! — Assim que soltou o comentário cobriu a boca, como se pudesse recuperar as palavras soltas.

— Nós acabamos de nos encontrar no corredor! — Ichijouji respondeu com animação atipica a sua personalidade.

— Hannnn! — Os três amigos cantarolaram em uníssono, dando leves empurrões no alvo..

— Não é nada disso!— defendeu´se um Ichijouji ruborizado. — Eu quis dizer, coincidentemente. Só isso. — balançou as mãos no ar.

A professora não demorou em chamar a atenção do grupinho. Nunca em sua vida Ken tinha sido chamado a atenção em sala de aula, mas também nunca tivera com quem pudesse se sentar e compartilhar assuntos. Ele sorriu sentindo-se feliz, estava entre seus amigos, fora afortunado por ficar na mesma sala que eles. Lembrou-se do isolamento que sofria em sua antiga escola, risos, dedos apontados em sua direção, de comentários maldosos. Era difícil para as pessoas aceitarem que ele não daria mais troféus para escola, nem levaria times a vitória e que repentinamente só queria ser mais um rosto na multidão. A verdade era que muitos alunos almejavam o status do qual ele abdicou e começaram o odiá-lo por isso.

Suspirou deixando o passado no passado e, logo recebe um bilhetinho de Daisuke, o Digiescolhido da bondade lançou um discreto sorriso, sempre viu os colegas de classe fazendo isto entre si, mas nunca receberá nada. Mirou o ruivo que fazia sinal para que ele lesse, e abriu o papel:

“Distraia o Takeru e a Miyako no final da aula. Quero me declarar para Hikari hoje.”

(...)

Ken esboçou um sorriso sereno, assentindo com a cabeça,.”Distrair o Takeru e a…” iria ficar perto “dela” novamente. Mas o que era isso agora? Afinal ele nunca teve problemas em ficar perto “dela” de repente entendia o que a diferenciava de seus outros amigos, porque sempre pensava nela antes dos outros. E assim se perdeu em seus pensamentos assistindo o filme que passava em sua mente desde que se conheceram…

Ela era aquela menina energética, parecia um esquilo hiperativo, tagarela e sempre feliz tentando deixar todos alegres em sua volta. Na verdade, chegou a imaginar que Miyako e Daisuke fossem apaixonados um pelo outro, afinal os dois nunca usaram honoríficos, estavam sempre discutindo e se tocando com intimidade, mas quando algo acontecia com o outro eles sempre se preocupavam, era de fato uma relação estranha, sendo que em dados momentos o ruivo agia como se morresse de ciúmes quando garota o elogiava. Uma vez na festa de Natal em sua casa a portadora do brasão do Amor e Sinceridade disse que ele ficava lindo sorrindo e Daisuke se expressou, incomodado, mas deveria ser ciúmes de amigos e como ele não entendia muito destas coisas de amizade achou melhor esquecer.Poderia ele, de alguma forma está nutrindo interesses românticos pela moça?

— Miy-a-ko… — Ken verbalizou seu pensamento,involuntariamente.

— Pre-sen-te! — A garota respondeu brincalhona, como se tivesse se materializado do nada ao seu lado, puxando uma cadeira e colocando seu obentô sobre a mesa , seus amigos fizeram o mesmo. Ken estava com a boca semiaberta sem entender o que aconteceu, quase morrendo de vergonha por estar delirando com a amiga e ter sido flagrado pela mesma, mas ficou aliviado quando notou que ela nem percebeu.

— Almoço? Já estamos em horário de almoço? — Ele olhou a sua volta e viu que todos já estavam almoçando, afinal quanto tempo se perdeu em seus devaneios? — O… O que faz aqui, Miyako-san? — Perguntou automático enquanto pegava seu almoço.

— Sempre almoço com Hikari-chan e os garotos, desde que nos conhecemos. — Os amigos manearam a cabeça em concordância. — Mas e você, Ken-kun, o que faz tão longe de casa?

— Uiiii! — Takeru soltou de supetão, como se dissesse “quero ver sair desta”, levando uma discreta cotovelada de Hikari que, em seu íntimo sorria ao ver Ichijouji se enrolando para se justificar.

Era cômico, ele remexia sua comida, horas corria a mão pelos cabelos, parecia à beira de um ataque de nervos enquanto Miyako tagarelava mil coisas e brigava com Daisuke que furtava petiscos de seu obentô, sem medo da morte. A garota de cabelos lilases parecia muito à vontade naquele ambiente, mesmo sendo mal visto que alunos mais velhos se misturassem com os mais novos, Inoue se lixava para regras sem sentido.

Depois do divertido almoço com muitos risos e perguntas curiosas dos novos colegas Ichijouji tentou se focar mais na aula, pegou sua tabela de horários com a representante de turma e não pode deixar de se divertir com a empolgação de Daisuke que ficava o tempo todo batendo com o indicador no pulso mostrando que já estava quase na hora.

(...)

“Ele” realmente estava em sua escola e mesmo que não pudessem conversar direito por causa da euforia louca de Daisuke e a curiosidade dos demais alunos, eles tinham almoçado juntos e tinha sido muito divertido… É este ano prometia ser agitado… Miyako suspirou com um intenso movimento de levantar e abaixar os ombros.

— Foco Miyako! Foco! Você não é mais aquela garotinha de 12 anos babando por um ídolo em foco na mídia! Você sabe que todas às vezes que se apaixona as coisas não dão certo! Estuda e brilha que nisso você é boa! — Ela fez uma nota mental para se lembrar da promessa que fez para si mesma há anos atrás.

No passado, Miyako costumava sonhar com príncipe encantado, se apaixonava com frequência por garotos bonitos, mas que na maioria das vezes nem lhe davam atenção, afinal ela era a nerd, tinha opinião forte e os garotos não gostavam de ter ao lado uma mulher que tivesse mais cérebro e prestígio escolar, ainda mais num país onde mulher boa é mulher obediente e submissa.

Ela gostava do prestígio que tinha em sua escola, sendo bem conhecida por presidir o clube de informática. A direção sempre recorria a ela para qualquer auxílio voltado à manutenção dos computadores ou ocorrências na rede local do colégio e isso para ela era um mérito, entretanto com os garotos nunca deu sorte realmente e acabou decidindo curtir sua adolescência entre amigos e dar o seu melhor nos estudos. Um pouco de amor próprio não faz mal a ninguém.

(...)

Hikari não era nada inocente e já tinha notado que seu amigo Daisuke tinha a intenção de se declarar para ela. O rapaz estava bem mais eufórico do que o normal, rindo sozinho e tendo outras posturas estranhas. Só tinha um problema, a garota não queria ter que magoá-lo. Não desejava alguém sofrendo por sua causa, isso era inadmissível, mas não poderia namorá-lo apenas para vê-lo feliz, na verdade guardava seu primeiro beijo para Takeru e acreditava que se não pudesse ser com ele, não seria com mais ninguém… O que fazer? Como sair desta enrascada?



A portadora do brasão da luz analisou cautelosamente o ”perímetro” antes de sacar seu celular muito disfarçadamente para enviar uma mensagem para sua melhor amiga.

“Miyako, me encontre no banheiro, preciso falar com você… É urgente!”

Minutos depois as amigas se encontram onde combinaram.

— Hikari-chan, o que está acontecendo? — Miyako perguntou em tom dramático.

— Daisuke-kun vai se declarar para mim hoje no final da aula! — Hikari cuspiu as palavras.

— Isto é maravilhoso! Parabéns amiga! — Miyako deu um gritinho de empolgação e uma gota se formou na cabeça de Hikari enquanto que caia ao chão, incrédula por ouvir tal coisa da amiga. Como a violácea podia ser tão desligada?

— Como assim parabéns Miyako-chan? Você na condição de minha melhor amiga já deveria saber que eu o evito desde que éramos crianças. Eu tenho evitado este momento na esperança de que ele desistisse, mas…

— Você gosta do Takeru, não é? — O tom de Miyako mudou para algo pesaroso, pensar em ver o irritante Daisuke de coração partido, era como se ela já pudesse sentir sua dor. — Se tivesse se declarado para ele, teria evitado ter que dispensar o Daisuke. Ele iria sofrer, mas iria se levantar e seguir em frente acho que em menos de um mês se apaixonaria por outra. — riu-se com suas palavras. — Mas agora…

— Eu sei… — Hikari suspirou pesarosa. — Sei que terei que dizer a verdade a ele, mas não estou pronta ainda. Não quero perder o que temos!

— O que temos? — Miyako questionou confusa.

— Sim Miyako-san, quando nos reunimos na minha sala para almoçar, acontece algo mágico, nos divertimos, discutimos coisas bobas é como se já fizéssemos parte uns dos outros, como se nossa amizade fosse sagrada, fosse eternizada a cada dia. Nos finais de semana quando nos encontramos junto com nossos parceiros Digimons e com o resto dos Digiescolhidos, é maravilhoso… Se um elo se quebrar a corrente se enfraquece e acaba cedendo. — Ela olhou tristonha para a amiga que também estava com expressão preocupada. — Não quero ser a culpada por isso.

— Eu entendo como se sente… Corra para a sala de informática hoje depois das aulas, vamos escapar para o Mundo Digital. — A garota de cabelos lilases sugeriu com um sorriso.— Vamos sair à francesa.

— Eu acho que entendi sua ideia… Claro! Miyako-san você é um gênio! — Hikari abraçou forte a amiga, sentindo-se aliviada, pelo menos momentaneamente.

(...)

O final da aula chegou e Hikari foi a primeira a sair correndo da sala e sumir entre os alunos no corredor, chegando à sala do clube de computação e encontrando Inoue, Poromon e Tailmon prontos para abrirem o portal. Miyako tinha instalado um programa que desligaria o aparelho logo em seguida.

Assim que passaram pelo portal elas suspiraram aliviadas enquanto os Digimons pediam explicações:

— Hikari-chan por que viemos para o Mundo Digital agora? — Tailmon questionou curiosa.

— Verdade Miyako-chan, qual a necessidade disso afinal? — Hawkmon coçou a cabeça com a asa..

— Explicaremos tudo depois, agora vamos para casa! Espera… Miyako-chan como vamos para casa se nossos computadores não estão ligados? — ambas caíram no chão, desanimadas.

— Já sei! Vou usar o meu D-terminal para mandar uma mensagem para o Koushiro-kun, podemos ir para a casa dele e de lá iremos embora! — Miyako solucionou.

(...)

Os garotos procuraram pelas meninas, até a exaustão, os celulares não atendiam e elas pareciam ter evaporado.

— Droga justo hoje! — Motomiya reclamou com os ombros caídos.

— Calma Motomiya, elas devem ter tido um bom motivo. — Ken ponderou tentando animar o amigo, mas o mesmo se sentia frustrado.

O celular de Takeru vibrou com a mensagem de Miyako.



“Desculpe não poderei voltar com vocês, Hikari-chan e e, estamos na casa do Koushiro-kun.

Até amanhã.”

— COMO ASSIM NA CASA DO KOUSHIRO? Por que não avisaram antes? Por que não nos chamaram? Se a Miyako quer ver o namoradinho dela por que arrastar a Hikari? — Motomiya explodiu sua ira e acabou falando mais do que devia, Ichijouji imediatamente travou no mesmo local.

— Na-mo-ra-do? — A pergunta saiu em voz falha e tom incrédulo carregado de mágoa e decepção.

Takeru espalmou a própria testa e bufou.