Aishiteru
9 Cachoeira Fantasma
Lucia: Acorda filho, bem vindo a minha nova casa! E quem sabe ela pode virar a sua também...
Olhei ao redor e pude perceber que o Matheus ainda estava deitado no meu peito o que me deixou com um certo alivio, eu ainda tenho medo dele desaparecer quando eu acordasse, depois do que aconteceu naquela noite. Eu acho o rosto dele é tão foto quando está dormindo... Continuei a olhando e vi que o sitio da minha mãe parecia ser grande (o que me fez pensar, como ela tinha conseguido aquele sitio? Mas resolvi não perguntar), as arvores eram enormes e a casa parecia ser bastante grande também. As arvores cercavam ela me fazendo pensar que a casa estava no meio de uma floresta em vez de em um sitio.
Lucia: O terreno era do meu Avó, a nossa família não meche nele a bastante tempo.. Ainda tenho muito que fazer por aqui.
Felipe: Não tem problema, eu até gosto que ele seja assim fico mais interessado pra explorar.
O Matheus acordou assim que eu tinha começado a falar, ele ainda estava se espreguiçando quando eu dei “um selinho de bom dia”, foi meio sem pensar, mas eu tive vontade e fiz.
Lucia: O que você esta fazendo?
Felipe: Nada mãe.
Ele sorriu pra mim, o que me deixou muito feliz, eu já tinha acordado muito animado e acredito que esse final de semana vai ser perfeito. Demorei um pouco pra perceber que já estava escurecendo e quando olhei para o sol, ele estava deixando o horizonte se escondendo atrás das arvores e me lembrei da minha tarde com o Gustavo. Mesmo sentindo saudades dele, não demorei muito para apagar o sorriso bobo que estava no meu rosto quando segurei a mão do Matheus e o puxei para fora do carro.
Minha mãe me mostrou a casa toda até o quarto que eu ficaria e disse que eu poderia explorar todo o sitio sem problemas, mas que não deveria andar de noite pela cachoeira que tinha ali perto. Existe um boato que lá teria “fantasmas”. Eu simplesmente ri quando ela me contou, mal sabia ela que tinha um fantasma segurando minha mão. Depois disso, nós jantamos e conversamos bastantes (nesse momento o Matheus estava no quarto) e eu acabei descobrindo que meu pai realmente batia nela e que ele também a traia. Isso me deixou com um pouco de raiva dele, mas ele ainda é meu pai e ela já ta se separando dele... Não achei que era um assunto que eu devia me meter. Após acabar de jantar eu fui para o meu suposto quarto que era pequeno e vazio, não tinha nenhum móvel, apenas um saco de dormir e um travesseiro arrumado pra mim sobe o chão de madeira e o Matheus aparentemente entediado.
Matheus: Nos já vamos dormir?
Felipe: Não sei... Quer fazer alguma coisa?
Matheus: Sim!
Fiquei pensando em algo que poderíamos fazer naquele sitio...
Felipe: O que acha de irmos à cachoeira?!
Matheus: Mas a sua mãe disse que lá tem fantasmas... E se a gente encontrar um?
Não pude segurar eu comecei a rir.
Matheus: O que foi?
Felipe: Não se preocupe, se a gente encontrar algum eu juro que te protejo! – Falei ainda rindo soando meio irônico
Não demorou muito para que o rosto dele mudasse de uma expressão de raiva para um sorriso bobo e que a gente saísse de casa escondido. Enquanto a minha mãe estava distraída assistindo TV eu e o Matheus, fomos andando o mais leve possível até sair de casa tendo o mesmo cuidado ao abrir e fechar a porta. Quando chegamos lá fora e percebemos que já havia anoitecido e tudo estava escuro, olhamos para as arvores que eram lindas de manha, mas se tornaram assustadores e sombrias com um ar de assombração.
Matheus: Vamos!
Felipe: Não está com medo?
Matheus: Nem um pouco, afinal você vai me proteger!
Eu achei tão fofo da parte dele dizer isso que por alguns instantes esqueci meu medo e segurei a mão dele, andando por uma trilha que vimos entre as arvores. Logo encontramos uma placa que estava fixada no meio de uma rota de dois caminhos, Nela estava escrita “cachoeira” no tronco vertical, e nas setas horizontais uma estava escrito “Fantasmas” e na outra “Humanos”.
Felipe: Que estranho... Isso não é normal não cara...
Matheus: E agora, pra onde vamos?
Felipe: Vamos ver os fantasmas!
Dessa vez, por mais difícil que possa parecer, todo o meu medo tinha ido embora assim que a gente entrou no caminho dos “fantasmas”. Eu não tenho medo de fantasmas e a idéia de encontrar um, era como um consolo pra mim. Creio que seja por causa do Matheus, a idéia de vê-los não me assusta. Continuamos andando seguindo a trilha até que eu olhei pro Matheus e o vi pulando apavorado.
Matheus: Aaaaaah, tem um fantasma em cima de mim! Tira! Tira!
Olhei de novo para ele e apesar de estar escuro eu ainda pude ver o que estava acontecendo, o Matheus tinha esbarrado numa teia de aranha e ela estava por todo o corpo ele, não sei como ela se prendeu naquilo.
Felipe: Xôoooooooooo fantasma! – Falei enquanto tirava a teia dele – Pronto, pronto, foi embora
Matheus: Não quero mais andar na frente! Você ta fazendo um péssimo trabalho em me proteger.
Felipe: Então deixa que eu vou na frente
Matheus: Não! E se outro fantasma me pegar? O que eu faço?
Eu estava com muita vontade de rir, ainda não acredito que ele pensou que aquela teia era realmente um fantasma. E se fosse? Ele também é um, não tem anda de mais.
Felipe: Já sei! Sobe nas minhas costas, eu vou te levar.
Matheus: Tá bom...
Ele subiu nas minhas costas com as pernas causadas e encaixadas na minha cintura, os braços estavam me abraçando por cima dos meus ombros. Eu senti seu peso sendo incrivelmente leve, mas ainda assim senti um calor, um sentimento vindo do corpo dele. Era como se tivesse um corpo quente ali e ao mesmo tempo extremamente leve.
Assim continuei seguindo a trilha, cada vez que ele se assustava ele segurava minha camisa e me apertava mais forte, o que me fez sempre rir como, por exemplo, quando ele achou que viu uma pessoa andando entre as arvores e ouviu uns gemidos, ele me fez parar pra olhar e quando viu de novo, ele me apertou tanto que parecia que eu ia morrer sufocado e assim que olhei para as arvores e percebi que era só uma coruja, cai na risada tentando me segurara até que fiquei serio e falei pro Matheus que ele era do bem e não ia nos fazer mal e continuei andando. Finalmente chegamos à margem de um rio, mesmo eu tendo andando muito não pareceu demorar muito a trilha.
Felipe: Chegamos!
Matheus: Mas... Cadê a cachoeira?
Felipe: Ixi, verdade...
Quando a gente se aproximou mais e olhamos para água, vimos que a correnteza estava forte. Acompanhamos a correnteza com nossos olhos e chegamos ao final do rio, era uma queda d’água, com certeza era a cachoeira. Nós deveríamos estar na parte de cima dela.
Matheus: A correnteza ta forte demais para a gente entrar, é capaz de a gente acabar sendo arrastado.
Felipe: Sim... Acho que era pra a gente ter escolhido a outra trilha... Vamos voltar.
O Matheus ainda estava perto da margem quando escorregou e caiu no rio. Eu me senti apavorado quando ouvi o barulho do seu corpo batendo na água, ele tinha sido arrastado por uma pequena parte até que se agarrou em uma pedra que estava um pouco antes da queda d’água da cachoeira.
Felipe: Matheeeeus!
Matheus: N-não se preocupa comigo! Eu vou ficar bem!
Felipe: Eu vou te salvar! Segura firme.
Eu estava apavorado, mas não pensei duas vezes, eu pulei na água e fui nadando o mais rápido possível até a pedra onde ele estava, me agarrando a ela e ficando junto do Matheus.
Matheus: Você é louco?! Como você pula assim? Quer morrer?!
Felipe: Sou louco por você. Eu não disse que iria te proteger? A verdade é que... Eu acho que te amo.
Nesse momento eu roubei um beijo dele, que mesmo com a correnteza forte e gelada nos empurrando, estava sendo perfeito. Nossos lábios se encostavam alternadamente, quando o beijo estava evoluindo finalmente para um beijo de língua e eu estava quase esquecendo a correnteza, ele soltou a pedra e por reflexo consegui rapidamente segurar com minha outra mão a mão dele. Eu estava segurando com uma mão a pedra e com a outra a mão ele.
Matheus: Felipe, me deixa ir... Assim você também vai acabar sendo levado pela correnteza, não adianta nada nos dois caímos. Eu vou ficar bem! Por favor, me solta.
Ele conseguiu dizer tudo isso sorrindo, mas quando ele acabou de falar o rosto dele passou de um sorriso bobo para uma expressão de medo e lagrimas. Eu não podia solta-lo, mas não aguentava mais segurar a pedra, pois a correnteza estava muito forte. Foi ae que tive a idéia. Apoiei meus pés na pedra e usei toda minha força para ir de forma diagonal para a margem do rio numa direção antes da queda, lá tinha galhos de uma arvore que estavam sobe o rio que daria para a gente segurar caso conseguisse passar por lá, mas mesmo assim eles pareciam ser fracos. Com o impulso e a ajuda da corrente nos fomos levados direto para os galhos, eu ainda estava segurando a mão do Matheus quando gritei.
Felipe: Segura o galho!
Ele olhou pros galhos e quando passamos por ele, ele os segurou. Estava o Matheus com uma mão segurando o galho e a outra mão comigo segurando o pulso dele, o galho fez um barulho como se estivesse quebrando e eu tive que tomar uma atitude.
Felipe: Eu nunca deixaria você cair, eu vou te salvar, Adeus.
Ele estava olhando nos meus olhos e eu sorri, logo após soltei o pulso dele e fui levado pela correnteza. Enquanto estava caindo eu não pude evitar, acabei lembrando que ele era apenas um fantasma e comecei a rir, eu tinha acabado de me sacrificar pela memória de alguém. Será que isso é o que significa amar? Eu não sei... A água estava fria e eu estava com medo de morrer, mas ao mesmo tempo estava feliz por salvar ele. É... Salvar... Eu acho que o salvei...
Eu estava sentindo que estava prestes a bater no chão, aquela queda parecia durar uma eternidade me deixando mais apreensivo quando eu senti algo segurando a minha mão e pude perceber que o Matheus estava caindo do meu lado. Eu que já estava assustado, agora estava chorando, eu fiz tudo aquilo em vão?
Matheus: Eu vim dizer que somos nos dois somos um e que eu também te amo. Se você cair, eu também caio.
Ele tinha soltado o galho assim que viu que eu soltei a mão dele? Esse menino...
Nós nos abraçamos esperando nosso destino, quando finalmente batemos na água. Para a minha surpresa o rio debaixo da cachoeira era tão fundo que mesmo com a queda não chegamos a bater no chão. Após afundar nós nadamos para a superfície saindo de debaixo da cachoeira em direção a margem, o meu corpo todo doía pelo impacto da queda na água. Finalmente chegamos à margem e ambos estavam muito ofegantes.
Felipe: Matheus... Você ta bem?
Matheus: Sim, na verdade é engraçado... Não senti nada, não doeu nem um pouco.
É verdade, né? Seria estranho se o corpo dele sentisse algo... Até porque ele é um fantasma... Eu me sinto até meio bobo, mas estou aliviado por ambos terem ficado bem e acabei dormindo. Quando acordei, o Matheus estava adormecido em cima de mim e já era de manha. Eu o botei nas costas e o carreguei pela a trilha que tinha ali perto esperando que ela me levasse pra casa da minha mãe. Finalmente depois de algum tempo andando eu avistei a casa da minha mãe e lá estava ela com uma expressão preocupada no rosto.
Lucia: Filho! Onde você estava?
Felipe: Eu estava na cachoeira...
Lucia: Esperou amanhecer para ir?
Felipe: Hã? Ah, Sim.
Lucia: Se divertiu?
Felipe: Um pouco, mas acho que me ajudou a decidir uma coisa.
Lucia: Fico feliz por isso, mas eu tenho uma noticia ruim pra te dar... O seu pai piorou, a nossa vizinha ligou pra mim e disse que ele não saiu nenhuma vez de casa desde o momento que saímos e que ouviu ele chorando a noite toda. Acho melhor você voltar hoje pra casa...
Felipe: Entendo... Então vamos.
A minha mãe já tinha posto todas as minhas coisas no carro, eu entrei no mesmo e pus o Matheus no banco do meu lado, o que não adiantou muito porque ele caiu sobe o meu colo e usou minhas pernas de travesseiro para continuar dormindo. A minha mãe estava dirigindo e a gente já estava a caminho de casa para encontrar o meu pai.
~Continua
Fale com o autor