Aioria, não!

1 Capítulo Único


O pequeno Aioria fazia esforço ficando nas pontas dos pés para alcançar o topo da mesa tentando pelo menos olhar. Às vezes era difícil ser baixinho, mas, de acordo com seu irmão, não precisaria se preocupar com isso por muito tempo, pois logo teria um surto de crescimento assim como o mais velho dissera que havia tido. Eram parentes, então fazia todo sentido isso acontecer com ambos. De qualquer forma, tinha lá seus privilégios com a estatura atual, conseguia esgueirar-se muito bem por lugares estreitos e passar despercebido por alguns outros, o que ajudava muito nas aventuras que adorava buscar pelos cantos do Santuário. Sentiria saudades disso quando fosse maior.

- Mano, o que tem aqui? — questionou com a curiosidade infantil que possuía, a voz quase tão fina quanto a de uma garota.

- Bolo.

Os olhos do loiro brilharam, era raro ter isso em casa! Não desperdiçaria tempo sem tentar arrancar uma casquinha do doce que provavelmente deveria estar gostoso, tinha essa impressão mesmo sem conseguir enxergá-lo. Esticou-se mais ainda, erguendo os braços e tateando a superfície do móvel de madeira. Quando sentiu os dedos roçarem em algo, foi erguido por seu irmão que olhou para si com uma expressão zangada.

- Aioria, não pode!

O menor fez cara de emburrado.

- Por que?

Aioros o colocou em cima de uma cadeira, dirigindo-se em seguida ao bolo, tomando-o nas mãos e colocando-o em cima da pia, que era ainda mais alta do que a mesa. Agora mesmo que a criança não conseguiria alcançá-lo. Aioria observava as ações do mais velho e ficava cada vez mais nervoso, querendo sair da cadeira porém com medo, pois havia caído uma vez ao tentar e agora só descia com a ajuda do seu irmão.

- Porque não — simples.

Ou talvez não fosse tão simples assim, mas não poderia contar ao outro o porquê de ter trago aquilo para casa. Ele mesmo era contra o uso do "porque não" como motivo, mas não sabia o que mais responder.

- Mas eu quero bolo! — o pequeno berrou, balançando as pernas vigorosamente e fechando os olhos. Sua voz denunciava que estava prestar a chorar.

O moreno suspirou e passou a mão pelo rosto. Talvez houvesse mimado muito seu irmãozinho e agora ele era... assim. Devia reeducá-lo, não podia ser uma criança mimada, ainda mais porque no futuro se tornaria um cavaleiro de ouro. Era difícil, pelo menos para Aioros, mas iria tentar e começaria agora. Sempre que o menor lhe pedia algo e ele negava, fazia um rosto que, para si, era impossível de resistir, então acabava cedendo. Não gostava de ver o outro triste, porém deveria começar a impor respeito naquela casa senão o loiro começaria a pensar que podia fazer o que quisesse a hora que quisesse, e isso não estava certo. Já tinha três anos, os mimos iriam acabar.

- Quando eu digo não é não! Para de insistir!

Aioria forçava as lágrimas que corriam pelo rosto bochechudo. Não entendia, só queria um pedacinho do bolo!

- Eu quero bolo!

O primogênito, já irritado, resolveu ameaçá-lo. Odiava quando o outro começava a chorar de birra, só que dessa vez não sucumbiria aos apelos dele.

- Se continuar chorando, não vai ter bolo nem agora, nem depois! — bradou, obtendo uma resposta quase imediata.

Tinha sido mais fácil do que pensava, o menor cessara o choro instantaneamente.

- Então eu vou poder comer depois? — perguntou, sem sinais do desespero que havia mostrado anteriormente.

- Sim, mais tarde.

O pequeno desviou o olhar para cima da pia, depois de volta para o irmão.

- Eu quero o primeiro pedaço.

Aioros sorriu e bagunçou os cabeços do caçula com a mão.

- Tudo bem, será seu — disse, em seguida mirando o relógio analógico do outro lado da cozinha. — Por que não vai brincar com seus amiguinhos? Preciso fazer algo.

O loiro bufou, não queria sair de perto do irmão. O moreno ultimamente andava sempre ocupado por conta dos treinos e, na maioria das vezes que tinha tempo livre, acabava gastando-o com o amigo dele, que era o cavaleiro de gêmeos. Esquecera-se do nome dele, mas aquilo não era importante no momento. Almejava a companhia do irmão e não arredaria o pé dali.

- Não quero — constatou, assustando o maior com o tom de voz decidido.

O sagitariano respirou fundo, no intuito de se acalmar. Amava seu irmão mais que tudo nesse mundo, mas havia horas que Aioria simplesmente enchia o saco. Tinha de aturá-lo, era o mais velho, sua única família, mas às vezes a vontade de mandar tudo pro espaço. Afinal, era jovem demais ainda, com apenas dez anos e ainda precisava criar e educar uma criança sozinho, ser seu pilar de segurança. Ficava frustrado regularmente por conta disso, porém não deixava de adorar o menor. Tudo que o loiro fazia simplesmente o fascinava. Lembraria-se para o resto de sua vida de como ficara embasbacado quando o leonino começara a andar e falar, foram dois dos momentos mais felizes de sua vida, e todos eles com Aioria.

Mas ainda tinha que exercer sua autoridade.

- Aioria, por favor para de... — foi interrompido por uma presença repentina adentrando a casa de sagitário. Dentro de poucos segundos, ninguém mais que Saga estava parado na entrada da cozinha, observando a cena.

- Aioros, parece que cheguei numa má hora — disse, já virando-se para voltar pelo caminho de onde viera. — Eu volto daqui a pouco.

- Não, Saga, espera! — chamou pelo companheiro, indo atrás dele para impedi-lo e deixando o irmão ainda em cima da cadeira. — Nós combinamos agora, eu já vou levar ele pra ir brincar com os outros aí a gente começa.

O rapaz de cabelos azulados assentiu, acompanhando o outro de volta ao aposento.

- Olá, Aioria — cumprimentou o menor, mesmo sendo intimidado pelo olhar furioso e cheio de ciúmes do mesmo.

Não obteve resposta. Aioros ignorou o que se passava e direcionou Saga ao bolo, dando algumas instruções sobre o que deveria fazer e indicando-o a levar o mesmo para a parte de trás do lado de fora do templo.

O loiro assistia a tudo, várias ideias erradas formando-se em sua mente.

- Você vai dar bolo pra ele e não pra eu?! — gritou.

O mais velho o encarou, ameaçando-o com o olhar.

- Não, Aioria, o Saga não vai comer o bolo antes de você. E se você gritar de novo, também não vai comer e aí sim eu dou tudo pro Saga.

Uma sensação de triunfo e satisfação tomou conta de si ao ver que o menor se calara na hora. Aquilo era mais fácil do que imaginava, estava pegando o jeito e nunca mais seria desobedecido.

Foi de encontro ao irmão e baixou-o da cadeira, este imediatamente agarrando-se às suas pernas. Fez sinal para que Saga fizesse o que lhe havia dito e o viu assentir, afastando-se do local. Agachou-se para poder olhar o caçula de frente, desgrudando-o de si.

- Aioria, preciso que fique um pouco com seus amigos. Vou te levar pra casa do Milo e lá vocês brincam até eu ir buscar você, tá bom?

O pequeno negou com a cabeça.

- Eu quero ficar com você — murmurou, novas lágrimas formando-se em seus olhos, mas dessa vez de genuína tristeza. Aioros sentiu-se mal, mas não tinha porquê o outro ficar assim.

- Eu também quero ficar com você, mas agora não dá.

O menor levou as próprias mãos ao rosto, numa tentativa inútil de tentar enxugar o rosto enquanto chorava silenciosamente. Era bem menos escandaloso quando realmente sentia-se chateado por algo.

- Por que quer brincar com Saga e não com eu?

Aioros o abraçou, beijando os cabeços dourados da criança. Cheiravam a xampu.

- Eu quero brincar com você e vou, mas depois tá bom? — desfez o abraço para poder encará-lo, roçando os dedos por sua face para secar a umidade presente nela. — Agora eu preciso resolver umas coisas com o Saga, você vai até ver depois e vai gostar muito. Te deixo ficar com a maior parte do bolo, tá bom?

O leonino hesitou, mas logo assentiu. Agarrou-se ao pescoço do irmão com força.

- Promete?

O moreno sorriu.

- Prometo.

Tentou levantar-se, mas o caçula não deixava.

- Me leva no colo?

Riu. Queria que o outro fosse um pouquinho mais independente, mas ainda era um bebê e, de certo modo, até mesmo ele gostava de mimá-lo de vez em quando. Não seria uma coisa ruim realizar pelo menos um desejo dele após tantas negações.

- Tudo bem — passou um braço por debaixo do menino e o outro segurava pelas costas. Saiu da casa de sagitário indo em direção à de escorpião.

//

Aioria brincava no oitavo templo há duas horas, junto de Milo e Mu. Diversos brinquedos encontravam-se espalhados pelo chão, cortesia da mãe do escorpiano, que tinha permissão de ir visitar o filho algumas vezes para ver como estava. Esquecera-se momentaneamente de tudo que havia acontecido em casa com o irmão e agora corria atrás dos amigos, brincando de pega-pega.

- Aioria? — a voz de Aioros fez a atenção fez a atenção do menor voltar-se totalmente para ele rapidamente. O loiro nem mesmo pensou duas vezes, desviou o trajeto em direção ao mais alto e abraçou suas pernas.

- Mano!

O moreno esboçou um sorriso, olhando para as demais crianças e fazendo um sinal com a mão para que elas o acompanhassem.

- Vamos dar uma passada lá em casa, tem uma surpresinha pra vocês. Levem alguns brinquedos.

Ambos menores assentiram e começaram a juntar alguns joguinhos fáceis de carregar. O pequeno agarrado a suas pernas resolveu ir ajudar os amigos, e logo os quatro subiam os degraus do santuário que levaria à próxima casa.

- Aioria, vai lá no meu quarto e pega aquele caderno que eu uso pra anotar as compras por favor?

O mais velho havia ido à vila de Rodório para abastecer os armários da cozinha naquele mesmo dia, mas o loiro nem sequer pensou nisso em sua ansiedade por passar um tempo com o irmão e com seus amigos. Aquele dia estava sendo melhor do que imaginara no início, e ainda ia ter bolo depois! Correu o mais rápido que suas curtas pernas permitiam até os aposentos do outro, prontamente achando o que havia ido buscar. Retornou alegremente à sala de sagitário, mas deparou-se com o cômodo vazio; os jogos que haviam trago não estavam lá, nem seus amigos.

- Mano? — chamou-o com a voz baixa, apreensivo, porém foi logo respondido ao ver a cabeça de seu irmão brotando da porta aberta da cozinha.

- Aioria, vem aqui! Vamos pro jardim.

O loiro não tardou em juntar-se ao irmão. Entregou-lhe o caderno, o qual ele segurou com uma mão e lhe ofereceu a outra para andarem juntos até o lado de fora. Chegando lá, o pequeno tomou um susto ao identificar inúmeros balões coloridos, confete espalhado pelo gramado, uma mensagem escrita "parabéns" em letras recortadas de cartolina colorida presas por uma corda.

- Vai ter festa? — perguntou, virando o rosto para cima no intuito deencarar o sagitariano.

Aioros gargalhou, levantando os braços para demonstrar animação e confundindo ainda mais o menor.

- Hoje é seu aniversário!

Divertiu-se com o espanto do caçula, sua boca aberta quase relembrando um "o" perfeito.

- Sério? — indagou ainda sem acreditar e visualizou o primogênito assentir. — Eu tinha esquecido!

Desviou o olhar para onde os outros se encontravam. Saga, Milo e Mu jogavam com algumas cartas que o ariano havia trago, o mesmo demonstrando possuir um intelecto avançado demais para uma criança de três anos, ludibriando até o próprio geminiano quando este não prestava muito atenção na partida. Em silêncio, puxou o mais velho e andou em direção aos amigos para que pudessem se juntar a eles.

Depois de quase duas horas, Saga avisou que devia voltar para a própria casa. Aioros resolveu então que já deviam cantar os parabéns e cortar logo aquele bolo que havia dado tantos problemas. Estava contente, pois seu irmãozinho demonstrava bastante felicidade, sua pequena festa surpresa havia sido um sucesso.

Após aplaudirem o aniversariante quando o mesmo apagou as velas, acercou-se ao menor e perguntou se este queria cortar o bolo. Aioria fez um sim animado com a cabeça, em seguida vendo o irmão desaparecer pela porta que levava ao interior do templo para pegar uma espátula e pratos. Quando o moreno voltou, dispôs os utensílios pela mesa e entregou a espátula ao mais novo.

- Precisa de ajuda?

O pequeno respondeu que não. Permaneceu encarando o bolo durante alguns segundos, depois percebeu que o irmão estava distraído conversando com Saga. Milo e Mu o fitavam com expectativa, doidos para provarem um pedaço do doce, mas pela cabeça de Aioria se passava outra ideia. Aproveitaria que o mais velho não prestava atenção em si e faria algo que tinha vontade desde que havia visto o bolo.

Como que por coincidência, quando tocou com o dedinho na camada mais superficial para tirar um pedaço, o sagitariano desviou os olhos para a cena e o viu. A única coisa que era possível de se ouvir naquele instante foi o grito estrondoso de Aioros percorrendo quase todo o Santuário.

- Aioria, não!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!