Aint Afraid To Die
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O som da porta sendo aberta preencheu o ambiente, junto com o som da mesma sendo fechada, logo em seguida.
O barulho dos sapatos sendo retirados e o som dos passos –abafados pelas meias brancas- contra o piso de madeira seguiu até que a figura pequena chegasse até a cozinha, uma sacola de papel sendo depositada em cima do balcão.
Kyo retirou a caixa com taças da sacola e a depositou na superfície gelada à sua frente, abrindo-a e analisando a compra com cuidado.
Eram belas e finas. E ficavam melhor ainda com o aroma da carne assando vindo do fogão.
Satisfeito, o loiro apanhou duas peças e reservou-as na mesa, guardando a caixa em algum lugar da sala.
Após o intento, parou em meio ao cômodo e analisou a situação, as pontas dos dedos apoiadas nos quadris de forma displicente.
A carne ainda precisaria de mais algum tempo para ficar no ponto. A bebida já estava em uma boa temperatura, mas poderia esperar até que o prato principal estivesse pronto.
A mesa estava posta e, agora com as taças, completa. O micro sistem aguardava ser ligado para preencher o ambiente com o CD escolhido.
O que fazer durante esse tempo?
Banho!
Claro, como poderia pensar em iniciar seu banquete sem estar devidamente limpo?
Sorrindo levemente, o loiro marchou até sua suíte, onde retirou seus jeans surrados e a camiseta vermelho-escuro, jogando as peças de qualquer jeito em um canto, juntamente com as meias e a boxer negra. Rumou para o banheiro.
Preparou o banho e, enquanto a água preenchia a banheira, Kyo passou a se analisar no espelho.
Puxou uma das mechas do cabelo, agora descolorido. Havia passado algum tempo desde que decidira deixa-lo preto novamente, mas havia voltado na decisão no dia anterior.
A situação merecia isso.
Saindo de seus devaneios, fechou a torneira e afundou-se na água de forma pesada. A água teria inundado o banheiro se estivesse em um nível suficiente para tal.
Kyo gemeu com o contato agradável da água quente em sua pele ainda ligeiramente gelada, visto que nevava nas ruas.
Apoiou os braços nas bordas da banheira, ajeitando-se e não reprimindo um suspiro frustrado.
Sentia falta de um certo corpo quente se aconchegando contra o seu.
De mãos firmes e, estranhamente delicadas, afundando-se em seus cabelos e puxando-o para um beijo molhado.
De quadris obscenos se empurrando contra os seus próprios, os tórax se roçando, as peles em chamas, o contato sendo facilitado pela água.
O loiro gemeu ante as lembranças, um conhecido desconforto entre as pernas.
Mordendo o lábio, Kyo levantou-se e buscou algo na pia perto de si, sentando-se novamente ao ter o objeto em mãos.
Então, permitiu-se afundar nas lembranças.
Os toques, sussurros contra sua pele, mordidas, arranhões, tapas, cortes...
Ah, sim...O sangue morno escorrendo contra sua pele –já quente naqueles momentos-, marcando caminhos de fogo antes de ser recolhido por aquela língua macia em movimentos lentos e tortuosos sempre foi um estimulante a mais.
O loiro gemeu abafado ao levar a mão esquerda até seu membro, apertando-o do mesmo jeito que ele costumava fazer.
Fechando os olhos, afundou a outra mão na água, levando o objeto até sua coxa.
Gemeu alto ao sentir a navalha rasgar-lhe a pele de forma pausada, não fundo o suficiente para deixar seqüelas, mas o bastante para tingir a água de rubro.
E, com certeza, ficaria mais uma cicatriz.
Enquanto puxava a lâmina, começou a se tocar de forma não tão lenta quanto antes, as recordações mais fortes.
As amarras que machucavam os pulsos, as roupas de vinil e de couro que apertavam a ponto de ser dolorido vesti-las, o cheiro de vinho misturado ao cheiro de sexo...
Tudo ainda estava fresco na mente do rapaz, que logo chegou ao seu ápice solitário.
Após alguns segundos, observou a água em que estava mergulhado.
Completamente suja de sêmen e sangue.
Resignado, suspirou e deixou que o líquido escorresse pelo ralo, levantando-se para lavar-se com o chuveiro.
Olhou para sua perna, notando que o corte ainda sangrava. Com os dedos, recolheu um pouco do líquido e levou-o aos lábios.
Era bom. Sempre fora.
Após limpar os dedos, ocupou-se em estancar o sangue para poder tomar banho devidamente.
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Desligou o forno, abrindo-o e se abaixando para retirar a assadeira.
O cheiro era delicioso.
Apoiou o utensílio na pia, apressando-se para buscar uma vasilha para pôr a carne.
Não podia correr o risco de deixa-la esfriar.
Logo estava depositando o vasilhame na mesa, no centro desta. Voltou-se e empurrou a assadeira para a pia, indo buscar a garrafa com aquela bebida...Única.
Pôs a garrafa ao lado da carne, analisando a mesa com dois lugares postos.
Era satisfatório.
Tirou o avental e jogou-o na pia, fazendo o mesmo com as luvas que usava para não se queimar. Analisou-se.
Sapatos negros, assim como a calça levemente apertada e o smoking. Uma camisa branca de linho por baixo deste último, com grandes babados nas mangas e nas extremidades verticais, com vários botões abertos, deixando uma boa parte do peito pálido –e com algumas cicatrizes e arranhões- à mostra.
Estava bom.
Buscou as luvas negras que havia deixado em cima do balcão, lembrando-se mentalmente de não coçar os olhos, para não borrar a maquiagem.
Suspirou, olhando no relógio.
11:07 PM
Estava na hora do banquete.
Ligou o micro sistem, o ambiente sendo preenchido pelas guitarras frenéticas, pelo baixo sombrio, pela bateria convulsa e pelo vocal gritado.
A música abafou todos os ruídos que Kyo fez enquanto dirigia-se novamente ao quarto. Ajoelhou-se na cama, andando dessa forma até o centro, onde estava o que queria.
Aquela boneca linda e delicada.
Exatamente como ele.
Apanhou-a com uma delicadeza que espantaria qualquer pessoa que tivesse lhe conhecido, mas não poderia ser mais rude do que isso.
Não, não com aquela boneca naquela ocasião.
Voltou para a mesa, a boneca nos braços. Sentou-a sobre as muitas almofadas existentes em uma das cadeiras, de forma que ela ficasse alta o suficiente para que pudesse encara-la.
Sentou-se em seu lugar, servindo-se da carne. Em seguida, serviu o prato à sua frente.
Fez o mesmo preenchendo as taças com a bebida vermelha.
-Itadakimasu. – murmurou, pegando os talheres ocidentais e levando um pedaço do alimento à boca.
“Delicioso” – pensou, deleitando-se com o sabor, logo buscando a taça à sua frente, os lábios sendo manchados.
A bebida morna escorreu por sua garganta, o gosto sendo exótico e familiar ao mesmo tempo.
Suspirou com o pensamento de que precisaria se apressar com aquele jantar magnífico.
Logo, eles estariam à porta.
Era inevitável.
Olhou para a boneca. Eram tão parecidos...
-...Kimochi...
Apressou-se e terminou sua porção, fechando os olhos para apreciar a bebida, uma gota escorrendo pelo canto de sua boca.
Não quis limpa-la. Ela manchou sua camisa branca, mas Kyo não se importou.
Levantou-se, sonolento.
Suas pálpebras começavam a pesar.
Buscou a boneca, olhando de forma entorpecida para o prato desta.
-...Você nunca foi de comer muito...Não é...?
Com passos cambaleantes, seguiu até o quarto, onde desabou sobre a cama de lençóis de seda negra. Abraçou a boneca carinhosamente, puxando-a até o peito.
Sorriu de forma verdadeira, afagando os cabelos loiros e cacheados languidamente. Aproximou seus lábios do ouvido da pequena.
-Kimi to futaride aruita ano goro no michi wa nakute...Sore demo zutto aruita itsuka kimi to aeru no kana..¹.
O sono se fazia mais presente, apertou a boneca mais fortemente, aspirando o aroma dos cabelos da mesma.
Ah...O cheiro ainda era o mesmo.
Sorrindo, deixou o sono lhe levar.
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-Mamãe! Quero uma boneca igual à que esse moço está abraçando!
A mulher aproximou-se da filha, procurando o que a pequena apontava, os olhos orientais se arregalando ao visualizarem a manchete.
Buscou o jornal com as mãos, agradecendo que a pequena Michiko não soubesse ler kanjis tão complicados.
Os olhos escuros corriam pelas linhas, as mãos da criança puxando sua blusa para baixo, querendo saber o que havia de tão interessante ali.
“Jovem se suicida após morte de namorado.
Nishimura Tooru, 29 anos, cometeu suicídio nesta sexta-feira, 24 de Dezembro. Em seu apartamento, a polícia encontrou, como restos de alimento, o que fora identificados como carne e sangue humanos.
Após a perícia, os restos mortais foram identificados como de Terachi Shinya, 26 anos, namorado de Nishimura Tooru, dado como falecido em um assalto dia 23 de Dezembro.
Supõe-se que Nishimura subornou pessoas a fim de conseguir o corpo do outro jovem, para consumi-lo em um macabro ato de canibalismo. As partes do corpo que não foram utilizadas em tal assustador jantar foram encontradas preservadas em um freezer nos fundos.
Nishimura Tooru fora encontrado morto em sua cama, após consumir a carne temperada com uma dose letal de soníferos. Abraçava uma boneca, a qual pode ser reconhecida, por fotografias, como uma tentativa de reproduzir Terachi Shinya, visto que ambos vestiam roupas quase idênticas. Os cabelos da boneca eram do próprio jovem.
‘Eu me incomodei com a música alta, à uma da manhã e tentei chamar o rapaz para que ele a abaixasse’ – diz o vizinho, Yamanaka Kazuki, 47 anos – ‘Subi até o apartamento e bati forte, mas ele não respondeu. Chamei o síndico, que abriu com a chave mestra. Achávamos que ele estivesse apenas drogado. Nunca gostei de trocar muitas palavras com ele, mas nunca pensei que ele fosse ser capaz de algo assim por outro homem.’
Os psicólogos que analisaram o caso dizem que essa ação pode ter sido incentivada pelo pensamento de que, dessa forma, eles estariam juntos eternamente.”
OWARI¹ — Trecho inicial de Ain’t Afraid to Die, “A maneira como eu falava com você se foi, ainda assim, eu sempre caminhei com você... Eu imagino se eu poderei encontrar você algum dia.”
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