Ainda é cedo.

12 Capítulo 12: Péssima ideia.


Notas iniciais
Parte I - Só queríamos estar ali

Eduardo

Eu juro que eu tento fingir que não me importo, mas aí eu esqueço que deveria fingir. De todas as garotas que eu já gostei, a Manu é sem dúvida alguma a mais complicada. E a que mais me faz ter vontade de gostar. Já fez tanta coisa pra sei lá, me irritar! Mas aí, todas as razões que me fizeram gostar vem à tona. Quer dizer, não é “meu deus, preciso de você pra viver!”. Não, ela não é meu oxigênio nem nada disso! Na verdade, não acredito que alguém seja realmente o oxigênio de outra pessoa. Sem ela eu ainda vou acordar, lavar o rosto, escovar os dentes e ir pra faculdade... O sol ainda vai nascer todo dia e eu vou continuar respirando. Só que nenhuma dessas ações vai ser a mesma coisa.

Sei lá, o jeito que mordia a boca quando tava concentrada, assim, sem querer mesmo. O sorriso fácil de ser arrancado, a risada contida, o modo que mexia os cabelos, o jeito bobo de me convencer a fazer qualquer coisa... Eu to ferrado na mão dela! E ela sabia disso!

Tomei um banho e troquei de roupa. Olhei para minha mão. O nó dos dedos avermelhados. Torci pra ela não perceber porque dessa vez, me toquei do que estava fazendo e me segurei na primeira batida.

Ei, isso é um avanço tá?

Meu celular vibrou com a mensagem do Gus:

“Clube sábado?”

Clube? É, até podia ser legal.

“Posso levar alguém?”.

“É gata?”.

Gus seu idiota.

“Não é pro teu bico!”.

“Ela tem amigas? Poxa, tô carente cara! :(”.

Nem fiz questão de responder.

Larguei o celular na cama e fui atrás dela. A encontrei na sala. Estava no sofá, deitada e com fone de ouvido de um lado, lendo um livro com as pernas para cima, apoiadas na parede. Mexia os pés cantarolando alguma coisa.

-Tem compromisso pra sábado?

Ela ergueu os olhos do livro, me analisando.

-Vou pedir para minha secretária verificar minha agenda, por quê?

-Que tal um clube? Mas tem que levar a Laura!

-Posso saber o que a Laura tem haver com isso? – perguntou se sentando.

-Quer ou não?

Ela levantou deixando o livro no sofá.

-Vou ligar pra ela.

Levantou e foi para o quarto fazer a ligação, mas sem se preocupar em fechar a porta. Coloquei só a cabeça pra dentro, e vi minha blusa ainda em cima da sua cama.

-Pode devolver minha blusa?

Ela pegou, jogando com uma falsa raiva para mim. Fui para a cozinha com a blusa no ombro, abri um pacote de biscoito e sentei no sofá, ligando a TV. Engraçado como há algumas horas, estávamos os dois brigando, e agora... Bem, agora eu to com uma marca no pescoço e ela ta cheia de charminho. Será que pode melhorar?

Não vou mentir, eu estava com raiva. Mas aí... Passou assim que vi ela daquele jeito.

Eu sou um fraco!

-A Laura é uma dos poucos amigos que fiz – ela vinha andando e falando no corredor – então é bom não ter nenhum engraçadinho tentando algo com ela no dia. Não vou meter ela em nenhuma enrascada.

-Eu tenho amigos legais... Fica tranquila.

-Você tem amigos! – ela fez cara de chocada, rindo logo em seguida.

Ta, não sou a pessoa com mais amigos na cidade, mas não me importo com isso.

-Calada!

-Calado você! Ah, e só pra constar: comporte-se!

-Ta falando do que? Eu que deveria dizer isso...

-Meu querido, os dois de roupa de banho... Acha mesmo que eu deveria confiar?

-Iiih, ta se achando demais! Quem garante que eu deveria confiar?

Ela sorriu e mandou um beijo.

-Eu me garanto, meu bem.

Acompanhei seu corpo até sair da minha visão. Tinha que admitir que a chance dela estar certa era altíssima.


-Eu já ouvi! – eu sei que o despertador não escutaria minha falha tentativa de silenciá-lo com meu pedido.

Me arrastei até o banheiro, tranquei as portas e deixei a água quente cair na minha nuca até começar a arder. Isso por alguma razão desconhecida, me despertava na hora. Devia ser umas 8:30 da manhã, íamos sair às 9:00.

Bati na porta do quarto da Manu pelo banheiro mesmo. Nada. Bati de novo.

-Hum?

-Acorda e se arruma, avisa pra sua amiga que pegamos ela em meia hora.

-Por que tão cedo?

-Porque é um clube, não um lanche da tarde. Deixa de preguiça e levanta.

Me enrolei na toalha e voltei para o quarto. Vesti uma bermuda preta e uma camiseta amarela lisa que achei perdida pela gaveta, calcei o primeiro chinelo que vi e peguei uma mochila, colocando uma roupa extra caso eu entrasse na piscina, protetor solar e algumas folhas e lápis de desenho.

-Manu? – gritei do meu quarto mesmo.

-Não enche!

É, o humor dela não estava bom.

Larguei a mochila no sofá e fui para a cozinha. Enchi um copo com leite e bebi.

Olhei no relógio. Faltavam quinze minutos pras nove.

-Manu...

-Quase.

Ouvi o barulho da torneira, portas do armário abrindo e fechando, algumas coisas caindo no chão. Ela veio prendendo o cabelo – muito mal preso por sinal. Aquela garota realmente não sabia prender aquilo direito?

Estava de chinelo também – só que obviamente a dela era muito mais bonita e elaborada do que a minha. Usava um short de cós alto e uma blusa aberta de tecido fino e transparente, com mangas. Não tinha muitos botões porque certamente era pra ser usada com uma blusa por baixo, o que a Manu não fez, deixando a mostra o biquíni estampado.

-Cadê o resto da roupa?

-Ta de sacanagem né? Vamos pro clube, pra que vou colocar um monte de coisa?

-Eu disse que meus amigos são legais, e não que não são homens! Vai botar uma blusa pra pelo menos sair vestida do prédio. Não quero ter que te tirar da cadeia por atentado ao pudor!

Ela bufou e voltou para o quarto pisando forte. Não demorou e veio vestindo uma regata com tecido tão fino quanto a blusa que usava para sobrepor. Mesmo com a peça extra, ainda conseguia ver a estampa de seu biquíni.

-Melhorou?

-Não muito.

-Pois lide com isso, vai ser o máximo que vou colocar.

Ela fez uma careta e foi em direção a porta. Ela não tinha o melhor humor do mundo pela manhã e continuou de cara fechada o caminho todo até a casa da Laura. Pela primeira vez, eu a veria totalmente sóbria.

Percebi que a versão da Laura não bêbada era muito bonita. O cabelo era ondulado, cortado no fim do pescoço, de um castanho claro, quase loiro. Usava um chapéu bege que no geral eu acharia horrendo mas que nela, pareceu bastante elegante. Combinada com a bolsa de linho que estava pendurada no braço.

-Oi gente, bom dia! — ela cumprimentou ao entrar no carro.

-Isso é roupa de sair de casa, Manu – disse apontando para o macacão colorido da Laura, que ia até o pé. Era apenas implicância mas ela seguia de mau humor.

-Vai se fuder, Eduardo – doce que nem limão, essa é a Manu.

Sim, doce que nem um limão comigo, mas extremamente simpática e sorridente para todos os meus amigos. Assim que chegamos no clube, o humor dela mudou da água pro vinho. Guardamos nossas coisas em um cantinho da churrasqueira que havia sido reservada. Ela logo se afastou, sequer me deixando apresentá-la direito para todo mundo.

Não, eu não gostei disso. Sentei em um banco e observei por um tempinho, para ver se não era apenas coisa da minha cabeça.Os risinhos que soltava com o Caio, a cara fechada que fazia pra mim... O que tá rolando aqui?

-Eduardo?

Fui interrompido e me assustei, quase derrubando meu copo de refrigerante. Era a Laura.

-Oi, tudo bem?

-Sim, seus amigos são muito legais. Na verdade... — ela engoliu seco, as bochechas vermelhas — Eu só queria agradecer por ter me levado em casa aquele dia… Eu sei que tem muito tempo que rolou, mas…

-Não, relaxa – agora ela já estava vermelha que nem um pimentão.

Voltei para minha investigação. Continuei observando os risinhos bobos e as expressões que o Caio fazia.

Respira, Eduardo.

Ela cruzava as pernas. Batia de leve em seu ombro enquanto ria. Ele retribuiu o toque, colocando a mão em sua perna brevemente.

Calma, Eduardo.

Então ela soltou o cabelo que já estava caindo da falha tentativa de prender mais cedo e jogou o cabelo para o lado. Sorrindo de ponta a ponta da orelha, rindo alto das besteiras que eu sabia que saiam da boca do Caio quando queria alguma mulher. Um monte de baboseira que ele enchia a boca, fingindo valer algo mas era mais falso que nota de três reais.

Caio, eu juro que te mato! O problema nem era ela estar toda toda pra cima dele, e sim que o Caio tinha a pior fama entre todos nós! Minha linha de visão foi cortada com alguém entrando na minha frente para me cumprimentar.

-Fala cara, só deu pra chegar agora.

Gus.

O Gus era mais baixo que eu e tinha uns quilos a mais também, que no geral não o incomodava mas vez ou outra batia uma insegurança. Tinha piadas infantis e era muito mais bobo. Mas era gente boa, responsável e muito dedicado. Era meu melhor amigo.

-Ta atrasado, ein — disse tentando ver a Manu atrás dele. Levantei e aproveitei para usar a chegada dele como desculpa para me aproximar — Vem, tenho alguém para te apresentar. Seja adulto, por favor!

-Tentarei! — ele disse engrossando a voz, fazendo gracinha ao fingir que apertava uma gravata invisível e alinhando a postura.

A Laura já estava de costas para mim, balançando o corpo com a música que tocava e acompanhando a conversa de um grupo. Toquei no seu braço para chamar sua atenção, virando seu corpo de frente pra mim de novo.

-Oi Laura! Queria te apresentar meu amigo que acabou de chegar. Gus, essa é a Laura. Laura, esse é o Augus...

-Só Gus!

Ela me olhou confusa e o Gus me olhou com a clara mensagem de “te mato se falar meu nome!”. O Gus nunca gostou do nome verdadeiro: Augusto Henrique. Dizia que era nome de mauricinho metido... Vai entender né?

-Prazer, Gus — ela respondeu, com um sorriso.

-Então, você faz medicina também, igual a Manu?

Ótimo, ele começou a puxar assunto e não precisava mais de mim ali. Me afastei, deixando só os dois.

Voltei minha atenção pro Caio, cerrando meus olhos com força como se pudesse feri-lo com meu olhar. Logicamente, só faria efeito se eu fosse o Ciclope. Teria adorado torrar ele até virar churrasco. Tentei começar a arrumar desculpas para me aproximar sem chamar atenção.

Fazia muito tempo que eu não ia no clube e o calor de hoje estava de parabéns. Dava para fritar um ovo no asfalto, sem dúvida! Infelizmente, isso significava que a blusa que estava minimamente cobrindo a Manu, já estava sendo retirada. Observei ela se inclinar para tirar a peça, xingando mentalmente a crise climática que trouxe esse calor repentino e não permitia que ela ficasse vestida perto daquele traste.

O Caio aproveitou e se aproximou, tirando a blusa também, na patética tentativa de impressionar com o físico que eu sabia que era só bomba. O volume que deveria ser preenchidos por músculos no corpo dele tinha qualquer coisa, menos resultado da academia.

Pera, que? Daqui a pouco estão os dois sem roupa juntos! Chega.

-Manu! – gritei de onde estava mas fui ignorado. Cheguei mais perto – Manu! – ignorado. Mais perto – MANUELA!

Ela nitidamente me ignorava e se virou quando não deu mais para fingir que não me ouvia, olhando como se eu fosse louco. Já o Caio me olhou feio, nitidamente incomodado por ter interrompido o papo deles.

-Podemos conversar? To precisando de uma ajuda sua.

Ela levantou. Não parecia realmente brava, só irritada. Andamos um pouco e nos afastamos do pessoal. Ninguém pareceu realmente notar. O clube ficava na beira do lago e sentamos em alguns bancos perto da margem, na sombra.

-O que foi, Eduardo?

-Péssima ideia.

-Ta falando do que?

-To falando do Caio, ele não é pra você — ela riu e me olhou, incrédula.

-Eu só tô conversando com ele, não precisa se preocupar em marcar território!

-Desde quando – imitei tudo que ela tinha feito, rindo, mexendo os cabelos e cruzando as pernas – isso é conversar? E por que tirou a blusa?

-Primeiro, eu não te devo satisfação! Segundo: tá um calor do caralho aqui! E eu não mexo no cabelo desse jeito!

-Só to falando que...

-Ta com ciúmes Edu?

Opa!

-Claro que não — tentei parecer confiante.

-Então qual o problema se eu estiver interessada no seu amigo?

-Problema nenhum, é só que justo esse amigo não tem a melhor das famas e eu não gostaria de ver ele com você porque… Ele… — qualquer desculpa era válida — ele é um bombado safado que tá tentando usar o corpo falso e o papinho mais falso ainda pra ver por debaixo da sua roupa. Pelo tanto de bomba que ele usa, deve viver broxando. Já está avisada!

Levantei nervoso. Minha cabeça parecia ter dificuldade para formar uma frase decente para justificar o que eu estava fazendo.

Eu chamei mesmo ele de broxa? Sério, Eduardo? Era seu melhor argumento?

Comecei a me afastar e já estava saindo de perto dela quando ela segurou minha mão. Sua pele estava quente.

-Espera! – respirou fundo – Sei que to sendo chata e grossa desde que acordei... Desculpa, tá? Não faço de propósito. Acordei irritada e você virou alvo por ter me acordado. Males de conviver comigo e me deixar à vontade com você.

-Relaxa.

-Podemos conversar um pouco?

Fez uma carinha de “por favooooor”. Eduardo seu frouxo!

Voltei para o banco e sentei. Ela começou a me contar sobre como tinha sido bom dançar e de um tal Ben, um carinha que ela conheceu na academia de dança que ficava perto de casa. Os ânimos se acalmaram. Foi até... Agradável. Mas chegou uma hora que eu não consegui prestar muita atenção no que dizia. Aquela regata que pouquíssimo tampava estava me deixando fraco.

-To com calor. Vamos na piscina?

Ela travou na hora, mudando totalmente o semblante.

-Não, não... Sério, eu to bem aqui.

-Qual é Manu...

-Sério Edu, não!

-Se cuida então, eu já volto.

Levantei e fui para a água.


Manuela

“To falando do Caio, ele não é pra você”.

Então quem era pra mim? O Edu? Até parece!

Eu não estava flertando com o Caio. Estava apenas sendo simpática. Né? Ele nem me atraía então nem passou pela minha cabeça.

Depois de conversar, brigar e ser abandonada pelo Edu, fui atrás da Laura. Encontrei ela com um garoto – PARA tudo! É o Gus????? – e achei melhor não me intrometer. O calor estava horrível! Odeio calor!

Mas não... Piscina não.

Estendi uma toalha na sombra perto do lago e peguei o livro dentro da mochila. Coloquei a mochila na cabeça, servindo de travesseiro e coloquei os óculos de sol. Aquilo estava tão... Bom. O vento batia leve, eu ouvia a música que tocava longe, o som do lago...

-Manu!

Laura.

-Onde você tava? Tô te procurando há horas... Preciso te contar uma coisa.

-Pode falar.

-Aqui não – disse olhando para os lados – Tá calor, vamos pra piscina vamos?

-Não...

-Por favor Manu.

Fechei os olhos, sabendo que ela não ia desistir.

-Tá bom, mas rapidinho tá?

Dois motivos pra eu não querer ir: a Laura tem um corpo mil vezes mais bonito que o meu, era muita humilhação ter que ficar de biquíni com ela por perto. E... Eu não sei nadar, simples assim.

“Relaxa Manu, é só ficar no raso... Não é porque você se afogou uma vez e quase morreu que tem que ter medo”.

Mentira, eu tinha que ter medo sim.

Água comigo, só até a cintura. E olhe lá! Na maioria das vezes sequer entrava... Morria de calor, mas não entrava. Prendi o cabelo de qualquer jeito, tirei os chinelos e coloquei embaixo de uma mesa, junto com a bolsa. Olhei ao redor, algumas garrafas já estavam vazias e algumas pessoas começaram a sentir os efeitos de alegria do álcool. Pelo menos dessa vez a Laura tava bem. Não completamente sóbria, mas ainda tava bem.

Ela tirou o macacão e ficou só de biquíni, sem problema nenhum. Deuses, que humilhação. A pele dela era branca e hidratada, daquelas que reluz o viço da pele, sem nenhuma mancha, marca ou sequer cicatriz de espinha. A Laura era um pouco mais alta que eu mas menor, em questão de volume. Eu tinha mais corpo que ela, isso era evidente, mas o dela era muito mais definido, como se tudo estivesse em seu devido lugar. A cintura fina definida, as pernas definidas e os braços finos, sem sequer precisarem ser definidos. Ela tinha seios menores que os meus mas combinavam perfeitamente com o resto do seu corpo. Tudo proporcional como uma modelo profissional. O ápice era ela não ter uma celulite e o bumbum empinado como se malhasse por horas. O biquíni vermelho deixava ela ainda mais branca, mas também definia mais seu corpo já completamente definido.

Já falei o quanto o corpo dela era definido?

O monstrinho da vergonha corporal e da competição feminina gritou lá dentro de mim e engoli ele até afogá-lo. Não ia cair nessa pira, já fiz as pazes com o corpo que tenho.

-Vai de short?

SIM!

-Eu tiro quando chegar lá...

Olhei em volta e vi os caras quase babando, principalmente o que ela estava conversando antes. Alguns – como o tal Caio – a olhavam como se fossem comê-la! E eu to falando em todos os sentidos! Era quase como se ela fosse um belo bife e eles estivessem há dias famintos.

Tarados! É, acho que isso definia... Quer dizer, só alguns. A grande maioria na verdade.

Ela não pareceu se importar e só pegou uma canga estampada para levar.

Agradeci mentalmente por ter ido de regata, mesmo que agora já estivesse sem ela.

Não vou mentir, mas todos aqueles olhares no corpo da Laura me agoniaram. Não era inveja nem nada disso! Apesar do corpo dela ser incrível, eu estava em paz com o meu. Mas é que realmente me dá agonia quando estou com alguém e ficam olhando pra essa pessoa, tipo secando ela como um cachorro faz com um frango de padaria. Se fosse comigo, acredito que não teria apenas seguido, como ela fez. Não tinha tanta segurança corporal para isso e muito menos tanto controle da minha língua.

Assim que chegamos na piscina, ela entrou. Eu só sentei na borda, com as pernas na água. Pude ver o Edu brincando do outro lado, na parte funda com os amigos. Típicas brincadeiras de menino que eu nunca entendi e nunca gostei pois sempre envolvia alguém tentar afundar alguém.

-Não vai entrar?

NÃO!

-Depois... – respondi o mais casual possível – Então? O que queria falar?

-Ah, acho que seu “amigo” – ela fez as aspas com os dedos, cortando o ar — quer me juntar com o amigo dele.

-Isso é ruim? – ignorei seu gesto.

Ela olhava o céu enquanto falava. Encostou os cotovelos na borda, apoiando a cabeça.

-Não, mas também não é bom. Digo, ele é legal.

-Cadê a parte ruim?

-To com o pé atrás. É que... Sabe o Gus?

Entendi... E devo ter feito uma cara horrível.

-Juro que não é pela aparência! Pode parecer, mas não sou tão superficial de dar o fora em alguém só porque não tem um tanquinho – ela logo se defendeu – Conversei bastante com ele mais cedo, e gostei muito, de verdade. É só... Eu já tive relacionamento com garotos como ele, e agora tô sim falando da aparência! Eles são completamente inseguros, nunca acreditavam no que eu dizia e ficavam sempre duvidando do que eu sentia. “Você é linda demais para um cara como eu”, e aí terminavam! Eu estou cansada disso tanto quanto tô cansada de caras malhados que tem a cabeça vazia e acham que eu deveria ser burra por ser bonita… Quero sair desse ciclo de relacionamentos insuficientes.

Pera! A Laura, super gente boa, linda e com um corpo de chocar qualquer cara, levava pé na bunda de um nerd gordinho? Uau!

-Sabe Laura, acho que não é o caso do Gus... Além de que, não precisa ter nada com ele, não agora pelo menos. Espera um tempo, conhece ele direito e pensa sobre isso. Talvez vocês se tornem amigos. Deixa essa preocupação para a Laura do futuro.

Falando nele, pude ouvir ele e o Edu quase se matando do outro lado. Os dois se aquietaram e perceberam nossa presença. Cochichos, olhar de desconfiança. Cochichos de novo. Aceno com a cabeça em nossa direção. Não gosto nada disso.


Eduardo

-Chega Eduardo!

Eu ainda ria da cara do Gus. Ele nunca conseguia me vencer nessas lutinhas

-Você é um idiota mesmo, não acredito que fez isso com o Caio. Que mal tem se eles flertaram um pouco? Você mesmo defende com unhas e dentes que não tem nada com a Manuela.

Eu sei, eu sei... Me sentia mal. Mas não pude evitar na hora. O sentimento de homem das cavernas que precisava defender a fêmea falou mais alto e eu não me orgulhava desse posicionamento de macho alfa.

-Era isso ou ter que ver eles juntos!

-Você é um otário – ele disse em desaprovação.

Depois me deu um tapa no ombro, e falou baixo:

-Que tal uma competição? Sua garota e minha garota?

Minha garota? Sua garota?

-A Laura é sua desde quando? – e desde quando a Manu é minha?

-Você entendeu! Briga de galo!

Olhei para elas, estavam distraídas conversando. A Manu ainda seca, só com as pernas na água.

-Aceito.

Fomos nadando até elas. A Laura levou um susto, já a Manu não pareceu muito feliz.

-Não vai entrar?

-Agora não, estou bem aqui.

A Laura e o Gus se afastaram nadando, e ele provavelmente já tinha falado com ela, e até parecia bem animada.

-Preciso que me ajude em uma coisa...


Manuela

-Não! Eu não vou participar!

-Por favor Manu...

-Já disse que não!

Só se eu estivesse louca pra participar disso.

-Se não fizer por bem, eu vou te obrigar!

-HA! Nem ouse fazer isso! Não esqueça que mora comigo e que conheço muito bem de anatomia, então é muito fácil pra mim te matar sem deixar rastros.

Ele puxava uma das minhas pernas e eu me segurava na borda para não cair.

-PARA EDU!

-Putz Manu, é rapidinho, vai ser legal...

-Não!

Eu já estava ficando agoniada com isso. Eu queria, queria muito! Mas também tinha medo, e muito! Muito mesmo.

Ele soltou um tradicional “tsc” de quando se frustrava e fez força para sair da piscina, sentando do meu lado. Balançou o cabelo igual um cachorro, me molhando toda.

-Agora já tá molhada... Vamos Manu. Qual o problema? Veio para um clube pra nem se refrescar?

-Para Edu, já disse que não.

Eu olhava pra qualquer lugar, menos pra ele. Estava chateada. A vida inteira fugi das interações na água por medo então acabava sendo sempre a amiga que não se diverte e fica cuidando dos pertences.

Senti sua mão pousar na minha coxa. Não em um gesto sexual, mas sim de conforto.

-Qual o problema?

A voz baixa, parecia realmente querer entender. Só que... Eu era o problema.

-Não é nada.

-Vai mesmo ficar negando? Vamos lá, sou eu! Me deixa te ajudar.

-Eu não sei nadar – minha voz quase não sai.

-Só isso? É só por isso que não quer brincar com a gente?

-Só? SÓ? Eu já quase morri por isso, Eduardo.

Ele riu baixinho e me olhou.

-Ta rindo do que, idiota?

-Não confia em mim?

-Prefiro não responder sua pergunta…

Ele fez cara de ofendido e colocou as mãos no coração.

-Você quase me magoa quando fala desse jeito! Mas vou te dar uma chance de se redimir e vou considerar isso como um “confio!”. Agora sério, não vou deixar você se machucar. Eu te seguro, você não vai cair e morrer.

-É briga de galo! É óbvio que eu vou cair! Além de que, seu braço ainda não tá bom.

-Não precisa se preocupar com meu braço, eu tô bem! E acha que se você cair, eu vou deixar você ficar lá se afogando? Se você cair, eu te seguro antes mesmo de você sentir a água, prometo. Vai Manu! Deixa disso. Eu não vou deixar nada rolar contigo. Se você se machucar eu vou ter que cuidar de você e minha agenda já anda muito lotada pra ter que ser enfermeiro.

Não contive uma risada tímida ao ouvir seu tom convencido.

-Promete de mindinho?

Podem zoar, mas a promessa de mindinho pra mim é coisa séria! E ele sabia disso.

-Prometo pela mão inteira se quiser.

Engraçado como o medo sumiu de uma hora pra outra.

A Laura e o Gus já estavam do outro lado da piscina. Alguns amigos dele já tinham vindo se refrescar também, e uma pequena plateia se formou ao redor. Tirei o short, entrando na água quase que imediatamente. Já tinham olhado o suficiente pra parte de cima do biquíni, não queria que vissem a parte de baixo. Depois de como olharam a Laura, eu não confiava muito naqueles caras amigos do Edu.

-Se segura em mim, pode ficar tranquila... Além de que – ele baixou o tom de voz – Se você se afogar, sei fazer respiração boca a boca.

Cínico!

-Calado!

Ele riu e eu me segurei nas suas costas, prendendo minhas pernas em seu corpo enquanto ele andava pela piscina. Me sentia um filhote sendo carregado pela mãe protetora. Éramos ridículos.

-Pronto?

Estávamos de frente para eles. Laura, leve como devia ser, já estava nos ombros do Gus, e mostrava um enorme sorriso, super animada. Seus ombros estavam começando a ficar bronzeados do tempo no sol.

-Não sei não, Edu…

-Você consegue! Eu vou me abaixar, ai você coloca as pernas nos meus ombros. Quando eu subir pode se segurar na minha cabeça, só não me deixa careca puxando meu cabelo, ok? – ele virou o rosto pra falar, e eu devo ter me apertado ainda mais contra seu corpo, já que ele disse – Ei, calma! Eu vou tá embaixo de você, não tem como se afogar em três segundos...

Na verdade, tinha sim! E eu não queria repetir a experiência ou provar que era possível. Mas forcei uma falsa coragem pra me convencer de que era capaz. Eu podia me divertir como uma adolescente normal.

-Tá bom.

-Pronta?

Fiz que sim com a cabeça, mesmo sabendo que ele não podia ver. Ele puxou o ar e desceu, sem largar minha mão. Mesmo que por poucos segundos, quase entrei em pânico. Sentei nos seus ombros e ele não demorou a voltar para a superfície. Quase caí pra trás quando ele subiu, mas joguei meu corpo pra frente e tentei me equilibrar apoiando minha barriga na sua cabeça. Coitado!

-Sobreviveu?

-Não brinca comigo numa situação dessa... – alertei puxando seu cabelo.

-Ai, nervosinha – ele reclamou do puxão.

-Isso vai começar hoje ainda?

Eu não sabia de quem era a voz, mas minha vontade era de mandar ir lavar a casa da cachorra pra se ocupar!

Quando finalmente consegui me equilibrar sem quase deixar o Edu desfigurado ou careca, uma contagem começou.

Três...

Dois...

Um!

Tenho que admitir: foi divertido. Não demorou muito pra derrubar a Laura, e depois de alguns empurrões e braços entrelaçados, ela caiu de costas com tudo na água.

De uma hora para a outra, o Edu mergulhou, o que me fez cair com tudo de costas na água. O susto foi tão grande que nem tive tempo de pensar em ficar com raiva. Mas também nem deu tempo suficiente para pensar ou me apavorar. Mais rápido do que eu pensei, ele já tinha me subido para superfície de novo. E lá estava eu, novamente com as pernas entrelaçadas, com ele me carregando nas costas de um lado para o outro. Quando perguntavam, ele só ria e dizia:

-Ela é muito baixinha pra esse lado da piscina.

Agradeci mentalmente por ele fazer isso. Todo aquele povo que estava antes só observando a brincadeira, entrou na piscina, que começou a ficar realmente cheia. Entre todas as brincadeiras e pessoas nadando, achei melhor sair. Além de que, apesar do calor que fazia, o sol estava escondido em uma nuvem enorme e eu já estava começando a ficar com frio já que metade do meu corpo ficava pra fora da piscina. E eu já tinha segurado o Edu por tempo demais.

-Me leva pra borda?

-Mas já?

-Uhum.

Ele não perguntou mais. Soltei uma das mãos, segurando na borda. Dei um impulso e sai. Fiquei um tempo ainda só com as pernas na água, como estava antes. Ele se apoiou perto de mim, do mesmo jeito que a Laura estava antes.

-E ai?

-O que? – respondi tirando o excesso de água do cabelo.

-Se divertiu?

-Tenho que admitir que sim. Obrigada.

Ele deu impulso também, saindo da água. Notei que havia entrado de bermuda e não de sunga.

-Então... Por que não fica mais um pouco?

-Acho que chega por hoje, não quero ficar te prendendo.

-Cumpri minha promessa, você está bem! Acho que mereço isso… — ele se aproximou e baixou a voz — além de que eu tava amando você colada em mim.

Olha que abusado!

-Não Edu, já atingi minha cota de piscina.

Pensei que a conversa estava acabada, quando vi ele levantar. O safado estava pronto para me empurrar de volta para a piscina, mas consegui desviar, fazendo com que ele caísse com tudo na água, desequilibrado.

Ele voltou para a superfície, fazendo cara de indignado.

-Você não fez isso...

-Ah eu fiz sim! – respondi com orgulho e rindo.

-Você vai ver! Vou tirar esse sorriso daí.

Ele começou a vir na minha direção, e eu já sabia o que ele ia fazer. Levantei o mais rápido que pude e corri com o short na mão. Olhei para trás, ele já tinha saído da piscina e vinha atrás de mim, segurando a bermuda que estava pesada com a água. Sai da área da piscina com o salva vidas brigando com a gente por não poder correr ali. Desci as escadas que iam para o lago e corri na área de grama. Só que como ele mesmo ama lembrar, sou baixinha demais. Ele me alcançou em questão de segundos, segurando meu corpo com os braços fechados em volta de mim e me erguendo no ar.

-Me solta! — falei entre as risadas.

Eu tentava falar sério, mas não conseguia controlar o riso.

-Nops!

Ele me prendeu, me pendurando no ombro como um saco de batatas. Me senti uma primitiva sendo carregada daquele jeito, com o bumbum pro alto e de cabeça para baixo.

Comecei a sacudir o corpo e me espernear.

-Fica quieta se não a gente vai cair.

Não adiantou, continuei a me mexer. Dito e feito, caímos os dois na grama, rindo como loucos. Meu short voou da minha mão e eu não sabia onde tinha caído. Não parávamos de rir, sem sequer ver a real situação.

Quando percebi como estávamos, já era tarde. Sentia a grama pinicar minha pele, suja com uma mistura de água e terra. As respirações descompassadas pela corrida. Ele estava por cima de mim, os cabelos molhados caindo sobre o rosto, bagunçados e divididos com o vento que bateu durante a correria. O peito subia e descia, os corpos próximos. Sentia sua respiração ir e vir, os braços apoiados do lado da minha cabeça, suportando o peso, evitando cair todo seu corpo sobre mim. Os lábios entreabertos esboçando um sorriso. O rosto perto do meu, os olhos diretos nos meus. Senti meu corpo se aquecer e não era do calor do dia.

-Eu estava errado — ele disse, ainda sorrindo.

-Ta falando do que?

Seu olhar mudou, me analisando e parando nos meus lábios.

-Não dá pra me comportar com você assim. E você tava certa.

-Estava? — não conseguia pensar direito para dar respostas completas.

-Sim, não deveria mesmo confiar em mim.

-E por que não? — eu precisava da sua resposta.

-Porque... – seus olhos corriam por mim, revezando entre olhos, boca e busto – Porque...

Ele ainda estava arfando. Eu sequer me movia com medo daquele momento tão frágil acabar. E acho que mesmo que quisesse, não ia conseguir.

-Por quê...?

-Foda-se a explicação!

Abri um sorriso no mesmo momento que ele se abaixou. Senti seus lábios de leve nos meus, mas foi tão rápido que demorei para entender a interrupção.

-Puta que pariu, Eduardo!

Era a voz do Caio?

-Merda! – ele falou baixinho.

Saiu de cima de mim e foi em direção ao amigo, que nos olhava intrigado. Olhei ao redor, sentindo minhas bochechas queimarem ao perceber que estava deitada no chão quase sem roupa com um garoto em cima de mim. Levantei apressada, procurando o maldito short. Não muito longe de lá, Vi Gus e Laura conversando. Tinham acabado de sair da água e se secavam com as toalhas.

Achei o short e vesti o mais rápido possível. Corri até os dois, que ainda conversavam, mas já um pouco alterados.

-Tá tudo bem aqui?

Que pergunta idiota Manu, é claro que não!

-Manu, me escuta – o Edu virou, com os olhos já me implorando desculpa.

Desculpas pelo que, não sei.

-Ele apostou comigo, Manuela! Essa é a verdade.

De início, não entendi, até que tudo ficou claro.

Apostou?

Minha vontade era cavar um buraco e me enfiar lá, e só sair quando chegasse no núcleo da terra!

-Como é que é? — olhei para ele, torcendo para ser mentira.

-Não foi assim! – seu tom era de súplica.

-Então me diz: como foi?

-É Eduardo, fala como foi... – o Caio não tava ajudando!

-Cala boca, Caio! — o Edu praticamente rosnou.

-Me faz calar então — nessa hora, vi que era pura provocação do Caio e o Edu caiu feito um patinho.

A maturidade de dois meninos da pré-escola que estão brigando por uma bola no recreio.

Quando dei por mim, os dois já estavam atracados no chão, enquanto eu gritava e tentava separar os dois. E foi aí que eu descobri porque as garotas nos filmes nunca se metem na briga, ficam apenas gritando de fora de forma histérica e inútil: porque você pode ser atingida!

E foi exatamente o que aconteceu comigo.

Não sei de onde veio e nem qual dos dois me acertou, só senti meu nariz doer e o gosto de ferro na boca. Cai de bunda no chão, humilhada. Tampei o rosto com a mão e pude sentir a boca arder com o toque. Por sorte, o casal de pombinhos não muito distantes viram o que estava rolando e correram a tempo de apartar a briga.

-Para cara! – o Gus repetia enquanto segurava o Edu, que se debatia ainda tentando bater no “amigo”.

-Vem Manu, vamos limpar isso.

A Laura passou a mão pelos meus ombros e me levou até o banheiro. Não sabia o que era maior: a dor, a raiva, a decepção, a humilhação…


Eduardo

-QUAL TEU PROBLEMA, PORRA?

Eu estava sentado no banco do vestiário do clube, vendo o Gus andar de um lado para o outro, me dando bronca. Era sempre assim: apesar de infantil, ele sempre precisava me dar lição de moral depois de alguma cagada minha.

-Pensei que não ia levar a sério a aposta! Tu tem merda na cabeça?

-Cala boca Gus!

-Cala a boca não Eduardo, porque o errado é você! Então você fica bem quietinho aí pra não piorar as coisas pro teu lado! – ele parecia meu pai! – O que tava pensando pra cair na do Caio? Tava com merda na cabeça? Sabe muito bem qual era a intenção dele! Não é a primeira vez que cai no braço com ele por nada e...

-Nada? A Manu é nada agora?

-Sabe que eu não quis dizer isso e já disse pra ficar quieto! Porra Edu, o que eu faço contigo cara? Não dá mais pra aguentar essa impulsão toda! Por isso a Rachel...

-Não fala dela! – disse entre dentes.

-Não quer falar dela? Ótimo! Então me fala que merda foi aquela! Ou quer me contar o que vai fazer com essa luxação no braço? Isso vai demorar meses pra melhorar agora! Sem contar esse estrago no seu rosto.

Olhei no espelho, minha cara tava horrível. O lábio inferior cortado, o olho provavelmente ia ficar roxo. Mas eu sabia que o Caio estava muito pior do que eu.

-Eu vou marcar outra consulta...

-Claro que vai! E não vai ser com a fisioterapeuta gostosona!

-O que? Vai tentar controlar até a consulta agora, papai?

-Edu – ele finalmente parou de andar, parando de braços cruzados, apoiado na pia de frente para mim – tu sabe que é como um irmão pra mim, não sabe? Sempre me ajudou a fazer tudo, até as campanhas publicitárias e eu sou muito grato, de verdade. Sabe há quanto tempo a gente se conhece?

-Oito anos – resmunguei.

-É, oito anos! E sabe de quantas eu já te tirei nesse tempo? Muitas! Não uma, não duas... MUITAS EDUARDO! E olha que eu não sou exemplo de nada pra ninguém. Não to cobrando nada, eu juro! Mas nesse tempo, vi você com muitas meninas também. Mas nunca, eu repito, NUNCA te vi olhar assim pra alguma delas. Sair no tapa por elas, sim eu já vi. Agir igual um idiota? Também! Mas olhar desse jeito? Nenhuma! Nunca te vi tão bem! Nunca te vi tão comportado, com a cabeça mais focada, fora de encrenca... Nem com a Rachel! E olha que a Rachel era a garota mais perfeita desse mundo. Acorda cara, ela é diferente, e tá na hora de você ser diferente! Aceitar a provocação do Caio foi a coisa mais estúpida que você podia ter feito. Desde que a Manu veio morar com você, você tomou jeito, até na faculdade melhorou. Agora olha pra sua cara! E um de vocês acertou ela, sabia?

Meu corpo gelou quando ouvi ele dizer isso.

-O que? – levantei de uma vez – Ela ta bem?

-A Laura ta com ela.

-Onde elas tão? — caminhei em direção a porta, pronto para encontrar ela.

-Nem pense em sair daqui! — ele me barrou colocando a mão no meu peito — Ela não deve estar querendo ver você nem pintado de ouro! Tudo que vou falar agora é porque me importo com você. Quero o seu melhor. Já percebi como vocês ficam quando estão juntos, e nem to falando de romantismo nem nada. Ela sabe que você não é perfeito Edu, ela sabe... Da mesma forma que você sabe que ela não é perfeita! Ela te faz bem, cuida de você, te põe nos eixos... Não perde ela Eduardo, não perde por bobagem, por besteira, pelo idiota do Caio! Acorda pra vida, irmão!

Ele respirou fundo, cansado daquilo.

-Eu não pensei...

-É, você não pensou! Você não é muito de pensar, mas às vezes se supera! Agora pode me explicar o que o Caio propôs?

Já parecia burrice antes, mas agora era ainda pior. Um misto de vergonha com raiva de mim mesmo me invadiu.

-Depois que deixei a Manu para ir pra piscina, ele veio falar comigo, antes de você chegar. Eu sabia que a única coisa que ele queria dela era o que tinha embaixo no biquíni, e mandei ele deixar ela em paz. Então ele me desafiou, disse que esquecia disso se eu ficasse com ela, apostou comigo. Eu não ia fazer nada, juro que não ia, não ia ganhar nada com isso. Só queria ele longe dela. Eu não sabia que ia acontecer daquele jeito, eu não planejei, quando tava os dois lá caídos na grama rindo... Eu não lembrei de aposta nem nada, éramos só nós, como somos em casa. Eu não fiz por mal. Até que quando ele gritou, eu percebi o verdadeiro joguinho dele. Era pra eu parecer errado, e realmente fui! Eu sei que não to certo nessa situação mas ele piorou tudo! — como eu pude ser tão burro? — Ele disse que eu tinha apostado que ficaria com ela, como se eu tivesse tido escolha! Ta que eu tive e escolhi entrar na dele mas definitivamente não beijei ela por isso. Sou idiota mas nem tanto! E aí, ele me provocou mais… Quando dei por mim, já estava esmurrando a cara dele com a Manu gritando.

Olhei para minha mão, cheia de hematomas nos nós dos dedos e me toquei do quão errado tudo tinha sido. Será que eu tinha acertado ela?

-E agora?

-Agora ela vai me odiar... Acabou Augusto, acabou.

Ele nem se importou com o nome citado.


Manuela

Me encolhi com o toque do papel úmido que a Laura passava no meu rosto. O soco na verdade tinha pego de raspão, pegando meu nariz e minha bochecha. O impacto acabou cortando minha boca por dentro e por isso o gosto de sangue.

-Isso vai ficar feio...

-Eu sei – respondi me encolhendo de novo – Me diz Laura, como eu cheguei nesse ponto? Levei um soco tentando separar uma briga, tô morando com um cara que eu nem conhecia no início do ano e talvez tenha me acertado hoje, mentindo pra minha mãe... Como isso aconteceu?

-Querida, eu lamento...

-Eu também.

Segurei o choro para não me sentir ainda mais humilhada.


Eduardo

Já tava todo mundo acostumado com minhas brigas com o Caio. Como o Gus disse, não foi a primeira vez que saímos no braço. A Manu nem olhou na minha cara. Se enfiou dentro do carro muda e saiu calada. A única coisa que disse foi “Tchau” pra Laura, quando chegamos na sua casa.

A bochecha direita estava um pouco inchada, muito vermelha. Acho que tanto pela raiva que devia estar quanto pelo soco.

Quando entramos no estacionamento, desceu do carro batendo a porta. Entrou no elevador e subiu sozinha. Esperei o elevador descer de novo, e quando entrei no apartamento, ela estava sentada na mesa da cozinha, com uma bolsinha de gel gelada no rosto. Uma das mãos apoiava a bolsa, a outra apoiava o rosto, tampando os olhos. Suas mãos tremiam.

-Manu...

-Não fala comigo! – disse entre dentes, fula da vida.

-Para com isso. Deixa eu me explicar pelo menos...

Ela levantou furiosa, jogando a bolsa em mim.

-QUER SE EXPLICAR? ENTÃO SE EXPLICA!

Ela me olhou com raiva, os braços cruzados sobre o colo e o lábio tremendo. Todas as palavras sumiram da minha boca.

Eu sou um merda mesmo!

-Deixa, depois a gente conversa. Primeiro esfria a cabeça.

Pude ouvir ela rir, seca. O tipo de risada irônica. Saí em direção ao quarto, mas não fui muito longe.

-Covarde!

Eu sentia dor, e não era física. Voltei, arrependido e envergonhado.

-Eu lamento...

-Lamenta? — ela riu mas sem humor — Realmente, era o mínimo que podia fazer! Mas lamentar eu também lamento! E quer saber? Não quero sua lamentação, guarde ela para você! Pega seus lamentos e enfia onde você bem quiser! Queria se explicar? Ótimo, explica então, tô ouvindo!

Seus olhos lacrimejavam, e eu podia ver a raiva crescendo em seu olhar.

-O Caio queria que eu te arranjasse pra ele. Mas eu conheço o histórico dele, então neguei. Então ele disse que te deixava em paz se eu ficasse com você...

-Então ficou comigo por uma aposta idiota? Por ser incapaz de conversar comigo e precisar marcar território?

-NÃO! – me apressei em dizer, estendendo os braços pedindo calma – Quando a gente tava junto eu sequer pensei naquilo, em nenhum momento. Ele fez de propósito! Quando ele deu aquele grito... Foi tudo planejado! O Caio não presta... Por isso te falei aquelas coisas naquela hora, por isso não gostei de você perto dele. Nós já brigamos milhares de vezes, por isso todo mundo ignorou. Me desculpa, eu fui burro em cair na dele.

-Burro? Burra fui eu! Você foi a um nível tão baixo Eduardo, que eu nem sei o que falar. “Olha, vamos apostar quem pega ela primeiro” – ela disse engrossando a voz como se nos imitasse — PATÉTICOS! Eu sou o que? Um prêmio? Um objeto? Quer dizer, eu sou a recompensa da disputa? Ou eu era o prêmio de consolação? Pera, eu era o troféu? Devia me sentir honrada...? — sua voz mesclava ironia e raiva.

-Não é nada disso, Manuela...

-Não é? Então o que é? Porque pra mim, isso era uma competição de quem ficava com a otária aqui primeiro! E meus parabéns Eduardo, você ganhou! – ela começou a bater palmas com mais ironia, como se já não tivesse sido irônica o suficiente – Pode vir buscar seu prêmio!

Ela tirou o short e a blusa que tinha vestido no caminho, jogando nos seus pés as peças, ficando só de biquíni de novo, com os braços abertos.

-Não era isso que vocês queriam? Então to aqui, sou toda sua. Meus parabéns, você conseguiu!

O lábio tremendo tentando controlar o choro, mas as lágrimas desciam no rosto, pingando no busto. Não consegui reagir. Me sentia derrotado.

Ela me lançou o pior dos olhares de reprovação, catou as roupas e foi para o quarto.


Manuela

Fechei a porta do quarto, trancando. Corri e tranquei a que dava acesso ao banheiro também.

Revi tudo que tinha acontecido. Senti minhas pernas me traírem e não suportarem meu peso. Não lutei contra minha fraqueza. Meu corpo escorregou até o chão e me permiti ficar ali por alguns instantes, processando a merda toda que tinha acabado de acontecer. As roupas jogadas no meu colo, amarrotadas. Meu biquíni ainda estava molhado e eu estava começando a ficar com muito frio. Mas não me importei com isso.

Não era raiva, ou tristeza, ou mágoa. Não era nada. E esse era o problema. Eu só fiquei ali, me sentindo...

Suja? Humilhada? Usada?

Não sei quanto tempo fiquei sentada no chão, olhando as paredes do meu quarto, revendo tudo que tinha rolado. Me torturando pela situação que me enfiei. Ouvia de novo o som dos meus próprios gritos, a dor que senti, o barulho do punho fechado contra o rosto do Caio, o Gus gritando, a Laura me acolhendo.

Mais socos, mais socos, mais socos.

Fechei os olhos com força mas só via os borrões. O rosto do Caio, com sangue que eu nem sabia onde estava machucado. O rosto do Edu me encarando agora na sala. A boca machucada, o olho roxo...

Era por isso! Por isso eu não queria gostar de ninguém. Por isso eu afastava as pessoas. Era só por isso!

Me permiti sentir pena de mim por míseros cinco minutos e repeti mentalmente várias vezes:

“Você não é assim!”.

Levantei e peguei minha toalha. Tranquei todas as portas e joguei o biquíni molhado no chão do banheiro. Nunca gostei de água muito quente, mas deixei o chuveiro esquentar ao máximo, embaçando o espaço com vapor em pouco tempo. Meu corpo gelado levou um susto com a água mais quente que o normal. Não demorou para minha pele ficar vermelha com a alta temperatura. Cerrei os olhos com força, a garganta fechada, o impulso de gritar era enorme. Fechei as mãos contra a parede, batendo continuamente mas sem força. Burra! Idiota! Burra! Idiota!

Desde que me mudei, esse momento foi o pior para mim. Senti falta de ter alguém pra conversar, de alguém que se importasse... Eu sabia que tinha a Laura mas ainda sentia vergonha só por ela ter presenciado aquilo. Queria minha casa, minhas coisas de volta. Minha cama, meu quarto, minha irmã e sua bagunça espalhada pelo chão. As invenções de comida que minha mãe fazia... Eu queria o Sam. Queria conversar com ele sobre tudo que havia acontecido. Comecei a chorar no banho, o que nunca tinha acontecido. A água que batia no meu rosto ardia ainda mais o recém machucado. Voltei a sentir o gosto de ferro na boca e sabia que a água quente tinha feito o sangramento voltar.

Fechei o chuveiro e me enrolei na toalha, deixando meu cabelo pingar por onde eu passava. Vesti o pijama e deitei na cama. Dormi daquele jeito mesmo, sem sequer me importar em desligar a luz.