Ainda É Cedo
28 Um Morto-Vivo Chamado Clint Barton
Notas iniciais
#Isadora
Nada que eu tenha visto ou vivido até hoje me preparou para este momento. Todos nós já imaginávamos que Clint não estaria muito bem de saúde, todavia não esperávamos que ele tivesse virado um zumbi. Sim, zumbi. Não há nada mais parecido para comparar. Clint era um cara de um metro e oitenta que no atual momento pesava no máximo trinta quilos. Se não bastasse a magreza quase africana, encontrava-se nu em meio aos próprios dejetos e ferimentos.
Estávamos em estado de choque.
–Precisamos tirar ele daqui, Isa. – Domi quebrou o silêncio e notei que a saraivada de tiros do lado de fora estava mais intensa.
Clint gemeu algo. Era difícil entender o som que saia de sua boca, não eram palavras era apenas no ar cortando sua garganta. Domi se abaixou para analisar o quadro clínico do morto-vivo.
–Você está certa, mas como vamos tirar ele daqui? Ele está pelado e lá fora está fazendo -30ºC.
A sujeita coçou a cabeça, nervosa, andando para um lado e para o outro. O fedor insuportável da pessoa morta e de Clint estavam me deixando com náuseas.
–Ei olha aquilo! – exclamei apontando a lanterna para um armário atrás do defunto pendurado – É um almoxarifado! Com certeza tem um macacão ou sei lá o que.
Com as mãos sobre as narinas, atravessei a sala enquanto Domi conversava com Clint perguntando onde doía. Graças que ela é enfermeira! No meio da escuridão conseguia encontrar alguns panos (que depois percebi que eram edredons!) e levei até Domi que tinha o olhar de quem via a morte abeira do abismo.
– O que foi?
Ela não respondeu apenas iluminou os joelhos do rapaz. Não eram mais “joelhos”, eram duas bolas roxas e cheias de pus. Deu nojinho! Deu muito, muito nojinho!
–Isso vai gangrenar Isadora. – condenou com a voz fúnebre – Esse cara vai mo...
–Shi! – a interrompi – Nem fala nisso! Vai ficar tudo bem! Toma isso enrola ele – entreguei o edredom – Vou ver se a barra está limpa.
Fui até a porta e felizmente estava tudo no mais puro silencio. Só havia as pessoas que encontramos na vinda, mas estas estavam desacordas (ou mortas!) devido aos disparos da caribenha. Obriguei-me a não ligar para as pessoas feridas no chão, afinal, eram todos mafiosos. Que horrível! Só porque são da máfia merecem morrer?
–Foca no Barton! Foca no Barton! – repeti para mim mesma antes de retornar a sala de tortura.
Os tiros começaram a ficar distantes. Parecia que não vinham mais do forte. Fiquei cabreira! Deveríamos ter trazido os Walk Talks de Phil, mas com a pressa da ruiva foi difícil lembrar-se disso.
–Isa me ajude a colocá-lo nessa maca! – pediu a outra após enrolar o arqueiro. Coitado! Agora ele estava parecendo um churros, tooooodo enroladinho na coberta.
Com certa dificuldade conseguimos botar o homem sobre o leito móvel. Ele estava tão podre e fraco que parecia que ia desmilinguir. Dominika que tinha coragem de atirar no que cruzasse nosso caminho foi na frente, enquanto eu a segui empurrando a criatura que ainda tentava se comunicar comigo, embora eu tenha pedido para que ele calasse a boca. Eu sei, fui rude! Mas, o que posso fazer se o estado deplorável dele me assusta? Sem contar que os “Uaah Arrr Maaar” que ele solta me dão a sensação de que ele vai se levantar e tentar me morder.
O plano era levar Clint para o nosso carro (que estava inquestionavelmente bem escondido dentro da mata!) e esperar todo mundo voltar. Dominika e eu seguimos o plano. Chegamos ao alto do monte completamente cansadas e arfantes, contudo o resto do povo não estava lá. E também não estava no forte, pois o lugar agora estava calmo e os “trabalhadores” do local ajudavam uns aos outro.
O pânico começou a se abater sobre mim. Colocamos Clint dentro do veículo e ligamos o aquecedor. Onde está Steve? Será que o pegaram? Ai meu Deus!

–Cadê eles? – gritou Domi enquanto chutava uma pedra – Precisamos sair daqui! Os homens de Nikolaievitch estão procurando a nossa caça!
–Temos que esperá-los. Será que ficaram presos lá dentro?
Domi franziu o cenho ao mesmo tempo em que contraia os lábios.
–Já sei! – soltou após um tempo – O binóculo da Natasha!
–A Natasha tem binó...
Nem terminei de falar e a sujeita já havia pegado o objeto no carro e colocado frente aos olhos.
–E como é que isso nos ajuda? – quis saber
–Nos ajuda a observar o forte do Aleksey. – respondeu olhando o lugar – Tem carros voltando... E as pessoas estão felizes. – narrou o que via – E tem carros saindo com gente armada... Tem alguma coisa...
Catei o negocio da mão dela para ver. E ela tinha razão! Estavam contentes. Mas, por quê? Acabaram de ser invadidos... Provavelmente ainda não perceberam que um preso sumiu. Talvez Steve e Sam tenham, ido buscar nosso avião (aquele que nos trouxe dos Estados Unidos até aqui) de uma vez. E se...
O barulho de passos sobre o mato cortou minha linha de raciocínio. Arregalei os olhos tremendo de pavor e apontei a arma para o meio do mato. Dominika sussurrou “atira”.
Estava pronta para atirar quando Sam cambaleia para fora do matagal quase me matando de susto.
Abaixamos as armas, aliviadas.
–ENTRA NO CARRO! – gritou Steve correndo atrás dele seguido de Natasha – Rápido entrem no carro!
–Acharam o Clint? – quis saber Romanoff
–A-Achamos, mas o que está havendo? Por que demoraram tanto para chegar? – devolvi os questionamentos entrando no carro.
Todos entraram no veiculo em velocidade assombrosa. Sam acelerou com o carro no momento em que Natasha começou a chorar abraçada ao amigo no banco de trás. Ninguém disse nada pelos vinte minutos seguintes e a ruiva continuou chorando de forma exorbitante. O choro dela era tão angustiante que quando dei por mim já chorava também. Sam e Dominika estavam estupefatos com o fato da “terrível, fria e insensível” colega estar tão... Frágil naquele momento.
Steve me abraçou ao ver que eu chorava.
Seguimos por mais uma hora e percebi que estávamos na direção oposta á localização da aeronave.
–Gente. – quebrei o silencio – Aqui... O avião não fica por aqui, vocês estão no caminho errado.
–Não tem mais avião! – gritou a russa com a voz roufenha carregada de raiva – Aleksey descobriu a localização e queimou tudo. Agora é só uma questão de tempo para ele dar com a língua nos dentes e a SHIELD nos localizar.
Taciturnidade voltou a reinar no Suburban. Nosso plano tinha definitivamente ido para o espaço. Plano? Afinal nós tínhamos um plano ou uma suposição? Suposição de que Clint tivesse um dossiê que provasse alguma das zilhões de transações corruptas da SHIELD e suposição de que com isso em mãos produziríamos uma grande revolução na sociedade ocidental. Só tínhamos hipóteses!
Quanta infantilidade! Quanta imbecilidade de nossa parte!
Como se nós, membros do povo, fossemos algum dia conseguir ferir o império. Clint mal consegue falar provavelmente passou por terríveis torturas, não nos servia de nada naquele momento. Clint era peso morto.
–Vamos para Irlanda. – decretou Steve – O irmão da Isa nos deu a chave de um sítio em Pale, disse que é seguro e afastado. Podemos ficar lá por um tempo até Barton se recuperar.
Natasha soltou uma falsa gargalhada que atingiu meus ouvidos com uma chuva de agulhas.
–Para a Irlanda? – perguntou ela de forma debochada – E como você pensa em chegar lá? De carro? A IRLANDA É UMA ILHA Á QUASE TRÊS MIL QUILÔMETROS DAQUI! E o Clint.... – ela voltou a chorar. Era tão estranho vê-la chorar. Encararia com mais naturalidade ver um cachorro falando do que a monstra em lágrimas – O Clint não vai aguentar uma viagem longa dessas.
Virei-me para trás para tentar acalmá-la.
–Calma Natasha. – pedi no tom mais delicado que encontrei – Vai dar tudo certo. Temos dinheiro, podemos comprar remédios, esparadrapos e alimentos para ele; e Dominika é enfermeira. Cuidou de mim depois que Sharon quase me matou e vai cuidar do Barton também.
O semblante dela tornou-se mais leve.
–Precisamos de um avião. – afirmou secando os olhos com as costas das mãos – Sam eu sei onde há uma pequena frota de jatos.
Ah não... Outro assalto, não. Fitei Steve na esperança que ele tivesse uma forma de ir para a Irlanda sem roubar ninguém, mas apenas deu de ombros.
–Gente eu sou técnica em enfermagem! – corrigiu Domi já em pânico – Eu auxilio enfermeiros, não sei cuidar de pessoas no estado deste cara!
Pronto, Natasha voltou ao estado de pânico. Clint apagou ao lado dela, babando.
–Martinez você realizou uma operação no pé da Isadora, ou seja, é perfeitamente capaz de tratar e nutrir o Gavião. – Steve usou de sua liderança para botar o grupo nos eixos. Agradeci mentalmente a ele por isso! –Romanoff, sem pânico! Pânico não ajuda em nada em uma situação como essas. Cada um vai fazer a sua parte para chegarmos a Pale sãos e salvos, entenderam? Se este homem morrer, toda e qualquer possibilidade de voltarmos para casa acaba.
O pessoal pareceu se acalmar um pouquinho, principalmente porque tínhamos construído uma distancia segura de Oymyakon, embora toda a Sibéria não seja segura para alguém que invadiu o império de Nikolaievitch.
–Onde fica essa frota? – perguntei
–Magadan. – respondeu ela acariciando os ralos e oleosos cabelos de Barton – Estamos bem perto.
E estávamos mesmo. Dirigimos por mais uns quinze minutos até encontrarmos uma cidadezinha no meio da neve. Paramos enfrente a uma farmácia e Domi desceu para comprar as coisas para Clint. Dezenas de minutos depois voltou repleta de anti-inflamatórios, gases, esparadrapos, remédios de alívio para dor, agulhas, soro fisiológico, uns remédios para injetar... Enfim, comprou quase a drogaria toda.
Agradeci mentalmente a Phil por ter nos dado dinheiro. Imagina a loucura se estivéssemos duros!
Com os remédios comprados faltava a pior e mais desleal parte: O roubo. Ai que horrível que eu me sentia por participar de uma coisa dessas! Steve, eu e Clint (que ainda estava desacordado) ficamos no carro enquanto nosso trio oficial de assaltantes fazia o serviço sujo metros á diante.
Steve soltou um longo suspiro.
–Não pensei que fossemos usar o sítio do seu irmão tão cedo. – sussurrou ele em meu ouvido antes de beijá-lo suavemente.
–Eu também. Mas, como você bem disse, há dois dias, “na guerra o tempo passa mais rápido”. Em um dia estão ocorrendo coisas que deveriam acontecer ao longo de trinta.
Steve me apertou mais contra si roubando-me um sorriso bobo.
–Ainda bem que tenho você.
Não resisti a fofura, tive que beijar aquela coisa linda que agora eu podia chamar de namorado. Começou lento, um simples toque dos lábios, logo senti a língua dele pedindo permissão para aprofundar o beijo, o que foi permitido de imediato. O beijo acelerou, demonstrando carinho, amor, mas ao mesmo tempo, desejo e paixão. Quando começavam a perder o ar, paravam, mas em questão de milésimos, após o fôlego retomado, nossas bocas voltaram a se unir.
Já tinha até esquecido que tinha um homem semimorto no banco de trás.
Steve deixou minha boca para me abraçar depositando, cruelmente, um beijo em meu pescoço.
–Eu sou muito lerda mesmo! Como pude não perceber antes? – sussurrei
– Percebeu o que?
Nós dois não nos olhávamos pelo fato de estarmos vidrados, no pescoço do outro, alternando entre beijos e sussurros ao pé do ouvido. Fiz o sacrifício de me separar para poder responder olhando em seus olhos um sonoro:
– Que eu precisava de você! Não ia aguentar mais um segundo sem seus beijos
– Ah Isa!- exclamou ele sorrindo de uma forma tão linda, mas tão linda que parecia uma pintura – Eu não sei como consegui esperar você se decidir, sabia? Você é muito racional.
Tive que concordar com a última frase. Já havia chegado a essa conclusão sobre mim naquele banheiro de hotel na Mongólia. Acariciei o rosto de Steve ternamente.
– O importante é que agora estamos juntos e por mim eu fico assim pra sempre!
– Pra sempre?
Sorri mais ainda, tanto que o canto da minha boca chegou a doer.
–Sempre! – respondi entre um riso e um selinha – Sempre – e então outro beijo – E sempre! – e mais um.
–Eu te amo, sabia? – perguntou ele juntando sua testa a minha
–Eu sei.
–Convencida!
–Previsível! – revidei
–Previsível?
–É ué... Aff se apaixonar por mim. – ironizei – Uma atitude muito previsível. Todo mundo se apaixona, sou irresistível.
– Ah é dona Isadora? – devolveu a pergunta rindo junto comigo – Sabe que você está certa?
–Eu sei! – concordei em uma gargalhada, sendo mais convencida impossível.
Steve começou a fazer cócegas em mim e eu ria descontroladamente quando... O povo volta e acaba com nosso momento.
–Que bonito,vocês dois! Que bonito! – ironizou Natasha revoltada – O Barton quase morto e vocês aí apaixonados.
–Desculpa, não sabia dessa lei que impede o namoro quando um agente americano está gravemente ferido. – repliquei sarcástica, arrancando gargalhadas de todo mundo ali no lugar.
–Chega de conversa pessoal vamos logo para o avião. –ordenou Sam pegando sua mochila sobre o banco do motorista
Por um momento esqueci que estávamos fugindo dos maiores traficantes do mundo, do maior governo do mundo e ainda carregando um zumbi no banco de trás. Aff! Pode cortar para parte em que Steve e eu estamos felizes e sem preocupações?
–Meninas peguem o que puderem pegar, porem não exagerem. – liderou-nos Steve, fofíssimo, se preocupando com a quantidade de peso que nós moças pegaríamos – Sam e eu vamos levar o zum... Quer dizer, o Barton para o jato, depois voltamos para pegar o resto das coisas.
Tive que usar de todo meu alto controle para não rir do furo do capitão. Sam, que ainda não foi apresentado ao alto controle, explodiu em uma gargalhada.
–Quer calar a boca ou quer que eu encha de pancada? – rosnou a sarará já fechando os punhos.
Domi se afastou para dar risadas em segurança. Fui até ela para saber como tinha ocorrido o nosso quarto ou quinto assalto.
–Ei Dominika.
–Oi.
–Aqui é seguro? Isto é, o alarme não vai tocar e policiais aparecerem e nos encarcerarem? – investiguei temerosa.
A guatemalteca riu baixinho.
–Não, não. Fique tranquila só tem três jatos aí e é noite. Não tem ninguém aqui, só notarão a ausência de uma nave amanhã quando já estaremos em Pale.
–Ótimo! – agradeci indo levar as coisas para dentro do jato
O jato não era lá um grande e sofisticado avião como o da SHIELD, mas era forte o suficiente para encarar às quatro horas e meia até a Irlanda e grande o suficiente para acomodar nós sete, servindo ainda de UTI para Clint.

Sam e Steve instalaram Clint (ou o que restou dele!) sobre o sofá perolado próximo a nossas cadeiras e Natasha (que agora já voltara a ser a Natasha de sempre) o vestiu adequadamente. Mesmo se sentindo pressionada a fazer algo que não está preparada, Dominika começou a cuidar do Gavião – que estava parecendo uma pomba atropelada – e o colocou no soro. Segundo ela o organismo dele não conseguiria digerir nada sólido pelos próximos dias.
Natasha e Sam assumiram suas posições de piloto e copiloto deixando Domi como médica e eu e Steve como enfermeiros. Não podia prestar óbvio. Eu tenho horror a sangue, ferimentos, gente sofrendo, gente torturada. Eu como enfermeira sou uma excelente publicitária.
–Isa molha esse pano na piazinha do banheiro e limpa essas cracas do rosto dele. – pediu a “médica” regulando o quanto de soro e analgésico deveria cair na veia do paciente.
–Aham. – concordei sem coragem.
Ninguém merece! Ninguém merece! A cara dele tinha craca de FEZES e SANGUE seco. Só Deus sabe pelo quê esse pobre homem passou. E nós íamos ter que ficar na curiosidade até ele ter força para falar alguma coisa.
Sem escolhas limpei o rosto do sujeito, morrendo de nojo e pena. Coitadinho, gente! Parece até um aidético.
–É... Ao que parece um dos métodos utilizados pelos torturadores foi à inanição. – informou Steve sentando-se em uma poltrona próxima. – Os nazistas faziam isso com os judeus até que eles falassem o que queriam saber.
–Não foi só inanição que eles usaram não, Capitão. Olhe os joelhos – Domi apontou as bolas roxas e desproporcionalmente inchadas que um dia foram joelhos – Isso são tiros. Tem duas balas alojadas em cada um... Não sei se vai dar tempo de fazer alguma coisa.
–Como assim não sabe se vai dar tempo, Dominika? – me revoltei – Tem que dar...
–Pelos meus cálculos esse joelho está assim há no mínimo duas semanas. Isso vai gangrenar e se gangrenar...
–É amputação ou morte. – Steve fez o favor de concluir o raciocínio da caribenha
Fiquei boquiaberta com tal hipótese. Meu Deus, não! Moço jovem e sem pernas? E nas nossas atuais circunstancias em que correr é fundamental?
–Vai dar tempo sim. Amanhã você vai operar esse cara. – exigi – Tem tudo para uma cirurgia aí?
Ela confirmou com a cabeça embora seu semblante fosse de pavor.
–Eu nunca operei ninguém sozinha, Isa. Tirar uma bala de raspão de um pé é uma coisa, operar um joelho cheio de nervos e veias é outra.
Steve passou a mão sobre os cabelos, tenso. Put’s grilo!
–Para tudo tem uma primeira vez. –concluiu Steve indo em direção á cabine.
No mais ensurdecedor silencio pus-me a limpar os joelhos deficientes de Clint enquanto a outra aplicava algo em sua veia.
–O que você está colocando nele?
–Morfina. É a única coisa forte o suficiente para que ele não agonize com a dor dos joelhos. É o que o mantém dormindo.
Arfei profundamente entristecida com o quadro. Além dos joelhos, os olhos e a boca dele estavam inchados e os pés possuíam uma enorme e infeccionada ferida.
–Meu pai dizia que se algum dia eu precisasse atirar em alguém para viver, atirasse no joelho. – me lembrei com amargura de meu velho – Ele disse que é uma dor insuportável e não mata de inicio.
–Seu pai sabia bem o que dizia. –assentiu a morena.
Ficamos mais um tempo em silêncio cuidando do sujeito até às quatro horas passarem.
–Bem vindos ao Sítio Jocelyn Beach em Pale, Irlanda. – saudou-nos Sam com seu habitual bom humor trazendo á todos um pouco de esperança.
–--------------------------------------------------------------------------aa
#Steve
Após trinta dias dormindo desconfortavelmente em bancos automobilísticos, saber que agora eu tinha uma cama (mesmo que por pouco tempo) me deixou contente. O sítio do irmão de Isadora era um lugar lindo, repleto de árvores, flores e com uma pequena e aconchegante casinha feita com madeira reflorestada – Segundo a Isa. Sobre todas as coisas lindas que mencionei nada superou o meu reencontro com o sol. Como é bom ver o sol! Como é bom não precisar usar cinco casacos térmicos e mesmo assim congelar.

Resumindo, me apaixonei pela Irlanda.
Tive meu tour pelo pomar interrompido pelos gritos de Isadora que me chamava para entrar.
–Ei gnomo preciso de você aqui.
Rolei os olhos com o apelido infame, mas não tive coragem de reclamar. Estávamos felizes demais um com o outro para iniciar outra discussão sem fundamentos.
– O que foi, querida ?
– O Clint teve uma convulsão está... – Isadora começou a fazer uns gestos sem sentido com as mãos, com o semblante desesperado – Ele ficou babando e vomitou sangue.
–Me-Me-Meu Deus! Ele está bem?
Ela deu um tapa no meu braço.
–Eu disse que ele vomitou sangue e você me pergunta se ele está bem? ELE VOMITOU SANGUE! – reclamou ela irritada – Mas, ele já melhorou se é isso que quis dizer. Só que a Domi está querendo operá-lo agora e precisa de você lá.
Arregalei os olhos temendo a ideia de operar alguém.
–Ela quer que eu a auxilie na operação?
–Aham. Eu disse que ia desmaiar se visse sangue, o que é verdade, então ela disse para que você fosse em meu lugar.
Era só o que me faltava. Se não bastasse tudo que estou passando ainda tenho que ser um cirurgião ortopédico. Isadora me paga. Não tinha escolhas, não deixaria o homem morrer por falta de auxilio.
Junto a Isa me direcionei a um dos três quartos, que agora estava servindo de sala de cirurgia.
–Coloque antes de entrar. – instrui-me Natasha ao entregar uma máscara e luvas – Domi e Sam vão colocar a mão na massa, nos dois ficamos de assistentes, entendeu?
–Claro.
Isadora sussurrou um “boa sorte” segundos antes de Romanoff fechar a porta.
Já de mascara, coloquei as luvas. Dominika injetou a anestesia no “paciente”.
–Todos prontos? – questionou
Não!
–Sim! – respondemos
A cirurgia respirou fundo, visivelmente nervosa.
–Natasha preciso que você saiba de uma coisa. – sussurrou Domi – 54% das cirurgias feitas,por médicos, no joelho dão errado. Eu não sou médica então o risco de acontecer alguma coisa errada sobe para 94%, entendeu?
–O que pode dar errado?
–Tudo. Ele pode perder os movimentos das pernas se eu cortar um nervo errado, pode ter que amputar as pernas e também pode morrer. – respondeu ela deixando todo mundo ali mais apreensivo – Desculpem, mas prefiro que saibam do risco que é uma cirurgia caseira.
Cocei a barba, nervoso.
–Vocês fizeram os documentos falsos? — questionei
–Fizemos.
–Então podemos levá-lo ao médico por aqui...
–Não, Rogers, não. – cortou-me Romanoff com a voz vacilante – Se levarmos ele nesse estado vai chamar muita atenção. Vão chamar a imprensa, ele tem sinais de tortura em toda parte do corpo.
Sam praguejou alto. Natasha tinha razão levar Clint nesse estado seria assinar a sentença de morte de todos nós.
–Vamos começar OK?
–Que Deus nos ajude. – murmurou Sam
Respirei fundo mais uma vez.
–Steve me passe à navalha, por favor. – pediu Dominika passando álcool sobre a pele do rapaz.
Entreguei o objeto cortante a ela.
Dominika espetou a navalha na perna inchada de Clint e surpreendentemente não saiu sangue, mas sim uma camada espessa de um líquido verde. Fechei os olhos instantaneamente ao perceber que aquilo ali era pus.
Ela aprofundou um pouco mais o corte dessa vez encontrando sangue.
A cirurgia de Clint Barton havia começado.
Fale com o autor