Ainda É Cedo
22 Sob a Luz do Luar
Notas iniciais
#Isadora
–Por minha causa? – estranhei – Por quê? Ah não me diga que está preocupado comigo...
–Sim por sua causa. – confirmou se aproximando perigosamente.
Cheguei um pouquinho para trás, por instinto. Eita! Quê isso?
–Steve...
Tentei completar a frase, mas a proximidade de Steve do meu rosto estava me deixando um tanto quanto desnorteada. Por que eu não levanto? Levanto e corro colina abaixo, fujo dessa proximidade desnecessária. Eu não conseguia. O abracei. Mas, foi um abraço bem diferente dos que costumávamos dar por que ele estava beijando minha orelha, delicadamente. Ui!
Afastei-me delicadamente tentando encarar seus olhos em busca de uma explicação para aquilo. E foi seus olhos encararem os meus e me perdi de vez. Aquelas íris azuis tão próximas as minhas, e aquela respiração confrontando a minha... Isso não estava certo.
Fechei os olhos desfrutando da carícia que seus dedos faziam em meu rosto. Aquilo era tão... Bom. De olhos fechados sorri meigamente. Levei minhas mãos aos cabelos dele retribuindo a caricia. Abri os olhos a tempo de vê-lo sorrir. Ele sorriu para mim. Ele sorriu por mim.
Bizarro, eu sei, mas eu estava gostando daquilo. E bizarro 2 aqueles carinhos não eram muito amigáveis não. Quer dizer, amigáveis até demais. O que eu estou fazendo da minha vida, meu Deus?, me perguntei. Sei lá, meu cérebro morreu. Congelou, foi para a Noruega, não sei! Só sei que tudo que eu ouvia era meu coração que mais parecia à bateria da Beija Flor. O meu coração e o coração dele. Ai quê isso?
Meus membros não seguiam mais meus comandos. Permaneci ali, com um sorriso tão bobo que beirava a tosqueira recebendo de volta um sorriso tão bobo quanto. Steve beijou meu queixo e antes que eu pudesse desfalecer com essa atitude, o militar beijou o canto de minha boca. Aqui era mágico. Magia! Só isso define. Nem de longe Brian proporcionou sensações como àquelas em mim. Nem Brian, nem Zion e nem ninguém.
Entreguei-me. O hálito de menta de Steve estava me embriagando enquanto ele roçava seus lábios em mim. Apertei os cabelos dele sorrindo baixinho. Abri os olhos por um segundo e ele também. Ficamos nos fitando por algum tempo, não me pergunte quanto. Não falamos absolutamente nada, apenas ouvia-mos as batidas de nossos corações e o brilho de nossos olhos. E precisaria dizer algo? Li em algum lugar que a mais bela e sincera linguagem que há, é a do olhar. E realmente não havia em nenhuma parte do mundo olhar mais belo e sincero do que os de Steve. Ele era simplesmente... O Steve! Eu o amava. Amava incondicionalmente. Fechei os olhos novamente, secretamente, esperando pelo beijo. Senti sua respiração ofegante mais próxima de meu rosto, e mais próxima, e mais próxima, até o momento em que senti seus lábios sendo colados aos meus.
Steve beijou-me de forma intensa e saborosa. O beijo já começou com tudo e logo entreabri a boca dando passagem a língua. As línguas em uma só sincronia. As batidas de nossos corações pareciam ter se tornado apenas uma. Parecia que tudo ao nosso redor tinha parado. Ar era algo que já não era mais essencial para mim. No momento o que importava era ele e aprofundei ainda mais o beijo tentando demonstrar o que eu sentia. Nem eu sabia o que era. Mas era. Eu parecia estar em outro mundo. Uma sensação incrível percorreu em meu corpo enquanto ele me segurava pela cintura. Eu o segurava pela nuca e o beijava descontroladamente. Todo resquício de controle estava indo por água a baixo. Estávamos nos beijando! Eu estava beijando meu melhor amigo! Ai meu Deus isso é quase um incesto!
Eu não queria parar. Não conseguia parar. Eu precisava parar!
Encerrei o conflito com a minha mente e interrompi o beijo, cambaleando para trás, completamente sem ar e vermelha. Não sabia decifrar o olhar de Steve naquele momento. Muito menos sabia o que dizer. Sentei-me ao lado dele novamente, furiosamente envergonhada.
Minutos constrangedores de silencio. Por que eu fiz isso! Gente quê isso, é o Steve! Tudo bem que ele é lindo. Muito, muito mesmo, mas e daí? É meu irmão... Irmão? Bem eu nunca senti atração pelo Eduardo. Ok Steve não é meu irmão. E agora?
–Me desculpe! – sussurrou Steve depois de uns dez minutos de silêncio
Ah que bacana! A pessoa me beija desse jeito, causa estragos no meu coração, me deixa mais confusa que nunca e diz um “me desculpe”. Bacana!
–Aham. – foi o que deu pra responder
–E-E-Eu na-não se...
–Está tudo bem Steve, não precisa se enrolar para responder. – o interrompi ficando de pé – E qual é não precisa ficar desse jeito não. É só um beijo, oras. Só um beijo – repeti para tentar me convencer
–Só um beijo? – perguntou meio confuso – Não foi só um...
–Não esquenta, isso acontece. – o cortei de novo tentando não demonstrar o quanto eu estava irritada com aquele “me desculpe”.
Aff depois de um beijo eu espero ouvir de tudo desde um “Uau!” até um “Vish” agora “me desculpe” é sacanagem. Me desculpe... Argh
–Não isso não acontece, Isa. – afirmou baixinho mais vermelho do que nunca — Isso aconteceu porque eu...
–Por que você ficou com vontade. – completei – Normal você é homem. E sabe né, passando por esses perrengues. Tranqüilo, nossa amizade não vai ficar abalada por causa de um beijinho atôa.
Mentira. Tudo mentira. Nossa amizade vai sim ficar abalada e isso não foi um beijinho. Foi um beijão, ficamos no maior amasso. E de boa, o melhor amasso da minha vida. Mas, tudo bem, eu sabia fingir indiferença.
–Não Isa, não. – disse ele ficando de pé e sem querer me empurrando contra a parede. Que ótimo! Isso Steve, judia! – Não foi só um beijo foi...
–Um beijão eu sei. – afirmei um pouco arfante pela proximidade – Eu só sei que...
Cortei minha própria fala ao avançar sobre a boca de Steve. Sim eu surpreendi o sujeito com outro beijo. E acredite (difícil de acreditar!) foi ainda melhor que o outro, pois agora não estávamos com muita vergonha.
Esse era um beijo mais, hum, sexy.
Escorreguei a língua para dentro de sua boca e aparentemente isso destruiu o que restou do autocontrole de Steve, pois ele me apertou mais entre a parede e seu corpo. Sorri entre o beijo quando ele fez isso e o puxei ainda mais para perto (é possível!) pelos cabelos. Separávamos-nos por alguns segundos para respirar, ainda mantendo as testas e os corpos colados, e retomávamos o beijo com mais intensidade do que antes. Os lábios e as línguas em um sincronismo mais que perfeito, mordiscadas no lábio inferior... Aquilo estava uma loucura.
O beijo começou a pegar fogo e agora Steve beijava meu pescoço enquanto eu me dedicava a mordiscar sua orelha. Tracei uma rota entre sua orelha e sua boca, mas no meio do caminho um farol forte me cegou. Steve se afastou um pouco confuso.
–Aêêêêêêêêê!! – vozes gritavam junto com ao som irritante da buzina.
Meu queixo caiu. O pessoal chegou. Quando o pessoal chegou? Eu não vi nenhum carro se aproximar. Steve estava tão perplexo quanto eu ao meu lado.
–Isa...
–Shi! – pedi silêncio a Steve e desci a colina desesperada.
–ONDE USTED VAI SENHORÃ ROGERS? – ouvi Dominika zombar
Continuei correndo. Correndo não, andando como um zumbi devido ao problema do meu pé.
Corri muito até me deparar com um bando de vacas e subir em uma árvore com medo. Gente! O que foi que aconteceu naquela casinha? Não resisti a uma risada ao me recordar dos momentos proibidos para menores. Fiquei séria do nada.
Como vou olhar para a cara dele agora? Malditos hormônios! Uma coisa eu sei,vou dormir nesta árvore.
******************0
No dia seguinte, ainda morrendo de culpa e vergonha, retornei ao casebre disposta a agir como se os fatos da noite anterior nunca tivessem acontecido.
–Graças a Deus! – exclamou Natasha P. da vida – Onde você estava garota? Estamos te procurando á horas!
–Eu... Peguei no sono em cima de uma árvore. – afirmei evitando contato visual com o loiro ao lado dela.
Nossa nunca pensei que um dia eu ficaria com tanta vergonha de falarolhar respirar perto do Steve. Natasha olhou para mim e para ele consecutivamente como se olhasse para dois idiotas.
–Vocês têm algum problema mental, sabia? – analisou
Steve abaixou a cabeça ficando vermelho. Fugi dali em direção ao Evoque preto estacionado enfrente a casinha.
–Poxa vocês acharam um carro bem maneiro em? Mais legal que o outro! – mudei o assunto, me debruçando sobre a janela do banco do carona e falando com Sam e Domi.
Dominika lançou-me um olhar maliciosíssimo, rindo baixinho. Sam riu junto escandalosamente.
–Qual é a graça? – me revoltei entrando no banco de trás pela porta esquerda, enquanto Steve fazia o mesmo pela direita.
Arregalei os olhos para ele. Que merda, vamos ter que ir para o Texas juntos? Ah não, o carro é grande vou ao banco dos fundos com a Natasha.
–Eu vou no de trás. – disse a ele
–Não, deixa que eu vou. – interferiu o Capitão
–Não...
–Ninguém vai ao banco de trás! – rosnou Natasha rabugenta– O banco de trás é meu.
Olhei para ela perplexa. Sam gargalhou mais alto que nunca sendo acompanhado pela namorada. O que diabos é tão engraçado para esses dois?
–Fala sério Natasha! – resmunguei descendo do carro e me dirigindo a porta de trás. – Eu vou ai com você.
A sujeita trancou a entrada por dentro e fechou os vidros elétricos.
–Eu não quero ninguém do meu lado, Wollscheid. Já me bastar ter que ir ao mesmo carro com quatro sequelados. – reclamou a voz abafada pelos vidros – Ao menos me deixe sozinha aqui.
–Sequelados? – me ofendi – Quem você pensa que é em sua...
–Isa vem logo para o banco da frente. – cortou-me Steve – Fica tranqüila, não vou te atacar.
Passei a mão pelo rosto corando furiosamente. Outro coral de gargalhadas pode ser ouvido e dessa vez com a participação da russa mal-humorada.
Sem escolha sentei-me ao lado dele, quase colada na janela da esquerda para manter uma distância segura.
Wilson arrancou com o carro cantarolando debochadamente “I Want Know The Love Is” da Mariah Carey. Ao menos não é “É o Amor” de Zezé di Camargo e Luciano...
Passaram-se cerca de quatro horas de viagem e Steve permanecia em silencio, enquanto os outros devoravam pacotes de biscoitos que Dominika havia roubado. Pois é, eles roubaram muita, muita coisa. Fico me perguntando como uma simples moça conseguiu roubar tanta comida. Biscoitos, um engradado de latas de Coca, Ruffles, uvas, água mineral... Tínhamos comida suficiente para não precisar parar em lugar nenhum. Nem para abastecer já que Sam havia “sugado” combustível do Escarlade encalhado e o motor do Evoque já estava cheio.
–Dominika de onde você é? – puxei conversa, entediada com o clima do automóvel
–Guatemala, mais precisamente no Caribe. – disse ela sorridente
Sorri com a resposta.
–Jura? Que luxo, a tica é caribenha. – respondi divertida. Olhei de rabo de olho e vi que Steve sorriu discretamente. – Mas, como foi que uma moça que nasceu num lugar tão belo quanto o Caribe foi parar em um brejo de Nova Iorque se tornando, sei lá, a primeira dama do crime.
Todos riram com o “primeira dama”.
–Adolescência. – respondeu
–Como assim? – Steve disse a primeira frase depois de quase cinco horas de viagem.
–Sabe como são os adolescentes... Nunca estão contentes com o que tem sempre o de fora é melhor. – explicou – Eu nasci em Aruba, um lugar lindo, mas para mim era um fim de mundo. Muita gente da minha terra migra para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor e eu embarquei nessa.
–Ah então você veio a trabalho? – inquiri curiosa com a história da louca que trocou o Caribe (CARIBE!!!) por Nova Iorque.
Domi negou com a cabeça.
–Que nada! Meus pais tinham, quer dizer, tem uma pousada em Aruba e sempre quiseram que eu tocasse o negócio em diante. Portanto, não me deixaram ir para NY. Foi ai que eu briguei feio com eles, fugi de casa e entrei em um grupo de forasteiros que planejavam entrar na América.
Não pude deixar de rolar os olhos com “América”. Argh! “Eu quero ir para a América”. Que frase sem sentido! Infeliz, se você mora no Caribe – que fica na América – então você já está na América!! Steve pode monologar horas sobre o porquê dos estadunidenses se denominarem americanos, todavia nunca entenderei. E sabe por quê? POR QUE ESTÁ ERRADO!
–Você foi para Nova Iorque na ilegalidade? – se chocou Steve o mister “faça o certo”.
Só falta ele querer denunciar a garota para o consulado guatemalteca...
Dominika confirmou com a cabeça na maior tranqüilidade.
–Que imbecil! – se manifestou Romanoff, deitada no banco traseiro
Ignoramos a bobona, embora a bobona tivesse razão.
–Éramos um grupo de vinte pessoas, mas só sete chegaram aos Estados Unidos. – contou meio triste – O restante morreu no deserto ou foi metralhado na fronteira. Foi a coisa mais louca da minha vida atravessar o muro do México com uns seis, sete policiais atirando.
Meu queixo caiu. E pensar que tem gente que passa por tudo isso por achar que os States são demais, são o Best of the Best. Tá mais para besta das bestas.
–E como foi que você conheceu o Wilson? – se interessou à russa sentando-se no banco
Sam gargalhou.
–Bem quando eu cheguei não foi bem como eu pensava. A vida para o hispânico no geral já é bem difícil aqui, quanto mais um hispânico ilegal. – contou-nos bastante chateada – Eu cheguei a Manhattan com uns quinhentos dólares que só duraram duas semanas. Após isso passei fome, dormi na rua...
–Ai meu Deus! – exclamei com pena da morena – E não conseguiu nenhum emprego?
–Eu cheguei aqui com 17 anos, Isa. E para uma garota latina de 17 anos e só com o ensino médio as opções de trabalho só se resumem a uma coisa...
–Domi você não precisa falar sobre isso. – interceptou Sam com um olho no retrovisor e outro nela, segurando a mão da namorada delicadamente.
–Está tudo bem, eu quero falar. – sussurrou a ele
Eu estava curiosíssima para saber a história, mas a presença de Natasha no carro me incomodava. Ela era muito perigosa e insensível para escutar uma historia provavelmente, cabeluda como essa.
–Bom, talvez outra hora você possa me contar. –dialoguei entre dentes fazendo um discreto sinal com a cabeça rumo aos fundos do utilitário.
Dominika ergueu uma sobrancelha aparentemente entendendo o problema. Steve permanecia imóvel no extremo canto direito do veiculo enquanto eu e Dominika cantarolávamos musiquetas idiotas.
Após onze horas de viagem, lá pelas onze da noite entramos no estado de Arkansas e Steve assumiu o volante. Segundo o gnomo (primeiras palavras em hooooras) faltavam apenas três horas para entrarmos no Texas estado onde fica a minúscula e idiota cidade de Alvorada.
–Sam precisava mesmo colocar essa avião lá na casa do cacete? – reclamei, exausta pela viagem
Ele riu.
–Claro que precisava! Esse avião é da SHIELD, eles procuraram por ele durante dois anos. – explicou – Queria que eu o botasse onde? Manhattan? Dê graças a Deus por eu ter escolhido...
Steve pisou no freio com força causando o impacto de todos nós contra os bancos e o pára-brisa.
–Que foi? Passou um bicho na frente do carro? – pensei
O motor permaneceu ligado e Steve estava imóvel com as mãos no volante. Dominika que estava no carona levou as mãos á cabeça em sinal de desespero. A princípio, eu e Sam que estávamos no banco do meio, não conseguimos ver o problema.
Natasha, que quase dormia, também estranhou a parada súbita.
– Qual é o problema, Rogers?
Steve não respondeu. Eu também não embora já tivesse identificado o grande, grande problema. Sam praguejou alto ao meu lado.
–Gente? – estranhou Natasha se inclinando para ver o que havia a nossa frente.
Ela colocou o rosto na janela e seu rosto ficou tenso. Um silêncio desconfortável se instalou no veiculo. A nossa frente, quatro viaturas da polícia federal americana cercavam a rua e mais doze ou treze agentes apontavam metralhadoras e fuzis para o Evoque.
Romanoff fechou a janela de trás. Steve permanecia paralisado enfrente ao volante, os dentes trincados e mexendo o maxilar.
–Esse carro é blindado? – perguntei
–Aham. – responde Sam com a voz vacilante
–Se alguém tem algum plano à hora de fala é essa. – informou Natasha
–Romanoff a mala com as armas está aí com você? – perguntou Steve com a voz firme
Ela confirmou.
–Distribua as armas. – ordenou
–Mas, são muitos...
–Esse é o plano B, Isa. – interrompeu-me – O plano A é trancar tudo , atravessar as grades da fazenda a esquerda e fugir.
Natasha me entregou uma pistola. Que ótimo! Como usa isso?
Resolvi não perguntar.
–A blindagem do Evoque não suporta balas de grosso calibre, Capitão. – refletiu a russa – Sem contar que vão atirar nos pneus.
–Se nós pararmos vão nos matar. – Dominika praticamente leu minha mente
–Se correr o bicho pega se ficar o bicho come. – ditei
Steve pisou no acelerador.
–Todo mundo está com cinto de segurança? – perguntou o motorista com a voz quase que engraçada
–Steve, você não...
Nem pude terminar de lamentar minha provável morte. Gnomo pisou no pedal e a Land Rover mostrou as garras. Do lado de fora o barulho das sirenes e da voz de Sharon no megafone mandando a gente descer era ensurdecedor.
Rogers arrancou. Dominika soltou um gritinho de pânico no momento em que as saraivadas de tiros vinham sobre nós. O carro subiu na calçada e despedaçou a cerca que separava a pista de uma fazenda. Carros do FBI vinham em nosso encalço atirando.
–Se abaixem! Os vidros não vão suportar por muito tempo. – alertou ele olhando para mim pelo retrovisor.
Gelei. Dentro do carro parecíamos pipocas em uma panela. Continuamos avançando pela mata fechada da fazenda sendo seguidos por muitos e muitos carros sanguinários. Até uma vaca nós atropelamos! Pobre vaca!
A frente do carro outrora lindo agora era só uma sucata. Os vidros do fundo já não existiam mais. Eram apenas estilhaços. Nunca senti tanto medo em minha vida. Joguei-me no chão do carro, em lágrimas, encolhendo-me em posição fetal. Steve continuou subindo a colina de matas fechadas, chocando o carro contra pequenas árvores até o momento em que conseguimos manter uma distancia relativamente segura.
Sentei-me novamente no banco, arfante e com o rosto inchado. Foi aí que um barulho de borracha estourando pode ser ouvido.
Não precisei olhar para saber o que havia sucedido. O Evoque começou a derrapar e girar no meio da colina, a beira de um abismo. Steve pisou no freio com toda a força que tinha, o que foi um erro, pois o pedal se desprendeu.
Até Natasha que consegue esconder as emoções estava aflita.
Não tive tempo de gritar ou falar nada a respeito. Só pude fechar os olhos e agüentar firme á espera do impacto inevitável. O carro girou 360 graus derrapando na grama molhada e fazendo a vista do lado de fora tornar-se um grande borrão.
Steve lutava com o volante tentando endireitar o utilitário.
Sam soltou um grito estrangulado, em parte de alerta, em parte só um ganido de medo, quando o carro capotou pela primeira vez em direção ao abismo.
Nos momentos angustiantes em meio às capotas tudo que eu via era mato, vidro quebrado e coisas girando. Demorou um tempo até eu perceber que as coisas, éramos nós.
Gritamos todos em coral durante os sete giros que o carro deu descendo a colina. A lateral do Evoque colidiu com uma grande rocha jogando todos nós contra as portas. O carro começou a ficar molhado.
A violência do impacto me deu a sensação de que o tempo tinha parado. A vidraça ao meu lado se esfacelou voando vidrinhos para todos os lados. Estávamos todos de cabeça para baixo, presos ao cinto de segurança. O carro estava sendo tomado por uma água gelada. Os airbags foram se abrindo com pequenas explosões tomando todo o interior do veículo.
Eu tremia dos pés a cabeça.
–Isa? Isadora? Você está bem? – gritou Steve consumido pelo pânico
–Es-Es-Estou bem! – respondi sem sentimento, sem nada. Completamente catatônica.
–E o resto de vocês? Estão todos bem? – ele olhou em volta, em meio aos airbags, procurando todos.
Dominika levantou o polegar também em estado de choque.
–Eu estou bem! – exclamou Natasha nos fundos
–Eu também. – completou Sam ao meu lado, tentando se soltar do cinto.
Steve abriu a porta do motorista e pareceu mergulhar em alguma coisa. Não ouvi mais a voz dele
Me desesperei!
–STEVE! – gritei em pânico – STEVE?
– Está tudo bem... Nós... Estamos no meio de uma cachoeira. Temos que sair antes que o carro afunde. – respondeu com a voz preocupada se direcionando até a minha porta.
Durante o minuto seguinte, Sam com mais dificuldade que Steve e com alguns ferimentos tirou Dominika do carro. Ela estava em estado de choque. Natasha se arrostou para fora.
–Está tudo bem? – perguntou Steve me retirando daquela mistura de nylon e água – Machucou alguma coisa?
Neguei com a cabeça. Descemos no meio da cachoeira. Agarrei-me ao seu pescoço com medo de me afogar naquela água gelada.
–Peguem só o extremamente necessário! – gritou para os outros que assim fizeram
Aparentemente o pessoal da polícia achou que nós morremos na queda, pois o barulho da sirene estava distante.
O loiro me levou até a margem do rio. Sentamos todos na grama seca, completamente arrasados.
–O que vamos fazer agora? – perguntou à caribenha soluçando
Wilson a abraçou. Só então percebi que ainda estava agarrada ao pescoço de Steve. Afastei-me constrangida.
Rogers bufou levantando-se.
–O que nós temos? – perguntou ele
–Cinco revólveres, seu escudo e um pacote de batatas fritas. –comentou Romanoff desolada – Ah e três mil dólares. O restante está debaixo d’água.
Deu um longo suspiro.
–Que ótimo. – lamentei
Domi limpava um ferimento na perna esquerda. Felizmente eu só tinha arranhões assim com Sam e Natasha. Steve estava completamente ileso, parecia que estava num parque de diversões.
–Temos que sair daqui logo. – nos apressou – Já já eles virão recolher nossos ‘corpos’.
–Quantos quilômetros pela frente? – eu quis saber
–515 km. – disse Natasha com o tom de voz de quem dizia que teríamos que chegar á África em trinta minutos – Umas quatro, cinco horas de carro ainda.
–Nós vamos conseguir outro carro. – esperançou-se Sam ficando de pé e colocando sua Marlin no bolso.
Sem alternativa continuamos a andar pelo matagal.
Andamos por cerca de uma hora e a paisagem continuava a mesma: mato. Muito, muito mato. Já estávamos conseguindo esquecer dos últimos eventos e planejar assaltar outro rico com um carrão quando o som agudo de metal contra metal interrompe nossos assuntos.
o escudo de Steve, que estava em suas costas, tinha acabado de ser atingido por um balaço.
Um balaço vindo do alto.
Paramos todos com os olhos arregalados.
–O que foi isso? – quase gritei
Steve olhou para o alto e automaticamente olhamos juntos. Um helicóptero.
–Puta que pariu! – berrou Natasha antes de disparar pelo matagal
Os homens do helicóptero nos metralhavam. Sam e Domi correram em pânico atrás de um abrigo enquanto a ruiva já havia desaparecido entre as árvores. Steve grudou em minha mão e me arrastou em uma direção oposta a deles.
–O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? ELES FORAM PARA LÁ!!- gritei enquanto corria sentindo meu pé baleado condoer
–TEMOS QUE NOS SEPARAR PARA DISTRAIR O PILOTO. – respondeu apontando para cima
E realmente deu certo. Eles ficaram sem saber onde atirar. Escondemos-nos atrás de umas árvores por alguns segundos até a mesma se tornar uma peneira. Continuamos nossa fuga entre a floresta, completamente perdidos na selva.
Só Deus sabe onde estariam os outros.
–ALI! – exclamou ele apontando uma cabana a uns vinte metros de distância
Corremos para lá.
Comecei a chorar no momento em que entramos na humilde residência.
–Não chora, por favor. – implorou sentando no chão ao meu lado
–E como você não quer que eu chore? – perguntei com a voz exaltada – Olha só o que aconteceu com a minha vida!
Ele ficou em silencio.
Continuei meu chororô. Chorar alivia!
–Vai ficar tudo bem. – disse ele depois de algum tempo
Olhei para ele, devastada.
–Acho que a gente deveria desistir disso. – solucei – Iss-Isso na-não vai dar certo, somos só crianças afrontando reis.
Ele riu me abraçando. Dessa vez não fiquei com vergonha da proximidade. O abracei também. Encostei minha cabeça em seu peito ainda soluçando. Eu estava carente e desolada naquele momento.
Steve beijou o alto de minha testa.
–Não podemos desistir agora, lindinha.
–Podemos sim – gemi
Ele negou com a cabeça.
–Desistir é para os fracos. – revidou – Nelson Mandela só quis o bem para seu povo e foi preso por 27 anos. Os Estados Unidos deixaram seu nome por anos na lista da Interpol como terrorista. Martin Luther King foi assassinado por fazer o bem.
–O que quer dizer com isso, Steve?
–Quero dizer que quanto melhor é uma pessoa mais ela incomoda as pessoas más. – explicou carinhoso, afagando meus cabelos – Se nenhum deles desistiu, nós também não vamos desistir. Não sei você, mas eu ainda quero um mundo melhor.
Olhei para ele sem nenhuma esperança.
–Não vamos conseguir fazer nada. Vamos acabar morrendo. – lastimei
–Ah, por favor! Onde está aquela Isa revolucionaria que vivia cantando “ Somos os filhos da revolução. Somos burgueses sem religião. Somos o futuro da Nação!”? Não desista, meu amor, se você desistir não sabe se vou ter forças para continuar.
Separei-me para olhar em seus olhos. Sequei as lágrimas.
–Você está certo. – sorri – Temos que continuar. Afinal, pior que barulhos dos maus é o silêncio dos bons. – filosofei e ele riu
Ele me abraçou.
–Me desculpe por ontem. – disse ele
–Do que você está falando? – me fiz de desentendida
–Ah... Você sabe o beijo. – retrucou vermelho de vergonha
Sorri baixinho.
–Você já me pediu desculpas Steve.
–É que você estava estranha hoje, então achei melhor pedir de novo. –fundamentou evitando contato visual
Olhei para o chão como se fosse a coisa mais importante do mundo.
–Não precisa pedir desculpas de novo. Foi só um beijo.
Sentei-me de frente para ele. Começou a chover do lado de fora.
–Um beijo não é apenas um beijo, Isa. – sussurrou apertando as mãos
Levantei o olhar para ele rapidinho e nossos olhares se cruzaram. God! Que olhos lindos! Isso tá errado... Ah uma semana eu namorava o Brian! Gente eu sou uma vadia! Beijei meu melhor amigo dias após terminar o namoro? Que vergonha!
Algo dentro de mim quis sorrir com a resposta. Outra quis gritar “Parem com isso seus imbecis, estão estragando uma amizade de um ano!!”
– O que você quer dizer com isso? – perguntei como quem não quer nada
Ele levantou meu queixo para que eu o encarasse. Meu coração parecia a bateria da mangueira.
–Eu quero dizer – começou ele com aqueles olhos azuis brilhando mais do que nunca e com a voz repleta de doçura – Eu quero dizer que aquele beijo significou muita, muita coisa para mim. – completou a frase arrasando com meu pobre coraçãozinho.
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