Ainda É Cedo
4 Nação de 'Istas'
Notas iniciais
Promessa é dívida e eu precisava cumprir minha palavra para com Steve. Sendo assim, após o ‘acontecido’ com a garçonete Stacy, nos direcionamos para uma grande livraria no sul da cidade. Gente, que livraria fantástica. Não era só uma livraria, era um centro cultural e tinha até uma praça de alimentação. Era quase um shopping, um paraíso para qualquer “bookmaníaco” como eu e o lugar perfeito para dar aulas á Steve.
– Você já veio aqui antes? – perguntei a ele ainda de boca aberta
Ele confirmou com a cabeça.
– Sim, uma vez.
– Cara, você mora próximo a uma livraria desse naipe e só veio uma vez? Qual seu problema?
Steve riu.
– O meu problema é que eu não moro próximo a essa livraria. Assim como você também sou turista em Washington, senhorita estourada!
– Eu não sou senhorita estourada! – quase gritei, brava, e logo recebi um olhar de advertência da bibliotecária.
O sujeito a minha frente lançou-me um olhar irônico. Revirei os olhos.
– De onde você é então? Marte?Vênus? – zombei enquanto sentava em uma mesinha
– Saturno e você? Plutão? – retrucou
Abafei uma gargalhada e improvisei uma cara de brava.
–Ah sim, e em Saturno não tem livrarias né? Ou o senhor é um baita de um preguiçoso que passou os últimos dois anos assistindo o programa da Oprah na TV. – devolvi, agora falando sério.
Péssima frase. Péssima escolha de palavras, Steve ficou realmente bravo.
– Escuta aqui, mocinha! – exclamou juntando os cotovelos na mesa – Ao contrário da senhorita que ao que parece é só uma menina mimada que invade asilos e agride secretárias só para conseguir o que quer a minha vida é muito mais complexa que a sua. Eu trabalho vinte quatro horas por dia, para o governo. Eu protejo as pessoas. A batalha de Nova York só foi um dos trabalhos que faço. Eu não sou preguiçoso, eu só escolhi me doar aos que precisam do que passar horas e horas tentando me adequar a este mundo. Isso seria perda de tempo, eu NUNCA vou me adaptar, pois não faço parte daqui. A única coisa que eu sei fazer é lutar e isto é primordial. Não sou egoísta como você que acha que pode...
– Ou! – o interrompi perplexa – Quem você pensa que é para me chamar de mimada? Eu não sou nada mimada, você não sabe nada da minha vida. Eu te semana passada. Literalmente! – me exasperei – Me desculpe se me expressei mal, na verdade estava sendo irônica. Eu só quis te ajudar. E quer saber? Você é só mais um imbecil. Vou embora.
Me levantei P da vida e marchei para fora da biblioteca. Completamente chocada pela forma com que Steve tinha se rebelado lá dentro. Credo, nem parecia o príncipe que conheci.
– Isadora! – ouvi uma voz me chamar
– Você? Que foi, esqueceu de me acusar de mais alguma coisa? – devolvi, a acidez em pessoa.
Steve enrubesceu e ficou parado no meio da calçada. Bufei e continuei a andar, mas parei. Fiquei com peninha dele! Pobrezinho, deve ser barra ser o ‘O.C Um Estranho no Paraíso’. E ele está sem ninguém pra ajudar... Uff!
Voltei em direção a ele.
– Você foi muito idiota, sabia?
– Desculpe. É que... Eu...É... Bem, não está...Não está...
–Não está sendo fácil. Eu sei. – completei a frase dele – Olha eu vou ajudar você, mas por favor não me agrida. Pode ser?
Steve liberou um sorrisinho microscópico.
– Me desculpe. Não deveria ter agido dessa forma, não sou assim. E você está sendo tão legal comigo, apesar de ter marcado um encontro com alguém que não conheço – enfatizou – Eu nem te conheço direito, não sei de onde você é e mesmo assim você está sendo legal comigo como ninguém foi até agora.
– Em minha defesa eu não marquei encontro nenhum. Apenas peguei um número de uma gatinha para você marcar um encontro quando quiser.
Ele rolou os olhos e bufou.
– Podemos voltar para a biblioteca? – perguntou estendendo a mão para mim
Pensei por um minuto. Que loucura! Por que diabos eu estou ajudando uma pessoa de um país que não gosto, que lutou em uma guerra que não gosto, que simboliza algo que eu não gosto? E pior: Eu não conheço essa pessoa. Essa pessoa é praticamente uma desconhecida, pode...Sei lá ser um maníaco dos anos 40. Um assassino ‘’like a ‘’ Jack o Estripador, o maníaco do parque, um estuprador, esquartejador. Tudo bem, que nos quadrinhos que os Estados Unidos publicam ele é O herói, mas... Será que dá pra confiar? Aí minha mãe vai me matar!, pensei.
–Vamos! – exclamei segurando a mão dele
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Na Livraria
Deixei Steve sentado na mesa e sai catando livros pelas prateleiras. São tantas, mais taaantas coisas que ele precisa saber!
Voltei pra mesa quase que soterrada de livros. Steve, o lorde, me ajudou a carregar.
– Nossa,quantos livros!
– Pois é, mas vamos por partes. Acho que primeiro você tem que entender as consequências da Segunda Guerra Mundial. – disse eu ,entregando a ele o livro ‘’Guerra Fria”, de Amy Knight – Esse livro é ótimo, já li!
Steve não perdeu tempo e já começou a devorar o livro.
– Obrigado! Um dos grandes problemas que tive fora justamente não saber por onde começar.
Sorri meigamente.
– Acho melhor o senhor ler em casa. Vou te passar vários “deveres de casa”. – brinquei
Ele bateu continência para mim, fechando o livro.
– Sim, senhora professora! – exclamou divertido – Mas, me dê uma prévia.
– Tudo bem... Hum, vamos lá. –afirmei – Como você já deve ter percebido, Alemanha nazista perdeu. – falei o óbvio e ele sorriu totalmente atento as minhas informações- Com a derrota da Alemanha, Japão e Itália e o enfraquecimento do Reino Unido e da França, o mundo foi levado por mudanças econômicas e geopolíticas. Os Estados Unidos agora do bloco capitalista, e do outro lado, União Soviética, que expandiu sua influencia e seu território, definindo o bloco socialista...
E continuei falando por horas e horas a finco tudo o que eu sabia e lembrava. O que não lembrava via em livros, debatia hipóteses utópicas como a ideia de um dia o mundo se tornar capitalista, discutimos muuuito porque eu queria (e ainda quero!) que a União Soviética tivesse ganhado a Guerra Fria e principalmente por uma coisa: Eu NÃO acredito que o homem tenha ido à lua.
– Você é uma conspiracionista tola. – jogou na cara – É claro que o homem foi á lua, não tem como não ter ido.
– É claro que tem como não ter ido.
– Claro que não! Ninguém conspira quando meio milhão de pessoas sabem a verdade. Se você juntar todo mundo que trabalhava na Nasa e nas empresas contratadas para desenvolver as espaçonaves — os astronautas, os engenheiros, os técnicos, os cientistas, os burocratas etc. –, são mais de 400 mil pessoas espalhadas pelos Estados Unidos, livres, leves e soltas. Até hoje, segundo toooodos estes livros, ninguém envolvido com o Projeto Apollo deu com a língua nos dentes, o que já consiste em evidência concreta de que as missões não foram encenadas.
Gargalhei de deboche.
– Querido, estamos falando do país mais pilantra e manipulador do mundo. Com todo o respeito...
Steve soltou uma gargalhada.
– Essa sua frase não teve nada de respeitosa, Isa.
– Desculpe se a verdade dói. – devolvi – Eu espero qualquer coisa de vocês. Olha são várias as provas de que eles NÃO foram, ok?
– Ok, pode dizer. Vamos, me convensa! – me desafiou, cruzando os braços, com o olhar de quem diz “Oh tolinha!”
– Ok! Pra começar quando os astronautas estão colocando a bandeira dos EUA, ela ondula, mas não há vento na Lua. Segundo, Nenhuma estrela é visível nas fotos tiradas pelos astronautas da Apollo da superfície da Lua. Terceiro, nenhuma cratera causada por impacto é vista nas fotos tiradas do módulo de aterrissagem lunar. – eu disse apontando uma foto do dito cujo na lua — Ah e tem mais, capitão, o módulo de aterrissagem pesa 17 toneladas e mesmo assim pousa sobre areia sem deixar marcas. Perto dele, as pegadas dos astronautas podem ser vistas na areia. Quinto, as pegadas na fina camada de poeira lunar, sem umidade ou atmosfera ou forte gravidade, são inesperadamente bem preservadas, como se feitas em areia molhada. Sexto...
– Tudo bem, já entendi que você tem argumentos embasados na física. – me interrompeu meio chocado pelo jeito “sindicalista” que eu contava as coisas
Sorri vitoriosa.
–Agora acredita que isso tudo é balela?
– Não.- respondeu convicto – Agora, pense comigo. Foram os russos que perderam com essa história toda, concorda?
– Então porque até hoje nenhum russo reivindicou isso?
– E quem te garante que nenhum russo reivindicou isso? – devolvi o questionamento
– Ué, todos estes livros.
–HAHA! – gritei o assustando – E quem te garante que os russos que não concordaram com isso não foram liquidados por assassinos secretos estadunidenses? Quem te garante que todos aqueles caras da NASA não vivem sobre constante vigilância, visando que até o meu país o seu país fez questão de espionar?
Steve ficou pensativo por um minuto.
–Ahan! – comemorei – Viu só? Onde está seu Deus agora? Em? Em? Chupa essa manga!
Ele franziu o cenho surpreso.
–Até que prove o contrário, você é paranoica e os Estados Unidos foram á lua. E tudo isso na passa de suposições conspiracionistas.
–Conspiracionistas, não! Realistas, visionários. –corrigi enfática
Ele gargalhou debochadamente.
– Não acredito em suposições, principalmente vindo de uma moça com pensamentos tão antiamericanistas.
Ah... Agora a coisa ficou séria.
–Flor, eu não sou antiamericana.
– Não? – perguntou rindo – Por que até agora você disse que meu país forjou a fraude do século, matou russos inocentes e...
– Isso e muito mais. Não vou ficar discutindo com o Capitão América, sobre o fato dos Estados Unidos serem uma grande farsa. Eu ainda não te odeio, porque acho que você é diferente da grande maioria da população daqui e você não participou das maiores chacinas que essa nação provocou “around the world’’.
– Vai me converter ao islamismo, Miss Talibã? – zombou
Escancarei a boca, ofendidésima.
– Steve!
Ele gargalhou.
–Desculpa, não resisti.
– Você vai ver só como eu tenho razão nisso tudo. – afirmei – E desde quando o simples fato de não suportar as atitudes narcisistas, imperialistas, nazi-fascistas e comercialistas que vocês fazem me transforma no Osama Bin — Laden?
– Nossa, quantos ‘istas’ em uma só frase. – retaliou
Rolei os olhos, bastante irritada.
– Leia estes livros. – entreguei uns dez – Depois que ler tudo isso, ligue para mim. Quero ver se ainda vai ter as mesmas opiniões.
– Eu vou ler. E Isadora, eu não sou todos estes “istas” que você falou. E me desculpe, mas duvido muito que a América tenha se tornado tudo isso. Talvez você esteja equivocada. – ponderou
Sorri, com um pouquinho de pena da inocência dele.
– Queria que você estivesse certo, Steve. – afirmei com sinceridade – leia estes livros, em breve te ensinarei a usar a internet e você terá um mundo de informações. Mais do que nunca, você precisa manter os dois olhos abertos, meu amigo.
– O que quer dizer com isso?
Respirei fundo, olhei para os lados para ter certeza de que não tinha ninguém nos ouvindo.
– Olha, eu não te conheço direito, mas sei que você é um homem bom. Você é puro, o mundo é sujo. E ainda tem o fato de não saber o que aconteceu com o mundo depois dos anos 40.
– Continuo sem entender.
–Estou dizendo que você deve estar atento, esperto. O governo vai querer usar o seu poder e sua influencia sobre o povo americano para ações não tão legais.
Steve novamente se isolou em seus pensamentos. E ficou em silencio por um booom tempo.
–Steve?
–Está tudo bem. Obrigado, Isadora. – agradeceu,ainda pensativo. – Porem, acho que não deve se preocupar não será fácil me enganar. Jamais faria algo que prejudicaria outras nações.
– Eu sei que sim. Mas, eles... Enfim, deixa pra lá. Com um tempo você descobre o que quero dizer. Só mantenha os dois olhos abertos. – repeti – Sempre.
Ele sorriu pra mim, solidário.
Ficamos em silêncio por um minuto, Steve lendo um dos livros, e eu pensando até que meu telefone tocou.
Era Cléo.
– Fala Cleópatra!
– Ai onde você está? – reclamou histérica – Quer me matar do coração?
– Nossa, que drama é esse?
– Que drama?- gritou completamente neurótica — Drama que estamos em outro país, a senhora saiu do hotel as nove da manhã, disse que voltava para o almoço, são nove da NOITE e você ainda não voltou. E NÃO ATENDE O CELULAR!!!!
Levantei da cadeira e fui até a janela, perplexa, por ter passado taaaanto tempo assim. Era noite mesmo!! Gzuis!!
–Ai caramba!
–Onde você está? Com que você está? Arrumou um namorado?
– Não, claro que não. Depois te explico, agora tchau!
–Isado...
Desliguei antes dela terminar de falar.
– Problemas? – questionou Steve
– Sim! – exclamei desesperada – O problema é que passamos o dia inteiro comendo fritas e discutindo coisas e já são 21 h da noite!
–21h da noite? – se espantou
–Sim, 21h da noite! – repeti histérica – Ai caramba, ainda tenho que arrumar minhas malas. Meu avião parte as 3h da manhã.
– Vo-Você já vai? – questionou a tristeza em pessoa
Dei um sorrisinho.
– Preciso voltar, aqui não é meu lugar.
– Percebi-se! – brincou e logo voltou a ficar sério – Foi bom te conhecer.
– E quê isso? Não vem com despedida pra cima de mim não, cara-pálida.
– Não?
–Não. Ou você quer que isso seja um despedida?
–NÃO!Não mesmo! – retrucou nervoso
Gargalhei da trapalhice dele.
–Aí preciso ajudar você a conter seu nervosismo com meninas, caso contrário o encontro com a Stacy vai ser uma tragédia. – constatei
Antes que ele revidasse com um ‘’Stacy nãããããããão!!” logo entreguei um papelzinho para ele com meu número de telefone, endereço e e-mail.
– Olha esse é meu endereço no Brasil, quero cartas! – exigi – E estes são meus endereços eletrônicos.
Steve fez meu braço de agenda e anotou os dele ali.
– Ai valeu por tatuar me braço. – resmunguei
– Economizando papel, salvando uma árvore. – gracejou
– Ui que moderno ele sabe o que é sustentabilidade.
–Sustentabilidade é um conceito sistêmico, relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana. – ostentou a informação
Chocada!
– Uau!
– Sim, eu gosto de assuntos ambientais.
Gargalhei com essa informação.
– Muito bom! Este é pra casar senhoras e senhores. – brinquei
– Bom,preciso ir Steve! – eu disse o abraçando
– Eu te ligo.
– É pra ligar mesmo, eu não esqueci do lance da Stacy tá? – cobrei
–Fala sério! – reclamou
– Tô falando sério.
– Quer que eu te leve até o hotel? – sugeriu todo príncipe
– Não, obrigada. Se você aparecesse lá, a Cléo ia surtar... Ia imaginar mil coisas.
Ele sorriu.
– Tudo bem, então.
– Tchau.
– Até mais. – ponderou
– Até mais é bem melhor. – disse divertida
E lá fui eu de volta para casa, com ótimas e loucas lembranças da minha viagem para os States. Não sabia se conseguiria uma boa nota no trabalho, mas tinha certeza que aquela viagem tinha resultado em uma grande amizade.
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