Ainda há esperança
15 Capítulo 15 (final)
Dois meses se passaram desde a festa de noivado de Olegário e Charlotte. Festa que, inclusive, permaneceu na boca das pessoas do Vale do Café durante semanas. Depois que Darcy convidou Elisabeta para dançar e após a belíssima troca de votos dos noivos, coisas inesperadas aconteceram naquele salão. A principal delas, sem sombra de dúvidas, foi o fato de coincidentemente Lídia e Jane terem sentido alguns sintomas peculiares, fazendo com que Camilo e Randolfo se desesperassem por completo e não saíssem um segundo sequer do lado das esposas.
Lídia gritava de um lado, apelando para todos os santos que apareceram em sua mente, enquanto Jane fazia o possível e o impossível para manter-se calma, respirando fundo, conforme orientava Julieta. Todos pensaram que a família Benedito aumentaria naquela mesma noite, porém, apesar do alarme que as mães de primeira viagem deram, os bebês nasceram dias depois.
A chegada dos Beneditinhos proporcionou uma felicidade imensa em toda a família. Lídia e Jane foram, durante semanas, bastante paparicadas por todos. Não se falava noutro assunto senão o quanto as meninas foram valentes; o quanto os bebês nasceram fortes, saudáveis e lindinhos. Dona Ofélia fez questão de ir todos os dias até às casas das filhas, prestando toda assistência e demonstrando muito amor naquele momento especial.
Sempre que presenciava as cenas, Elisabeta sentia uma enorme emoção. Era maravilhoso, para ela, ver o quanto Ofélia se doava pelas suas irmãs e, agora, pelos seus netos. O quanto ela não media esforços para tornar aquele momento o mais tranquilo possível. E, ao constatar que muito em breve ela também passaria por aquela etapa, sentia-se ainda mais confiante e ansiosa.
— Conheço muito bem esse seu olhar distante... Posso saber em que a minha primogênita pensa tanto? – Jane tirava um cochilo e dona Ofélia havia acabado de colocar o neto para dormir. Ao perceber que Elisabeta estava de pé, olhando distraidamente a paisagem externa pela janela do quarto da fazenda Bittencourt, aproximou-se dela, falando num tom mais baixo do que o habitual. – Ei, Elisabeta, Elisabeta... – Chamou-lhe a atenção mais uma vez. Obtendo sucesso.
— Oi, desculpa mamãe, estava distraída... – Disse ela, ficando de frente à mãe. – O que a senhora falou mesmo? – Indagou, um tanto desorientada.
— Fiquei curiosa por saber o que assalta seus pensamentos. Você parece preocupada minha filha... E, apesar de estar aqui ao meu lado, parece estar à milhas de distância.
— Eu não consigo lhe esconder nada, não é mesmo dona Ofélia?
A mãe balançou a cabeça, em negativa.
— Eu acho que estou com medo, mamãe... Estou tentando mudar meu pensamento, mas a ansiedade me invade e muitas vezes perco o controle...
— Ora, medo? Que eu bem me lembre essa palavra não existe no seu dicionário! Não se preocupe minha filha, nossa senhora do bom parto nunca nos abandona.
— Não é isso... Bom, em partes. Mas meu maior medo é que Darcy não esteja aqui quando nosso filho nascer. Ele viajou ontem a São Paulo para resolver algumas pendências da ferrovia e tenho receio de que essa viagem se prolongue e ele não chegue a tempo...
— Ara Elisabeta, mas foi você mesma quem insistiu que ele fosse. O coitado do meu genro já tinha jogado tudo para o ar quando Rômulo nos disse que meu neto poderia nascer a qualquer momento.
Eu sei mamãe. E às vezes eu me arrependo amargamente por isso. Mas as obras da ferrovia estão com os prazos atrasados e eu não queria vê-lo preocupado.
— E desde quando essa ferrovia é mais importante para o Darcy do que o nascimento do filho dele? Você só pode estar delirando Elisabeta. – Dona Ofélia deu de ombros.
— Não foi isso que eu disse, mamãe. E a questão não envolve apenas o Darcy, são negócios grandiosos... Bom, não queria ter entrado nesse assunto, não agora. E também ele me prometeu que voltaria o mais breve possível. Vamos confiar nisso, certo?! – Elisabeta não estava totalmente segura do que acabara de afirmar, mas tentou ser firme o suficiente nas palavras, para convencer a mãe e a si mesma.
— Assim que se fala minha filha. Mas não se não se preocupe tanto. Não faz bem para você nem para o meu neto (a). – Disse, levantando carinhosamente o rosto de Elisabeta – Darcy estará ao seu lado, segurando firmemente sua mão no momento que, garanto, será o mais lindo da vida de vocês. Assim como foi com Jane e Lídia. – Ofélia abraçou Elisabeta, acalentando-a. Elisa apoiou o rosto no ombro da mãe, limpando algumas lágrimas que insistiam em cair.
— Deus te ouça mamãe, Deus te ouça.
***
— Eu não estou lhe reconhecendo meu rapaz. De dez meses para cá as obras praticamente estagnaram. A ferrovia deveria estar prestes a inaugurar. O que houve Darcy? Acaso não honra o legado de seu pai? – O senhor de pouco mais de 55 anos aparentava estar impaciente. Embora Darcy estivesse tentando manter um diálogo amigável com ele.
— Eu já expliquei mil vezes que passei por inúmeros problemas esse ano e que me impediram de estar cem por cento à frente da ferrovia. Mas, para um homem de negócios, visionário e irredutível quanto o senhor, tanto faz os problemas pessoais de alguém, certo? – Darcy não queria perder a razão, mas seu sócio estava esgotando por completo sua complacência.
— Pelos anos de amizade que compartilho com seu pai, e por conhecê-lo desde criança eu certamente posso compreender, em partes, seus motivos. Mas, não posso deixar de lado algumas informações suas que obtive através de pessoas muito próximas a você.
— Do que o senhor está falando?
— A sua tia, Lady Margareth foi muito solicita ao me informar as razões pelas quais o senhor isentou-se, digamos assim, de algumas atividades na obra.
— Lady Margareth? Então essa é sua fonte de informações Sr. Rubens? Sinto informar ao senhor que Lady Margareth está, nesse exato momento, atrás das grades. Que a mesma cometeu inúmeras atrocidades no Vale do Café. Inclusive contra seu próprio irmão, Lorde Williamson.
— Pelo visto sua vida é uma montanha-russa Sr. Darcy! Se precisava desse tempo todo de afastamento, deveria ter me mantido informado. Foi inadimplência sua não ter deixado tudo às claras. Poderíamos ter investido em outras pessoas ao invés de perdermos tanto tempo e dinheiro.
— O senhor está propondo um rompimento da sociedade, é isso?
— Não, se optasse por isso agora estaria sendo um idiota. Você está desde o início neste projeto, não faz sentido mudar de planos tão de repente. Isso foi só um estalo. Às vezes é necessário acordar, Sr. Williamson.
— Não se preocupe meu caro! Em menos de um mês o senhor terá a nossa tão almejada ferrovia entregue! – Darcy exclamou antes de sair da sala, indignado.
Se fosse possível, Darcy entraria naquele automóvel, naquele mesmo fim de tarde, e pegaria a estrada de volta ao Vale do Café sem pensar duas vezes. Motivos para isso ele tinha de sobra. Apesar de achar absurdo o posicionamento apático de seu sócio, ele sabia que uma hora ou outra o peso do atraso da obra cairia sobre suas costas e não havia nada o que se fazer. Ele só não imaginava que isso aconteceria num momento tão importante de sua vida. A vontade de estar ao lado de Elisabeta e do seu filho era maior do que tudo. E a angústia por estar longe deles o consumia. Para Darcy, era quase uma necessidade vital ouvir a voz de Elisabeta lhe dizendo que tudo daria certo.
A reunião que teve minutos antes não resultou em nada positivo, além de uma baita dor de cabeça, ameaças e ironias em forma de conselhos amigáveis. Mas Darcy não queria cogitar a possibilidade de ter que ficar mais do que dois dias em São Paulo. Só de imaginar, o impulso e a vontade de mudar de rota aumentava cada vez mais. Ao passo que dirigia, Darcy começou a refletir sobre a conversa conturbada que havia tido com o Sr. Rubens.
O homem havia deixado claro que não iria abrir mão da sociedade, e Darcy sabia que aquele senhor estava mais envenenado pelas palavras de Lady Margareth do que realmente indignado com as obras da ferrovia. A convivência com Elisabeta fez Darcy aprender e evoluir muito. E uma das coisas que ele aprendeu com maestria fora a capacidade de seguir seus instintos. E, naquele momento, eles diziam que tudo poderia ir às favas. Que seu destino não era a mansão de Julieta e sim, o Vale do Café.
***
Após passar a tarde conversando com a filha mais velha, tentando insistentemente persuadi-la de que tudo correria bem, a matriarca dos Benedito conseguiu convencê-la passar algumas horas em sua companhia e, posteriormente, acompanhá-la até sua casa. Mesmo sem saber, dona Ofélia parecia estar adivinhando o que aconteceria horas depois. [...] Após um agradável jantar em família, seu Felisberto foi até o gramofone e colocou para tocar o disco preferido da filha número um. Ele podia pressentir, de longe, quando Elisa não estava bem.
Mais do que nítido nos olhos, a tristeza de Elisabeta era visível em seu sorriso, que estava tímido e não tão brilhante como de costume. Mesmo na hora mais esperada e divertida da noite, quando seu Felisberto se levantava e a tirava para dançar a sua música preferida, a melancolia ainda estava estampada no olhar da filha. Embora estivesse se divertindo ao ver seu esposo dançar de forma desajeitada, Ofélia pedia repetidamente que Elisabeta não extrapolasse. E, como pressentimento, a filha começou a sentir dores extremamente incômodas. A princípio pareciam tímidas cólicas, mas pouco a pouco foram se tornando insuportáveis.
Elisabeta entrou em desespero. Segurando firme o braço da mãe, disse à dona Ofélia que o pressentimento que teve naquela tarde estava se concretizando. Seu filho iria nascer e Darcy não estaria lá. Rômulo pediu a Elisabeta que se acalmasse, pois naquele estado em que ela se encontrava o estresse só faria mal. Felisberto pediu que a filha pensasse na criança, acima de qualquer coisa.
— Rômulo, eu não sei se devo, não sei se é o momento, nem mesmo sei se é possível, mas eu quero que meu filho nasça na fazenda Ouro Verde. – Disse, apressadamente. Todos encararam Elisabeta, que já começava a gritar de dor.
— É um pouco arriscado Elisa, mas não é impossível. Você apenas deu início ao trabalho de parto, o que está sentindo são as primeiras contrações. Ainda temos muito trabalho pela frente.
— Eu sinto que é o melhor mamãe, não me olhe com essa cara de desaprovação. – Elisa encarou Ofélia, que andava pela sala com as mãos na cabeça, demonstrando preocupação.
— Eu sei exatamente quais são as suas razões, dona Elisabeta... Mas quando coloca uma ideia na cabeça, quem mais pode com você, me diga, quem? – A senhora indagou, fitando-a severamente.
— Minha filha, eu não posso cogitar que algo saia dos trilhos e ponha a vida de vocês em risco. Por que essa ideia repentina? Olha o seu estado minha querida. – Felisberto aproximou-se de Elisa, que estava sentada no sofá. Embora tentasse disfarçar, sua expressão facial indicava que ela estava sentindo muita dor.
— Não sei explicar papai, apenas sinto que devo ir para lá. – Elisabeta segurou com força a mão do pai, na tentativa de aliviar a dor que sentia. Felisberto notou que a mão da filha suava frio.
— Está bem! Contra o sexto sentido feminino, não há quem possa. – Disse ele, beijando-lhe a testa.
Elisabeta forçou um sorriso para o pai, antes de todos deixarem a casa e partirem apressadamente rumo à fazenda.
***
Charlotte alarmou-se ao abrir a porta e dar de cara com todas aquelas pessoas. Ainda mais ao se dar conta do estado em que Elisabeta se encontrava. Rômulo imediatamente pediu que a moça os conduzisse até o quarto mais próximo. Ao acomodar Elisabeta, Charlotte sentou-se ao lado da cunhada, segurando firme sua mão.
— Vai dar tudo certo Elisa, mal vejo a hora de segurar meu sobrinho ou sobrinha nos braços. – Charlotte deu um beijo na mão de Elisabeta, passando confiança.
— Eu também, mas essas dores estão cada vez mais insuportáveis Charlottinha. – Elisa fez uma careta. – E Darcy, alguma notícia dele?
— Infelizmente não. A última vez que entrou em contato foi pela manhã. Antes de você ir até a fazenda Bittencourt.
— Eu não consigo aceitar o fato dele não estar aqui. – Disse ela, deixando escapar algumas lágrimas pela dor, e pela tristeza. – A gente ansiou tanto por esse momento. Fizemos tantos planos. E agora ele simplesmente não está aqui.
— Não se desespere minha amiga. Isso não vai fazer bem. – Disse Charlotte, sentindo a angústia consumi-la também.
— Charlotte tem razão, minha irmã, você precisa manter a calma. – Disse Cecília, que estava de braços dados com a mãe.
Rômulo voltou ao quarto, pedindo gentilmente que Charlotte se afastasse. Na sala de estar o sentimento era de ansiedade e apreensão. Felisberto e Lorde Williamson conversavam e tentavam acalmar um ao outro. No quarto, Ofélia, Cecília e Charlotte tentavam acalmar Elisabeta, expressando palavras de conforto. As horas passavam-se e, a cada grito que Elisabeta dava, mais as pessoas que estavam por perto se agitavam.
De repente, todas as atenções daqueles que estavam na sala de estar se voltaram para a porta principal, quando, subitamente, Darcy apareceu carregando uma mala em uma das mãos e o paletó na outra. Pela sua expressão, ele parecia extremamente cansado. Não foi necessário perguntar o que estava acontecendo ali. Ao dar três passos em direção ao pai e ao sogro, Darcy pôde escutar nitidamente os gritos de Elisabeta vindo de um dos quartos daquele andar. E isso fora o suficiente para que ele largasse tudo o que tinha em mãos e corresse até lá.
Elisa mal pôde se conter ao ver Darcy atravessar a porta do quarto. Visivelmente emocionado, o rapaz aproximou-se dela. Não sabia exatamente o que fazer ou como fazer, estava totalmente sem reação. Ficou de joelhos ao lado da cama, segurando firmemente a mão de Elisabeta. Ofélia, Charlotte e Cecília permaneciam no canto do quarto, aliviadas.
— Eu sabia, eu sentia que você viria! – Disse ela, deixando escapar mais um grito.
— Calma meu amor, estou aqui! Foi um sinal divino, eu também senti que deveria voltar para casa.
Darcy permaneceu ao lado de Elisabeta durante todo o momento. Sentia-se perturbado ao ouvi-la chorar. Queria fazer com que a dor dela sumisse. Mas ao mesmo tempo, sentia ser o momento mais magnífico que já presenciara. Um homem poderia viver mil vidas, mas jamais entenderia o significado daquele acontecimento tão sublime. Conforme o tempo passava, as dores que Elisabeta sentia aos poucos cessavam. E após um último grito dela ecoar, o choro de Thomas invadiu toda a fazenda.
— Meu filho nasceu! – Darcy gritou expressivamente, fazendo com que todos que estavam na sala escutassem e corressem até eles.
— Ele é lindo, lindo, lindo! – Elisabeta, mesmo cansada, compartilhou da alegria de Darcy, sorrindo e o abraçando.
Rômulo colocou o bebê nos braços de Elisabeta. “Um menino bonitão e graúdo”, observou dona Ofélia, que já estava babando do outro lado do quarto.
— Bem-vindo ao mundo meu amor! – Disse Elisabeta, passando delicadamente os dedos sobre o rostinho de Thomas.
— Parabéns Elisa, Darcy, meu sobrinho é a coisinha mais fofa do mundo. Olha só essas bochechinhas rosadas, e já é tão cabeludinho. Mal vejo a hora de vê-lo brincando e correndo com o Mário. – Derreteu-se Cecília.
— Obrigada minha irmã! Sim, eles serão muito unidos, pode acreditar! – Respondeu Elisabeta, radiante.
Charlotte se aproximou da cama. E, sem conseguir dizer uma palavra, abraçou a cunhada e o irmão. Minutos depois, Lorde Williamson e Felisberto entraram no quarto para conhecer o neto. Ambos estavam emocionados e bastante orgulhosos. Após passarem um tempo naquele local, todos saíram, deixando apenas Darcy, Elisabeta e Thomas no quarto. A família que acabara de iniciar precisava aproveitar o primeiro dos melhores dias de suas vidas.
~ Fim
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