Ainda há esperança
11 Capítulo 11
Elisabeta precisou de alguns minutos para processar a notícia. Ficou paralisada, olhando fixamente para Charlotte que, em pouco tempo, já estava sentada ao seu lado, completamente emocionada. Rômulo também não conseguia esconder seu contentamento. Após prescrever algumas orientações à cunhada, lhe deu um forte abraço, expressando votos de saúde e felicidade para a futura mamãe e ao bebê. Rômulo estava prestes a se retirar, dizendo à Elisa estar à disposição para qualquer coisa. Elisabeta agradeceu imensamente toda a atenção e cuidados prestados. Antes que o rapaz se retirasse, ela pediu gentilmente que ele evitasse contar a novidade a Darcy, pois queria fazer uma surpresa. Ela sabia que o marido faria inúmeras perguntas, mas confiava que seu cunhado conseguiria dobrá-lo. Rômulo concordou, sorrindo em cumplicidade. Charlotte o acompanhou até a porta. Em seguida, a garota sentou-se novamente ao lado de Elisabeta.
— Um bebê Elisa, meu Deus, que bênção! – Charlotte tocou a barriga de Elisabeta, deixando cair uma lágrima sobre ela. Elisabeta mantinha um sorriso de incredulidade. Havia resquícios de surpresa e felicidade em seu olhar.
— Você acredita que a ficha ainda não caiu Charlotte?! Meu Deus... depois de uma notícia tão triste, recebo essa outra tão... tão maravilhosa. Seria uma compensação divina? – Perguntou, com a voz inundada de emoção.
— Eu acredito que sim! Como você sempre diz Elisa: a vida não pode ser tão injusta com a gente. E, eu tenho outra notícia. Não é a salvação de todo mal, tampouco mais importante do que a chegada do meu primeiro sobrinho, mas é um curativozinho que fizemos com muito, muito carinho para você. Volto em dois tempos! – Charlotte se levantou, retirando-se do quarto. Elisabeta, apresentando ainda um pouco de tontura, levantou-se, aproximando-se do espelho. Ao ver seu reflexo, Elisa levou uma das mãos até seu ventre.
— Ah! Então era você esse tempo todo não é mesmo, seu danadinho... Era você me fazendo querer comer tudo, até as comidas que mais detesto... Era você quem me fazia chorar ao ouvir seu papai recitar um poema que eu já sabia de trás para frente... E quem o fez ficar maluquinho quando, subitamente, eu quis comer uma iguaria brasileira em plena viagem à Londres. Quantos sinais você nos deu e não nos demos conta! Um filho... Um serzinho crescendo dentro de mim... É Elisabeta, você pediu um futuro avassalador e ele está te surpreendendo... – Ela direcionou seu olhar para a barriga. – Eu já te amo tanto, tanto, mas tanto sem nem te conhecer, meu amor. Estou sentindo meu coração inundar cada vez mais de amor, a cada momento que fixo a ideia de que você está ai dentro. Nós vamos desbravar juntos esse mundo todo, não é?! E nada nem ninguém irá nos deter... – Elisa foi interrompida com a chegada de Charlotte e Darcy. Ao ver o marido, Elisabeta tentou disfarçar, secando as lágrimas. Ela se aproximou deles, mudando de assunto.
— Você deve estar curioso e preocupado meu amor, eu sei! Mas não foi nada demais. Rômulo me disse que o desmaio se deu por conta do desgaste físico. Ele me deu uma bronca por não ter descansado desde que chegamos de viagem... E também receitou alguns medicamentos e já me sinto bem melhor! – Charlotte encarava Elisabeta com desconfiança. Não conseguia entender por qual razão ela ainda ocultava a verdade. Elisa retribuiu seu olhar, como quem pede paciência.
— Elisabeta você está muito diferente, meu amor. Tem certeza que a queda não afetou essa cabecinha? – Darcy sorriu, aproximando-se dela.
— Não, Darcy! Continuo a mesma de sempre. Mas, é certo que além da viagem, outro motivo me fez perder os sentidos. – Charlotte sorriu para Elisabeta, ansiosa para ouvir o que ela tinha a dizer. – Queimaram toda a pesquisa e o manuscrito do nosso livro sobre o Vale do Café! – Elisabeta olhou para Charlotte, que parecia estar desapontada.
— Mas quem fez um absurdo desses? – Darcy passava as mãos pelo cabelo. Sua face demonstrava indignação.
— Provavelmente nossa tia, Darcy. Não tenho provas concretas, mas é só ligarmos os fatos... – Charlotte carregava alguns objetos em mão, despertando a curiosidade de Elisabeta.
— Lady Margareth realmente não tem escrúpulos. A cada dia que passa meu desprezo por essa senhora só aumenta... E agora, Elisabeta? Precisamos encontrá-la, suas maldades não podem ficar impune. – Darcy encarou Elisa, preocupado.
— Certamente ela irá arcar por todo mal que nos fez meu amor, disso eu não tenho dúvidas! Mas, isso não é o mais importante nesse momento. Charlotte, você disse que tinha uma surpresa para mim...
— Bom, a rainha das surpresas e boas-novas é a senhora, certo? – Elisa a fitou, com repreensão. – Mas, realmente tenho uma surpresa sim. Na verdade é uma surpresa feita em conjunto. – Charlotte estava com as mãos para trás. – Vos apresento uma réplica do livro sobre o Vale do Café. Não está tão caprichado como o original, já que a escrita de Elisabeta é maravilhosa. Mas foi feito com muito carinho. E ela pode, de agora em diante, continuar a escrevê-lo de sua maneira incomparável. O pontapé inicial já foi dado. – Elisabeta pegou o livro em mãos, completamente maravilhada.
— Charlotte, que coisa mais linda! Sua modéstia é algo que me admira. Ouso dizer que este livro está muito melhor que o outro. Olha só essas fotografias, que raridade. Vocês colocaram uma foto de cada personagem. Que primor... Quem mais se engajou neste trabalho de reconstrução? Eu preciso agradecer um por um! É o mínimo que posso e devo fazer depois dessa surpresa tão incrível.
— Nossa, foi uma trupe! Primeiramente suas irmãs, que podem ser consideradas quatro anjos celestiais sobre a terra. As Benedito compraram a ideia imediatamente, Elisa. Elas foram responsáveis por boa parte das entrevistas e dos capítulos. Tive a ajuda de Ema, do Barão, da Dona Julieta, seu pai, sua mãe. Olegário tem sido meu braço direito e esquerdo também. O sétimo capítulo foi ele quem escreveu. Inclusive, ele pediu que você desconsiderasse algum equívoco ou bobagem. Ele está extremamente apreensivo, tadinho. – Elisabeta e Darcy ouviam, emocionados, Charlotte explicar o processo de reconstrução do livro.
— Ah, que amor! Nossa Charlotte, sem saber você me deu um dos mais bonitos presentes que eu poderia ganhar... Darcy, você se lembra da primeira vez que comentei sobre a ideia de fazer este livro?
— Claro, eu lembro perfeitamente daquele lindo dia! Estávamos recomeçando, buscando nossas forças aqui no Vale... Nossa fonte de inspiração.
— Sim! Eu te disse que a ideia inicial era escrever o livro sob o olhar das cinco irmãs. E foi justamente isso que elas fizeram. Mas de uma forma ainda mais particular. Além de participarem da história, elas também puderam escrevê-la. Meu Deus, eu preciso agradecê-las...
**
Era início de noite quando Darcy, Elisabeta e Charlotte chegaram à casa dos Benedito. Lorde Williamson recusou o convite para acompanhá-los, pois, preferiu ficar na fazenda descansando um pouco mais. Na reunião familiar, estavam presentes todas as irmãs e seus respectivos amores. Dona Ofélia era, sem dúvida, a mais empolgada de todos. Seu sonho de casar as cinco filhas havia se realizado. E, algumas delas já estavam formando sua própria família. Cecília e Rômulo foram agraciados com a chegada do bebê, considerado um presente divino. Lídia, Jane e Mariana seriam, também, as próximas mamães. O alvo seguinte era Elisabeta. Mas essa, “ah, essa deve demorar, e muito.” – Pensava a matriarca da família, consigo mesma.
— Gente, eu queria do fundo do coração agradecer a todos vocês. – Elisabeta deu início a sua fala, olhando para cada um que estava ali presente. – Obrigada por terem tirado um pouco do tempo de vocês para se dedicar a reconstruir, tijolo a tijolo, um sonho meu. Eu sou afortunada por estar cercada pelas pessoas mais especiais do mundo. Por possuir o alicerce mais poderoso que poderia existir: minha família. Vocês não imaginam o quanto o gesto de vocês me fortaleceu depois da dolorosa queda. Mais uma vez, muito obrigada. – Todos que estavam presente a aplaudiram.
— Você não mede esforços para nos ajudar sempre que precisamos minha filha. Poder fazer o mesmo por você é gratificante. – Seu Felisberto aproximou-se da filha abraçando-a e depositando um beijo em sua testa.
— Ela merece, ela merece! – Lidia gritava, com bastante empolgação.
— Fizemos tudo com muito carinho Elisa. Graças a seu livro eu pude colocar em prática um dos hábitos que mais amo: a investigação. Parecia que tinha retornado à nossa infância, quando você me acompanhava nas minhas buscas mais loucas e que ninguém além de você confiava, lembra? – Disse Cecília, tentando conter a emoção.
— Eu amei conhecer melhor as histórias de vida do pessoal aqui do Vale. Quando fui reescrevê-las com minhas próprias palavras, parecia que eu mesma quem tinha vivido tudo aquilo. Foi uma experiência maravilhosa, minha irmã. – Emendou Jane.
— Foi uma aventura com dose de paciência ter que aturar aquela maluquinha fazendo monólogos com as falas dos personagens Elisa, mas valeu à pena o resultado. – Disse Mariana, apontando para a irmã caçula.
— Você adorou minhas atuações Mariana, confesse! – Lídia fez uma careta para a irmã.
Todos se divertiam descontraidamente com a situação. O clima naquela casa era sempre aquele. De muita alegria e união. Não havia espaço para tristeza no lar dos Benedito. Após o jantar, a turma voltou a se reunir na sala de visitas, para jogar conversa a fora. Seguiram desse modo até tarde, quando todos se despediram e voltaram a seus lares.
**
Quando regressaram à fazenda Ouro Verde, Darcy, Elisabeta e Charlotte encontraram Lorde Wiliamson já acomodado em seus aposentos. Dolores os informou que o senhor já havia se alimentado, tomado todos os medicamentos e lido um pouco o jornal antes de ir dormir. Charlotte seguiu para seu quarto, alegando estar exausta. Darcy e Elisa fizeram o mesmo.
— Que dia, meu amor, que dia! – Disse Darcy, retirando o paletó e gravata.
— Sim, foi um dia daqueles! – Disse ela, livrando-se também de seus trajes mais pesados.
Aproveitando o momento em que Darcy adentrou o banheiro, Elisabeta foi até sua bolsa e retirou algo que havia pegado no quarto de Cecília, após anunciar a ela a notícia de sua gravidez. Elisa colocou o sapatinho de crochê em cima da cama. Em seguida, entrou no banheiro para acompanhar o marido. Ao sair do banho e se aproximar da cama, Darcy observou boquiaberto aquele objeto branquinho e minúsculo. Após encarar aquele sapatinho por alguns segundos, o rapaz direcionou o olhar para Elisabeta, com os olhos marejados de lágrimas.
— Por acaso é o que eu estou pensando, Elisabeta Benedito? – Disse ele, segurando o rosto de Elisabeta. Ela não disse nada, apenas pressionou o lábio inferior e assentiu com a cabeça.
— Sim, é exatamente isso que você está pensando Sr. Darcy Williamson...
Darcy ergueu Elisabeta em seus braços. E os dois giravam quase como em uma valsa. Darcy fazia isso nas ocasiões em que as palavras eram insuficientes para expressar a sua grande felicidade. E Elisa sabia muito bem disso.
— Eu te amo Elisabeta! Eu amo vocês mais do que tudo no mundo. – Disse ele, beijando a barriga de Elisa, completamente emocionado.
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