Ainda existe amor?

5 Capítulo 5 - Tu condena fue mi condena


Maria sentiu o perfume do homem invadir suas narinas. Pensou que fosse cair ali mesmo ao perceber que a respiração dele estava tão ofegante quanto a sua. Não somente a respiração, o coração de ambos também pulsava forte, como se saltitando dentro do peito. Ela foi pega de surpresa pela descoberta de que o olhar viril do ex-marido ainda era capaz de arrebatá-la e fazer seu corpo estremecer por inteiro. Não gostou de admitir para si mesma que estava rendida ao poder de sedução daquele homem. Ele ainda a atraía e o golpe dessa revelação deixou Maria atordoada.

O mesmo aconteceu com o senhor San Román, mas seu orgulho e arrogância não permitiram que ele tomasse consciência do real significado daquela estranha sensação que lhe tirou o fôlego. Algo nos olhos daquela mulher capturava sua alma e o intimidava. Sua ex esposa não era mais a mesma. Era evidente que ainda conservava a mesma beleza avassaladora, mas sua postura altiva e segura o intimidou. Foi difícil transparecer firmeza e não titubear diante da presença dela.

Num único movimento, rápido e firme, Maria livrou seu braço das mãos de Estevão. A sensação de fascínio terminou quando sua memória trouxe à tona as ações cruéis que o ex marido foi capaz de cometer para não ter que enfrentar sua covardia e fraqueza. Ao lembrar da mentira inventada sobre sua morte, sentiu o sangue esquentar nas veias. O enfrentamento não poderia ficar para outro dia.

Maria: Não ouse me tocar nunca mais, Estevão San Román! — soltou-se bruscamente enquanto olhava para ele furiosa. — O que veio fazer aqui? Ah, já sei! — ela abriu um sorriso debochado. — Veio tentar comprar o meu silêncio como fez com todos os hipócritas que estão sentados lá dentro?

Estevão: Como você teve coragem de aparecer novamente? — a indagou sério.

Maria: A mesma coragem que você teve ao me abandonar à própria sorte naquela maldita prisão em Aruba. A mesma coragem que você teve quando disse aos meus filhos que a mãe deles estava morta! — Elevou o tom de voz o máximo que pode.

Estevão: Eu não tive outra alternativa. — disse com a voz grossa e o tom forte de sempre. — Ou você queria que eu dissesse aos meus filhos que a mãe deles era uma assassina? Eu nunca permitiria que eles passassem por essa vergonha e sofrimento. A egoísta foi você, Maria! — de forma rude, apontou o dedo para ela. — Não pensou na nossa família quando entrou naquele quarto e tirou a vida de Patrícia.

Maria: Eu não matei a Patrícia! — exclamou com firmeza.

Estevão: Isso é o que você diz! — devolvendo um olhar frio. — O júri te condenou culpada. A prisão era o teu destino! — exclamou irritado.

Maria: Mas não a solidão! O seu abandono tornou ainda mais triste e dolorosa a vida naquela prisão. Você não me deu sequer o benefício da dúvida. Não acredito na minha inocência! Bastou o seu amigo Evandro depor contra mim naquele tribunal que o amor que você dizia sentir, desapareceu em minutos. E eu tão burra acreditei que viveríamos juntos para sempre...

Estevão: Você acha que realmente foi a única que sofreu nessa história toda? Você nunca se perguntou como eu me senti ao ter que te deixar naquele lugar? Ao ter que renunciar ao nosso amor? Eu te adorava, Maria. Te coloquei num pedestal que ninguém ousaria destruir. Eu me considerava o homem mais feliz desse mundo. Mas todo aquele conto de fadas que nós vivíamos acabou no momento em que você disparou a arma e matou a Patrícia. E depois que o Evandro testemunhou no tribunal as coisas mudaram radicalmente. No dia em que o juiz leu a sentença do júri eu descobri que teria de aprender a viver sem você. E foi isso que eu fiz.

>— Flashback on

Prisão de Aruba — 20 anos atrás.

O prédio da prisão tinha um aspecto sujo e horrendo. Não era a primeira vez que Estevão entrava por aqueles portões enferrujados e velhos. Desde o dia em que Maria foi transferida para o local, antes de ser levada a júri popular, o homem visitava sua esposa regularmente. Era quase impossível afastá-lo do lado dela, a não ser que ela própria pedisse. Deixou as empresas San Román a cargo dos demais sócios e mudou-se para Aruba com os filhos, temporariamente; o tempo que durasse aquele pesadelo, que não seria muito, imaginava ele. No entanto, o que Estevão não sabia é que todas as suas certezas logo se transformariam em pontos de interrogação.

Já havia se passado uma semana desde o julgamento da esposa. Depois que escutou o testemunho de Evandro no tribunal, Estevão viu seu mundo colorido se tornar cinza. Então era mesmo verdade, Maria era uma assassina. Ele não teve coragem de encará-la. Enquanto ela sofria sozinha numa cela pequena, aterrorizada com a notícia de sua condenação injusta, o homem disse a si mesmo que precisava de tempo para assimilar o que aconteceria com ele e os filhos dali em diante. Trancado no quarto de hotel, chorava dia e noite, desesperado frente a única solução que encontrou: divorciar-se de Maria e recomeçar uma nova vida longe dela. Claro que a ideia não havia partido dele, mas cuidadosamente semeada por Alba que recebeu o apoio incondicional de Evandro. Além disso, Estevão sentia que moralmente deveria apoiar Arthur. Contrariado por seu coração, tomou uma decisão que mudaria sua vida para sempre. Não só a dele, mas também a vida dos filhos e a de Maria.

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Mais um sábado ensolarado nasceu em Aruba. Longe das praias paradisíacas e resorts de luxo, Maria limpava os banheiros coletivos do presídio quando foi chamada por uma das carcereiras... "Visita, novata!" exclamou a mulher com uma cara de poucos amigos. Nenhuma palavra mais foi acrescentada... e nem precisava. Maria sabia de quem se tratava! Seu coração pulou de alegria porque descobriu que seus temores eram infundados. Estevão nunca a abandonaria à própria sorte e longe dos filhos.

Assim que entrou na sala de visitas, uma mulher cheia de ilusões correu para abraçar o marido.

Maria: Estevão, você voltou... eu sabia! Eu sabia que você não iria me abandonar neste lugar. — falava enquanto distribuía desesperadamente beijos pelo rosto do homem.

Estevão: Maria... um momento! — tentou afastar-se da esposa a empurrando pela cintura. — Precisamos conversar. — disse olhando-a de frente. Seu tom de voz soou indiferente. Não parecia o mesmo Estevão de algumas semanas atrás.

Maria: O que houve? Por que você está tão sério? — apoiou suas delicadas mãos no peito do marido. — O pedido de recurso contra a decisão do júri foi recusado? — olhava para ele procurando uma resposta.

Estevão: Não vim aqui conversar sobre recursos... o assunto é outro. — Estevão não conseguia olhar para ela, então, virou-se de costas e continuou a falar. — Eu quero o divórcio, Maria. Não podemos mais continuar casados.

Maria: Como? ... Não... Estevão, não me deixe, eu te imploro. — tocou no ombro esquerdo de Estevão, mas ele continuou de costas. — Meu amor, você e os nossos filhos são o único motivo pelo qual eu ainda estou viva e tentando sobreviver nesse lugar. Não perca as esperanças... — passou as mãos pelos cabelos dele e os acariciou. Ao sentir as delicadas mãos dela, ele estremeceu e respirou fundo — nós vamos conseguir provar a minha inocência!

Estevão: Não existe mais um "nós", Maria. — recolheu todas as forças que lhe restavam e se virou para encará-la.- Por favor, não torne a situação mais difícil do que ela já é. Eu não quero ter mais nenhum desgaste. Preciso seguir em frente com a minha vida...

Maria: Sem mim? — o interrompeu e sua voz soava embargada. — Você prometeu que iria me amar para sempre... se lembra? Nós brindamos a isso na nossa noite de núpcias... no dia em que me entreguei a você, que eu fui sua e você foi meu...

Aquelas palavras acertaram em cheio o coração de Estevão. E ele lutou muito contra o desejo angustiante de tomá-la nos braços mais uma vez.

Estevão: Os meus sentimentos mudaram. Eu não amo mais você. — desvio o olhar para o lado e disse de uma vez só.

Maria: Mentiroso! — segurou o rosto dele com as duas mãos fazendo com que ele a olhasse de frente. — Diz isso olhando nos meus olhos. Anda! Você nem mesmo consegue fingir, não é? Estevão, por que você está abrindo mão do nosso amor? Eu não quero me perder de você! Eu não quero perder você! — o abraçou forte e ele se permitiu chorar junto com ela. — Estevão, te juro pela vida dos nossos filhos, pelo nosso amor, que eu não matei a Patrícia.

Estevão: Eu queria poder acreditar em você, mas todas as provas te acusam. Maria, se de verdade ama os nossos filhos...

Maria: Pode duvidar que sou inocente, mas não vou permitir que duvide do amor que tenho por nossos filhos. — Ela o soltou imediatamente. Não iria admitir que ninguém, muito menos ele, colocasse em questão os sentimentos dela como mãe.

Estevão: Então, pelo bem deles, devemos nos divorciar. Peço que aceites a separação... não quero ter que lutar contra você nos tribunais. Sem você nas nossas vidas, os meus filhos somente poderão contar comigo daqui pra frente. Não posso falhar como pai.

Maria: Se é pelo bem dos nossos filhos, eu aceito a separação. Pelo amor que sinto por eles, não vou negar o seu pedido. — Disse conformada, mas com lágrimas nos olhos. O que mais ela poderia fazer? Sabia muito bem que esse jogo de forças seria favorável a Estevão. Que juiz daria a guarda dos filhos a uma mulher condenada por assassinato? E como se não bastasse, as leis sempre saiam em benefício dos mais poderosos. E Maria sabia disso. Essa luta ela já havia perdido. E nunca odiou tanto ter casado com um multimilionário.

A senhora San Román se sentou na primeira cadeira que viu à sua frente. Pensou que fosse desmaiar tamanho foi o baque daquela revelação. Ela nunca mais veria o amor de sua vida, receberia suas carícias, afetos ou o chamaria de seu novamente... mas o pior ainda estava por vir. Sua completa inocência a impediu de assimilar as verdadeiras intenções que aquele pedido de separação escondia. Foi então que uma voz gritou dentro de si... "meus filhos"... o desespero tomou conta dela por completo e Maria soube naquele momento que havia perdido para sempre seus bens mais valiosos, Héctor e Estrella.

Maria: Estevão, eu voltarei a ver os meus filhos? — levantou bruscamente da cadeira e correu até ele, mas deu de cara com as grades que cercavam a sala de visitas.

Estevão: Carcereira... a visita terminou. — Já do lado de fora. Com uma atitude vergonhosa e covarde, quis fugir do lugar para não ter que enfrentar a mãe de seus filhos.

Maria: Estevão! Estevão! Não! Você não pode me separar dos meus filhos! — gritava enquanto suas mãos batiam com força nas grades do portão.

Estevão: Eu sinto muito, Maria. — respondeu enquanto seus olhos encheram-se de lágrimas novamente.

Não havia nada que Maria pudesse fazer a não ser observá-lo partir. Infelizmente, esse foi o rumo que a história dos dois tomou. E esse momento de desprezo e rejeição seria determinante para fazer nascer no coração de Maria o desejo de vingança.

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Naquela tarde, Estevão deixou o presídio totalmente desorientado; quando se deu conta estava parado em frente à praia olhando para a imensidão do mar. Sob passos pesados caminhou para o meio da praia e jogou-se na areia. Não conseguiu segurar as lágrimas. O homem chorava como uma criança desamparada. Pensou por um momento que o peito fosse explodir tamanha a dor e o pesar que lhe atingiram. Era como se uma faca o cortasse por dentro.

Estevão: Deus... — soluçando olhou para o céu — Faz essa dor passar. Eu não aguento! — dizia com a voz pesada. — Eu me sinto tão sozinho, tão incompleto e vazio. Como vou viver sem a Maria? — chorava segurando com força a areia da praia.

Carmem soube por Alba o que Estevão pretendia fazer. Saiu às pressas do hotel com esperanças de encontrar seu sobrinho e impedi-lo de cometer o maior erro de sua vida. No caminho até a prisão e da janela do táxi, avistou um homem sozinho no meio da praia, jogado na areia e aparentemente desesperado. Não teve dúvidas... se tratava de Estevão. Desceu imediatamente do carro, correu até a orla e por lá deixou seus objetos pessoais. Enquanto acelerava seus passos, se deixou consumir pela esperança de que o sobrinho havia desistido daquela ideia absurda. Um sentimento que em breve deixaria de fazer sentido.

Carmem: Estevão... — ajoelhou-se na areia e abraçou o sobrinho o mais forte que conseguiu. -Não me diga que você... — buscou no rosto do sobrinho a resposta que tanto temia.

Estevão: Sim... eu abandonei a mulher da minha vida. — chorava agarrado ao braço da tia. — Sou um covarde! Não tive coragem de lutar ao lado dela. Não tenho forças, tia.

Carmem: Estevão, meu filho. Volte atrás na sua decisão. — segurando fortemente o rosto do sobrinho. — Maria te ama! Sei que ela entenderá o seu desespero. Ainda há tempo... não cometa esse erro! — disse com um tom de voz desesperado.

Estevão: Não posso! E os meus filhos? Como vou explicar que a mãe nunca sairá da cadeia? — um choro misturado com soluços foi o que Carmem escutou a partir daqui.- Que ela é uma assassina! A senhora não sabe quanta dor há naquele lugar... Não posso submeter os meus filhos a esse tormento! Eu irei protegê-los, custe o que custar! Nem que para isso eu precise sacrificar o meu amor por Maria.

Carmem: O seu amor? — largou o rosto de Estevão e afastou-se dele. — E quanto ao amor de Maria pelos filhos? Você não pensa em todo o sofrimento que ela irá passar quando descobrir que nunca mais verá as crianças?! — Carmem não conseguiu segurar as lágrimas.- Você ao menos teve coragem de dizer à ela os termos do divórcio? Disse que ela não terá a chance de lutar pelos filhos na justiça? — o olhar envergonhado do sobrinho confirmou que a resposta era não. — Estevão, eu não te reconheço mais... Evandro e Alba realmente conseguiram te envenenar. Como pode acreditar que Maria seja uma assassina? Uma mulher que ama os filhos como ela nunca tiraria a vida de outra mãe. Eu tenho tanta pena de você, meu querido... seus dias daqui para frente serão de muita tristeza e a mentira que você pretende contar aos seus filhos te atormentará para sempre. Por favor, não conte comigo. Eu não irei participar desta farsa! Ficarei no México por mais uns dias e em breve parto para a Europa. — levantou do chão limpando a roupa que estava coberta por areia.

Estevão: Tia, não! Eu preciso da sua ajuda. — depois de levantar do chão segurou Carmem pelos ombros.- Como vou criar os meus filhos, sozinho? Por favor, fique. Se não para sempre, ao menos até eu consegui reorganizar a minha vida. Eu nem ao menos sei por onde começar. Estou totalmente destroçado e preciso dos seus conselhos. Eu já perdi a Maria, não posso também perder a mulher que é como uma mãe pra mim — abraçou a tia com toda a força que lhe restava.

Carmem: Deus sabe como eu amo aquelas crianças e por isso não posso olhar nos olhos delas e dizer que mãe está morta. Maria é minha amiga e eu não vou traí-la. — ainda abraçada a ele.

Estevão: E quanto a mim? — se afastou para olhá-la mais uma vez. — Não vou suportar essa situação se a senhora estiver longe. Eu amo a tia Alba, mas quem me criou como um filho foi você. Tia Carmem, não pense que foi fácil dizer adeus ao meu amor. Maria ainda está aqui dentro. — apontava na direção do coração. — Ainda sinto o gosto dos lábios dela e as lembranças do nosso amor estão impregnadas na minha pele. Não estou pedindo que apoie minha mentira, só que não me deixe desamparado. Eu imploro!

Carmem: Eu preciso conversar com Maria antes de tomar qualquer decisão. — deu as costas para o sobrinho, recolheu seu par de sapatos da areia e saiu dali decidida a apoiar a esposa de Estevão.

>— Flashback off

Maria: Que comovedor! — soando sarcástica.- Até que você aprendeu rápido a viver sem mim... engravidou outra mulher assim que me deixou...

Estevão: Você não sabe o que diz... — disse e sentou no mesmo banco em que encontrou a ex-esposa. — Maria, deixe o Ângelo fora disso. Ele é um rapaz bom e não merece sofrer. — voltou a mirar o rosto dela.

Maria: A última coisa que quero é lastimar a Ângelo. — disse pensativa.- Ele é um rapaz nobre e de bons sentimentos. Senti algo especial ao vê-lo e conversar com ele. Eu espero de verdade que meus filhos sejam como esse garoto. Quando irei revê-los, Estevão? — perguntou com um tom severo.

Estevão: Maria, as coisas não são tão fáceis. Não posso te levar até eles agora. Preciso de tempo...

Maria: Tempo? — olhou para o homem à sua frente com indignação.- Vinte anos não te parecem suficientes? Desculpe, mas eu não irei esperar um minutos a mais para poder abraçar e beijar meus filhos, escutá-los me chamar de mamãe, conhecer suas vidas, seus sonhos. Quero vê-los hoje mesmo!

>— Salão de Festa

Do lado de dentro do hotel, Fernando logo descobriria que a decisão de abandonar sua bela acompanhante no salão do baile havia sido um erro. Novamente ele perdia de vista a mulher que tanto mexeu com o seu coração.

Teodoro: Pelo visto a sua dama de vermelho sumiu do mapa. — parou em frente à mesa em que estavam Fernando e Maria.

Fernando: Eu não acredito que deixei você me convencer a sair para resolver um problema tão insignificante como aquele. — direcionou seu olhar para todos os cantos do salão, girando o corpo várias e várias vezes. — Isso é tudo culpa sua! Se eu não encontrar a Maria, pode se considerar um homem demitido.

Teodoro: Não é para tanto, Fernandinho... — examinou com cuidado o salão. Seu olhar também buscava a Maria.

Fernando: Seu imbecil, você estragou a minha noite. — bufando de raiva. — Vem! Vamos tentar achá-la. — puxando Teodoro pela manga do smoking.

>>>

De volta ao Jardim...

Estevão: Hoje, não! — levantou furioso. — Maria, você não está em condições de me exigir nada! Perdeu o direito sobre os nossos filhos quando assassinou a Patrícia.

Maria: Uma mãe nunca perde os direitos sobre os filhos que ela própria gerou! — disse com tanta bravura e emoção que quase conseguiu tocar o coração daquele homem.

Estevão: Essa discussão não vai nos levar a lugar nenhum. Ou você aceita o acordo que vou te propor ou...

Maria: Ou o quê?

Estevão: Ou levarei Héctor e Estrella para fora do país e você nunca mais irá vê-los.

Maria deu dois passos para trás e experimentou um sentimento de decepção enorme. Estevão definitivamente não era mais o homem por quem ela se apaixonou. Ele tinha nas mãos o poder para afastá-la para sempre dos filhos se quisesse. Se sentiu tão incapaz que seu único desejo foi chorar, mas manteve firme a imagem de mulher inabalável que agora transparecia aos olhos dele.

Maria: Como você é cruel... Nem ao menos se compadece do meu sofrimento... Estevão, em algum momento do passado eu signifiquei algo para você? — a pergunta de Maria deixou Estevão sem jeito.

Estevão: Maria, você pode não acreditar, mas a sua condenação foi a minha condenação! Estou preso a uma mentira que não pode ser desfeita.

Maria: Claro que pode! — exclamou exaltada.- Tanto pode como vai ser desfeita! Ou você acha que eu irei compactuar com essa mentira horrorosa que você criou? Os meus filhos têm o direito de saber que a mãe deles está viva!

Estevão: Não! Eles nunca vão saber a verdade. Você não tem o direito de estragar a vida dos nossos filhos! Eles vão sofrer se descobrirem que a mãe é uma assassina.

Maria: Foi você quem estragou a vida dos nossos filhos quando disse que eu estava morta. Estevão, sua mentira não os protegeu de nenhum sofrimento. Quando você vai entender isso? Eles cresceram sem o carinho e o amor de uma mãe. Me dói tanto imaginar todas as noites que eles tiveram de passar sem poder escutar minha voz ou correr para os meus braços depois de um pesadelo. Estevão, eu não duvido que você tenha sido um bom pai, mas nada pode substituir a ausência de uma mãe.

Estevão: Eles já têm uma mãe! Os nossos filhos veneram um retrato que não é o seu. A mulher que eles acreditam ser a mãe não se parece nem um pouco com você, nem mesmo no nome. Ela se chama Laura San Román!

Maria: Você apagou a minha imagem da memória dos nossos filhos?! É claro! Por isso que Ângelo não me reconheceu. Ele não sabe quem eu sou. Se houvesse alguma foto minha na mansão, Ângelo imediatamente diria meu nome!

Estevão: Maria, você foi condenada à prisão perpétua! Todos nós pensávamos que você nunca sairia daquele lugar... você precisa compreender que eu não tive outra escolha...

Maria: Já basta, Estevão San Román! — o interrompeu abruptamente.- Estou farta das suas desculpas cansadas! Sinceramente, eu nunca vou me perdoar por ter unido a minha vida a um homem fraco e covarde como você! — apontando para ele com uma das mãos.

Deu as costas para Estevão e preparava-se para se retirar do jardim quando foi puxada novamente por ele. Dessa vez seus corpos ficaram grudados e ela apoiava suas mãos no peito robusto do homem.

Estevão: A nossa conversa ainda não terminou! — o rosto dela estava bem próximo e novamente ele pode mirar os lábios vistosos que a mulher possuía.

Maria: Estou muito cansada. Conversaremos outro dia! — deu um empurrão forte e se afastou dele.

Antes que Estevão tentasse uma nova aproximação, avistou Fernando e seu empregado entrando no jardim. "Raios! O que esse imbecil quer agora?", pensou o San Román. O dono do lugar estava agitado e com a respiração ofegante, como se tivesse participado de uma maratona; o que não se tratava de nenhum exagero tendo em vista a magnitude e extensão do Hotel Rizin; seus longos corredores, salões, bares e demais espaços foram explorados detidamente pelo senhor Navarro e Teodoro.

Fernando: Maria, te procurei por todo o salão. Por um minuto cheguei a pensar que você havia desistido de me esperar. Eu não posso te perder novamente! — ignorou completamente a Estevão enquanto beijava as mãos da mulher.

Maria: Você não vai me perder nunca mais! — queria provocar a Estevão, sabia que ele não havia tirado os olhos dela desde o início da festa. De fato, aos ouvidos do senhor San Román a confissão de Maria a Fernando foi como um golpe certeiro no estômago. Concluiu que entre eles havia algo mais além da aparente amizade.

Fernando: Acho que você deve estar cansada. Posso te acompanhar até em casa? — passou as mãos pelos cabelos e pelo braço direito dela.

Maria acenou positivamente com a cabeça, mas antes que se retirasse do local, voltou-se para Estevão e se despediu. Não que ela se importasse em cumprir cortesias na presença do ex-marido, mas como ele mesmo havia dito, a conversa entre os dois não estava terminada. O regresso dessa mulher estava a ponto de revirar por completo a vida de Estevão e de todos aqueles que no passado compactuaram com a mentira inventada por ele.

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Frente ao prédio de Maria

No caminho de volta para casa, Maria seguiu pensativa e em silêncio. Fernando tampouco se atreveu a iniciar qualquer tipo de interação com ela, mesmo que a quietude da mulher lhe deixasse impaciente. Já em frente ao prédio de Maria, o homem destravou o cinto de segurança, saiu do carro e correu até a porta do passageiro para receber a bela mulher que o acompanhava naquela noite.

Fernando: Obrigada pela noite maravilhosa que passamos juntos. — ajudando Maria a descer do carro.

Maria: Não há o que agradecer. Era meu dever retribuir o favor que você me fez. E também, a festa de aniversário das empresas San Román foi uma grande oportunidade para rever os meus queridos e especiais amigos. — Maria fez uma pausa e logo em seguida continuou. — Fernando, antes de você ir, preciso te dizer uma coisa... você se comportou como um verdadeiro cavalheiro... me senti muito bem ao seu lado.

Fernando: Uma pena que toda essa minha cortesia e cavalheirismo não me ajudaram a conseguir o que eu mais queria essa noite... — disse quase sem pensar. Decidiu jogar com as palavras.

Maria: E o que você mais queria? — ela perguntou com uma sincera ingênua.

Fernanda: Isso. — O homem deu dois passos em direção à Maria, encaixou a mão direita na cintura da mulher e com a esquerda segurou sua nuca fazendo com que os lábios dela encontrassem o caminho até os seus. Todo esse movimento não durou mais que um segundo; pega de surpresa, Maria não teve outra alternativa a não ser corresponder ao beijo de Fernando.

Do outro lado da rua, um homem assistia a cena de dentro do carro. Era Estevão. Assim que Maria deixou a festa, o senhor San Román tomou a decisão de seguir a ex-esposa e seu acompanhante. Quando chegou ao local parou seu automóvel próximo ao prédio de Maria. Desligou os faróis, subiu os vidros da janela do passageiro e esperou pacientemente a despedida dos dois. Sentiu o sangue ferver dentro de si ao presenciar a cena do beijo entre ela e o senhor Navarro. Sua primeira reação foi destravar o cinto de segurança e, por um instante, cogitou descer do carro para golpear o homem. Antes mesmo de abrir a porta do motorista, a consciência de Estevão o alertou sobre o ato de insensatez que estava prestes a cometer. Lembrou-se que não tinha mais direitos sobre a mulher que há vinte anos não era mais sua. Passou as mãos no rosto, respirou fundo e jogou seu corpo contra o banco do motorista.

Lá fora, não demorou muito para que Maria caísse em si e percebesse o perigoso rumo daquele beijo. Fernando era um homem que sabia como conquistar uma mulher e fazê-la sentir-se especial. De fato, seu jeito galante e sedutor chamou a atenção de Maria. Após vinte anos de sofrimento, maus tratos e abandono, ela percebeu que ainda era capaz de despertar o interesse de um homem. Essa descoberta elevou sua autoestima, mas também a preveniu sobre os danos que poderia causar a Fernando caso ele interpretasse aquele beijo como um amor correspondido. Dois minutos foram o bastante para que ela escutasse o que o seu coração dizia que era o certo a fazer: ser honesta consigo mesma e admitir que jamais poderia amar o senhor Navarro.

Maria: Fernando... você não deveria ter me beijado. — desgrudou seu corpo de Fernando e deu dois passos para trás.

Fernando: Eu sei que não deveria, mas quis te beijar. O desejo de provar o gosto dos teus lábios cresceu dentro de mim no dia em que nos cruzamos naquela estrada. Sei que posso estar sendo um pouco precipitado, mas acho que te amo, Maria. — aproximou-se dela e segurou sua cintura com firmeza.

Maria: Fernando... por favor. — livrando sua cintura das mãos dele.

Fernando: Maria, me dê uma oportunidade de te conquistar, de provar esse amor que estou começando a sentir por você.- se aproximou novamente dela e lhe tocou o rosto.

Maria: Fernando, eu não posso! — disse enquanto o olhava. — Meu coração está morto para o amor. Existiu alguém no passado que me machucou muito e destruiu todas as ilusões que eu tinha de amar novamente. E eu também não quero te dar falsas esperanças. Você é um homem engraçado, gentil e muito bom, merece encontrar alguém especial — segurou delicadamente o rosto do homem e olhou com ternura.

Fernando: Eu já encontrei essa pessoa. Ela é você! — o homem expressava um olhar desesperado.

Maria: Não insista! — virou-se e ficou de costas para ele. — Eu estou sendo honesta quando digo que não posso corresponder ao seu amor; não quero te machucar, Fernando. — voltou a olhá-lo de frente. — E se você não consegue aceitar um não como resposta, não poderemos mais nos ver...

Fernando: Não! Por favor, Maria! — segurou as mãos dela com força. — Desculpe. — respirou pesado. — Por ora prometo que irei tentar te esquecer, mas caso eu não consiga, lutarei com todas as minhas forças para conquistar o teu amor.

Maria não soube o que responder a Fernando, ofereceu um abraço fraterno ao homem e subiu às pressas para seu apartamento. O senhor Navarro observou enquanto ela se afastava, descontente com a rejeição sofrida. No caminho até seu carro, jurou a si mesmo que não desistiria de lutar pelo amor daquela mulher. "Ela ainda vai ser minha", foi o que ele repetiu para si mesmo várias vezes durante o trajeto de volta para o hotel.

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Assim que Fernando partiu do local, Estevão saiu enfurecido de dentro de seu automóvel. Precisava falar com a ex-esposa, mas tinha certeza que ela não aceitaria recebê-lo. Como subir até o apartamento sem tocar o interfone e ser autorizado? Pensou por alguns minutos e concluiu que a única maneira de surpreendê-la seria esperar até que um morador qualquer do prédio estivesse de saída ou entrada. Sentou nas escadas do portão principal e esperou pacientemente por ajuda. Por sorte, um casal de inquilinos, vizinhos de Maria, não tardaram a chegar e foi graças à gentileza deles que Estevão conseguiu o que tanto queria.

Estevão: Olá, boa noite. — parou em frente ao jovem casal.

Casal: Boa noite. — sorrindo para o homem.

Estevão: Prazer, me chamo Estevão. — acenando com a mão direita.- Peço desculpas pelo incômodo, mas preciso muito de ajuda. Eu vim visitar uma amiga que está morando neste prédio, mas acabei de descobrir que perdi o cartão com o número do apartamento. Eu já tentei ligar várias vezes para o seu celular, mas ela não atende. Nós ficamos de jantar hoje e eu não tenho como avisá-la que já cheguei.

Carlos: Qual o nome da sua amiga? — o indagou.- Talvez ela seja uma conhecida de nós dois. — olhou para a namorada.

Estevão: Maria... Maria Fernandez.

Débora: Ah, a nova moradora do 305. A mulher bonita e simpática que encontramos ontem no elevador. Se lembra dela, meu amor? — lhe tocou o ombro esquerdo.

Carlos: Claro! Estevão, se você quiser pode entrar conosco. — apontando para o portão. — Como a Débora disse, a Maria está no apartamento 305... basta você subir até o terceiro andar.

Estevão: Eu agradeço muitíssimo a ajuda dos dois. — lançou ao casal um sorriso simpático.

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Assim que entrou no apartamento, Maria caminhou direto para seu quarto. Se desfez do vestido, dos sapatos e das joias. Seu corpo, maduro e vistoso, estava coberto apenas por uma lingerie rendada de cor preta. Estava no banheiro removendo o resto da maquiagem quando escutou a campainha tocar.

Maria: Que estanho... — direcionou seu olhar para a porta do quarto. — O interfone não tocou... Será que algum vizinho está precisando de ajuda? — perguntou para si mesma enquanto largava na pia do banheiro um algodão encharcado com demaquilante.

Maria saiu correndo até o closet, pegou um roupão e o vestiu às pressas. Distraída pela agitação do momento, nem se deu conta de que parte do seu busto ficara descoberto, exteriorizando o sutiã que lhe cobria os seios. Ao abrir a porta e se deparar com Estevão, a mulher não conseguiu esconder a reação de espanto que preencheu seu rosto no mesmo instante.

Maria: Estevão... — soltou a maçaneta da porta e deu dois passos para trás. — O que você faz aqui? — lançou um olhar surpreso para ele.

Um Estevão visivelmente boquiaberto foi o que Maria encontrou ao abrir a porta. Os olhos do homem percorreram o corpo dela de cima a baixo. Maria era ainda mais linda sem maquiagem e seminua (era evidente que por baixo do roupão apenas uma lingerie cobria sua nudez). A beleza natural da ex-esposa não passava despercebida; imediatamente ele lembrou do dia em que se conheceram e do deslumbramento que sentiu ao vê-la pela primeira vez. Ao olhos de Estevão, Maria ainda conservava o mesmo físico esbelto que, no passado, fazia ele perder o juízo. Descobriu que ainda se sentia atraído sexualmente pela ex-mulher, mas que por desgraça, julgava ser uma assassina fria e sem coração.

Ele não disse nada. Sua resposta não seria dada com palavras. Em silêncio, caminhou sorrateiramente para dentro do apartamento, sem tirar os olhos dela. Maria engoliu seco quando o viu vindo em sua direção, e precisou fazer um esforço para manter a altivez. Em vão. O olhar daquele homem, intenso e excitante, aprisionou Maria por alguns segundos; tempo suficiente para que ele capturasse seus lábios com fervor e uma ânsia desesperada, não dando espaço para qualquer ato de resistência por parte dela.

"Entre el amor y el odio está la línea del perdón

Cruzarla significa darle vida a esta pasión

Y aunque el orgullo a veces pueda más que la razón

Y aunque el alma se encierre para que entre el amor"

Depois de vinte anos, as mãos de Estevão novamente se apossaram do corpo de Maria, uma detinha a parte superior das costas e a outra agarrava com força a nuca para aprofundar o beijo, molhado e sensual... ela tentou lutar para sair dali, mas foi inútil. Sem mais alternativa, se deixou perder naqueles braços fortes e grandes enquanto segurava com firmeza o pescoço dele, cravando seus dedos nos cabelos negros do homem que a essa altura começaram a ficar bagunçados...

A química entre os dois era verdadeiramente explosiva.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.