Notas iniciais
Devo avisar que a escrita desse texto em especial não é fácil. Agradeço se lerem ainda assim.

Tem algo mágico sobre você, algo trágico sobre você. Ontem você me ligou aos prantos como nunca havia acontecido anteriormente. Entre suas palavras de desespero, havia um espaço inteirinho feito de glórias que você omitia de si mesma. Entre as lágrimas, um ou outro riso perdido ecoava ao telefone e eu te imaginava usando apenas suas meias três-quartos e sua regata cava grande. Sua voz roufenha e terna gangrenava-me, eu estava perdido em ti. O desespero de estar ficando dia após dia mais perdido sem perceber. Quatro dias antes eu poderia desligar o telefone na tua cara e nunca mais ligar de volta. Dois dias antes, talvez eu pensasse duas vezes antes de desligar. Agora, não desligo. Não desligo mesmo que suas palavras sejam capazes de gangrenarem-me. Mesmo que sua delicadeza seja revestida guturalmente de veneno doce. Sua pele me é fria, mas teu toque me esquenta. As pupilas gritando chega, o amor virtual da era das relações inacessíveis. Sua voz roufenha, suas meias três-quartos e o telefone azul dependurado na parede e suas lágrimas viscerais, matando-me. E seu riso, salvando-me. Os abismos que seus lábios escondem.

Hoje você me encontra vestindo um vestido curto sem mangas. A terra agarrada nas suas unhas não feitas, os cabelos caindo em cascatas silvestres e vivas, vivas demais, num tom dissonante de azul marinho, o batom vermelho vinho nos lábios carnudos. Além do terror nos olhos, o delineador nada suave empendoando os castanhos e volúveis olhos. Pois quem diria que teu riso derrubaria meu copo de café e que isso a faria rir ainda mais e me abraçar daquela maneira? Como eu poderia imaginar que sua boina militar cairia tão bem no teu corpo de boneca de cera? Eu fui um tolo sem tamanho. Você me paga um novo café, diz que me deve e sorri. Eu fujo do escritório para te ouvir falar. Você me paga um café, roufenha a voz, esfrega a ponta avermelhada do nariz. Diz que está gripada. Anuncia que vai se mudar. Pergunto para onde. Não distante, apenas sete quilômetros daqui. Precisa de ajuda, indago, sempre indeciso se devo. Adolfo me ajudará. Tudo bem, anuncio.

Como é que faz para não te perder de vista? Os cabelos azuis marinho deveriam ser suficientes para ter toda a atenção presa em você, mas não é. É suave, teus traços, é suave, teu jeito. Mescla o tom selvagem e disforme dos azuis com o tom celeste do céu e te qualifica em uma só. Nada aqui é modificado, diz teus olhos. Mesmo que seja. Nada aqui é atrativo. Pois Adolfo discordaria e eu também. E aquele moço da padaria, José, o nome. Nós discordaríamos em um único e uniforme tom, tudo aqui é atrativo. Seu sorriso, acho que principalmente seu sorriso, e seu jeito único de caminhar. Caminhar, acredita? Tem algo mágico sobre você, algo trágico sobre você. Anteontem houve aquele discrepar incômodo. Seus planos só seus que te levavam para longe daqui. A revista, você dizia, precisava que você dedicasse todo seu tempo à ela. Era isso que você queria, moda. Poder falar de moda, poder ditar moda. Ditar, ditar, ditadora, governanta, autônoma. Você queria seu nome para ser seu, seu rosto para ser seu, seu cigarro e seus sapatos kiwi. Cor kiwi, textura kiwi, que você dizia ser seu sapato preferido e mais bonito. E que todos deveriam poder usá-lo sem se acharem ridículos. Você o achava lindo, mas não eram todos que podiam concordar. Concordariam, eles, pois você realmente sabe possuir seu estilo, não importa sob quais circunstancias.

E se, perguntei, e se a revista te oferecesse um escritório aqui? Aqui, aqui mesmo, aqui, nessa cidade, nesse bairro, aqui? Eu diria que precisava de você aqui, que preciso de você aqui, de você e da sua voz roufenha, dos seus cabelos azuis, seu gargalhar. Não pode se mudar daqui, não pode. Ela não ofereceria, você disse, não aqui, aqui, não. Nova Iorque é o centro das atenções, é lá que eu cresço que me torno grande. Como seria isso? Como estaria seu sucesso e meu fracasso tão interligados dessa maneira? Em qual esquina seguiríamos para caminhos distintos ao ponto de eu falhar comigo mesmo no quesito amar? Amador! Totalmente amador a forma com que me disponibilizei a amar você. Quando foi, mesmo? A dez dias atrás eu poderia desligar o telefone na sua cara e nunca mais ligar de volta. Será que fora a dez dias que me apaixonei? Ou será que foram a quatro? Há essa tal contagem que não é cronológica no meu corpo e o relógio está estragado. Pois me lembro bem do dia em que nos conhecemos e eu adoraria te pagar um sushi, foi o que eu disse. E você adoraria me ajudar a pagá-lo, foi o que você respondeu. E nós realmente comemos sushi e sashimi e toda aquela enorme variedade de comidas nada comuns.

Agora você me paga outro café, outro café amargo. Veste um suéter verde escuro e calças pretas. Fala que gostaria que eu fosse te visitar com certa frequência. Mas Nova Iorque é tão longe, afirmei, com lágrimas entaladas na garganta. Tão longe, tão longe. Sei que é, você falou, mas daremos nosso jeito. Que ridículo! Faz apenas uma semana que você disse que se mudaria para apenas sete quilômetros daqui. Menos de um mês e sua mala está sendo refeita. E Adolfo? Adolfo não vai ir com você? Por que iria, você perguntou. Ah, engraçado. Como se eu, Adolfo, José e toda a enorme gama de homens não quisesse abraçar teu corpo e ir com você para qualquer lugar. Ora, vocês não estão namorando? Claro que não, você falou, nunca estivemos. Mas ele disse que sim. Disse? Disse. Pois ele mentiu, não estamos. Ótima hora para você me dizer, pensei, mas não falei, não. Agora sequer sei dizer quando foi que eu poderia desligar o telefone na sua cara e nunca mais ligar de volta. Agora sequer sei solicitar ao meu cérebro uma compreensão lógica do tempo não cronológico voltado para esse assunto. Eu me perdi completamente.

E foi dito e feito, não houve relutâncias. Era feito de pavor o meu corpo inteiro. Sua escrota, gritei ao telefone quando você me ligou, como você pôde? Você não sabia diferenciar minha voz como eu sabia diferenciar a sua, você não entendeu meu desespero. O que aconteceu, você perguntou, está tudo bem? Você está me assustando. Estou ótimo. Então por que está me xingando? Reluto, mas te amo. E houve aqueles minutos infinitos onde você não respondeu nada. Pensei que a ligação tivesse caído, que um vulcão tivesse explodido o meu mundo. Irradia o quê, seu babaca, reluta o quê, seu estúpido, diz isso em voz alta e espanta o resto do amor próprio que te resta. Diz isso em voz alta e espanta ela. Faz ela seguir em frente de vez e nunca mais te ligar. Quem vai desligar o telefone na sua cara e nunca mais ligar de volta não será você, nunca foi você, não é você. Não é. Não consigo me lembrar sequer quando foi que deixei de dominar a mim mesmo e passei a dominar-me para ela. A quere-la e querer que quisesse-me. Ah, não, somos amigos, você é meu melhor amigo, falou ela depois de tanto tempo que eu já nem esperava uma resposta. É, somos amigos, estamos distantes, estou só. Somos amigos, amigos, infelizmente amigos, por infortúnio do universo. O que é Nova Iorque, o que é Poveglia, Tóquio, Ibiza e Santos. Lugares, são lugares, apenas lugares, cheios de pessoas. Amanhã você encontra um rapaz por aí, eu encontro uma mulher por aqui, cada um se resolve e segue em frente, não é mesmo?

Sua aparência me vem à cabeça o tempo inteiro. As pinturas em aquarela que você chegou a fazer nas minhas costas nuas duas vezes. Sua pele fria, os olhos em caricatura, amendoados. A suavidade dos cabelos azuis marinho. Os cafés amargos, momentos inigualáveis e seu telefone azul, dependurado, que você usava para me ligar enquanto ia e vinha no próprio apartamento usando apenas meias três-quartos e regata cava grande. Aquele beijo que quase demos na virada do ano. O gargalhar. E agora a distância, a surra, a minha demência, carência, saudade e medo. Seu cheiro agarrado às minhas lembranças, não me esqueço, não me esqueço de você. Mas recebi uma proposta de emprego, você aí, em Nova Iorque, e eu aqui, me mudando para Porto Alegre, do outro lado do mapa, abaixo da linha do equador, me afastando ainda mais de você. É essa sua aparência, essa sua voz roufenha, ou talvez seja a suavidade do veneno que reveste seu ser: essa doce essência que me mata e me salva todos os dias. É tudo isso que me enlouquece. Querida, não canso de repetir, tem algo mágico em você, algo trágico em você, tem clorofila nas folhas das samambaias aqui na janela do meu prédio, e tem seu telefone anotado em algum lugar por aqui. Depois que me mudei, perdi seu número, seu endereço e nós nunca mais nos falamos.

E mesmo assim continua aqui. Continua aqui toda a mágica sobre você. Tudo de trágico sobre você.

Notas finais
Obrigado por ter lido, por favor, deixe sua opinião em um comentário. Abraços.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!