Ainda assim, Amar
13 Capítulo 12 - Eu Fico
Notas iniciais
O quarto estava mergulhado em meia-luz.
Isabella estava deitada sobre o peito de Edward, ouvindo o coração dele bater sob a palma da sua mão. O som era estável. Seguro.
Ela ficou alguns minutos em silêncio antes de falar.
— Eu nunca te contei como foi depois que minha mãe morreu.
O braço dele se ajustou ao redor dela.
— Se você quiser contar… eu estou aqui.
Ela respirou fundo.
— Minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos. Foi um aneurisma. Não diagnosticado. Ela estava na cozinha… e simplesmente caiu.
A voz dela não tinha dramatização. Só memória.
— Eu lembro do som do copo quebrando.
Os dedos dela se fecharam levemente contra a camiseta dele.
— Eu sentei no chão esperando ela acordar. Eu achava que as pessoas sempre acordavam.
Ela não acordou.
O silêncio se espalhou pelo quarto.
— Depois disso a casa ficou enorme. Meu pai se enfiou no trabalho. Eu ficava sozinha naquela casa gigante… comendo sozinha, fazendo lição sozinha, dormindo sozinha.
Ele sentiu algo antigo ecoar dentro dele.
Solidão infantil.
— Foi aí que eu decidi que ia ser médica.
Ele a olhou.
— Eu queria salvar a mãe de outras meninas… já que eu não consegui salvar a minha.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Você tinha cinco anos, Bella.
— Eu sei. Mas criança não entende isso.
Ela continuou.
— Quando eu tinha dez, meu pai se casou com Beatriz. No começo foi normal. Depois começou a implicar com tudo. E então… ela começou a bater.
A respiração dele mudou.
— Às vezes ela me trancava na despensa o dia inteiro. Sem comida. Sem água. Só porque eu “respondia demais”.
A voz dela falhou pela primeira vez.
— O pior foi quando eu menstruei pela primeira vez. Eu não sabia o que estava acontecendo. Achei que estava doente. Sangrei na cama.
Os olhos dela estavam marejados agora.
— Ela me bateu tanto que eu fiquei três dias sem levantar.
Ele não interrompeu.
Ela precisava terminar.
— Meu pai nunca viu. Ou fingiu que não viu.
O quarto parecia menor.
Mais denso.
Ela olhou para ele.
— Eu nunca contei isso pra ninguém. Só pra você.
Ele tocou o rosto dela com cuidado.
— Você não merecia nada disso.
Ela respirou fundo.
— Você confiou em mim quando falou do Rafael. Eu queria que você soubesse que eu também fiquei sozinha. Só de um jeito diferente.
Ele a puxou para mais perto.
— Bella… — a voz dele ficou mais baixa — quando você disse que ficava sozinha naquela casa enorme… eu consegui ver você.
Ela fechou os olhos.
Ele virou o rosto dela para que o encarasse.
— Eu sei o que é aprender a sobreviver sozinho. Mas eu não quero que você sobreviva.
A testa dele encostou na dela.
— Eu quero que você viva. Comigo.
As lágrimas dela caíram silenciosas.
E então ele disse, simples:
— Você nunca mais vai ficar sozinha.
Ela respirou fundo.
— Você não pode prometer isso.
— Eu não posso prometer que nada ruim vai acontecer — ele respondeu. — Mas posso prometer que eu não vou embora. Que eu não vou fechar a porta. Que eu não vou fingir que não vejo.
Os olhos dele estavam firmes.
— Eu fico.
Naquela madrugada, ela acreditou… mas ainda não completamente.
Promessas são bonitas.
Mas o passado ensina a desconfiar.
A prova veio dias depois.
A ligação chegou cedo demais.
Isabella atendeu e a voz do pai atravessou a manhã com tensão.
Beatriz estava internada.
Acidente doméstico. Fratura grave.
Precisaria de cirurgia.
O passado não grita.
Ele sussurra.
E naquele instante Isabella voltou a ter dez anos.
A despensa escura.
A porta trancada.
O cinto.
O sangue no lençol.
Ela desligou e ficou parada no meio da sala.
Edward saiu do quarto ao ouvir o silêncio errado.
— O que aconteceu?
Ela respirava rápido demais.
— Meu pai ligou. A Beatriz está no hospital. Ele quer que eu vá lá.
Ele não reagiu com raiva.
Não tentou resolver.
Não tentou decidir por ela.
Perguntou apenas:
— Você quer ir?
Ela demorou.
— Eu não sei.
Ele pegou o casaco.
— Então eu vou com você.
Ela o encarou.
— Você não precisa.
Ele respondeu com calma:
— Eu sei.
No caminho até o hospital, ele segurou a mão dela.
Sem discursos.
Sem pressão.
Quando chegaram ao corredor branco demais, ela parou diante da porta do quarto.
O corpo lembrava antes da mente.
Ele se posicionou ao lado dela.
Não na frente.
Ao lado.
— Eu estou aqui — disse baixo.
Não como promessa.
Como presença.
Ela respirou fundo e abriu a porta.
A conversa foi breve. Formal. Distante.
Beatriz parecia menor do que nas memórias.
Menos assustadora.
Quando saiu do quarto, as pernas estavam trêmulas.
Edward segurou sua cintura com firmeza.
— Quer ir embora?
Ela assentiu.
No elevador, ela finalmente deixou o ar escapar.
Encostou a testa no peito dele.
— Você ficou.
Ele passou a mão pelos cabelos dela.
— Eu disse que ficaria.
Ela levantou o rosto.
E ali percebeu algo que não vinha da carência.
Nem do medo.
Vinha da constatação.
Ele não tentou controlar.
Não tentou salvar.
Não tentou fugir.
Ele ficou.
Do jeito que prometeu.
— Eu acredito em você agora — ela sussurrou.
Ele segurou o rosto dela com cuidado.
— Eu não vou embora.
E dessa vez ela não ouviu como promessa.
Ouviu como verdade.
Porque quando o passado tentou puxá-la de volta para a escuridão…
Ele ficou ao lado dela na luz.
E pela primeira vez desde os cinco anos de idade, Isabella sentiu algo que não era sobrevivência.
Era segurança.
E segurança, para dois sobreviventes, era amor em sua forma mais madura.
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