Ainda assim, Amar
10 Capítulo 9 - Entre a Paz e a Guerra
Notas iniciais
Isabella acordou devagar.
Não foi o despertador.
Não foi barulho.
Foi a respiração dele.
Profunda.
Regular.
Quente contra o ombro dela.
Por alguns segundos ela ficou imóvel, apenas sentindo.
O braço de Edward estava firme ao redor da cintura dela, a palma espalhada sobre a curva do corpo como se tivesse sido moldada ali. O peso dele era quente. Vivo.
Ele sempre dormia tenso.
Ela já tinha percebido nas outras noites.
O maxilar travado.
Os dedos fechados.
O corpo pronto para reagir a qualquer coisa.
Mas naquela manhã…
Ele estava solto.
O peito subia e descia em um ritmo lento. O rosto sem linhas de defesa. Os cílios projetando sombra suave na pele.
Ela passou os dedos devagar pelo peito dele.
Sentiu o calor.
O coração.
Forte. Estável.
Ele não se moveu.
Ela subiu os dedos até o pescoço.
Até a mandíbula.
Traçou a linha do queixo com cuidado.
Foi então que ele despertou.
Não de sobressalto.
Não com violência.
Os olhos abriram lentamente, ainda turvos, tentando entender onde estava.
Por um segundo ele não falou.
Apenas a olhou.
E naquele olhar havia algo que ela nunca tinha visto à luz do dia.
Desproteção.
— Que horas são? — ele murmurou, a voz rouca, pesada de sono real.
Ela sorriu de leve.
— Sete da manhã.
Ele piscou.
Demorou.
Como se o cérebro não estivesse conectando a informação.
— Sete?
Ela assentiu.
O corpo dele ficou imóvel.
Não rígido.
Parado.
Ele virou levemente o rosto para a janela. A luz já estava clara demais para ser madrugada.
Voltou para ela.
— Eu… dormi?
Não foi incredulidade arrogante.
Foi quase confusão.
— Dormiu.
Ela deslizou a mão pelo peito dele de novo, tentando ancorá-lo ali.
Ele respirou fundo.
E então algo mudou.
Ela sentiu antes de ver.
O braço ao redor da cintura dela se apertou.
Não por desejo.
Por necessidade.
— A noite inteira? — ele perguntou, mais baixo.
— A noite inteira.
Silêncio.
O maxilar dele tensionou.
Mas não de defesa.
De emoção contida.
— Eu sempre acordo.
A frase saiu quase para si mesmo.
— Sempre.
Ela sabia.
Ela tinha visto.
As madrugadas quebradas.
Os olhos já abertos antes das cinco.
O corpo que nunca relaxava completamente.
— Eu não sonhei — ele disse.
E aquilo… aquilo não era simples.
Ele fechou os olhos por um segundo.
A testa encostou na dela.
A respiração dele ficou mais profunda.
Não era sono agora.
Era alívio.
— Eu não ouvi nada — ele murmurou.
Ela sentiu o peito apertar.
Nada.
Nenhum choro.
Nenhum eco.
Nenhuma memória arrastando ele de volta para aquele trailer.
Ele abriu os olhos.
E havia algo quase assustador ali.
Fragilidade.
— Eu só… fiquei aqui.
A mão dele subiu até o rosto dela.
O polegar tocou o lábio inferior com lentidão.
— Eu dormi porque estava com você.
Não foi poético.
Foi constatação.
O corpo dele tinha entendido antes da mente.
Com ela, ele não precisava vigiar.
Com ela, ele não precisava sobreviver.
Ele podia descansar.
Ela puxou o rosto dele e o beijou devagar.
Não urgente.
Não intenso.
Mas profundo.
Ele respondeu diferente daquela vez.
Mais lento.
Mais entregue.
O beijo não era sobre desejo.
Era sobre permanência.
A mão dele deslizou pelas costas dela, sentindo pele, calor, vida.
— Fica — ele murmurou contra a boca dela.
— Eu estou aqui.
E pela primeira vez em anos…
Ele acreditou.
O celular vibrou.
O mundo voltou.
Ele pegou o aparelho sem soltar ela completamente.
Olhou a tela.
Os olhos escureceram.
Bella pegou o próprio telefone.
Fotos.
Manchetes.
Especulações.
O nome dela.
— Isso vai ser um problema? — ela perguntou.
Ele a encarou.
Ainda deitado.
Ainda perto demais.
— Para quem?
— Para você.
Ele se sentou devagar.
O homem vulnerável se reorganizando.
— Eu não pedi permissão para chegar onde cheguei.
A voz já estava diferente.
— Não vou pedir agora para amar quem eu quero.
O telefone vibrou novamente.
Secretária.
Reunião extraordinária.
Ele atendeu.
— Prepare a sala.
Desligou.
Beijou a testa dela.
Mas os olhos já eram guerra.
A sala estava diferente daquele dia.
Não era apenas desconforto.
Era estratégia.
Dossiês sobre a mesa.
Gráficos projetados.
Como se estivessem prontos para provar algo.
Quando Edward entrou, ninguém levantou.
Tentativa pequena.
Infantil.
Ele não reagiu.
Caminhou até a cabeceira.
Sentou.
Silêncio absoluto.
— Vamos começar — ele disse.
Um conselheiro abriu uma pasta.
— Estamos enfrentando movimentação incomum nas ações desde a divulgação das imagens.
Mentira parcial.
Testando reação.
Edward cruzou as mãos.
— Percentual?
— Dois vírgula três.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Recuperável em quatro horas.
Outro conselheiro interveio.
— Investidores internacionais demonstraram preocupação com instabilidade emocional na liderança.
Instabilidade emocional.
O pai de Tânia observava.
Esperando.
Edward olhou diretamente para ele.
— Instabilidade emocional? — repetiu.
O homem sustentou.
— Relações impulsivas podem afetar decisões estratégicas.
Edward levantou-se.
Devagar.
— Vamos esclarecer algo.
Ele caminhou ao redor da mesa.
Passos controlados.
— Eu cresci sem nada.
Os olhos não piscavam.
— Não herdei esta empresa. Não fui escolhido. Eu construí.
Parou atrás da cadeira do pai de Tânia.
— Cada contrato. Cada expansão. Cada aquisição agressiva que salvou esta mesa de falência.
Silêncio tenso.
— E o senhor quer sugerir que uma mulher abala minha capacidade de decisão?
O homem não respondeu.
Não podia.
Edward inclinou-se levemente.
A voz baixa.
Perigosa.
— Eu não sou instável.
Endireitou-se.
— Eu sou inevitável.
O ar ficou pesado.
— Se alguém aqui acredita que minha vida pessoal interfere nos resultados…
Ele pegou o tablet sobre a mesa.
Projetou números.
Crescimento.
Aquisições.
Lucro recorde.
— Pode vender suas ações agora.
A voz ficou mais fria.
— Eu compro todas antes do mercado fechar.
Ninguém falou.
Porque todos sabiam.
Ele podia.
Ele voltou para a cabeceira.
— Não confundam silêncio com fraqueza.
O olhar percorreu cada rosto.
— E não confundam amor com vulnerabilidade.
A palavra caiu como uma lâmina.
— Reunião encerrada.
Ele saiu.
Sem olhar para trás.
No carro, sozinho, ele fechou os olhos por um segundo.
A memória tentou vir.
O trailer.
O choro.
Mas não ficou.
Porque naquela manhã…
Ele tinha acordado com o cheiro da pele dela.
Com o calor dela.
Com o som da respiração dela.
E isso era mais forte do que qualquer voz naquela sala.
Ele pegou o celular.
Mensagem dela:
“Espero que esteja tudo bem.”
Ele respondeu:
“Eu dormi até as sete.”
Depois acrescentou:
“Está tudo sob controle.”
Porque agora ele sabia.
Ele não precisava mais vigiar o mundo o tempo inteiro.
Ele tinha encontrado o único lugar onde podia descansar.
E homens como aqueles…
Jamais entenderiam o que isso significava.
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