Ainda assim...
4 Capitulo 4
Notas iniciais
Niko tentou em vão tirar aquela história da cabeça, mas até Jayminho percebeu sua distração e Niko, claro não teve escolha senão inventar alguma coisa pra dizer, embora ele sempre fora contra mentir para os filhos, não que ele tenha mentido ao dizer que estava tentando ajudar um amigo e tinha medo de não conseguir, mas ele também não disse toda a verdade. O fato é que o assunto era muito sério para Niko conversar com uma criança, a verdade é que Niko deveria conversar com o Félix e esclarecer de vez essa história. Sim, porque ele conhecia o Félix, ele o ajudara a recuperar seu bebê e Jayminho. E a MaryJane? Félix simplesmente amava aquela menina. Ele não podia estar assim tão errado quanto ao Félix. Ele só precisava falar com ele e esclarecer tudo. “É isso!!! Depois do almoço, eu vou lá e vou conversar com o Félix. Ele deve ter alguma explicação, alguma coisa que a Dona Pillar não ouviu...” Niko falou consigo mesmo em voz alta, mas antes mesmo de concluir seus pensamentos Adriana entrou na cozinha.
“Falou alguma coisa seu Niko?” A moça falou de repente dando um susto no cozinheiro. “Ai, que susto Adriana...” Niko deu um grito levando a mão ao peito pra se recuperar. “Desculpa seu Niko, mas é que eu achei que o Senhor tava falando alguma coisa comigo.” Niko terminou de mexer o arroz, tampou e virou para babá um pouco desconcertado com sua distração. “N.. Não... eu só, eu só tava... pensando alto.” Ele disse virando-se para suas panelas para tentar finalizar seu almoço. O que estava acontecendo com ele ultimamente, ele tinha uma família, dois filhos lindos pra criar, um restaurante pra cuidar, não podia se dar ao luxo de ficar distraído quando estava em casa cozinhando pra seus filhos o almoço de Natal.
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O caminho até a periferia era longo e Niko novamente se pôs a pensar em todas as suas descobertas recentes, primeiro ver Félix ali na 25 de março, vendendo cachorro quente com um shortinho vermelho e uma flor no cabelo. Depois, as coisas que Félix contou pra ele, que ele havia enganado sua família pra chegar a presidência do hospital e depois roubado o hospital. Até aí tudo bem. “Quer dizer tudo bem não né Niko...” O cozinheiro falou em voz alta. “... Porque tudo isso é errado, de um mau-caratismo que sem tamanho, mas ainda assim é melhor do que jogar um bebê recém-nascido numa caçamba de lixo”. A buzina do carro de trás, avisando que o farol estava aberto, tirou Niko de seus pensamentos por um instante, mas enquanto batia na porta da casa de Márcia Niko ainda via e revia em sua cabeça todas as coisas que Félix fizera. Tudo por causa de dinheiro.
Mas foi só ver o Félix em sua frente, de carne e osso, com aquele olhar agradecido sem falar de seu jeito alegre e extrovertido. “...Se eu acreditasse em papai noel ia jurar que você é meu presente.” Ele realmente desarmou Niko totalmente. Ainda assim Niko estava decidido a tentar saber mais alguma coisa sobre o que ocorrera, mas como tocar no assunto sem falar para Félix que tinha ido falar com sua mãe?
“Então Félix, ontem você começou a me contar tudo o que aconteceu pra que você viesse morar com a Márcia e vender HotDog na 25 de março...”
“Pois é Carneirinho, foi mesmo, uma queda terrível que eu sofri..”
“Que você mereceu né Félix?”
“Eu sei, eu sei, eu fiz muita coisa errada e eu concordo com isso.” Félix falou timidamente. “Mas tudo o que aconteceu me abriu os olhos Carneirinho, sabe, eu percebi muita coisa desde que Mami poderosa me expulsou de casa como uma...” Félix gesticulou com as mãos tentando encenar seu momento de derrocada. Mas foi interrompido pelo garçom.
“Boa tarde, os senhores desejam pedir?”
“Ah, claro.” Félix pegou o cardápio e abriu olhando as opções, e após fazer os pedidos apoiou o queixo sobre as mãos. “Mas não vamos estragar este almoço com minhas...” félix rolou os olhos. “... minhas estripulias.”
“Félix, o que você fez não foram apenas estripulias....” Niko ria mas era de nervoso, será que ele estava enganado com este homem? Como assim ele pensava que o que ele havia feito aquele bebê fora uma simples ‘travessura’. Mas foi quando viu uma nuvem negra cruzar os olhos do homem à sua frente e Félix se mexeu na cadeira, ajeitou o paletó tentando arrumar o que fazer com as mãos, então baixou a cabeça por um segundo e então levantá-la e dizer. “Não, não foram apenas estripulias. Eu fiz coisas muitas graves carneirinho, coisas que eu gostaria de esquecer, coisas que eu quero esquecer, que eu tento esquecer desde o dia que...” Félix novamente se mexeu na cadeira, passou o dedo mindinho pela sobrancelha. E Niko não conseguiu evitar o sorriso nos lábios ao perceber o quanto ele conhecia o Félix, ao confirmar suas suspeitas de que ele estava certo. Porque aquele gesto era típico do Félix, quando ele estava nervoso.
“Enfim, desde que eu percebi que a vida é mais do que um cargo de Presidente.” Félix, novamente olhou pra baixo. “Sabe Niko, um dia, talvez um dia eu tenha coragem de te contar tudo o que eu fiz...”
“O porquê de sua briga com sua mãe?”
O Garçom os interrompeu novamente trazendo o pedido de Félix. “Obrigada.” O homem agradeceu pegou os talheres mas colocou-os novamente no prato.
“É, também. Mas não hoje...” Félix fechou os olhos e balançou a cabeça. “... hoje é dia de Natal e você fez tão bem pra mim, você têm sido tão bom pra mim e...” Então Félix olhou Niko nos olhos. “... eu não quero perder sua amizade hoje, carneirinho.”
“Que é isso Félix, da onde você tirou que vai perder minha amizade.” Niko deu um tapinha na mão de Félix que estava sobre a mesa. “Bobo.” Mas Félix segurou a mão de Niko. “Vai sim carneirinho, porque, por mais doce que o seu coração seja. Aliás, porque seu coração é mole, você nunca...” Niko neste momento interrompeu o amigo segurando suas mãos. “Não fala uma bobagem destas Félix, você é uma pessoa muito especial pra mim, graças a você eu tenho meu bebê, o Jayminho. Enfim, tenho minha família. E, eu te disse uma vez, e digo novamente, eu sei ser grato a quem me ajuda.”
“Obrigado, carneirinho.” Félix falou sinceramente. “Mas agora, vamos parar com de falar em coisas sombrias, afinas nós estamos aqui pra ter um almoço agradável, não é mesmo?” Ele pegou os talheres para e começou a comer. “Claro que sim Félix. Aliás eu queria te dizer que eu adorei conhecer a Márcia, ela é divertida.”
“Haha, divertida...” Félix falou enquanto mastigava. “...sim a Márcia é muito divertida, sim. Você acredita que foi ela que teve a ideia de eu usar aquela flor horrorosa no cabelo pra vender cachorro quente na 25 de março.” Félix colocou dois dedos na boca sorrindo maliciosamente. E Niko agora não conseguiu controlar a gargalhada. “Você ri assim porque não é você que fica em pé 10 horas por dia em pé no meio daquele mar de gente, gritando... ‘HOT DOG DO FÉLIX’!!!”
O almoço prosseguiu com o Félix contando tudo desde o dia que começou a trabalhar com a Márcia vendendo cachorro quente, por todas as coisas que ele passou, e claro todas as ideias mirabolantes da Márcia que ele acabou entrando de cabeça até chegarem ao shortinho vermelho e flor no cabelo. E Niko se divertiu muito, mas no fundo ele ainda pensava na conversa inicial que eles tiveram, o Félix pode ter jogado a sobrinha numa caçamba mas ele parecia muito arrependido por isso. E, apesar de Niko achar aquilo horrível, ele decidiu confiar no seu coração e dar um voto de confiança para o Félix.
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