Ainda Me Amarás Amanhã?
6 Reencontros III
Notas iniciais
—Anastásia. —mamãe sussurra com os olhos marejados.
—Mamãe! —Sinto meus olhos serem tomados por lágrimas. —Papai.
Corro para os braços dos meus pais e assim que eles me abraçam sinto todo o peso que carreguei durante anos sumir. Como eu senti falta deles.
Aperto minha mãe por minutos e realmente não tenho a intenção de soltá-la. Nunca mais.
—Me perdoem. —Imploro entre lágrimas. —Eu sei o quanto decepcionei vocês.
—Não querida. —Mamãe diz, e ouvir sua voz é muito bom. —Nós erramos muito com você. E nós que devemos pedir perdão.
—Ah mamãe. —Sussurro apertando. —Eu senti tanta saudade.
—Nós também querida. —Papai diz acariciando meus cabelos. —Quando você se foi toda a alegria da casa foi junto.
—Me desculpem. —Imploro. —Por favor. Perdoem-me.
—Já passou minha querida, você está aqui. —Mamãe sussurra. Ela olha para Christian e me lembro dele. —Imagino que você seja o Christian.
—Eu mesmo. —Ele diz se aproximando e aperta a mão de papai e depois mamãe. —É um prazer conhecê-los Sr. e Sra. Steele.
—O prazer é nosso Christian. É bom saber que nossa filha tem amigos que a ajudem.
—O prazer é meu por ajudá-la. —Christian sussurra olhando-me. —A Ana é a garota mais incrível que eu já conheci.
Ruborizo e caminho até ele para abraçá-lo, ele beija o topo da minha cabeça e me envolve com seu braço.
—Bom, então vamos? —Mamãe fala.
—Claro. —Sorrio e seguro a mão de Christian.
Mamãe papai vão na frente na picape, e Christian e eu vamos com Taylor em um carro que eu acho ser alugado. O caminho inteiro me faz ter lembranças ótimas, mas ainda dolorosa, principalmente pelo fato de ter deixado tudo isso para trás. De ter perdido a vida perfeita graças ao maldito Crack.
Solto um longo suspiro quando paramos em frente à casa dos meus pais, todas as lembranças da infância perfeita chegam. Eu era muito feliz aqui, e eu mesmo destruí tudo isso.
—Ei. —Christian sussurra segurando minha mão. —Você está bem?
—Sim. Obrigada. —Sorrio.
Christian desce do carro e segura a minha mão ajudando-me a descer.
O ar de infância invade meus pulmões e eu respiro fundo fechando os olhos.
Vejo a igreja que papai construiu, ela fica ao lado da casa, por mais que parece a mesma, eu consigo notar algumas reformas feitas. Sorrio com as lembranças das coisas que passei aqui. Foram tantos momentos.
Mamãe e papai descem do carro e se aproximam, sorrio para eles, mas é do lado de Christian que fico, nós entramos em casa e eu quase pulo de alegria quando vejo Kate, Mia e Elliot na sala juntos com Grace e Carrick.
Corro e abraço Kate — o que quase resulta em um tombo, mas vale a pena.
—Eu não acredito. —Digo sorrindo e olho para Christian. —Foi você?
—Foi ele sim. —Mia diz. —Nós embarcamos ontem à noite e estávamos apenas esperando você.
—Obrigada. —Sorrio com os olhos marejados. —Muito obrigada.
—Tudo por você baby. —Christian sussurra.
—Quer dizer que a menina voltou?
Meu coração para ao ouvir a voz de vovô Mart parado à porta, olho incrédula para ele e faço beicinho.
—Como está a minha menina? —Vovô pergunta e eu corro para abraçá-lo. —Ah querida.
—Eu senti sua falta papai. —Digo já chorando.
—E a minha? —Vovó Louis pergunta adentrando à sala.
—Mamãe. —Digo correndo para os seus braços.
—Ah minha menina, como eu senti sua falta. —Vovó falando beijando minha testa. —Muita falta.
—Desculpa mamãe. —Digo apertando meus braços ao seu redor. —Me desculpa. Por favor. Perdoa-me.
—Tudo bem querida. —Vovó segura meu rosto entre as mãos com os olhos marejados. —Você está conosco de novo, e isso é o que importa.
Abraço vovó mais uma vez e só a solto quando paro de chorar.
—Mamãe, papai, esse é o Christian. —Digo sorrindo e vou para os braços de Christian. —Christian, esses são meus avós e pais de criação.
—É um imenso prazer conhecê-los. —Christian diz apertando a mão de vovô e depois a de vovó.
—O prazer é nosso menino. —Vovô diz. —Você não sabe como é reconfortante saber que a nossa pequena encontrou alguém que cuide dela, já que o pai não tinha tempo para isso.
Em menos de um segundo o clima fica tenso. Vejo papai fechar a cara enquanto mamãe fica com os olhos marejados.
—Papai, não comece. —Digo implorando com os olhos.
—Isso mesmo Mart. —Vovó diz. —Hoje é um dia especial, nossa menina está conosco, e não vamos deixar os erros do passado nos atormentarem. Querida, nos apresente seus outros amigos.
—Obrigada mamãe. —Sorrio. —Esses são: Mia, Elliot namorado da Kate. Os dois são irmãos do Christian, e aqueles são a Grace e o Carrick, pai deles.
—É um prazer conhecê-los. —Vovó diz. —Obrigada por trazerem nossa menina.
—A Ana é uma menina de ouro, é um prazer poder estar ao lado dela. —Grace diz e eu me contenho para não chorar.
—Querida, vá mostrar para o seu namorado o quarto de hospedes. —Vovô fala. —Depois nós todos iremos almoçar.
—Está bem, obrigada papai. —Sorrio e vou para o quarto com Christian.
A casa é grande e tem mais dois andares, o meu quarto ficava no último, então eu decido ir para lá com Christian, me surpreendo a ver tudo do mesmo jeitinho. As bonecas de pano penduradas na parede, o pegador de sonhos na janela. A colcha rosa de flores forrada na cama de casal, o baú com coisas que eu amava guarda. O mesmo guarda-roupa. Minhas fotos, o papel de parede florido... É como se eu ainda tivesse 10 anos...
—Esse era o seu quarto? —Christian pergunta.
—Sim. —Sorrio me aproximando e sento na cama, ele senta ao meu lado e fica olhando tudo com cuidado. —Parece um quarto de bonecas.
—Sabe que eu também achava isso? —Digo sorrindo. —Eu amava isso aqui. Tudo que eu fui ainda está aqui.
—Quem são esses? —Christian pergunta pegando o quadro ao lado da minha cama.
—Eu e meu irmão Ethan. —Digo sorrindo. —Nós nunca nos separávamos... Mas quando eu tinha sete anos ele foi embora. Eu nunca soube direito porque, mas eu sinto muita falta dele. A minha avó falava que ele foi embora por não aguentar nosso pai.
—Por que você chama seus avós de pais?
—Porque foram eles que me criaram, eu passava mais tempo com eles. O Ethan também, mas nosso pai ainda mantinha a postura tentando nos abrigar a ficar com ele. O Ethan e eu fugíamos a noite e íamos para a casa dos nossos avós. Até que eles compraram essa casa e nós viemos morar todos juntos.
—Você parecia ser tão feliz.
—E eu era. A maior parte do tempo, mas ai meus pais começaram a ficarem mais distantes. Eles sempre foram muito bons, mas a pouca atenção que me davam se resumiu a nada. Eu me envolvi com pessoas erradas e me tornei isso.
—Você não se tornou algo ruim. —Ele diz. —Você é uma garota incrível Anastásia.
—Eu não consigo enxergar essa garota que você fala. Apenas a menina que se perdeu de tudo que era bom.
—Você tem uma visão péssima de você mesma.
—Será que podemos mudar de assunto? —Digo começando a tremer a perna e bato o calcanhar no chão. —Por favor.
—Claro. —Christian diz preocupado. —Que tal você me mostrar o quarto de hospedes, e depois descermos para almoçar?
—Ok. —Digo sorrindo.
Levanto-me, mas Christian é mais rápido e me puxa fazendo-me cair sobre a cama, ele se deita ao meu lado e me beija de forma carinhosa.
—Você é muito importante para mim. —Ele sussurra olhando-me nos olhos e eu sorrio. —Nunca me deixe.
A suplica em seus olhos faz meu coração bater mais forte e querer estar sempre ao seu lado.
—Jamais. —Digo com convicção. —Mas promete nunca me deixar também. E eu não sei se consigo ser forte se você não estiver comigo.
—Eu sempre estarei aqui baby.
Dou um beijo casto em seus lábios e nós nos levantamos indo para o quarto de hospedes. Depois de deixarmos as malas lá seguimos para o andar de baixo onde a nossa família está. Entramos na sala de mãos dadas e vejo papai olhar-nos por alguns segundos intensos.
Fico constrangida sobre seu olhar e solto a mão de Christian que percebe meus motivos, mas mesmo assim me dá um olhar confuso.
—Christian, Ana. Sentem-se. —Vovó fala e eu vou para o seu lado enquanto Christian senta com os pais.
—Ana querida, quanto tempo vocês pretendem ficar aqui? —Vovó pergunta sorrindo com aquela doçura na voz que somente avós têm.
—Como assim? —Papai pergunta. —A Anastásia não vai sair daqui. Ela é nossa filha e tem que ficar conosco.
—Pai, por favor. —Digo olhando Christian e seus pais.
—Por favor nada! —Ele diz levantando-se. —Se você acha que vai voltar para Seattle você está muito enganada.
—Ray, por favor. —Mamãe se manifesta.
—Carla, fique quieta, a Ana é nossa filha e vai ficar ao nosso lado.
—Sr. Steele, eu acho que você está sendo incoerente. —Grace fala.
—Incoerente? —Papai bufa.
—Sim, você está. —Christian fala. —O melhor para Ana é o que ela decidir, você não pode obrigá-la a ficar aqui.
—Posso sim! Eu sou pai dela, e sei o que é melhor para ela.
—Sabe mesmo? —Christian diz se levantando. —Se você sabe, por que a sua filha estava sozinha em Seattle? Por que ela se afundou nas drogas? E se você sabe tanto o que é melhor para ela por que nunca conseguiu tirá-la dessa vida?
—Christian, eu sugiro que não se intrometa nas nossas vidas. —Papai diz enquanto se levanta. —E sugiro que você e sua família vão embora.
—Não! —Vovô se levanta. —Eles não vão embora. Você não tem direito de dizer o que a menina vai ou não fazer.
—Tenho, eu sou o pai dela.
—Já chega! —Grito pegando todos de surpresa. —Parem de discutir. Eu sei o que é melhor para mim.
—E você soubesse não estaria como uma impura por ai. —As palavras de meu pai são como uma facada.
—É por sua causa! —Vovó diz se levantando. —Por sua causa a menina está assim, você nunca soube dar atenção para ela. E não ouse falar com ela novamente dessa forma. Não coloque nela a culpa de ter sido um péssimo pai.
—Por favor, chega de briga. —Grace fala. —Olha, nós não sabíamos que a nossa vinda geraria tudo isso. E não se preocupem, não vamos ficar aqui.
—Não Grace. —Mamãe se manifesta. —É uma honra ter vocês aqui. O Raymond só não sabe se controlar, ele errou sim, e tem problemas para reconhecer seus erros. Vocês nos dariam muito prazer se ficassem.
—Com que direito você me desautoriza assim? —Papai diz fuzilando mamãe.
—Chega Ray! —Mamãe diz impaciente. —Seja adulto e o pastor respeitável que você diz ser, e aja de tal forma. Respeite nossas visitas, e agradeça-os por estarem cuidando da nossa filha. Se ela quiser voltar com eles, ela vai assim.
—Eu não vou discutir com você. A Anastásia não sai dessa casa!
A discussão começa novamente e eu começo a ficar nervosa e tremer. Sinto uma vontade horrível de fumar o Crack. Talvez se eu sair eles nem percebam... Eles estão tão distraídos discutindo. Começo a me afastar aos poucos e nem mesmo Christian percebe quando saio. Passo correndo pela porta e vou em direção as ruas, mas ao ver a Igreja paro... Tudo roda um pouco e a noção cai sobre mim.
Sei que se eu usar Crack agora vai ficar mais difícil ainda parar... E ai eu vou quebrar a promessa que fiz a Christian... Eu decepcioná-lo e não posso fazer isso.
Paro sentindo as lágrimas inundarem meu rosto.
Deus me ajuda. Eu preciso de você. Eu não sei como ser forte. Eu não sei o que fazer.
Caminho até a igreja e entro pelas portas do fundo já que ela está fechada.
Meu coração se enche quando relembro tudo que eu passei aqui.
O primeiro contato com Deus... A decisão de aceitá-lo na minha vida. O toque do Espírito. Ah Deus... Por que eu cai tanto? Por que eu me afastei tanto de ti?
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Pequena Nota Da Autora:
Trilha Sonora: Sara as feridas — Michelle Nascimento
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Caminho até o altar e prostro-me diante do mesmo, lágrimas absurdas saem pelos meus olhos. Lágrimas que eu guardei por tantos anos.
Deus! Perdoa-me!
Perdoa-me por ter sido fraca. Por ter caído e não ter confiado em ti, mesmo sabendo que o Senhor estava ali. Perdoa-me por me importa mais com o que as pessoas diriam e esquecer-me do Teu olhar. Esquecer-me do Teu amor. De todas as promessas.
Perdoa as vezes que eu te entristeci, todas as vezes que eu só pensei em mim e esqueci o que o Senhor sentiria. Todas as vezes que o meu orgulho foi maior. Todas as vezes que eu deixei o medo de inundar e escolhi o pecado. As vezes que eu falhei mesmo sabendo o que era certo.
Eu preciso de Ti Senhor. Preciso do Teu perdão. Sei que não consigo sem Ti.
Eu cansei! Cansei de procurar resposta em lugares errados. Na ciência, no poder e na religião. Essas coisas só me fizerem ter um vazio cada vez maior. Eu sei do que eu preciso. E eu preciso de Ti Deus, eu preciso do Teu amor. Eu não sei viver sem ti Senhor.
Eu sei que preciso de algo que me complete. E sei que essa algo vem de Ti. Só o Senhor pode me ajudar. Arranca de mim esse pranto de dor. Reveste-me do Teu amor, do teu perdão, da tua misericórdia. Eu sei o quando minha alma precisa de ti. E eu preciso de Ti. Da tua cura.
Eu cansei Deus!
Cansei de viver com imagens da infância. De tudo aquilo que me faltou. Cansei de viver carregada de erros e de pecado! Eu preciso de ti Deus!
Cura-me Senhor. Cura-me em minhas lembranças. Cura o meu altar.
Eu sou tua criança Deus. Preciso de ti.
Fico por algum tempo chorando, até sentir a dor indo embora. A abstinência e a falta daquilo que não me pertencem vão sendo substituída por um coração aquecido. Não sei ao certo, mas posso sentir um toque especial... Sinto o toque de Deus. O afago Dele.
Levanto-me com os joelhos vermelhos e já doendo, mas não me importa, tudo que eu quero é estar aqui. Debaixo da proteção de Deus.
Caminho até o piano e me sento começando a tocar Hallelujah enquanto canto baixinho sentindo a dor se dispersa.
Quando já estou no meio da música sinto o olhar de alguém sobre mim e para olhando para o homem que está parado na porta. Levo segundos para reconhecê-los, mas graças aos malditos olhos azuis, sei quem é.
—Ethan.
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